História de São Paulo: A convivência entre o passado e o presente no bairro de Perdizes

Disciplina USP: FLH0425 - Uma História para a Cidade de São Paulo: Um Desafio Pedagógico
Docente responsável: Antonia Terra Calazans Fernandes
Aluno (a): Milena Aparecida Carli
 

 

      Perceber a convivência entre o arcaico e o moderno no bairro de Perdizes.Finalidade O escopo do presente trabalho é perscrutar a convivência entre o novo e o antigo, entre o presente e o passado, entre o moderno e o arcaico, no bairro de Perdizes, inquirindo em que medida essa confluência reflete a realidade da própria cidade de São Paulo. O estudo pretende, ainda, perquirir se essa coexistência permeia a História ou, reversamente, é fenômeno isolado.

 

Fundamentação

 

O antigo e o novo lado a lado em Perdizes

     Inicialmente, cumpre tecer brevíssimos comentários acerca da história do bairro de Perdizes. Levino Ponciano, em sua obra 450 Bairros, São Paulo, 450 Anos, leciona que por volta de 1850 o bairro de Perdizes era uma grande chácara pertencente a Joaquim Alves. O historiador Antônio Egidio Martins, por sua vez, relata que no quintal dessa chácara, a enteada de Joaquim Alves, Teresa de Jesus Assis, dedicava-se à criação de grande e barulhenta quantidade de perdizes.

     Após alguns anos, a propriedade foi loteada e vendida, porém, a chácara de Joaquim Alves, por conta da criação de perdizes, acabou nominando o bairro. Egidio Martins assegura que na região, os moradores da provinciana São Paulo da época referiam-se aos campos das perdizes, afirmavam que lá onde há perdizes, nas perdizes. Destarte, o nome Perdizes acabou popularizando-se e denominando o bairro. Levino Ponciano recorda, ainda, que a primeira referência ao bairro de Perdizes na história da cidade de São Paulo remonta ao ano de 1897, quando o bairro restou mencionado na planta oficial do município. O crescimento do bairro desapontou, tão somente, no início do século XX e consolidou-se em meados de 1940, tendo por um de seus marcos a instalação, em 1956, da antiga Companhia Telefônica Brasileira - CTB. Mister ressaltar que aproximadamente no mesmo período em que Perdizes impunha-se como bairro integrante da cidade de São Paulo, na metade do século XX, São Paulo, por sua vez, revelava-se como metrópole. A transformação da cidade à época é brilhantemente comentada por Glezer:

A partir dos anos 1960 a transformação teve início: violenta exploração demográfica, adensamento vertical em todas as regiões criando um sky-line recortado e agressivo em toda a cidade e valorização das propriedades imobiliárias deslocando parte dos habitantes para novas áreas. (...) a construção de grandes viadutos e avenidas de fundo de vale, acelerando a destruição das áreas verdes; e a invasão das várzeas dos córregos, ribeirões e rios. (GLEZER, Raquel, Chão de Terra e outros ensaios sobre São Paulo, p. 20.)

     Em que pese tenha o crescimento de Perdizes deslanchado nos primórdios do século pretérito, atualmente ainda se expande o bairro. Assevera a funcionária da Imobiliária Samuel Carvalho Imóveis Administração S/C LTDA, a qual prefere manter-se no anonimato, que Perdizes é um únicos bairros próximos ao centro da cidade de São Paulo que ainda possui espaço para crescer. Observa a profissional que a demanda por condomínios de alto padrão no município de São Paulo é elevadíssima, mas que as grandes construtoras não conseguem atendêla, porque o espaço nos bairros bem localizados da cidade, tais como Higienópolis e Santa Cecília, está definitivamente saturado. Destarte, no afã de satisfazer a necessidade do mercado, Perdizes recebe hoje construções de elevado padrão. Basta caminhar pelo bairro para constatar a presença de inúmeros empreendimentos. Há vários condomínios de alto padrão sendo construídos no bairro. Edifícios com 04 ou 05 dormitórios e vagas de garagem, alçados em milhões, destinados à classe média alta. A mesma funcionária da Imobiliária Samuel Carvalho Imóveis Administração S/C LTDA afirma que as grandes construtoras facilmente adquirem o terreno, tendo em vista o seu poderio econômico. As construtoras compram prédios antigos da região e promovem sua demolição.

     Assevera que jamais se descapitalizam, porém, essas construtoras. Ao contrário, convencem os moradores dos prédios que serão destruídos a cederem suas unidades oferecendo em contrapartida um apartamento no novo edifício a ser levantado. Ana Fani Alessandri Carlos, em Espaço-tempo na metrópole, A fragmentação da vida cotidiana, atenta mesmo para a especulação imobiliária nas grandes metrópoles. O preço do solo urbano reflete a dicotomia centro e periferia, na escala cidade. Raul de Camargo, funcionário há 60 (sessenta) anos do salão Marília (Imagem 03 e 13), localizado na Rua Cardoso de Almeida, voltado exclusivamente para o público masculino, relata como eram as moradias no bairro na metade do século XX. Explana Raul de Camargo que havia tão só 02 (dois) prédios em Perdizes, sendo um deles justamente o edifício onde se localiza o salão Marília, aonde ele trabalha. Mister a menção ipsis litteris às suas próprias lembranças, in verbis:

Eu sou Raul de Camargo, trabalho no salão Marília há 60 anos, conheço o bairro desde essa época. Aonde que eu sempre trabalhei foi o salão Marília, chamado salão Marília, que fica na Rua Cardoso de Almeida 284, aonde que passava bonde, ainda me lembro do número, 19. Saia da praça do correio, vinha pela Avenida São João, vinha pela Olímpio da Silveira, fazia o contorno para a Rua Cardoso de Almeida, ia até a Rua Caiubi, onde fazia a manobra e voltava novamente pelo mesmo trajeto para a praça do correio. O bonde, eu vinha trabalhar com ele. Pegava na Duque de Caxias e vinha trabalhar. O que acontece, nessas imediações não tinha prédio, tinha só dois prédios, esse que trabalha o salão Marília agora e o da frente aonde é uma drogaria (...). Eram todos sobrados assim, até lá em cima na Cardoso. (...).

