História e Futebol e do Futebol

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

Departamento de História

 

 

Seqüência de Aulas

História e Futebol e do Futebol

Rosa Rosa de Souza Rosa Gomes Nº USP 5937543

Ensino de História: Teoria e Prática Profª Antonia Terra

 

 

 

OBJETIVO: Estudar a história do futebol, compreendendo esse esporte em seu contexto social e desconstruir a idéia de Brasil “país do futebol”

 

  1. A análise da foto do time que fundou o Cruzeiro nas primeiras décadas do século XX: (todos de terno uns sentados outros em é, mas não na posição de foto tradicional para times de futebol)

iniciar com a descrição da fotografia e a partir dela, fazer as perguntas abaixo:

 

- Quem são essas pessoas?

- O que elas fazem?

- Por que estão juntas nesse lugar?

- Que lugar é esse?

- Que época é essa?

- O que o fotógrafo queria retratar?

 

Com essas perguntas podemos ir construindo uma imagem sobre a fotografia.

A atividade continua, partindo para outra fotografia: o time do Vasco, campeão de 1923 com um time formado por maioria negra, sendo este motivo para muitos conflitos. Seu uniforme lembra o de marinheiros (lembrando a origem em um clube de regatas), há maior nº de negros, quando comparado a outras fotos (a qualidade da imagem está ruim, talvez não seja possível ver).

 

Após a descrição, fazer as mesmas perguntas anteriores. (Dessa vez, a formação é de um time de futebol, não como estamos costumados a ver hoje, mas é possível identificar. A foto nos ajuda a perceber a historicidade do próprio esporte na sua materialidade, com a mudança nos uniformes: no começo do século XX, o padrão não era tão visível – sendo possível a comparação com a foto do time Ferroviária de 1930; além de partes hoje não mais existentes, como as toucas que aparecem nessa mesma foto.)[1]

 

            Confrontar as duas imagens, questionando:

 

- Qual a ligação entre elas?

- Por que mostrá-las nessa seqüência?

- Qual deve ser a mais antiga? Há uma diferença grande de época?

 

A partir das respostas e questões levantadas pelas crianças, apresentar a transformação do futebol de um jogo de elites para um jogo popular. Colocando o confronto entre o amadorismo e o profissionalismo e as imbricações sociais dentro dessa disputa. Os textos abaixo deve ser analisado com os alunos, buscando suas proposições e relacionando-as com as análises feitas das fotografias.

 


[1] As fotos podem ser vistas no final do trabalho

 

 

 

Do futebol brasileiro como passatempo de poucos e como esporte da elite, já falamos. Basta acrescentar que o homem do povo não teve acesso a ele nessa primeira infância. Embora um ou outro pobre, um ou outro negro, moços que de forma alguma poderiam freqüentar um São Paulo, um Fluminense, pouco a pouco fosse conquistando seu lugar nos clubes de primeira divisão, era forte a oposição que se fazia a eles. O futebol era declaradamente racista. Em 1921, por exemplo, ninguém menos que o presidente da República, Epitácio Pessoa, recomendou que não se incluíssem mulatos na seleção brasileira que iria a Buenos Aires para o Campeonato Sul-Americano. Era preciso projetar outra imagem nossa no exterior, alegava o alto mandatário. Uma delegação de futebol não deixava de representar o país. E era absolutamente imperioso que o país fosse representado por sua "melhor sociedade". Uma recomendação que deixava ainda mais indignado o romancista Lima Barreto, o mulato de Todos os Santos que um ano antes, justamente pelo caráter discriminatório do esporte, fundara no Rio a Liga Contra o Futebol. Opunha-se, evidentemente, ao acadêmico Coelho Neto, homem do aristocrático Fluminense, cujos filhos eram craques do clube (um deles, Preguinho, ainda chegaria à seleção brasileira e marcaria nosso primeiro gol numa Copa do Mundo). Para Coelho Neto, o futebol era um magnífico forjador de caráter. Em suma, um passatempo de poucos, um esporte de elite.

João Máximo. Memórias do futebol brasileiro. Estud. av. vol.13 no.37 São Paulo Sept./Dec. 1999

            Pode-se realizar uma atividade, dividindo a sala em grupos e dando um dentre os quatro trechos abaixo para discussão, partindo da análise feita com a classe toda.

