Contribuição da Arqueologia e da Etno-história enquanto suporte para o ensino de História

Docente responsável: Antônia Terra de Calazans Fernandes

Disciplina USP: FFLCH 0425
Aluno (a): Ricardo dos Santos Oleski

 

 

 

 

OBJETIVO. 

     A história das populações indígenas pré-cabralinas tem abordagem pouco privilegiada nos livros e manuais didáticos dos ensinos fundamentais e médios e, quando entram nesses materiais, são abordadas no capítulo da pré-história generalizando conceitos e desprezando peculiares culturais presentes em diversas regiões do espaço nacional. Portanto, esse trabalho oferece um incremento didático ao professor interessado em desenvolver junto aos seus alunos um olhar mais sofisticado acerca dos debates que ocorrem dentro das Ciências Sociais acerca das questões indígenas brasileiras.

     Dito isso, apresentamos um material embasado em contribuições recentes e clássicas de estudioso da Arqueologia, Antropologia e Etno-história, o qual funcionaria como um suporte didático ao professor da disciplina de História. Esse material foi dividido em três partes, podendo ser ministrado numa média de 5 a 9 aulas junto aos alunos do Ensino Médio de escolas públicas ou particulares. Abaixo, a divisão do material que propomos:

  • debate acerca do modelo dicotômico estabelecido pelo antropólogo Julian Steward (1940) sobre as populações indígenas da América do Sul;
  • modelos de migrações Tupi-Guarani
  • tradição Taquara-Itararé nos sítios arqueológicos estudados nos estados do Paraná e São Paulo.

     Para o material que apresentaremos, orientamos alguns caminhos que o professor de História pode adotar, obviamente, deixando-o à vontade para utilizá-lo da forma que achar mais pertinente ao nosso maior interessado, o aluno.

     Delimitações geográficas das propostas:

     América do Sul; Amazônia, região do centro-oeste, litorais sul de norte do Brasil; Sítios arqueológicos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

 

RELEVÂNCIA.

 

     Devido às carências que constatamos ao trato das questões indígenas para o período pré-cabralino nos livros e manuais didáticos, acreditamos que as contribuições da Arqueologia, da Antropologia e dos estudos da Etno-históricos auxiliariam o professor de História a refletir em seus alunos um olhar mais crítico para origem do homem no Brasil, concomitante à demonstração de um acumulo cultural de algumas dezenas de milhares de anos.

     Discutindo em sala de aula os saberes das áreas de um conhecimento científico especifico (arqueologia, antropologia, etno-história), prepararíamos o aluno para ter um olhar mais apurado e crítico ao processo de conquista iniciado em 22 de abril de 1500, bem como à ideologia do conquistador, cuja força hegemônica desconsiderou, e ainda desconsidera, qualquer aspecto da cultura indígena. Nesse sentido, o material que logo apresentaremos pretende diminuir a força dessa ideologia imperante nos materiais didáticos, revelando aos estudantes outras faces dos povos que habitaram nossas terras. Em última instância, essa proposta almeja mudar a perspectiva do jovem estudante em relação às culturas indígenas pré e pós-cabralina.

     Um exemplo fácil de ser percebido seria relativo ao capítulo da chegada do elemento branco em terras brasílicas. A partir deste marco, as sociedades do continente americano são inseridas na História do Velho Mundo, não existindo um continuum cronológico entre pré-cabralino e pós-cabralino, de forma que o passado cultural das sociedades indígenas que já habitavam este continente desde pelo menos 12 mil anos é totalmente desconsiderado, ou quando muito, analisado de forma pouco relevante e generalizada, relegando 12 mil anos (1) de passado a poucas páginas do capítulo pré-história.

     Acreditamos que é de suma importância para o entendimento do passado indígena, inclusive se comparado cronologicamente com o passado das civilizações ocidentais, refletirmos criticamente juntos dos alunos as várias histórias eurocêntricas ainda muito presente em seus livros didáticos, preenchendo com isso, uma lacuna na temática indígena. A bibliografia que consultamos corrobora nosso ideal, apresentando avanços significativos às questões do passado do homem brasileiro.

