Artigo: Velha Praga

Aluno (a): Laerte Matias Fernandes, Thiago Alves de Oliveira, Conrado Barbosa Silva, Denis Anderson Costa, Ícaro dos Santos Mello, Fabio de Souza Jorge, Angélica Brito Silva e Thassia Ferreira Ramos
Docente responsável: Maurício Cardoso
 

 

Velha Praga foi um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo em 1914. Este artigo inaugura a figura do anti-herói o Jeca Tatu em um texto em que Monteiro Lobato descarrega toda a sua indignação com as práticas incendiárias e ociosas do caipira.

 

Vamos aqui, analisar mais detalhadamente este artigo com o intuito de compreender os motivos que levaram Lobato a criticar e criar esse personagem tido por ele como um parasita.

Escrito durante a primeira guerra mundial, Lobato inicia o artigo chamando a atenção para o interior, para a serra da Mantiqueira, onde o fogo destruidor não é menor do que o fogo da guerra:

Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá fora o jogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta nossas matas, com furor não menos germânico.

Lobato não exime de sua crítica as gentes civilizadas, que no seu entender estavam mais preocupadas em saber sobre os acontecimentos da guerra, enquanto não se atentavam para as calamidades em nosso país:

...mas ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos de uma assombrosa queima destas (...). Isto, bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar ninguém soma...

Após chamar a atenção para tal situação impelida à floresta, o autor mostra o caipira como principal responsável por esse problema, e com isso esmiúça todas as características desse parasita:

A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro (...) pois que onde ele assiste se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, nua e descalvada.

Descreve o caipira em suas principais características, iniciando da seguinte forma:

Este funesto parasita da terra é o caboclo, espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a pica-pau e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.

Lobato compara o caboclo (ou caipira) a um sarcopte [1]; todas as características do caboclo para o autor, desde sua família, casa, forma de trato com a floresta, se assemelham a de um parasita, a seguir os trechos que descrevem cada um destes aspectos. Família:

 

Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” fêmea, esta com um filhote no útero, outro ao peito, outro de sete anos à ourela da saia – este já de pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento – Brinquinho -, a foice, a enxada, a pica-pau, o pilãozinho e sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinha pevas e um galo índio. Casa: Em três dias uma choça, que por eufemismo chamam casa, brota da terra como um urupê.

 

Tiram tudo do lugar, os esteios, os caibros, as ripas, os barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes e a palha do teto. Tão íntima é a comunhão dessas palhoças com a terra local, que dariam idéia de coisa nascida do chão por obra espontânea da natureza – se a natureza fosse capaz de criar coisas tão feias. Trato com a floresta: Depois ataca a floresta. Roça e derruba, não perdoando ao mais belo pau. Árvores diante de cuja majestosa beleza Ruskin choraria de comoção, eles a derriba, impassível, para extrair um mel-de-pau escondido no oco.

 

A queima do roçado para a plantação é tratado por Lobato como um ato praticado pelo caboclo de forma errada e com malignidade, já que, pela preguiça não faz o processo corretamente e burla a lei. Ação agravada pelas condições climáticas que favorecem a expansão do fogo, que foge do controle rapidamente e quando se pensa estar controlado, reacende facilmente. Quando se procura o responsável pela queima descobre-se o seguinte responsável:

...é um urumbeva qualquer, de barba rala, amoitado num litro de terra litigiosa.

Não é possível processá-lo, sendo a única forma de resolver o caso, mesmo que momentaneamente, é “tocá-lo”, “ao caboclo, toca-se”. E a queima da roça que se propaga atingindo a floresta “é o grande espetáculo do ano, supremo regalo dos olhos e dos ouvidos” na vida do caboclo. Para finalizar, Lobato revela o ciclo passado de pai para filho vivido pelo caboclo que se baseia em extrair da terra o mínimo necessário para se viver até o ponto máximo que aquela terra pode oferecer. Desta forma, após exaurir a terra, o caboclo busca novo lugar para refazer o mesmo processo de uso da terra, sem deixar rastro, sua passagem é totalmente inútil.

O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cinqüenta alqueires de terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano. (...) Quando se exaure a terra, o agregado muda de sítio. No lugar fica a tapera e o sapezeiro. Um ano que passe e só este atestará a sua estada ali; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frágeis materiais da choça e, como nem sequer uma laranjeira ele plantou, nada mais lembra a passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico Marimbondo, do Jeca Tatu ou outros sons ignaros, de dolorosa memória para a natureza circunvizinha.

  • [1] Sarcopta s.m. Gênero de aracnídeos que parasitam o homem e certos vertebrados. (A fêmea do Sarcoptes scarbiei provoca a sarna, ao abrir na epiderme galerias onde deposita os ovos.)