TRECHO 1 – Durante a República Velha (1889-1930), no momento de intensificação das relações capitalistas, as cidades – verdadeiros centros amplificadores de tensões – promoviam um indesejável compartilhamento de espaços públicos. Elas se transformavam em palcos de manifestações políticas e culturais inconvenientes das camadas médias, do proletariado e dos demais setores subalternos. Nos grandes centros, o controle sobre o reduzido eleitorado não era tão eficiente quanto aquele obtido no meio rural, sob a égide do coronelismo. As demandas sociais, abafadas pela estrutura política da República, encontravam nas cidades ambiente para sua expansão e proliferação. A entrada de clubes e jogadores de origem popular nas ligas amadoras insere-se no rol dessas demandas. Na verdade, ela significou a participação de setores subalternos num espaço reservado às elites brasileiras. De certo modo, pode-se pensar que o futebol tornou-se um dos primeiros e mais significativos exemplos de incorporação desses setores numa sociedade caracterizada pela cidadania restritiva e por marcantes diferenças sociais.

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp 65 e 66

            TRECHO 2 – [...] em 1914, quando o Paysandu, um dos fundadores da liga, foi rebaixado para a segunda divisão. Uma virada de mesa não apenas manteve o clube, como também alterou o regulamento do campeonato. A partir de então, o último colocado da primeira divisão enfrentaria o campeão da divisão inferior e o resultado da partida selaria a sorte das agremiações. Ainda nesse ano, o jogador Carlos Alberto, do Fluminense, entraria para a história do futebol, devido a um episódio pleno de 

significados. No dia 13 de maio (por ironia histórica data comemorativa do fim da escravidão), num jogo contra o América, procurando branquear sua pele negra Carlos Alberto cobriu o rosto com pó-de-arroz. A torcida contrária não perdoou e apupava-o com os gritos “É pó-de-arroz!”.A expressão foi incorporada pela torcida tricolor carioca, mas os negros continuaram a ser presença incômoda nos campos de futebol.

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp 68

TRECHO 3 – Ao longo da década de 1920, e de outra perspectiva, críticas freqüentes foram deferidas por muitas das lideranças do movimento operário. Classificado como esporte burguês a serviço da dominação de classe e da desarticulação do proletariado, o futebol seria mais um produto da sociedade capitalista a ser combatido. Apesar dessa dura avaliação, sindicatos ligados a anarquistas, socialistas e comunistas chegaram a promover partidas e a organizar times exclusivamente de operários, como forma de inserção cotidiana capaz de aglutinar e mobilizar os trabalhadores.

As críticas revelam que o futebol já se tornara o esporte mais difundido no Brasil em todos os segmentos sociais. Ademais elas sintetizam as mais importantes questões e contradições brasileiras, presentes no futebol por este ser verdadeiro microcosmo da sociedade, ao mesmo tempo espelho e ingrediente dinâmico das transformações em curso nos tumultuados anos 1920. O problema da nacionalidade, potencializada pelas comemorações do centenário da Independência, em 1922, dividia a elite do país. As divergências entre as oligarquias regionais tornaram-se mais intensas e as disputas eleitorais mais acirradas. As grandes cidades eram assoladas por manifestações operárias e viraram palco de campanhas e revoltas pela instauração do voto secreto e pelo fim da política oligárquica.

As medidas para o branqueamento da sociedade brasileira, iniciadas na segunda metade do século XIX, haviam transformado o Centro-Sul em um mosaico de colônias de imigrantes europeus.

 

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp 70

            TRECHO 4 – No Brasil, estranho que pareça, o avanço profissionalista teve como causa uma idéia conservadora. Os clubes que perdiam campeonatos por se negarem a ter em seus times jogadores negros (e seus times eram formados obrigatoriamente por sócios-atletas, com direito a freqüentar as sedes sociais) decidiram decretar o novo regime. Assim poderiam arregimentar jogadores de qualquer raça ou condição social, contratados como empregados sem precisarem macular seu quadro social.

João Máximo. Memórias do futebol brasileiro. Estud. av. vol.13 no.37 São Paulo Sept./Dec. 1999

2.         Seguir, então para a Copa de 1950, mostrando-a como marco – momento através do qual o sofrimento faz do futebol a paixão nacional; quase um momento de ressurgimento de uma nação.