     Outra questão relevante para os nossos dias, possível de ser analisada a partir desse olhar mais sofisticado, é como as sociedades indígenas do passado, com grades contingentes demográficos, conseguiram conviver em profundo equilíbrio com a natureza, revelando-se bio-sustentáveis, no qual o homem moderno com seus grandes problemas ambientais poderia buscar referência.

     Disponibilizando aos alunos outras possibilidades de entenderem a pré-história do Brasil antes mesmo de ser Brasil, apresentando parte (2) de um acúmulo cultural nas evidências arqueológicas e nos diálogos que esses estudos mantêm junto dos estudos etno-históricos, é possível apresentar um novo quadro das nações que habitaram o continente americano ao longo dos séculos que antecederam o contato com as sociedades européias. Dando importância ao conhecimento "primitivo" indígena, podemos levar os alunos a refletirem questões bem atuais da humanidade, contextualizando conhecimento histórico com prática social.

 

CONTEÚDO DIDÁTICO.

 

Material 1: Mapa da Distribuição dos Tipos Culturais da América do Sul segundo Julian Steward (1940).

 

♦ Proposta.

     A partir do modelo de Steward, poderíamos discutir os conceitos de dicotomia postos no mapa 1, seus reflexos nas Ciências Sociais e postulados inaugurados a partir deste, auxiliando, inclusive, o aluno a identificá-los nos seus manuais didáticos.

♥ Suporte ao professor.

     Os sistemas sociais indígenas existentes às vésperas da conquista não estavam isolados, mas articulados local e regionalmente. Ao que tudo indica, vastas redes comerciais uniam áreas e povos distantes. Movimentos em uma parte produziam efeitos em outra, por vezes a quilômetros de distância. O comércio, a guerra e as migrações articulavam as populações indígenas do passado de um modo mais intenso do que observamos hoje.

     Uma visão continental é também necessária porque muitos dos modelos sobre a pré-história e a história do continente foram forjados a partir de uma oposição entre terras altas (Montanhas Rochosas - Andes) e terras baixas (Florestas Tropicais). Nas terras altas floresceu uma civilização capaz de cultivar intensivamente o solo, domesticar animais, dominar a metalurgia e conhecer os ardis do poder, em contrapartida, nas terras baixas, não se desenvolveram sociedades politicamente centralizadas, estratificadas e urbanas. No século XIX, outras dicotomias somariam à oposição entre natural e civil; parentesco versus política, sangue versus território, status versus contrato, constituindo um corte entre sociedades organizadas por laços de parentesco (mais "naturais") daquelas estruturadas segundo vínculos políticos (mais "sociais"). Essas dicotomias estão na base das hipóteses e questões sobre a América do Sul às vésperas da conquista.

     O modelo demonstrado no material 1, elaborado pelo antropólogo norte-americano Julian Steward, na década de 1940, quando da publicação dos cinco volumes do Handbook of South American Indians, organiza a diversidade das culturas do continente classificando-as em quatro grandes tipos, hierarquizando em função do nível de complexidade. A tipologia adotada por Steward, embora utilizando um conjunto de traços variados, funda-se em uma associação estreita entre ecologia, modo de produção e organização sociopolítica.

 mapa 1

Legenda:

→ Pontilhado: povos marginais, sociedades heterogêneas vivendo em pequenos bandos e retirando seu sustento de ambientes inóspitos, tecnologia de subsistência muito rudimentar, carecem de instituições políticas, caçadores-coletores nômades. Situadas em três áreas de campos abertos e em condições climáticas bastante diversas: O Cone Sul, o Chaco, e o Brasil Central.

→ Quadriculado: tribos da floresta tropical, vivem em aldeias mais permanentes e dispersas pelo território, densidade demográfica maior que dos bandos de caçadores-coletores, possuem agricultura (queima e coivara), exploram os recursos aquáticos dos rios, sem instituições políticas, organização social por parentesco, sem poder político e religioso, igualitarismo. Dispersas na maior parte do continente, ocupando toda a Amazônia, a costa do Brasil e das Guianias e os Andes meridionais.

