Uma Cidade se Faz no Tempo – Fotos do álbum “A Cidade da Ligth"

Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de História
Ensino de História: Teoria e Prática – Profa. Dra. Antonia Terra de Calazans Fernandes
Aluno: Gabriel Ferreira da Silva Bianchi – nº USP 5165070

Seqüência didática 1 – Uma cidade se faz no tempo – Fotos do álbum “A Cidade da
Light”

 

Para alunos do 9º ano que tenham trabalhado intensamente com a história da cidade de São Paulo
durante um semestre (seqüência elaborada para alunos da Escola Nossa Senhora das Graças).

Objetivos (conteúdos conceituais / procedimentais / atitudinais):

Contribuir para a construção do conceito de espaço público.
 

Exercitar a leitura iconográfica, identificando em seguida algumas das possibilidades e limitações da
fotografia como fonte de informação. Mostrar o papel da legenda na leitura iconográfica.

Estimular a discussão em grupo (a respeito da paisagem urbana, sua construção e maleabilidade).
Tempo previsto: três aulas de 50 minutos em seqüência (tempo de duração de aula no projeto
interdisciplinar).
 

Primeira etapa: pequeno jogo com fotografias

Dividir a turma em cinco grupos de seis integrantes aproximadamente (turma de 30 alunos)
Distribuir, impressas em papel, as fotografias retiradas do álbum “A Cidade da Light” (abaixo). As
mesmas fotos serão mostradas na parede através de retroprojetor ou datashow..

 

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(Todas as fotografias são da Avenida São João, e foram feitas a partir de diversos pontos da avenida
durante um intervalo de 30 anos, acompanhando o processo de desenvolvimento das linhas de bondes da
Companhia Light. Esta informação só será revelada depois).

 

 

Questões propostas aos alunos:

“Observem as imagens com atenção. Essas fotos foram tiradas em São Paulo no início do século XX... O
que é possível ver e perceber?”

(Passar as fotos em seqüência no projetor e deixar os alunos falarem livremente). Em seguida, propor:

“Às vezes a gente olha para uma foto e ela conta uma história para nós. Cada um vai pegar uma das fotos
e escrever num cartão o que ela conta, o que vocês vêem... Podemos dizer assim: em primeiro plano,
vemos... ; ao fundo, há... ; à esquerda... ; à direita...; no centro...”.
(Os alunos terão dez minutos para fazer esta descrição).

 

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(Após os alunos descreverem as fotografias, serão dadas novas instruções):

“Vamos juntar as fotos e os cartões e misturar tudo. Agora troquem todos os cartões com os do grupo
vizinho. Vocês precisam ler cada descrição que os colegas fizeram e achar a foto. Quando encontrarem a
foto do cartão, coloquem os dois juntos, o cartão preso na foto com um clipe para não bagunçar”.

Após a realização da atividade acima, os alunos deverão devolver o material para o outro grupo. “Agora
veremos se os colegas conseguiram encontrar a foto que cada um descreveu”.

(Perguntar para cada grupo). Em seguida, levantar as questões:

“O que mais podemos dizer dessas fotografias?”
Ex. roupas e moda diferentes, as pessoas parecem meio estranhas, tem muita coisa que não existe mais,
etc.

“Quais são as principais diferenças entre elas?”
Ex. ruas largas, ruas estreitas, prédios altos e casas baixas, meios de transporte: carro x bonde x
carroça x pedestres, espaços construídos e espaços em obras, etc.

“Tem alguma coisa que é comum a todas elas?”
Poderão surgir várias hipóteses; é importante concluir que todas as fotos mostram ruas, avenidas,
praças, ou seja, espaços públicos da cidade.

“Quem é capaz de dizer que lugares são esses? São várias ruas? Onde ficam ou ficavam?”
Levantar hipóteses junto aos alunos. Atentar para o fato de algum aluno “descobrir” que se trata da
mesma rua em todas as fotos.

Segunda etapa: legendas.

Explicar:

“Todas as fotografias foram tiradas de um livro, um álbum de fotografias. Se chama “A Cidade da Light:
1900-1930”. (Mostrar aos alunos). Cada página tem uma fotografia e, do lado oposto, uma legenda, que
ajuda a ler e a entender a foto. A Light foi uma empresa canadense, importante, dentre vários motivos,
por criar linhas de bondes elétricos que ligaram pontos distantes da cidade e a ajudar em seu crescimento
durante o período de 1900 a 1930. Por isso o álbum se chama “A Cidade da Light: 1900-1930”.

 

Em seguida, distribuir as legendas:

 

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(Repetir o jogo da primeira etapa: fotografia + descrição).

Após alguns minutos, perguntar:

“Conseguiram? Então vamos pensar na pergunta que fizemos antes: Que lugares são esses?” (Lugares
que ficam no centro de São Paulo. Projetar as imagens com as legendas).