     Com o transcorrer dos anos, evidente que Perdizes acompanhou o crescimento vertical da cidade de São Paulo e ganhou inúmeros prédios, a maioria com poucos andares, porém. Contudo, conservou também Perdizes algumas casas, muitas delas modestas, outras luxuosas, ocupando extensas áreas. E, nos dias de hoje, consoante já explicitado, o bairro recebe construções de alto padrão. A feição do bairro de Perdizes, pois, tem se alterado profundamente nos últimos anos. A convivência do antigo e do novo é perceptível! As antigas casas e os prédios arcaicos (imagem 02, 04, 08) contrastam com o designer arrojado dos edifícios modernos (imagem 07, 10). Todavia, não apenas na arquitetura que a coexistência entre o passado e o presente se faz sentir em Perdizes, mas também nos costumes. É ilustrativo o exemplo das padarias. Na padaria Santa Marcela, situada na Rua Cardoso de Almeida, a clientela é o mesma há anos. Francisco dos Santos trabalha na padaria Santa Marcela há 19 (dezenove) anos e assegura que todas as manhãs são as mesmas pessoas que até lá se dirigem para tomar o café! Basta freqüentar a padaria alguns dias para perceber a relação próxima de Francisco com os clientes. Francisco conhece a preferência de quase todos os clientes. Adivinha seus pedidos. O atendimento é personalizado. Francisco chama a quase todos os clientes pelo nome. Pertinente a transcrição de seu relato, in verbis:

(...) Os morador vem aqui, pedi um pãozinho, café, e qué conversa. Fala do jornal e da família, da mulher. E eu escuto, converso. Eu conheço os cliente da padaria. Trabalho aqui na Santa Marcela há 19 anos, né? Os cliente são os mesmos, muitos né? Aí a gente lembra os gosto, conhece os problemas (...).

     São muitas no bairro as padarias que seguem o mesmo perfil da Santa Marcela. Constituídas há muitos anos no mesmo local possuem freguesia fixa. A relação entre seus funcionários e clientes é afetuosa, mesmo porque os funcionários trabalham no estabelecimento há muitos anos e, portanto, conhecem os clientes, suas preferências, chamam aos clientes pelo nome, engatam conversas, comentam as notícias do dia, conhecem seus problemas. É o caso da Elite das Perdizes. Cristina Barra observa:

Também há cerca de 30 anos no bairro, a Elite das Perdizes possui um leque grande e variado de pães, sonhos e bolos gelados. Contudo, a receita básica para um empreendimento seguro é apostar no bom atendimento e na qualidade. Quem garante é Rogério Matias de Souza, que conhece muitos clientes pelo nome: - Alguns vem de outros bairros só para tomar café da manhã aqui, afirma. (Revista Perdizes e região, ano 7, n° 42.)

     O hábito de realizar o desjejum na mesma padaria todo dia, calmamente, o fato de se conhecer os funcionários, conversar com eles, falar do tempo, do noticiário, da vida, certamente não é um costume da vida moderna. É resquício de uma vida mais pacata em uma cidade que ainda não havia se transformado na megalópole de hoje. Perdizes ainda conserva comportamentos como esse, o que é facilitado, também, em grande medida, pelo perfil dos moradores do bairro. Perdizes abriga uma população abastada e, portanto, primordialmente, idosa. É elevada a concentração de pessoas de avançada idade no bairro. Caminhando no bairro é possível vislumbrar muitos moradores idosos, sendo auxiliados por seus enfermeiros ou parentes. Evidente que o volume de moradores com adiantadíssima idade contribui sobremaneira para a reprodução de hábitos do passado, absolutamente desvinculados da realidade presente. Todavia, o perfil do bairro está se modificando, conforme já relatado. A demanda por edifícios de alto padrão na cidade de São Paulo, capazes de atender às classes alta e média alta, e a peculiar disponibilidade de espaço no bairro para comportar tais empreendimentos, está trazendo a Perdizes moradores mais jovens, famílias de executivos, empresários, funcionários públicos ou profissionais liberais bem sucedidos. Tais moradores dependem de estabelecimentos comerciais mais ágeis, informais, com produtos diferenciados. A velocidade da vida contemporânea não permite que essas pessoas se demorem nas refeições, tampouco constituam qualquer vínculo com os funcionários dos estabelecimentos que freqüentam. Além disso, são clientes exigentes esses novos moradores. Desejam qualidade nos produtos e serviços que consomem, praticidade e variedade.