→ Traçado horizontal: caracterizada por um desenvolvimento inicial de centralização política e religiosa, estratificação social em classes e intensificação econômica, (embora apresentassem tecnologia e cultura material semelhante às das tribos da floresta tropical, Steward considerava que essas sociedades tinham ultrapassado o nível de organização social baseado apenas em laços de sangue) grupos fundados em categoria de parentesco, idade e sexo davam lugar a classes sociais e à especialização ocupacional, poder e religião institucionalizados, chefes supremos, sacerdotes, templos e ídolos, sem igualitarismo social.

→ Em preto: classificadas como civilização (Andes Centrais e costa do Pacífico), ponto culminante (império incaico), expansionistas, densas densidades demográficas com estratificação social, sistemas intensivos de produção agrícola e de criação de animais, aparelho estatal desenvolvido com formas sofisticadas de administração pública, extração de tributos, especialização e desenvolvimento de técnicas como a metalurgia.

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Material 2. Modelos para as migrações indígenas pelo território brasileiro, casos Tupinambá e Guarani em comparações dos modelos elaborados por Méntraux (1927) e Brochado (1984).

Situação das nações Guarani no momento do contato (início do século XVI).

Modelo Etnográfico para o início do século XVI de Curt Nimuendajú.

 

♦ Proposta.

 

     Dispomos atualmente de dois modelos relativos ao processo de expansão tupi-guarani pela costa brasileira.

     O primeiro modelo do antropólogo Alfred Méntraux (mapa 2) de 1927, baseado em pesquisas de campo e nos relatos dos cronistas do século XVI, postula que um movimento migratório de sul para norte, a partir da bacia Paraná-Paraguai, onde Tupinambá e Guarani teriam se separado, esse autor sugeriu ainda que a dispersão litorânea fosse um fato recente à época da Conquista, dada a identidade cultural entre os vários grupos (principalmente, pelo tronco lingüístico Tupi) que ocupavam a costa.

     O segundo modelo do arqueólogo J. P. Brochado (mapa 3) de 1984, baseado em pesquisas arqueológicas e contribuições da etno-história, sugere que a partir de um ponto originário amazônico, teríamos dois movimentos migratórios de diversas orientações: os proto-Guarani teriam rumado para o sul via Madeira-Guaporé e atingido o rio Paraguai, espalhando-se ao longo de sua bacia desde o início da era cristã, já os proto-Tupinambá teriam descido o Amazonas até sua foz, expandindo-se, em seguida, pela estreita faixa costeira em sentido oeste-leste, e depois norte-sul. A ocupação total do litoral, segundo Brochado, teria ocorrido entre 700-900 d.C. e 1000-1200 d.C., quando os grupos Tupi mais ao sul teriam sua expansão barrada pelos Guarani.

 

 Migrações Tupinambá e Guarani segundo Métraux (1927)

Migrações Tupinambá e Guarani segundo Brochado (1984)"]

Migrações Tupinambá e Guarani segundo Métraux (1927)

 

Mapa 3 - Migrações Tupinambá e Guarani segundo J. Brochado (1984)

Mapa 3 - Migrações Tupinambá e Guarani segundo J. Brochado (1984)

 

     A comparação desses dois modelos, os quais foram concebidos através de fontes distintas, e “mesmo sabendo que ambos apresentam falhas empíricas”, como alerta Carlos Fausto, permite refletirmos questões interessantes junto aos alunos, tais como: como estava a dispersão das populações indígenas no momento da conquista? Seguindo o modelo de Brochado, contraporíamos a idéia duma dispersão recente pelo litoral, alinhando com formas de organizações sociais que não seriam possíveis de ser estabelecido em um curto espaço de tempo, noutras palavras, analisando os dois modelos, o que poderíamos levantar como hipóteses (mapas 4 e 5)? E ai por diante.

  Distribuição das "nações" Tupi-Guarani pela costa (início séc. XVI)

Distribuição das "nações" Tupi-Guarani pela costa (início séc. XVI)

 

Mapa 5 - Parorama Etnografico segundo Nimuendaju

Mapa 5 - Parorama Etnografico segundo Nimuendaju

  

     Finalmente, a comparação em conjunto desses mapas, sabendo como cada um foi concebido dentro de uma especificidade, nos permitem verificar um dado importante para o avanço científico na compreensão das antigas e atuais sociedades indígenas, tal seja: mantermos um diálogo multidisciplinar entre várias áreas do conhecimento. 