“São várias ruas ou uma só?” (Várias ruas. Mas sempre aparece a Avenida São João).

“Quando foram feitas as fotografias?” (1900, 1902, 1913, 1924, 1930, i.e., em seqüência cronológica).

A partir das respostas dadas às questões acima, proceder à discussão tomando como pontos principais:

“As fotos mostram lugares muito próximos. Elas foram feitas no começo da Avenida São João. Mas as
fotografias mostram lugares muito diferentes, que não parecem
próximos. Parecem diferentes porque a Avenida sofreu transformações no período de trinta anos, entre
1900 e 1930. Neste sentido, as imagens mostram lugares muito distantes.”

“Falta descobrir uma coisa importante! Quem tirou as fotos, e por quê?”

Os alunos devem levantar hipóteses e poderão chegar, com a ajuda do professor, à interessante
conclusão de que as fotos foram tiradas pela Cia. Light como parte de seu procedimento técnico para a
instalação das linhas de bonde, que ocupam uma posição central nas imagens e que, no entanto, podem
ter passado despercebidas até agora.

Proposta para casa: os alunos devem buscar informações, artigos de jornais e imagens da Avenida São
João no presente e leva-los para a aula seguinte.

 

Seqüência didática 2: A cidade destrói seus caminhos?

Objetivos (conteúdos conceituais / procedimentais / atitudinais):

Contribuir para a construção do conceito de espaço público.

Exercitar a leitura crítica e atenta de artigos de periódicos, Tomar o texto jornalístico como documento
para a história da cidade.

Debate, em grupo, sobre as visões políticas e sociais veiculadas nos textos de periódicos .

Tempo previsto: três aulas de 50 minutos em seqüência (tempo de duração de aula no projeto
interdisciplinar).

Primeira etapa: leitura crítica do texto jornalístico.

Todos deverão ter trazido o material pedido (informações, artigos de jornais e imagens da Avenida São
João no presente). Pode-se esperar que boa parte dos textos tratem da degradação da avenida, que foi um
dos palcos da sociedade na capital, antes de ser aniquilada pelo projeto de vias expressas que instalou
sobre ela o Elevado Costa e Silva, o famoso Minhocão. Também é provável encontrarem artigos
relacionados a projetos de reformas e revitalizações, especialmente os relacionados à retirada do elevado,
à criação de um jardim suspenso em sua estrutura, etc.

Distribuir para todos uma cópia do artigo jornalístico “A cidade destrói seus caminhos”, publicado pela
Folha de São Paulo em 21 de maio de 1972.

Explicar:

“Todos os dias recebemos informações através de revistas e de jornais, sejam estes impressos, eletrônicos,
televisivos ou transmitidos via rádio. O texto jornalístico nos ajuda a compor a visão que temos do
presente e da realidade que nos rodeia. Ele é um dos elementos que dão forma e sentido à realidade.

“Jornais e revistas são também chamados de periódicos, porque eles são lançados periodicamente e
porque se referem a um determinado período, no qual os textos foram escritos e impressos.

“O texto jornalístico é um texto argumentativo. Ele mistura a informação factual com uma determinada
visão sobre aqueles fatos. Dessa maneira, pode ser difícil perceber de cara onde termina uma coisa e
começa outra.

“Depois que se passam muitos anos da publicação de um texto jornalístico, podemos perceber, durante a
leitura, que algumas interpretações foram responsáveis por inventar novos fatos. O texto nos informa
sobre a visão que se tinha sobre os problemas do momento, e sobre o que era ou não era considerado um
problema.

“Vamos ler juntos a matéria ‘A cidade destrói seus caminhos’, publicada pela Folha de São Paulo em 21
de maio de 1972. Nesta leitura, quero que vocês marquem de azul quais são os ‘fatos’, e de vermelho
quais são as interpretações que o jornalista dá para os ‘fatos’ ”.

“Fatos”:

A Avenida São João voltará a ter mão dupla

Os prédios residenciais estão se transformando
em prédios comerciais de pequenos escritórios

A Avenida Paulista está ocupando o lugar que
antes era da São João

Os cinemas estão indo embora

Houve um incêndio no edifício Andraus que
interditou a Avenida São João por muitos dias

O engenheiro Isao Kono, do Detran, afirmou
que acha que a São João terá importância
apenas local, para os bairros do entorno (“boca
do lixo”!!!)

Os escritórios, os cinemas luxuosos, a classe
rica abandonam o centro e a São João rumo à
zona sul da cidade
Etc.

Interpretações:

A avenida está sendo “ultrapassada” pelo
crescimento da cidade

O paulistano não se importa com a decadência
da São João

A interdição da avenida não causou grandes
transtornos à cidade.