Foi-se o tempo em que a padaria era apenas um local do tradicional litro de leite e do pão francês. As padarias modernas oferecem muito além do pãozinho, (...). Oferecem diversos outros serviços e produtos aos clientes. (...). A padaria do século XXI consolida sua força e agrega valores, disponibilizando produtos de conveniência e mercearia dentro do conceito de Padaria Gourmet, numa verdadeira boutique de pães, como forma de ganhar novos consumidores. Carlos de Melo, da Delícia das Perdizes, argumenta que o forte da padaria é o almoço por quilo. “Serviços café da manhã com Buffet completo todos os dias, além das sopas no jantar em dias quentes e frios”, destaca. Esse é o principal ponto de mudança dos estabelecimentos que ampliaram a gestão do seu negócio, adaptando-se às necessidades do mercado. Segundo Melo, a padaria moderna tem que oferecer de tudo e justifica que o “sucesso parte da inovação, atendimento, higiene e qualidade na mercadoria que oferece. (...). Se antes a padaria servia o tradicional para o café da manhã e lanches, hoje se supera, porque o cliente pode, sem dúvida, fazer todas as suas refeições num único lugar, com comida de qualidade, sem sair do bairro. (...). (Revista Perdizes e região, ano 7, n° 42.)

     Destarte, Perdizes tem ganhado padarias modernas, que se destacam das padarias convencionais do bairro, inicialmente, pelo designer. Possuem arquitetura arrojada, por vezes espelhada, espaços amplíssimos. O velho balcão foi substituído ou é acompanhado de mesas onde as pessoas podem saborear não apenas o tradicional pão com manteiga na chapa e o café com leite, mas também refeições mesmo, como o almoço ou jantar, por quilo ou a la carte. Note-se a arquitetura da mais recente padaria inaugurada no bairro de Perdizes, a Fábrica dos Pães (Imagem 05, 09, 11 e 12). Se não bastasse, as padarias contemporâneas que estão se instalando em Perdizes oferecem produtos e serviços não existentes nas padarias tradicionais do bairro, como o almoço por quilo ou o buffet de sopas no jantar. A relação entre os funcionários e clientes, igualmente, é bastante diversa daquela havida nas padarias convencionais do bairro. O trato entre empregados e freqüentadores da padaria é educado e gentil, obviamente, porém, de maneira alguma, amistoso. Ao revés, a relação entre ambos é marcada pela agilidade nos serviços, bem como pela informalidade. Perdizes sedia, ainda, outras espécies de estabelecimentos comerciais tão dissonantes entre si que bem espelham a convivência entre o passado e o presente no bairro. Na Rua Cardoso de Almeida, a principal do bairro, há um Boticário, uma loja de chocolates da Rede Cacau Show, uma filial das Pernambucanas, bem como das Casas Bahia, dentre inúmeros outros símbolos da vida moderna. Ora, as Casas Bahia ou as Pernambucanas são invenções da contemporaneidade. Grandes estabelecimentos, com uma variedade incrível de produtos, cujo atendimento não é personalizado. Ao contrário, na maior parte das vezes é o próprio cliente quem acaba achando as mercadorias que precisa e apenas se dirige ao caixa e efetua o pagamento. Por outras palavras, o auxílio dos funcionários é em sua maioria dispensada. É que a vida moderna é dinâmica demais. A compra e venda tornou-se mesmo deveras mais ágil e corriqueira. Entrementes, ainda é possível encontrar no bairro alguns comércios representativos de antigos hábitos, hoje praticamente em extinção. É significativo o exemplo de uma pequena lojinha de aviamentos localizada na mesma Rua Cardoso de Almeida (imagem 01). O estabelecimento oferece uma infinidade de novelos de lã e linhas para costura de todas as cores, marcas, espessuras.

     Evidente que comércios semelhantes são raríssimos, tendo em vista que as pessoas não mais costumam costurar em suas residências, como era praxe há algumas décadas. A arte de tricotar que era perpassada de geração em geração pelas mulheres, atualmente, industrializou-se. Em uma cidade como São Paulo, dificílimo será encontrar alguma jovem que tricote ou costure as próprias roupas! Entretanto, muitas senhoras, moradoras de Perdizes ainda dedicam-se a tecer ou tricotar. O proprietário da loja de aviamentos, José Vicente Martins, é quem atende as clientes. Imprescindível a menção de sua narrativa:

Estou no ramo há 37 anos. Conheço tudo sobre lã, linho, aviamentos em geral. Meus fornecedores são meus fornecedores há muitos anos. Nunca deixo faltar nenhuma cor de lã. Sempre tentei me basear na excelência e no bom atendimento.

     Indagado acerca de sua clientela e da relação com ela estabelecida, José Vicente Martins esclarece:

As clientes são quase sempre as mesmas. Senhoras que atendo há muitos anos, algumas mesmo de outros bairros, que vem até aqui porque tenho sempre o que elas precisam. E se acontece de eu não ter, o que é difícil, porque eu sempre tenho, eu garanto a mercadoria que elas querem em poucos dias, porque tenho os mesmos fornecedores há muitos anos e então posso conseguir isso. (...). Eu sei sim o nome de muitas clientes, porque elas compram comigo faz tempo, né?