 

  panorama etnografico atual_1

 

panorama etnografico atual_2

panorama etnografico atual_2

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Material 3. Tradições Ceramistas – caso: Taquara-Itararé

 

♦ Propostas.

     Apresentar aos alunos as tradições ceramistas do Brasil, destacando a tradição Tupiguarani e a tradição Taquara-Itararé; detalhamento do tipo de solo destas regiões e características climáticas; moradias construídas e disposição espacial; cerâmicas desenvolvidas nestes sítios arqueológicos.

     Com isso, propomos demonstrar aos alunos como as populações indígenas que habitavam as regiões que abarcam as tradições Taquará-Itararé  e Tupiguarani adaptaram-se e transformaram o meio ambiente, desenvolvendo condições de vida e prosperidade em ambientes relativamente hostis a vida humana, e ainda, estilos artísticos expressados em suas cerâmicas e objetos de usos diversos. Como propomos no material 2, apresentaremos os objetos arqueológicos em debate com os registros documentais do início do século XVI.

     Com o mapa 9 e a tabela 1 será possível apresentamos as culturas ceramistas brasileiras divididas em grandes "famílias" Tupiguarani,  sendo possível identificarmos as tradições de caráter regional. Neste material, propomos atenção à tradição Taquara-Itararé.

 

  Tabela 1    

 

mapa 9

mapa 9

 

  

→ Taquara-Itararé: são encontrados achados arqueológicos nos atuais estados do sul e sudeste do Brasil (RS, SC, PR e SP). Na maior parte dos sítios estudados localizam-se em regiões elevadas (sempre mais de 600 metros de altitude, por vezes mais de 1.100 metros) e de clima frio, apresentando geadas e ventos frios durante as estações de inverno.

 

→ Tipo de solo: o planalto onde estão localizados os sítios dos estados do Paraná e sudeste de São Paulo é formado por arenito mole, este sofreu a influência de derrames basálticos que o transformaram, nas zonas de contato, em metarenito, chamado geralmente arenito silicificado ou arenito fritado; estes terrenos foram profundamente entalhados pelos cursos dos rios e efeitos pluviais, que correm dentro de estreitas gargantas, havendo cachoeiras em seu curso superior. Complementando a este cenário, essa região dispõe de uma mata fechado rica em epífitas e orquídeas, e por árvores como da araucária ou pinheiro-do-Paraná.

     É neste ambiente que se desenvolveu um sistema original de moradias (imagem 10). Conhecidas como moradias subterrâneas, ocupadas paralelamente com sítios a céu aberto e abrigos naturais.

 

imagem 10

 

imagem 10

 

→ Casas subterrâneas:

     Estas habitações são caracterizadas por covas profundas de 3 m até 18 m de diâmetro e com profundidade de 1 m até 6 m, cavadas com picões (imagem 14) de pedra no piso de alteração do arenito. A terra escavada era disposta em anel ao redor do buraco, como efeito, desviava as águas pluviais. Um poste central com cerca de 15 cm de diâmetro levantava um suporte (teto) onde eram colocadas folhas, cujos caibros, calçados com pedras, se apoiavam ao redor da depressão. Em algumas casas mais profundas, uma banqueta corria ao longo da base da parede; uma rampa ou algumas lajes fincadas na parede a guisa de escada permitiam o acesso ao seu interior, conforme imagem 10. Uma fogueira era instalada perto do centro da estrutura, alimentada por nós de pinhão.

  Imagem 14

 

Imagem 14

  

→Disposição das casas pelos sítios:

     (imagem 11) a disponibilidade das casas não apresenta um padrão fixo, pode haver alinhamento ao longo do córrego (Itararé/SP), linhas paralelas (planalto médio gaúcho) ou um círculo de pequenas depressões ao redor de outra maior (PR) (detalhe D na imagem 11, mas na maioria dos casos não se vê nenhuma ordem, aparecendo isoladas ou aos pares. Essas habitações podem, no entanto, agrupar-se em conjuntos de até 68 unidades, mas, segundo os arqueólogos, não parecem ter sido habitadas todas ao mesmo tempo, demonstrando, com isso, que poderiam ser utilizadas como acampamentos sazonais de caça ou coleta de gêneros vegetais. Em alguns casos, pequenos corredores foram cavados para unir duas casas vizinhas, conforme detalhe E na imagem 11. Nos trabalhos realizados nestas casas, foram encontrados diversos fragmentos de vasilhas em cerâmica quebrados, contudo, não se pode excluir a possibilidade de algumas dessas casas funcionarem como depósito de pinhões, elemento da dieta alimentar dessas populações.

