Nacionalismo e usos do passado: a representação dos Vikings

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
Felipe Uzeda Delgado
Nacionalismo e usos do passado: a representação dos Vikings.
Ensino de História: teoria e prática
Prof. Dr. Antônia Terra de Calazans Fernandes
São Paulo
2017
 
 
 
Tema: Nacionalismo e usos do passado: a representação dos vikings.
 
Objetivo: Através da análise de quadros do romantismo escandinavo buscar-se-á trabalhar com a classe como se dá a construção do passado, de forma que a classe compreenda como se dá sua recuperação e seu uso para atender interesses específicos, no caso, interesses nacionalistas.
 
Público alvo: Terceiro colegial
 
Duração total: 1 aula
 
Materiais necessários: Projetor
 
Questões para desenvolver:
- Nacionalismo (O que é, como funciona, o que ele instrumentaliza)
- Usos da história e do passado
 
 
 
INTRODUÇÃO
A história de um povo pode ser alvo de disputas políticas em diversos momentos, como frequentemente é. O uso desse passado pode ser usado para construir uma identidade, justificar uma ação, etc. Nesta sequência didática analisaremos como se dá o uso desse passado nas pinturas, usando como caso o romantismo nacionalista norueguês.
 
A sequência didática aqui proposta tem como objetivo usar a pintura como documento em sala de aula. Aqui busca-se a pintura como forma de se analisar evento históricos. Expor um quadro de um passado que é mitologizado por filmes, livros, história em quadrinhos, etc., facilita para explicar como esse passado pode ser usado e também mostra que informações podem ser tirados não somente de livros. Mesmo sendo uma pintura do Romantismo norueguês, acredita-se que incita a procura por outras obras de arte similares.. Assim, o uso dessa ferramenta como documento se mostra viável a partir do roteiro de atividades formulado nessa sequência didática e que se verá a seguir.
 
 
Atividade 1
A primeira atividade servirá como ponto de comparação para os alunos, para que possam eles mesmos notar o conhecimento obtido através de uma pintura: Haverá a primeira exibição das pinturas do romantismo escandinavo, sem dar aos alunos muitas informações, eles devem fazer suas próprias deduções e começar a traçar algumas teorias a respeito da origem dos quadros, da sua composição, de seu objetivo, etc. É importante que seja fomentada a participação de todos os alunos, sempre deixando claro que qualquer opinião sobre o quadro é pertinente e é importante que seja compartilhada. Busca-se uma conversa prévia, em que a ideia é estimular a subjetividade de cada aluno, defendendo seus pontos e teorias.
 
 
Atividade 2
Após os debates haverá uma breve aula teórica sobre o passado Viking. As questões que devem guiar a aula são principalmente a respeito de seu caráter guerreiro, colonizador e mitológico. É importante utilizar os comentários feitos pelos alunos na atividade 1 desmistificando, contextualizando e utilizando aquele conhecimento gerado coletivamente - partindo das referências levantadas pelos próprios alunos. Para essa atividade podem também ser utilizados quadros (necessariamente diferente dos utilizados na atividade 1) para exemplificar, mostrando os caminhos da análise para que os alunos ao observarem novamente os quadros da atividade 1, saibam como fazer essa nova análise, agora com novas ferramentas.
 
 
Atividade 3
Nesta atividade os quadros serão exibidos novamente, agora os alunos farão uma nova leitura, acompanhados pelo professor. O professor deve guiar a discussão para eles discutirem as obras utilizando o conhecimento recém adquirido na atividade 2, buscando encaixar os eventos retratados em suas particularidades em um movimento maior. Se os alunos começarem a ir pelo caminho de criticar os intentos do próprio pintor, cogitarem sua inserção em qualquer tipo de ideologia, etc., é possível puxar a partir daí a questão do nacionalismo e do uso do passado. Se os alunos não caminharem nesse sentido o professor deve guiar a discussão para fechar com esse tema.
 
 
Atividade 4
Com os alunos já com algum entendimento dos quadros e do uso da história viking, a atividade 4 buscará encaixar todo esse conhecimento para discutir com os alunos o que são os movimentos Nacionalistas e como eles se articulam. É interessante mostrar como o passado era visto antes dos movimentos nacionalistas escandinavos, em que os vikings eram tidos como selvagens e como foram retratados após esse movimentos – guerreiros corajosos, fortes e estrategistas. Busca-se também mostrar o que muitas vezes estavam por trás desses quadros românticos e nacionalistas: um discurso racial de suprematismo branco, alguns pintores inclusive declaradamente nazistas.
 