     Entretanto, José Vicente Martins atenta que uma parcela de sua clientela, embora diminuta, é sim constituída por jovens. Estudantes da Faculdade de Moda Santa Marcelina. Assevera, porém, o José Vicente Martins, que a relação travada com esse público é bastante diferente. Elas tem sempre pressa, estão sempre com muita pressa (...).Não, eu não sei o nome de nenhuma delas, não sei não. (...). Imperioso notar que o comércio de aviamentos pertencente a José Vicente Martins é o retrato de uma época distante, na qual pequenos estabelecimentos ofereciam os produtos e serviços aos moradores, cujo atendimento era realizado pelos próprios proprietários, algumas vezes com o auxílio de algum preposto que permanecia trabalhando para o titular do comércio por muitos anos. O próprio José Vicente Martins conta com o trabalho de Lúcia Ramos há 07 (sete) anos. A parceria é bem sucedida e tudo indica que permanecerá ela ao lado do Sr. José Vicente Martins pelos próximos anos. O vínculo entre a clientela e o pequeno proprietário que explora a sua atividade econômica é não apenas negocial, mas também afetivo. José Vicente Martins conhece suas clientes, as chama pelo nome, sabe de suas preferências. Perdizes está repleta de exemplos da coexistência entre o arcaico e o moderno. O bairro abriga uma das mais conceituadas universidades do país, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP. O ambiente acadêmico propicia a formulação de novas idéias, hábitos, a ruptura de preconceitos e costumes já dissociados dos valores pregados pela sociedade contemporânea. O local, como não poderia deixar de ser, é freqüentado por jovens entre 17 e 26 anos, em sua quase totalidade. A música é parte integrante da prainha, como é conhecida a confluência entre os prédios novo e antigo da universidade, local onde os estudantes praticam a sociabilidade. A descontração é a marca do lugar. Não poderia haver clima mais favorável para a discussão de temas deveras controvertidos e polêmicos, como a legalização do aborto, a descriminalização do uso de drogas, a permissibilidade legal para a união formal entre homossexuais, dentre outros. Contudo, a mesma Perdizes que acolhe a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo abriga o Pensionato das Madres na Rua Cardoso de Almeida. Juliana, 23 anos, ex-estudante da PUC-SP, é moradora da residência e garante que as regras são bastante rígidas:

Tem horário para servir o almoço e a janta. E também o café. Se você se atrasa fica sem. As madres não abrem exceção não. São rigorosas com horário. Mas a comida é boa (...). Tem sim horário para dormir (risos). Na verdade não pra dormir, mas pra entrar no pensionato. 11h00 (23h00) elas fecham o portão. Não entra mais. Eu sei que tem uma madre que fica acordada, ela não consegue dormir, mas ela não abre pra ninguém. Se você não vai para casa até 11h00 não vai mais (risos), tem que ir para a casa de algum amigo. (...). Sim, elas são bem chatas com barulho, também (...). Música acabo ouvindo no MP3, fazer o quê? (...).

     Inquestionável que as normas estipuladas pelas madres no pensionato em apreço são absolutamente incompatíveis com o cotidiano da vida moderna. O estudante universitário, exempli gratia, muitas vezes freqüenta as aulas no período noturno, porque trabalha durante o dia. As aulas terminam por vezes após às 23h00. Ademais, os jovens, na atualidade, inegável, possuem hábitos noturnos, freqüentam boates e bares após às 24h00. É inconcebível, nos dias de hoje, impedir o acesso à residência após às 23h00. Quiçá a regra tinha significado há algumas décadas, em uma época na qual o padrão de comportamento das mulheres era pautado pela discrição e restrição quase que absolutas. Em um período em que não havia na cidade trânsito, onde as distâncias eram deveras menores, possível que as refeições fossem servidas em horários inflexíveis. Entrementes, no dia-adia da cidade de São Paulo, com a imprevisibilidade do tráfico de veículos, na imensidão das distâncias, fixar de maneira impreterível o horário do café da manhã, almoço e jantar, sem qualquer maleabilidade é, indubitavelmente, no mínimo, anacrônico. Em síntese, não que se olvidar da convivência entre o antigo e o novo no bairro de Perdizes, seja na arquitetura, seja nos costumes, o bairro abriga diversas temporalidades. Resta aduzir se a coexistência entre o presente e o passado em Perdizes é fenômeno exclusivo ou reproduz a realidade da própria cidade de São Paulo e mesmo da História.

 

A convivência entre o passado e o presente na cidade de São Paulo

     Não há como negar que esse fenômeno que experimenta Perdizes, qual seja, o convício entre o arcaico e o novo, é também sentido em toda São Paulo. Não é preciso nenhuma técnica para constatar que o centro antigo de São Paulo abriga prédios do século XIX, do início do século XX, da década de 50 do século passado (imagem 19 e 20). Contudo, a cidade é permeada também por construções contemporâneas. O centro empresarial localizado na região da Berrini é exemplo incontestável (imagem 21). Irrefutável que a cidade de São Paulo presencia costumes antigos, já quase desaparecidos, precipuamente nas periferias. Entretanto, o destaque é para os hábitos modernos. Na Avenida Paulista, na Rua Augusta, é possível vislumbrar as mais diversas tribos contemporâneas. A efervescência cultural e artística é ululante.

     A variedade de espetáculos teatrais, shows musicais, exibições no cinema, fóruns econômicos, políticos, discussões intelectuais, até mesmo em cafés filosóficos, dentre outros eventos, aproximam São Paulo dos mais modernos centros urbanos. O comportamento de significativo percentual de moradores da cidade reproduz mesmo aqueles praticados em outros centros urbanos mundiais, como Nova Iorque, Londres, Paris, dentre outros. É possível observar uma cultura globalizada, que permeia os espaços das grandes cidades em todo o planeta. É significativo, pois, conserve Perdizes hábitos tão dissonantes do cotidiano da vida contemporânea. Como tomar o café da manhã na mesma padaria há anos, demoradamente, engatando conversa com o funcionário, ou residir em pensionato religioso com regras tão rígidas, realizando as refeições nos mesmíssimos horários, recolhendo-se para o repouso noturno impreterivelmente às 23h00.