 

   Imagem 11

 

Imagem 11

 

→Concentradas nos municípios de: Bom Jesus (RS); Lages e Bom Sucesso (SC); próximos dos rios Piquiri (PR) e Itararé (SP). Oitocentos sítios eram conhecidos em 1980, com mais de 700 casas subterrâneas. Em 1984, a arqueóloga Mentz Ribeiro encontrou mais de 31 sítios, com 131 casas, no município de Esmeraldas (RS).

→Outras características: Espalhados entre as casas, pequenos aterros com cerca de 1 m de altura parecem ter sido usados para sepultar os mortos mais importantes. No topo das elevações, em cujo lado se abre para as casas semi-subterrâneas, encontra-se por vezes um muro de terra pouco, isolando um local público, que deduzimos serem utilizados para reuniões políticas ou cerimoniais.

→ Posição topográfica: As habitações costumam ocupar a encosta mais ou menos íngreme dos morros, raramente o topo, e sempre a algumas dezenas de metros de algum córrego pequeno não-navegável. Esta posição topográfica permite a seus moradores uma boa visão numa possível situação defensiva, evitando-se também a ação das fortes enxurradas que afetam as partes baixas onde as águas da chuva se acumulam e, próximas a rios não-navegáveis dificultava um possível ataque belicoso de invasores canoeiros, tais como seus contrários os Tupiguarani.

→ Cerâmicas(3): As oleiras da tradição Taquara-Itararé fabricavam vasilhas de forma simples e pequenas com cerca de 20 a 30 cm de diâmetro, como podemos verificar na imagem 12; algumas pouco profundas e abertas, outras com até 40 cm de profundidade e paredes verticais. Os fundos são sempre arredondados, e as paredes apresentam por vezes furos de suspensão ou pequenas alças. São raramente decoradas ao norte (desde Itararé, em São Paulo, até Santa Catarina), mas as cerâmicas meridionais, como as do Rio Grande do Sul e das Missões argentinas, apresentam muitas vezes uma superfície delicadamente ornada de impressões ponteadas, incisas ou beliscadas, ou impressões de cestaria (vasilha imagem 12); os relevos provocam um efeito estético bonito.

 

Imagem 12 - Cerâmica da Tradição - Taquara-Itararé

Imagem 12 - Cerâmica da Tradição - Taquara-Itararé

 

     Na região sudoeste de São Paulo e do Paraná foram encontradas algumas dezenas de peças polidas de uma olaria cuidadosa que parecem associadas à Tradição Itararé: são os chamados virotes (imagem 13). Trata-se de objetos alongados, com cerca de 10 cm de comprimento e seção circular, que apresentam uma "cabeça" mais larga que as partes central e posterior, terminada por uma protuberância arredondada. Observação: A forma do virote (figura 11 abaixo) corresponde exatamente à das armações de setas de osso ou madeira que os caçadores indígenas de penas utilizam hoje para obter aves sem fazê-las sangrar.

 

  imagem 13

imagem 13

      

→ Referências etnográficas: Como é possível verificar nos textos do século XVI, os construtores das casas subterrâneas teriam sido os ancestrais dos indígenas chamados Guaianá, sobre eles se escreveu que moravam em "tocas" ou "furnas", seus descendentes contemporâneos são os Kaingang e Xokleng, reduzidos no início do século XIX.

 

Material 4: Tradição Tupiguarani (3)

 

♦ Proposta.