Discussão do curta-metragem “Barbosa” de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Este mostra a euforia do Brasil na final e a frustração de um brasileiro, que mesmo mais

velho não consegue lidar com a derrota. Demonstra bem a importância que aquela copa teve para a memória coletiva.

 

http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=150#

 

Acho importante colocar que a seleção não tinha grande expressão no esporte até então e a primeira copa a ser vencida foi em 1958. Para colocar o problema, pode analisar o gráfico “O Brasil na Copa do Mundo”, tirado do livro “Breve História do Futebol Brasileiro” de José Sebastião Witter.[2]

 

3.         Outro marco: Copa 1970 como ápice da utilização do futebol pelo Estado como forma de promoção da ditadura.

Analisar o vídeo do Youtube: “Pelé visita o presidente Médici” e a charge do Almanaque do Ziraldo.

 

Transcrição do vídeo: “O palácio do planalto vive um dia diferente/ O maior atleta mundial do futebol/ Pelé/ é recebido pelo presidente Médici que também é um entusiasta desse esporte/ com afabilidade o presidente palestra com Pelé/ colhendo impressões do craque de sua fabulosa carreira em disputas nacionais e internacionais até a proeza do seu milésimo gol/ Pelé desperta grande curiosidade entre as pessoas presentes.”

 

Como antes, partir da descrição do vídeo e, se preciso, passá-lo mais de uma vez. (Há um narrador, com voz de radialista, que fala durante toda a cena, Pelé aparece cumprimentando presidente no meio de inúmeras pessoas.) Questionar:

 

- Qual o período em que ocorre o vídeo?

- Qual o significado de um presidente recebendo um atleta no Palácio do Planalto?

- Qual a importância do episódio na época?

- O que se pode perceber dos gestos mostrados?

- Qual a impressão trazida pela voz de um radialista?

imagem

 

 

 

 

 

Realizar o mesmo procedimento com a Charge, mudando as perguntas.

 


[2] Em anexo.

- Quem é o autor? Conhecem algo sobre ele? A sua importância, de onde é?

- O que ocorre no primeiro quadrinho?

- Qual a reação das personagens? O que eles olham? O que desejam?

- No segundo quadrinho, qual a expressão das personagens?

- Por que suas faces mudaram? Como mudaram?

- Observando o conjunto, o que podemos deduzir? O que o autor está tentando dizer?

- O autor critica algo? O que ele critica?

 

            Esses dois materiais podem ser muito explorados para a significação da Copa de 1970 e os marcos políticos e sociais colocados então. Para explicitação, caso necessário, ou realização de discussões em grupo, separei os trechos abaixo:

            TRECHO 1: Ao regime era fundamental conquistar o título para sua legitimação diante da sociedade brasileira, o que, aliás, já estava em curso graças aos resultados positivos do chamado “milagre econômico” e à censura à oposição. Assim, a comissão técnica foi militarizada [...] O jogador rebelde de talento espontâneo cedia espaço ao atleta-soldado [...]

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp. 142

            TRECHO 2 -  A Copa do Mundo de 1970 demarcou a história do futebol graças aos lançamentos de Gerson, aos chutes de Rivelino, à inteligência tática de Tostão, às arrancadas de Jairzinho, aos gols e quase gols de Pelé, ao ritmo ruidoso de um futebol elevado à categoria de arte, ainda que proveniente de um país rebaixado à condição de ditadura militar (grifo meu). Tudo difundido pela televisão em transmissão ao vivo (inclusive para o Brasil) e pela primeira vez a cores (mas ainda não para o país campeão) fazendo com que, a partir de então, gestos, dribles, comemorações, feições e expressões de jogadores passassem a ser espetáculo mundial imortalizado, reproduzido e idolatrado em escala nunca vista. Pelé foi definitivamente ungido como rei do futebol. Sua marca de mil gols – alcançada meses antes, em 19 de novembro de 1969 – tornou-se a demonstração quantitativa de uma superioridade indispensável a toda sociedade tecnológica.