 

A coexistência entre o arcaico e o moderno na História

     São muitas as cidades que acolhem, concomitantemente, o novo e o antigo. É elucidativo o exemplo de algumas cidades européias, tais como Roma, que ostenta monumentos históricos, ruínas de construções da Antiguidade clássica ou medieval, e ao mesmo tempo edifícios contemporâneos. Contudo, não apenas cidades antiqüíssimas, como algumas cidades européias, que atravessaram períodos históricos, retratam esse fenômeno da convivência entre o passado e o presente. O Brasil possui muitas cidades com construções coloniais, barrocas, e ao mesmo edifícios modernos. Cite-se, Salvador. O próprio Rio de Janeiro. Todavia, não é porque tal realidade se repete em algumas cidades do mundo e mesmo do Brasil que seja uma constante na história! Há cidades de formação recentíssima, deveras verticalizadas, em sua grande maioria planejadas, que comportam quase que exclusivamente prédios modernos. É o caso de Londrina ou Maringá no Paraná, ou mesmo Brasília.

     Se a arquitetura arcaica e moderna nem sempre convivem no mesmo espaço urbano, o mesmo não se pode asseverar no que tange às ideologias! É sabido que os valores da humanidade estão em constante mutação. Se o sexo antes do casamento era veementemente proibido pelos padrões de comportamento ideais há algumas décadas, hoje é inconcebível que uma jovem contraia matrimônio sem antes atestar a compatibilidade sexual de seu parceiro. Se em meados do século XX as mulheres freqüentavam as praias com muita roupa, atualmente há até mesmo praias de nudismo!

     Os exemplos são inúmeros. Os hábitos sexuais e sociais, indubitavelmente, foram os mais afetados. Entretanto, as vestimentas, a alimentação, também se modificam rapidamente ao longo do tempo. No século XX, as mulheres abandonaram as saias e adotaram a calça jeans! Os homens a bermuda, o tênis. As pessoas não almoçam mais em seus lares. O ritmo acelerado imprimido pela vida contemporânea as impede. As refeições, hoje, são realizadas, comumente, nos restaurantes. Aliás, os restaurantes a la carte substituídos foram pelos fast food. Pratos preparados de forma efêmera ou refeições comercializadas por quilo é a regra. Em que pese, as reminiscências estão sempre presentes. É verdade que a mulher no século XXI refuta o valor virgindade. O dogma propagado por séculos pela Igreja Católica, qual seja, a de que as mulheres podiam manter relações sexuais exclusivamente com seus maridos e tão só após o matrimônio, foi definitivamente abandonado.

     Todavia, será que não mais exerce qualquer influência no subconsciente coletivo? Quantas mulheres ainda não são recriminadas e excluídas socialmente porque vivenciam o sexo com liberdade? A confluência de ideologias na mentalidade coletiva é fenômeno que se repete na História. Na Alta Idade Média, período em que o Cristianismo alcançava o seu apogeu na Europa Ocidental, a persistência de práticas pagãs, oriundas do politeísmo clássico, grecoromano, preocupava sobremaneira as autoridades eclesiásticas. Séculos após a derrocada do Império Romano lamentava São Martinho de Braga:

(...) apegados ainda às antigas superstições dos pagãos, prestam culto de veneração mais aos demônios que a Deus (...). Com efeito, ascender velas junto às pedras, às árvores, às fontes e nas encruzilhadas dos caminhos, que é isso senão culto do diabo? (...). Que as mulheres mantenham o costume de invocar  Minerva nos seus teares e celebrar as núpcias no dia de Vênus (...) que é isso senão culto ao Diabo? (...). Que loucura, portanto, que o homem batizado na fé de Cristo não celebre o dia de Domingo (...) e diga que celebra o dia de Júpiter, de Mercúrio, de Vênus e de Saturno (...). (BRAGA, São Martinho de, De correctione rusticorum, tradução Aires do Nascimento, Lisboa, Cosmos, 1997.)

Leciona o ilustre Jean-Claude Schmitt:

Se a Igreja procurou desde a origem repelir as superstições, é porque via nelas sobrevivências do paganismo (...) sobre o espírito dos homens. (...). (...). Após o baptismo das populações pagãs; sob as aparências do culto cristão, as práticas ancestrais (...) chegavam mesmo a coexistir. Por exemplo, segundo Gregório de Tours, havia em Briounde “um templo em que se venerava, sobre uma coluna muito alta, uma estátua de Marte e de Mercúrio”; ora, este templo era vizinho do túmulo de São Juliano. (SCHMITT, Jean-Claude, História das Superstições, p. 27 e 39)

     O renomado historiador Carlos Fico alude a ideário construído desde os primeiros relatos de viajantes que acabaram passando pelo Brasil, até conceitos artificialmente criados pelo Instituto Histórico Nacional, logo após a independência do país, com o escopo de escrever a história do Brasil. Idéias como a do Brasil grande que possui todos os subsídios para alcançar o desenvolvimento econômico e social, a democracia racial vigente no país desde a época da escravatura, conforme preconizou Gilberto Freire, a cordialidade e alegria do povo brasileiro, permaneceram no inconsciente coletivo e perduram até hoje. Carlos Fico, em sua obra Reinventando o Otimismo, perscruta como todo esse ideário, o qual continua arraigado na mentalidade coletiva, foi re-significado pela propaganda política militar e em seu proveito utilizado. Imprescindível a reprodução de suas elucubrações:

Assim, embora não se possa conhecer e controlar integralmente os nexos relacionais entre a longa duração e o episódico, não parece abusivo estabelecer uma vinculação entre as visões sobre o futuro positivo do Brasil, fundadas desde o período colonial, e a dicção da Aerp/ARP. Não se está supondo, evidentemente, uma permanência imutável de discursos perenes, mas a constante re-significação desses conteúdos, que com a propaganda militar, assumiram características particulares. Os tópicos do otimismo – a exuberância natural, a democracia racial, o congraçamento social, a harmônica integração nacional, o passado incruento, a alegria, a cordialidade e a festividade do povo brasileiro, entre outros – foram re-significados pela propaganda militar (...). (FICO, Carlos, Reinventando o Otimismo – Ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil, p. 76 e 147.)

     Em síntese, irrefragável que os costumes estão em constante mutação. Transformam-se, ao longo do tempo, os hábitos alimentares, sexuais, sociais, a forma de se vestir, a ideologia. Entretanto, a persistência de resquícios explícita ou implicitamente se repete na História. E nesse diapasão, não apenas em Perdizes ou na cidade de São Paulo, mas na própria História, convivem o presente e o passado, o novo e o velho, o defasado e o contemporâneo.

 

As fontes e a bibliografia

     É lamentável a carência de fontes e de bibliografia no que atine à História de Perdizes. No bairro, localizada está uma das mais importantes e reconhecidas universidades privadas do país, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a PUC-SP. A integração da universidade com a comunidade é um dos intuitos que norteiam os trabalhos acadêmicos. Ora, patente que a comunicação entre os grupos que compõem a sociedade local e o ambiente acadêmico implica na produção, na preservação e na divulgação da História do bairro! Entretanto, a biblioteca da PUC-SP possui tão somente a obra clássica acerca da História de Perdizes, qual seja, Perdizes: História de um bairro, da autoria de José Aranha de Assis Pacheco.

     Nenhuma outra produção historiográfica no que tange ao bairro, ainda que exclusivamente acadêmica, pode ser encontrada nos arquivos da biblioteca aventada. Igualmente, na biblioteca da Universidade Santa Marcelina, situada no bairro, não é possível encontrar nenhum trabalho sobre a história de Perdizes! Na própria cidade de São Paulo as dificuldades para se localizar algum material referente à história do bairro de Perdizes são imensas. A biblioteca da Universidade de São Paulo, USP-SP, possui tão só um exemplar acerca da História de Perdizes, um trabalho da Secretaria da Educação, que contém, data vênia, poucas informações relevantes acerca do passado de Perdizes. A mesma obra é encontrada apenas no arquivo municipal. As referências à História de Perdizes quando surgem são definitivamente superficiais, inócuas, sem conteúdo apreciável. Comumente referem-se à bibliografia dos personagens que originaram o nome das ruas do bairro. O excerto a seguir transladado, extraído da Revista de Perdizes e região é ilustrativo:

Tribo de Perdizes. Qualquer pessoa que circule pelas ruas do bairro percebe uma curiosa presença de nomes indígenas nas placas de rua. E não é novidade para alguns, inclusive, que temos por aqui uma espécie de “Romeu e Julieta” tupiniquins. Consta a história que Bartira, filha do cacique Tibiriça, se apaixonou pelo ilustre bandeirante João Ramalho. E foram os filhos desse encontro entre índios e brancos que gerou os primeiros mamelucos da capital paulista na época, Vila de São Paulo. A geografia de Perdizes, porém, não quis eternizar esse amor: Bartira e João Ramalho foram separados por ruas paralelas. (Revista Perdizes e região, ano 7, n° 41.)

     Por outro lado, não há que se olvidar que são louváveis quaisquer iniciativas para resgatar um pouco da história de Perdizes, ainda que o enfoque seja investigar a vida daqueles que tiveram seus nomes emprestados às ruas do bairro. Os irmãos Rodrigo, Danilo e André Vicente, moradores do bairro, inauguraram o Bartira Chopp & Gril que traz alguns aspectos da história de alguns dos personagens que dão nome às ruas de Perdizes. A propósito, pertinente a reprodução da reportagem a seguir:

O Bartira Chopp & Grill abriu as portas na semana do aniversário de São Paulo, mostrando para os aulistanos quem foi a Índia Bartira e o náufrago português João Ramalho, que constituíram a primeira família paulistana e dão nomes às ruas do bairro, que por ironia não se cruzam, pois são paralelas, mas que “devem se encontrar em algum ponto do infinito”. Os irmãos Rodrigo, Danilo e André Vicente são responsáveis pelo bar. “Como crescemos no bairro, queríamos resgatar um pouco da história dos arredores como um presente para a cidade”, comenta André Vicente. (...) os clientes vão saber quem foi Cardoso de Almeida, Ministro Godói, Professor Afonso Bovero, Claro Marcondes Homem de Mello, com histórias contadas nos jogos americanos.(Revista Perdizes e região, ano 7, n° 42.)