     Neste caso, assim como no anterior, apresentaremos características da tradição Tupiguarani; disposição desta tradição pelo Brasil antigo; dispersão pelo território no momento do contato com o europeu e disposição atual; organização espacial e funcional das aldeias; diálogos dos achados arqueológicos com as crônicas quinhentistas; achados arqueológicos da tradição tupiguarani em São Paulo e Paraná; características da indústria ceramista. Com isso, vislumbraremos o status quo desta tradição cultural no momento do contato, permitindo reflexões para seu estado anterior ao processo iniciado nos indos de 1500.

→ Disposição espacial: pelos estudos até então realizados, sabemos que os vestígios dos povos Tupiguarani encontram-se desde as Missões espanholas e o rio da Prata, ao sul, até o Nordeste, com algumas ocorrências ainda mal conhecidas no sul da Amazônia. A leste ocupam toda a faixa litorânea, desde o Rio Grande do Sul até o Maranhão. A oeste aparecem (no rio da Prata) no Paraguai e nas terras baixas da Bolívia. Evitavam as terras inundáveis do Pantanal mato-grossense e marcaram sua presença discretamente nos cerrados do Brasil central. De fato, ocuparam de preferência as regiões de floresta tropical e subtropical. É alta a densidade de sítios ao longo da faixa de Mata Atlântica e ao longo dos rios da bacia do Prata (mapa 12).

 

 mapa 12

mapa 12

 

→ Panorama demográfico: muitas das tribos que existiam no século XVI estão extintas, como os Tupinambá do litoral carioca, os Tamoios de Santa Catarina, os Mundurucu da Amazônia, felizmente outras ainda povoam o Paraguai ou espalham-se pela Bolívia (Siriono), Brasil (Kaapor, Tapirapé, Kamayura, Araweté, etc.) e chegam até a Guiana Francesa, conforme vimos na imagem 5. Mesmo assim, os vestígios tupiguarani mais tardios são datados do contato com os europeus e podem ser atribuídos com certeza às nações Tupinambá, Tupiniquim ou Carijó.

→ Reflexão: a partir desses elementos, podemos supor que os grupos pré-históricos fossem parecidos com os grupos do século XVI, ou então, que haveria várias “confederações” coordenadas por principais de guerra, configurando um território (guará, em Guarani). Cada guará congregava números variáveis de comunidades (tekoká), cujas aldeias maiores, segundo os etnógrafos, possuíam entre várias centenas e alguns milhares de habitantes. As aldeias (amunda) eram compostas por uma ou várias grandes casas coletivas (teii oga, ou oca), e em cada qual morava uma linhagem com dezenas de pessoas.

     Em São Paulo e no Paraná, as casas identificadas pelos arqueólogos medem em alguns casos algumas dezenas de metros de diâmetro, mas na maioria das regiões elas são menores com cerca de 10 m. Os cronistas do século XVI (Lery, Thevet, Staden) mencionam até mais de 200 pessoas em cada casa no litoral carioca e informam que as maiores delas eram cercadas por paliçadas, em geral consideradas imitações das fortificações européias. Contudo esta última observação deve ser lida com critério, pois as testemunhas do século XVI vêem e descrevem o Novo Mundo comparando-o com o que conhecem do Velho Mundo.

→ Exímios ceramistas: dessa tradição, sobretudo a cerâmica, sabemos que a fabricação e utilização eram certamente tarefas exclusivas das mulheres desde o período pré-histórico. As poucas análises sistemáticas de habitações já realizadas sugerem que, num mesmo momento, cada família nuclear devia dispor de uma bateria bastante reduzida de recipientes, tais como as grandes vasilhas denominadas cambuchi (imagem 17) pelos Guaranis históricos e igaçaba pelos Tupi, chegando a medir até 1 m de diâmetro para guardar água e o cauim(4), eram eventualmente reutilizadas para o sepultamento definitivo dos adultos. Também temos panelas para cozinhar em tamanho médio chamadas em guarani de yapepó e pequenos recipientes abertos ou tigelas medindo entre 20 e 30 cm de diâmetro, os quais eram utilizados para apresentar a comida e a bebida (imagem 18), Hans Stadem menciona essas cerâmicas quando da narração de um ritual antropofágico, onde as mulheres apresentam as vísceras do guerreiro sacrificado em ritual.

