Fotos: Os ‘anos dourados’ e a São Paulo renovada

Aluno (a): André Payar, Douglas Luz, Jennifer Orofino, José Orenstein de Almeida, Marina Albuquerque, Marcus Vinicius Biaggi e Talita Ferreira
Docente responsável: Maurício Cardoso
 

 

A despeito do início do processo de modernização pela qual a cidade de São Paulo passara durante os anos 20, foi sobretudo nos anos 50 que a metrópole presenciou um intenso processo de industrialização, urbanização e modernização que se refletiu, de maneira intensa, no universo artístico brasileiro e através de algumas datas inaugurativas pode-se ter um cenário dessas transformações em curso.

 

Em 1947, inaugura-se o Museu de Arte de São Paulo; em 1949, inauguram-se a Cia. Vera Cruz, o Teatro Brasileiro de Comédia e, na capital do país, o Museu de Arte Moderna. Na década seguinte, em 1950 inaugurava-se a primeira emissora de televisão do país, a TV Tupi; em 1954, inaugura-se o Parque do Ibirapuera e, em 56, Cinemateca Brasileira.

 

Essas foram consequências de dois contextos paralelos e interligados. Um deles é a ascensão da burguesia industrial paulista; o outro, e fundamental, é a política externa norte-americana voltada para a América Latina no contexto do pós-guerra, que nos anos 60 se formalizará através da Aliança para o Progresso, e sobretudo aquilo que vem sendo conhecido como cultural war, guerra cultural. Entender esse cenário é entender o processo de modernização tanto de São Paulo como de outras capitais pelo Brasil na época, pois essa política externa norte-americana visava, através de grandes investimentos financeiros tirar o Brasil de qualquer tipo de influências revolucionárias, como as que influenciariam Cuba em 1959.

 

O milionário americano Nelson Rockfeller, que já havia idealizado a política de aproximação entre Brasil-EUA durante a Política da Boa Vizinhança, transformou-se também no principal articulador na América Latina desse novo momento da história do mundo, conhecida como Guerra Fria, colocando o Museu de Arte Moderna de Nova York do qual era presidente, à frente da promoção dessa política. No Brasil, como em São Paulo, os principais articuladores e financiadores dessas transformações foram os também milionários Francisco Matarazzo e Assis Chateaubriand. A renovação nas artes brasileiras durante os anos 50 lançaram o Brasil no panorama internacional, principalmente através da música, a Bossa Nova, e da arquitetura, sobretudo de Oscar Niemeyer e o talento dos artistas foi muito beneficiado pelo contexto exposto acima. Além da nova capital do país, inaugurada em 1961, o Parque do Ibirapuera em São Paulo e o edifício Copan, no centro da cidade, são outros famosos projetos do arquiteto. Segundo o historiador Thomas Skidmore, foi de 80% o crescimento do complexo industrial brasileiro durante o surto econômico desenvolvimentista da política do presidente Juscelino Kubitschek, representante de um modelo político conhecido como populismo cuja crise em meados dos anos 60, somados as reformas propostas por João Goulart, foram determinantes no golpe de estado dado sob direção dos militares ocorrido em 1964, que inaugura um novo período da história do Brasil. O Parque era já uma antiga idéia de “urbanização” da área pobre e alagadiça. O governador do Estado na época era o engenheiro Lucas Nogueira Garcez (eleito com o apoio do governador anterior Adhemar de Barros cujo lema “São Paulo não pode parar” conquistou o apoio do eleitorado para o Partido Social Progressista), o local foi desapropriado para a construção do Parque e a população pobre que habitava o local foi desalojada. Lucas Nogueira em 1970 sob o governo do general Médici tornou-se presidente da ARENA. A “modernização”, o “moderno” aqui excluiria a população local, transformando a região em área nobre da cidade, muito em benefício do mercado imobiliário paulistano. O interessante é notar o fato de o vestígio fotografico de A. Brill conseguir exprimir tão bem as intenções curvilíneas da arquitetura moderna, de concreto armado, criada pelo arquiteto. Ao mesmo tempo, auxilia na criação de uma ‘identidade moderna’ na cidade. A criação das identidades pressupõe, pela sua própria natureza de unidade idealizada, esconder as diferenças. Dessa forma, o processo de desapropriação da região pauperizada em contraposição à modernização não permaneceu tanto na memória social perpetuada, naquele momento, por esse tipo de vestígio do passado que é a fotografia.