Conveniente indagar se parcas também são as fontes e a bibliografia no que concerne à História da própria cidade de São Paulo. A respeito, imprescindível a alusão às lições de Maria de Lourdes Monaco Janotti, in verbis:

À primeira vista, a impressão que tem o pesquisador é de que há uma considerável pobreza bibliográfica sobre São Paulo, no período Republicano. Constata-se facilmente que inexistem “Histórias de São Paulo” que incluam os períodos mais recentes. Longe estão as obras de Aureliano Leite (Histórias da Civilização Paulista), de Affonso de Taunay (História da Civilização de São Paulo) e de Nuto Sant’ Anna (São Paulo Histórico). (...). Pela falta de obras abrangentes sobre a história de São Paulo tem-se explicado, apressadamente, a ausência de uma disciplina com este título no 1º e 2º Graus e também na Universidade de São Paulo, ao contrário do que acontece em universidades federais de outros Estados, que procuram valorizar em seu currículo o enfoque regional. (...). a pobreza relativa da historiografia sobre São Paulo do período republicano. É quase desnecessário afirmar que, se existe pobreza, ela é um atributo da Historiografia Brasileira como um todo, a qual, no entanto, vem se esforçando para vincular a pesquisa histórica às perspectivas de mudanças das classes dominadas. Respondendo agora à pergunta: “Como escrever a História de São Paulo?”, ousamos afirmar: a História de São Paulo até o momento já está escrita, basta recolhê-la, pois se acha dispersa e muitas vezes oculta. (...) (Janotti, Maria de Lourdes Monaco, historiografia: uma questão regional? São Paulo no período republicano, um exemplo?, in República em Migalhas – História Regional e Local, p. 84, 85 e 90.)

     Raquel Glezer assegura que São Paulo é uma das cidades brasileiras mais dotadas de acervos documentais e estudos (GLEZER, Raquel, Chão de Terra e outros ensaios sobre São Paulo, p. 35.). Portanto, no que tange a cidade de São Paulo existe um número considerável de obras (GLEZER, Raquel, Chão de Terra e outros ensaios sobre São Paulo, p. 40.). Todavia, denuncia Glezer as dificuldades que o pesquisador enfrenta para ter acesso e consultar os arquivos, localizar documentos e obras. É o que se depreende das ponderações de Glezer, in verbis:

(...). A procura de documentação foi dificultada pelos inevitáveis entraves burocráticos, desorganização de acervos, etc. A dificuldade de acesso ao material documental nos arquivos (...). (GLEZER, Raquel, Chão de Terra e outros ensaios sobre São Paulo, p. 25 e 36.)

     Mister investigar, ainda, se tal realidade reflete um desinteresse pela história local, se o enfoque dos historiadores é aspectos da História da cidade de São Paulo intrinsecamente relacionados à História do Brasil, nacional. Parece mesmo que as produções historiográficas acerca da cidade de São Paulo realçam a imigração estrangeira, por exemplo, porque conectada à História nacional, ao movimento operário e a ideologia marxista. Pondera Maria de Lourdes Monaco Janotti:

Por conseguinte, o espaço que o tema São Paulo ocupa na História e na historiografia brasileira é por demais amplo para que se impusesse, na consciência das classes dominantes e na consciência da maioria dos historiadores, uma “visão regionalista”. Pelo contrário, a hegemonia econômica  inconteste de São Paulo identificou a sua história com a História do Brasil do período da República. (Janotti, Maria de Lourdes Monaco, historiografia: uma questão regional? São Paulo no período republicano, um exemplo?, in República em Migalhas – História Regional e Local, p. 86.)

     É possível refletir, também, em que medida a carestia de trabalhos envolvendo a história de Perdizes, bem como a desorganização dos arquivos municipais e estaduais em São Paulo, acusada por Glezer, a qual, indubitavelmente, torna a atividade do pesquisador deveras custosa, é espelho de um descaso maior. Glezer sugere que a preocupação com a sistematização dos acervos, bem como com sua conservação, não é uma constante. Reversamente é periódica. Em determinados momentos históricos apenas aflora. A transladação das elucubrações da própria Glezer é imprescindível:

Arrolar tais informações não significa dizer que em São Paulo exista uma política definida de tratamento e edição de material histórico. Política desse tipo existiu de modo claro em outros momentos históricos, em que a consideração e os cuidados aos documentos arquivísticos era parte integrante da política estadual e municipal. Um desses momentos foi no final do século XX, quando o Arquivo do Estado foi formalmente organizado e iniciou a publicação de documentos constantes de seu acervo (...). Outro momento destacado foi o da segunda década republicana, na qual os políticos paulistas tiveram grandes preocupações com o acervo documental histórico, editando as coleções de documentos do Arquivo Municipal.(GLEZER, Raquel, Chão de Terra e outros ensaios sobre São Paulo, p. 37.)

     Quiçá prevaleça mesmo o desprezo do Estado e da sociedade brasileira pelo patrimônio histórico nacional. Quantas não são as construções de valor histórico depredadas, mal conservadas, simplesmente abandonadas? Quantas não urgem por alguma restauração e proteção? Nem mesmo o patrimônio natural, a fauna e a flora, precipuamente, do qual depende a própria sobrevivência da espécie humana, é respeitado no Brasil. A devastação voraz da floresta Amazônica é exemplo contundente. Possível inferir o desdém pelo patrimônio histórico no Brasil da superficial análise do tratamento legal a ele conferido. O art. 165 do Código Penal, a seguir colacionado, prevê o crime de dano em coisa de valor artístico, arqueológico ou histórico, estipulando a irrisória pena de detenção de 06 (seis) meses a 02 (dois) anos e multa.