   

 

Imagem 17

Imagem 17

 

imagem 18

imagem 18

  

→ Técnica: a técnica de manufatura da cerâmica indígena sul-americanas é a dos roletes (imagem 15), sem o uso do torno. No caso da tradição Tupiguarani, ao contrário das grandes vasilhas piriformes Aratu/Sapucaí (imagens 19 e 20) e , a igaçaba e yapepó tupiguarani apresentam um ombro marcado muito característico, e suas vasilhas em geral têm um reforço de borda, por vezes decorado, também típico dessa cultura.

 

 Imagem 15

 

Imagem 15

 

 

imagem 19

imagem 19

 

imagem 20

imagem 20

    

     As oleiras tupiguarani gostavam de criar formas complexas, com ombros múltiplo ou escalonados, certamente para mostrar sua maestria. De fato, a fabricação da grande igaçaba requer muita habilidade: escora durante a montagem de roletes, secagem, escolha de argila de textura especial, inclusão de antiplásticos estáveis, como o caco moído, dosagem diferenciada destes em função das diversas espessuras de parece para evitar a quebra durante a queima.

 

Outros exemplos das cerâmistas tupiguarani

   imagem 22imagem 23imagem 21  

BIBLIOGRAFIA

 

FAUSTO, Carlos. Os índios antes do Brasil. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.

______________.

Fragmentos de história e cultura tupinambá: da etnologia como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico. In: CUNHA, Manuela Carneiro (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo, Cia. das Letras, 2006.

GASPAR, Madu. Sambaqui: arqueologia do litoral brasileiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2000.

NEVES, Eduardo Góes. Os índios antes de Cabral: Arqueologia e História indígena no Brasil. In: SILVA, Aracy Lopes da e GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (org.) A Temática Indígena na Escola: Novos subsídios para professores de 1º e 2º graus. Brasília, MEC/MARI/UNESCO, 1995.

PROUS, André. Arqueologia Brasileira. Brasília, Editora UnB, 1991.

____________.

O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2006. TELLES, Norma Abreu. Cartografia Brasílis ou: esta história está mal contada. São Paulo, Editora Loyola, 3º Edição, 1996.  

OUTRAS REFERÊNCIAS

Formas de Humanidade. “Origens e Expansão das Sociedades Indígenas”. Guia Temático para Professores. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, reimpressão de 2008.

Formas de Humanidade. “Manifestações Socioculturais Indígenas”. Guia Temático para Professores. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, reimpressão de 2008.

 

REFERÊNCIAS IMAGÉTICAS

Mapas 1, 2, 3 e 4. FAUSTO, Carlos. Fragmentos de história e cultura tupinambá: da etnologia como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico. In: CUNHA, Manuela Carneiro (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo, Cia. das Letras, 2006.

Imagens 5, 6, 15 e 23. Formas de Humanidade. “Origens e Expansão das Sociedades Indígenas” e “Manifestações Socioculturais Indígenas”. Guias Temáticos para Professores. Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, reimpressão de 2008.

Imagens 8, 14, 18, 19 , 20 e mapas 9 e 12. PROUS, André. Arqueologia Brasileira. Brasília, Editora UnB, 1991.

Imagens 10, 11, 13, 17, 21 e 22. PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2006.

 


NOTAS

 

(1) Existe um grande debate arqueológico acerca da origem da ocupação do Brasil pelo homo sapiens sapiens, alguns propõem que este aqui chegou há mais de 40 mil anos, porém apenas datas mais recentes são amplamente aceitas; na bibliografia que analisei, a maioria dos arqueólogos considera que a referência cronológica para o início da ocupação do território brasileiro se deu há 12 mil anos.

(2) Acreditamos que esse material pode ser aplicado também a outras regiões e tradições indígenas, basta ao professor explorar outras perspectivas.

(3) A tradição Tupiguarani (sem hífen) foi designada pelos pesquisadores do PRONAPA (Projeto Nacional de Pesquisas Arqueológicas) para distinguir os achados arqueológicos dos grupos conhecidos etnograficamente. Aplicamos, portanto, a palavra Tupiguarani exclusivamente aos achados ligados a um tipo de cerâmica, não implicamos homogeneidade automática na língua e nos costumes dos seus portadores.

(4) Bebida feita pelas mulheres com mandioca ou milho mastigado.