História de São Paulo: Vila Maria Zélia

Disciplina USP: FLH0425 - Uma História para a Cidade de São Paulo: Um Desafio Pedagógico

Docente responsável: Antonia Terra Calazans Fernandes

Aluno (a): Taís Araújo  

 

     Compreender as transformações da moradia operária em São Paulo, através da história da Vila Maria Zélia. Monumentos históricos.Finalidade Compreender as transformações da moradia operária em São Paulo.

 

Fundamentação

Bairros operários na cidade de São Paulo: o caso da Vila Maria Zélia

     As vilas operárias surgiram em São Paulo no contexto de crescimento da classe trabalhadora e de “inchaço” da cidade. Houve a segregação entre os bairros mais valorizados, localizados nas partes altas e os mais pobres, próximos aos rios, nas partes baixas. Em razão do baixo preço dos terrenos, os operários concentraram-se em bairros como: Brás, Belém, Barra Funda e Bom Retiro. A Vila Maria Zélia foi fundada em 1917 pelo empresário Jorge Street. Servia de moradia aos operários de sua Fábrica de Tecidos da Juta. É localizada na Zona Leste, distrito do Belém, entre as ruas Catumbi e Cachoeira.

 

O poder do Estado no cotidiano dos trabalhadores

     A Vila foi fundada no contexto de potencialização das políticas públicas que visavam a higienização da cidade tanto moral, quanto física. O Estado investia contra a proliferação dos cortiços na região central e contra os hábitos boêmios dos trabalhadores, vistos como ociosos e preguiçosos. Um caso exemplar desse quadro é a realização do Parque do Carmo. O documento assinala que a autoridade pública concebe alguns segmentos sociais como o problema para o desenvolvimento da cidade. A saída é fazer um parque, higienizar a área, porém deixar os que habitavam o local sem moradia. O prefeito Washington Luís justifica a criação de um parque na região da Várzea do Carmo no seguinte trecho de um relatório: “ali se encontra a vasa da cidade, numa promiscuidade nojosa, composta de negros vagabundos, negras edemaciadas pela embriaguês habitual, de uma mestiçagem viciosa. De restos inomináveis de vencidos de todas as nacionalidades, em todas as idades, todos perigosos. (...) Denunciado o mal e indicado o remédio – um parque belo, seguro e saudável – não há lugar para hesitações porque a isso se opõem a beleza, o asseio, a higiene, a moral, a segurança, enfim, a civilização e o espírito de iniciativa de São Paulo.”

 

Descrição de um cortiço

     “São habitações sem ar e sem luz, onde os adultos e crianças vivem na mais sórdida promiscuidades; onde os mais pudicos, quando obedecem às leis da perpetuação da espécie, abrigam-se por trás de uma cortina rota, quase transparente; onde, à noite, num ambiente fechado, respira o triplo das pessoas que o mesmo poderia comportar; onde os gêneros alimentícios, pendentes das paredes, contribuem para perfumar o ambiente mal-cheiroso (...) onde o tuberculoso , escarrando por toda a parte, mimoseia os seus próximos com presentes gregos; onde as crianças imundas e enfezadas brincam em corredores sombrios (...)”. Descrição feita em 1910 pelo médico sanitarista Alfedo Leal de Sá Pereira no Jornal do Comércio. Mesmo com os esforços do Estado em prover melhores moradias aos trabalhadores, os cortiços sobreviveram e deram lugar às recentes favelas.

 

A Greve Geral de 1917

greve_1917

Os operários do começo do século XX ganhavam visibilidade principalmente nos momentos de reivindicação política. A greve e os sindicatos surgem como resposta à situação de exploração e descaso a que eram deixados pelo poder público e empresários.

 

Fonte: site Passa Palavra

Fonte: site Passa Palavra

Nesse quadro, podemos ver que o autor dá expressão a cada rosto da multidão de operários. Acabar com a desumanização era uma das palavras de ordem mais repetidas nos documentos operários. Revoltas contra campanhas de vacinação obrigatória, movimentos contra carestia e aumento de preços de gêneros e transportes, as primeiras greves enunciam o novo componente do jogo político da época: a multidão, inerente ao tecido urbano. (História da vida privada no Brasil 3, p.108)

 

Reivindicações da Greve Geral de 1917:

     1º – Que sejam postas em liberdade todas as pessoas detidas por motivo de greve; 2º – Que seja respeitado do mais absoluto o direito de associação para os trabalhadores; 3º – Que nenhum operário seja dispensadopor haver participado ativa e ostensivamente no movimento grevista; 4º – Que seja abolida de fato a exploração do trabalho dos menores de 14 anos nas fábricas oficina, etc.; 5º – Que os trabalhadores com menos de 18 anos não sejam ocupados em trabalho noturnos; 6º – Que seja abolido o trabalho noturno das mulheres; 7º – Aumento de 35% nos salários inferiores a 5$000 e de 25% para os mais elevados; 10º – Jornada de oito horas e semana inglesa;

 

Fotografia na sala de aula como objeto histórico

     Segundo Boris Kossoy, a fotografia usualmente foi usada no século XIX e começo do XX com objetivo de promover o desenvolvimento e o progresso da cidade de São Paulo. O centro, as indústrias, os prédios públicos e sua grandeza eram usados como cartões postais. A proposta aos professores é usar a fotografia não como ilustração de uma época, assim como a história não é só narrativa. Nesse sentido, propomos o ensino de história como atividade criativa e não estática. As fotografias a seguir pertencem ao arquivo pessoal da família de Jorge Street. Provavelmente foram tiradas com o intuito de guardar na memória e nos feitos do empresário aquilo que se chamou de “sonho” e “revolução”: A Vila Maria Zélia.