Dano em coisa de valor artístico, arqueológico ou histórico Art. 165, CP – Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa tombada pela autoridade competente em virtude de valor artístico, arqueológico ou histórico: Pena – detenção, de 06 meses a 02 anos, e multa.

     É sabido que o Brasil qualifica alguns delitos como de menor potencial ofensivo. São aqueles cuja pena cominada não ultrapassa 02 (dois) anos de privação da liberdade, nos termos do art. 61 da Lei n° 9.099/95. Ora, essas infrações penais consideradas de menor gravidade permitem a transação penal, a suspensão do processo, dentre outros favores jurídicos. Irrefutável que em outros países a punição àqueles que promovem a depredação do patrimônio histórico nacional é bem mais rigorosa, o que em última medida denota a preocupação mais acentuada com a preservação da História. Por fim, mister salientar que a defasagem de produções historiográficas no que concerne a História de Perdizes, bem como os problemas relativos ao material disponível acerca da História da cidade de São Paulo, não devem desestimular os estudos atinentes à História local. Ao revés, o historiador, o pesquisador, ou mesmo o profissional de outras áreas que se debruce sobre a questão urbana, há de encarar as dificuldades como desafio, porquanto a importância dos trabalhos envolvendo o passado e o cotidiano na metrópole é inconteste.

 

Atividades propostas

 

Uma proposta pedagógica

     O convívio entre o passado e o presente na cidade de São Paulo é interessante tema a ser desenvolvido no Ensino Médio, nas aulas acerca da História do município. Inicialmente, convém disponibilizar aos alunos fotos de alguns prédios históricos do centro antigo de São Paulo. Posteriormente, cumpre entregar aos alunos imagens de construções recentíssimas da cidade, que contrastam com a arquitetura dos edifícios do centro antigo de São Paulo, por conta do designer moderno e arrojado, pelas janelas espelhadas, pela altura elevada dos prédios, dentre outras características.

     Com o escopo de ilustrar a coexistência entre o arcaico e o novo em São Paulo, poderá o professor utilizar o exemplo do bairro de Perdizes. Pertinente mostrar aos alunos fotos de casas e prédios rústicos do bairro, bem como dos condomínios de alto padrão que estão sendo levantados na região. O exemplo do prédio da PUC/SP, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é elucidativo, porque compreende uma construção arcaica (imagem 06, 14 e 16), a qual é inclusive tombada, porque patrimônio histórico, e uma construção recente (imagem 15). Após confrontar o convívio entre o arcaico e o moderno no que tange à arquitetura dos prédios, o professor poderá esclarecer aos alunos que também no que atine aos costumes há a coexistência entre o antigo e o novo. Cumpre ao professor promover o relato de alguns hábitos praticamente em extinção que subsistem no bairro. É possível colocar aos alunos o depoimento do Sr. Raul de Camargo e do Sr. Francisco, por exemplo. Por fim, sinteticamente, explanará o professor que a confluência entre o presente e o passado se repete na história. O exemplo da sobrevivência das superstições pagãs no seio do Cristianismo, durante a alta Idade Média, pode ser mencionado.

 

Conclusão

 

     Milton Santos em seu texto A aceleração contemporânea: tempo mundo e espaço mundo atenta para o fenômeno da velocidade nos dias atuais, a qual impôs novos ritmos ao deslocamento dos corpos. (SANTOS, Milton, A aceleração contemporânea: tempo mundo e espaço mundo, p. 15.) A aceleração, conforme seu entendimento, constituir-se-ia em desdobramento da intensificação da acumulação capitalista, a qual reduziria o tempo do não trabalho. O fato é que a aceleração, a velocidade, a dinâmica do tempo na contemporaneidade imprime novo modo de apropriação do espaço.

     Ana Fani Alessandri Carlos em seu texto Espaço-tempo na metrópole, A fragmentação da vida cotidiana corrobora com a tese esposada por Milton Santos: O encolhimento do tempo tende a implicar mudanças no uso. (CARLOS, Ana Fani Alessandri, Espaço-tempo na metrópole. A fragmentação da vida cotidiana, P. 222.) Obviamente, refere-se a autora ao uso do espaço. O novo ritmo incutido pelo atual modo de vida reduz o espaço destinado ao uso. O escasso tempo do não trabalho é consumido quase que integralmente na casa, a qual se transforma em local de fuga ou aprisionamento. O bairro não mais se presta ao desenvolvimento de relações sociais de vizinhança. A rua perde a sua função social e serve apenas para passagem. Milton Santos salienta que a organização do espaço urbano não mais pretende viabilizar as práticas cotidianas, através do corpo, mas sim veicular a circulação de mercadorias, o desenvolvimento econômico. Daí a construção de grandes avenidas de fluxo rápido. O espaço urbano perdeu, pois, valor de uso e adquiriu valor de troca.

     Tornou-se mercadoria. Trata-se do consumo do espaço. É nesse diapasão que resgatar a história dos bairros, especialmente a História do bairro de Perdizes, é de descomunal importância, porque contribui para restaurar a identidade com o espaço urbano que intimamente circunscrito está ao cotidiano, qual seja, o bairro. Finalmente, identificar a presença simultânea do passado e do presente em Perdizes, na cidade de São Paulo e mesmo na História, permite questionar o novo, os valores da contemporaneidade, e, quiçá, reaver hábitos cuja perda, inconteste, tão só prejudicaram o homem contemporâneo.Documentos sugeridos

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