A São João não foi dimensionada para o
trânsito que hoje teria necessidade de utilizá-la

Em meio a tantas opções, o corredor da São
João fatalmente deveria perder sua importância

A velhice chega à cidade com a mesma
inexorabilidade com que chega ao homem

Na década de 50, e até cerca de dois anos atrás
(i.e., 1970), antes da inauguração do Elevado
Costa e Silva,
a avenida São João tinha uma
nobre função, servia de corredor de trânsito, e
agora não serve mais para quase nada
Etc.

Segunda etapa:

(Após a leitura, que poderá ser feita aos poucos para que os alunos decidam sobre o que é fato e o que é
argumento do jornal sobre o fato, perguntar):

“Agora que vocês destacaram os fatos e as interpretações, queria que vocês dissessem: o que existe em
maior quantidade, trechos em azul ou em vermelho”?

“Por que será?”

Levantamento de hipóteses – o texto é inteiramente permeado de justificativas para a decadência da
avenida, tida como um evento “natural”, “biológico”.

“Quais são os principais argumentos do artigo?”

Poderão surgir argumentos diferentes, os alunos poderão discordar entre si. Mas alguns argumentos
incontornáveis são aqueles expressos no título e nos subtítulos do artigo:

“A cidade destrói seus caminhos”.

“A avenida São João é uma artéria sem vitalidade, diz o Detran”.

“A São João não foi dimensionada para o futuro”.

“Velhice, uma doença que atinge também a cidade”.

“Se tomarmos apenas estes quatro argumentos, podemos questioná-los usando as idéias presentes no
texto? A cada uma das afirmações, podemos acrescentar um – por quê? – vamos tentar?”

“A cidade destrói seus caminhos” Por quê?

“A velhice chega à cidade com a mesma inexorabilidade com que chega ao homem”. E o que é velho
precisa morrer, ser destruído, dar lugar a algo novo, que deve só por isso ser melhor?.”

“A avenida São João é uma artéria sem vitalidade, diz o Detran”. Por quê?

A Avenida São João é uma artéria? Uso da figura de linguagem (catacrese!) para associar a avenida ao
corpo humano. Se no corpo humano a artéria serve para transportar o sangue, elemento fundamental à
sua existência e sobrevivência, no corpo-cidade a avenida-artéria serve para o fluxo do automóvelsangue
da cidade! Isto pode ser destacado para ser analisado posteriormente: qual é, no nosso entender,
o “sangue” da cidade? O automóvel? O dinheiro? O conhecimento? A oportunidade de contato com
outras pessoas? Qual era a visão do jornalista de 1972 sobre este ponto? Por que será?

“A São João não foi dimensionada para o futuro”. Por quê?

Ou melhor, qual é o futuro? Quem sabe qual é? O futuro não existe como algo concreto, ele é, no
presente, apenas um projeto de um futuro. Podemos imaginar qual é o futuro neste projeto de cidade que
está expresso de maneira indireta no artigo?

“Velhice, uma doença que atinge também a cidade” Por quê?

Em primeiro lugar: velhice é sinônimo de doença? A cidade vai morrer de velhice? O que pode “matar”
a cidade? O automóvel é, para ela, um sinal de vida ou de morte? O automóvel matou a Avenida São
João?

 

Terceira etapa:

“Agora escolham um dos textos que foram trazidos de casa, peguem aquele que parecer mais completo e
com mais argumentos. Vamos fazer, cada um, uma leitura silenciosa dos textos, e marcar novamente em
azul aquilo que parecer fato e em vermelho o que parecer interpretação do fato.”

(Após dez minutos)

“Olhem para o texto que vocês acabaram de marcar. Quais são os fatos e os argumentos mais
importantes? Vamos fazer um debate com as idéias de cada texto! Você concorda ou discorda do seu
artigo? Por quê?”

(Cada aluno pedirá a vez para mostrar, defender ou criticar a argumentação de seu texto. Deve-se permitir
que um aluno faça críticas à exposição do outro, especialmente se for usar os argumentos de outro texto,
mas mantendo-se a ordem e a vez de cada um falar.)

Alguns argumentos do professor:

“Existem diferenças entre as idéias do texto de 1972 em relação aos textos contemporâneos?"

“Qual a função do espaço público (avenida) segundo seu texto?"

“Os espaços públicos ‘morrem’ de velhice? Somos nós que matamos os espaços públicos?"

“Existem vantagens ao se degradar um determinado lugar da cidade? Quem pode se beneficiar do
esvaziamento de uma região, de um bairro? Quem sai ganhando, quem sai perdendo?”

Proposta para casa:

“Se você fosse um jornalista e tivesse que escrever uma matéria sobre a Avenida São João, como você
faria? Quais fatos escolheria, e qual seria a sua interpretação? Escreva um texto jornalístico que contenha
uma boa argumentação, tente convencer seu leitor! Utilize as imagens que foram pedidas para esta aula.
Os textos serão compartilhados e analisados na aula seguinte, e poderemos escolher um ou mais de um
para serem impresso no jornal da escola”.

AnexoTamanho
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