     Essa foto mostra a amplitude da vila e as casas geminadas. Conseguimos ver as janelas altas, os jardins, a iluminação da rua e a separação das casas por famílias, premissas da política sanitarista do começo do século. Podemos comparar tal foto a um trecho de uma descrição sobre os cortiços, para perceber quanto a vila se configura como a solução ideal aos operários.

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     A foto mostra o estilo europeu criado na Vila, que se sobressaía àquilo reconhecido como uma “barbárie” na metrópole: os cortiços.

     A foto tem a intenção de mostrar as operárias disciplinarmente ordenadas nos seus postos de trabalho. As fotografias da época captam o cotidiano organizado. Onde estão os conflitos?  

 

Foto do interior da Fábrica de Tecidos da Juta

Foto do interior da Fábrica de Tecidos da Juta  

 

Patrimônio Histórico para que e para quem?

     Os monumentos da cidade representam a cultura popular? Ao andar nas ruas o que vemos são bustos e prédios como igrejas, capelas, quartéis, palácios, casarões, repartições públicas, que representam a “história oficial”. O monumento dedicado ao bandeirante “Borba Gato” é um exemplo notável desta história, que exalta os feitos bandeirantes e aponta a exaltação de São Paulo e do pretencioso pioneirismo paulistano. Porém em quais monumentos encontramos a memória da classe operária? Do trabalho e da cultura dos negros, índios, mestiços e imigrantes senão sobre tutela do colonizador português?

     A Vila Maria Zélia foi tombada em 1992 pelos órgãos CONDEPHAAT e CONPRESP, sob a justificativa de que a vila possui “bens culturais de interesse histórico, arquitetônico e social.”, portanto, ficam tombados “o traçado urbano e o conjunto de imóveis situados na Vila Maria Zélia, no bairro do Belenzinho, da cidade de São Paulo, pela sua representatividade como vila operária do início do século, por ter sido um empreendimento pioneiro e por suas características originais.

CONPRESP: Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo é um conselho vinculado à Secretaria Municipal de Cultura, apoiado pelo corpo técnico do DPH (Departamento do Patrimônio Histórico).

CONDEPHAAT: Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. Subordinado à Secretaria da Cultura. Tem como função identificar, proteger e preservar os bens móveis e imóveis do patrimônio histórico, arqueológico, artístico, turístico, cultural e ambiental do Estado de São Paulo, com a capacidade legal de tombar tais patrimônios.    

 

Monumento Borba Gato

Monumento Borba Gato

Pela cidade de São Paulo, encontramos muitos monumentos como esse. Que identidade refletem? O mito do bandeirante desbravador está vinculado ao “pioneirismo” do paulistano, ou seja, do antigo colono português.

 

Capela da Vila. Fonte: Tamires Araújo

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O bairro Vila Maria Zélia, mais que um sonho e um local pacato, significa a tentativa de apropriação de uma história coletiva, esquecida no meio da cidade. Proporciona identidade da memória, na medida em que impede o esquecimento da situação da classe operária em São Paulo, uma história de dificuldades permeadas de diversas experiências. Assim, a memória na cidade não serve de exaltação ou conservação dos ideais paulistanos, mas para repensarmos a luta dos trabalhadores, a conquista de seus direitos e a situação da moradia e da segregação entre os bairros ainda hoje.

 

Exterior do prédio da Escola das meninas.

Fonte: Taís.

Exterior do prédio da Escola das meninas. Fonte: Taís.

 

Interior da Escola dos Meninos. Fonte: Tamires.

Interior da Escola dos Meninos. Fonte: Tamires.

 
     Após o tombamento, não houve preocupação por parte do Estado em restaurar os prédios. Faltam verbas.
 
Entrada da Vila Maria Zélia - 1917
 
Entrada da Vila Maria Zélia - 1917
 
Entrada da Vila Maria Zélia hoje: muros
Entrada da Vila Maria Zélia hoje: muros

 

 

Atividades propostas

  • Realizar um trabalho de campo na Vila Maria Zélia, sob orientação de um dos moradores de lá, o Seu Dedé.
  • Visitar os arredores: Belém, Brás e tatuapé e constatar as diferenças e semlehanças.
  • Incentivar os alunos a serem fotógrafos e entrevistadores
  • Problematizar documentos da época e compará-los
  • Assitir ao filme “O Corinthiano” de Mazzaropi, que toma a vila como cenário nos anos 1960 e mostra um pouco do cotidiano e lazer so trabalhadores da cidade.