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp. 143

            TRECHO 3 – A propaganda embalou a seleção desde sua partida para o México. A marchinha “Pra frente, Brasil” era tocada nas rádios, nos programas de televisão, nos desfiles militares e nas escolas. Os cartazes de propaganda do regime confundiam-se com sucesso do escrete nacional. Na Semana da Pátria o slogan era “Ninguém mais segura este país”. Nas repartições públicas, “Ontem, hoje, sempre, Brasil”. Nos intervalos comerciais das emissoras de rádio e televisão, “Até 1964 o Brasil era apenas o país do futuro. E então o futuro chegou.” Nos automóveis, adesivos estampavam uma pequena bandeira nacional com os dizeres “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Além do tradicional desfile em carro aberto pelas ruas das grandes capitais, com jogadores segurando a taça, o governo patrocinou a exibição pública do troféu, para alegria do povo brasileiro. Antes mesmo da conquista, o presidente Médici, sem farda de general, aparecia sorridente em fotos cabeceando uma bola. O álbum de figurinhas da Copa, com a foto dos heróis do tricampeonato, tinha como primeira estampa uma grande imagem do próprio presidente. Era a pátria de chuteiras e de boina militar.(grifo meu)

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp 145 e 146

 

4.         No final da década de 1970 e início da década de 1980, o mesmo futebol, usado para reforçar, o governo militar transforma-se em meio de contestação do regime. Para discussão do assunto sugiro análise, coletiva, dos trechos abaixo. Seguida de divisão em grupos para análise de três fotos: Torcida da Gaviões da Fiel, Capa da Revista Placar com jogador Wladimir e “Ganhar ou perder sempre com democracia”

 

TRECHO 1 – Com o aumento crescente de participantes a cada edição, para ampliar o espaço político do regime, o campeonato brasileiro chegou a reunir 94 clubes em 1979, consagrando a máxima “Onde a Arena vai mal, mais um clube no nacional”.(grifo meu)

 

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp150

            TRECHO 2 – Disputando campeonatos deficitários, cedendo jogadores para times estrangeiros, sofrendo pressões dos dirigentes da CBD e dos governantes, os clubes aproximavam-se de uma situação limite. O futebol não conseguia mais servir de reforço ao poder militar. Ao contrário, ele antecipava as fissuras que se abriam na ditadura.

 

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp 151

            Discutir com os alunos sobre qual período tratam os trechos, o que era “a  Arena”, o que quer dizer a expressão em grifo. Procurando, utilizando as perguntas colocadas por todos, reconstruir a história desse período através do futebol. A partir disso, os alunos terão escopo para analisar as fotos da mesma época.

imagem2

Torcida Gaviões da Fiel, final do Regime Militar

imagem3

Capa Revista Placar, final da década de 1970 e início de 1980

 

imagem4

Jogadores do Corinthians na época da Democracia Corinthiana, final do Regime Militar.

Na faixa: “Ganhar ou perder, sempre com Democracia”

 

5.         Por fim, analisar as práticas no futebol atual usando para isso o artigo de Boris Fausto “A bola murcha”. Nele aparecem os problemas atuais em torno do novo modelo de gestão empresarial implantado nos clubes e que faz do futebol mais um dos meios de lucro, deixando para o segundo plano sua faze esportiva, de paixão nacional.

            Para o professor seria interessante ler também o artigo de Hilário Franco Júnior, saído em 30 de dezembro de 2007 no O Estado de S. Paulo, “Futebol versus Sociedade”. Não o proponho para a aula, porque é muito grande, demanda muito tempo de leitura, talvez não seja exeqüível.[3]

 

  1. Fechando a seqüência proponho uma reflexão sobre o trecho abaixo, procurando sintetizar as idéias estruturadas durante essas aulas.

 

A verdade é que tanto o cidadão quanto o torcedor brasileiro – não apenas em 2006 – têm tendência a depositar suas expectativas (e quando frustrado suas críticas) em individualidades, não em coletividades. A esperança estava em Lula, não em um programa de governo, nos Ronaldos ou no “quadrado mágico”, não em um time. Espera-se sucesso de gestos isolados, não de esforço contínuo e planejado. Seja na política ou no futebol, a sociedade brasileira continua esperando um messias que resolva suas dificuldades.

 

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. Companhia das letras, 2007. pp 162.

 

BIBLIOGRAFIA

FRANCO JUNIOR, Hilário. A Dança dos Deuses. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

MÁXIMO, João. “Memórias do futebol brasileiro”. In: Estudos Avançados, vol.13, nº 37, São Paulo, Sept./Dec. 1999.

WITTER, José Sebastião. Breve História do Futebol Brasileiro. São Paulo: FTD, 1996

      

 

 

 

     


[3] Ambos artigos em anexo