 
Pinturas e análise:
Quadro: The Wild Hunt of Odin” (“A Caçada de Odin”).
Autor: Peter Nicolai Arbo
Ano: 1872
 
 
 
O autor explora nesse quadro um tema da mitologia nórdica: a visão dos nórdicos do paraíso incluía batalhas e festins:
 
"Basicamente as concepções de vida após a morte são divididas em torno de dois grandes espaços: os que morrem em batalhas, indo para o palácio do Valholl juntar-se às valquírias e ao deus Odin; e de outro lado, os que morrem de doenças, velhice ou acidentes e vão para os subterrâneos do reino de Hel. Também existem algumas variações: algumas fontes relatam que as mulheres virgens iriam para o palácio de Gefyon, outras, que elas dirigiam-se para o de Freyja. Escravos e fazendeiros seriam destinados ao reino de Thor". (LANGER, 2009, p. 134).
 
Quadro: Brudeferden I Hardanger (Bridal party in Hardanger)
Autor: Adolph Tidemand e Hans Gude.
Ano: 1848
 
 
 
Este é um quadro fundamental do romantismo norueguês, com alguns temas muito comuns nesse movimento: nacionalismo somado com o bucólico. O quadro representa um casal recém casado no primeiro barco e no segundo alguns convidados. A coroa de noiva é tradicionalmente decorado, bem como o traje de todos: do folclore nacional. O noivo é provavelmente aquele que cumprimenta com o chapéu. A paisagem em torno do casamento é de um verão sob uma montanha, com árvores verdes e os fiordes, famosos na Noruega.
 
Quadro: Leiv Eriksson
Autor: Christian Krohg
Ano: 1893
 
 
 
Este quadro representa Leiv Eriksson, um explorador nórdico. Supostamente no ano 1000 ele e sua tripulação chegaram à América do Norte, sendo assim, ele seria o primeiro europeu a pisar na América. O quadro mostra os vikings dessa expedição como bravos guerreiros, enfrentando o desconhecido e indo além do que qualquer outro homem já teria ido. A posição do homem em amarelo mostra ele apontando o dedo: sabe para onde ir, é destemido. Os escudos laterais na Drakkar (embarcação viking) são marca patentes, bem como a serpente marinha lapidada na carranca.
 
 
Quadro: Spinnkusten längs Sörlandskusten
Autor: Hans Gude
Ano: 1872
 
 
Quadro: Fra Hardanger
Autor: Hans Gude
Ano: 1847
 
 
Os dois quadros mostram como o mar e os fiordes são recorrentemente representados pelo romantismo norueguês. O mar, sempre com barcos, remete ao passado glorioso de grandes conquistadores navais. No segundo quadro percebemos que há, ao fundo, um céu negro, provavelmente se refere aos movimentos de arte anteriores que não consideravam o passado viking com orgulho, o romantismo do século XVIII – XIX vem para repensar esse modelo.
 
Quadro: The Ride of the Valkyrie
Autor: Hermann Hendrich
Ano: 1890
 
 
Como dito anteriormente um tema recorrente do romantismo nacionalista norueguês é a recuperação da mitologia, colocada como grandiosa. Aqui há uma representação de um ser mitológico importante para os vikings: as valquírias. Elas eram responsáveis por escolher os melhores guerreiros que poderão lutar ao lado de Odin na batalha final – o Ragnarok.
 
 
 
Quadro: Girl in a Field
Autor: Johan Christian Dahl
Ano: 1857
 
 
A vida simples no campo era um tema recorrente do romantismo norueguês, enfatizando essa vida simples no campo, relacionando muitas vezes com essa vida com algo mais puro, usando para isso Rousseau e o mito do bom selvagem.
 
 
Quadro: Seilbater Pa Fjorden
Autor: Hans Gude
 
Quadro: The Lower Falls of the Labrof
Autor: Johan Christian Dahl
Data: 1827
 
Johan Christian Dahl procura mostrar nesse quadro a força da natureza.
 
 
 
Quadro: Grotto by the Bay of Naples
Autor: Johan Christian Dahl (1788–1857)
Data: 1821
 
 
 
Neste quadro a luz tem um papel importantíssimo de destaque para a embarcação: mesmo no meio do mar revolto, ela se mantém firme. As navegações vikings eram leves e rápidas, suportavam as ondas e tinham muita vantagem sobre os outros tipos de navegação.
 
 
Quadro: Håkon the Good and the Farmers at the Sacrifice of Mære
Autor: Peter Nicolai Arbo
Ano: 1860
 
O romantismo norueguês tratou de recuperar a origem do parlamento, invenção viking. Os islandeses foram o primeiro povo a contar no seu sistema político com um parlamento, motivo muito buscado pelo romantismo norueguês para argumentar contra a visão anterior sobre os vikings: guerreiros de pilhagem e selvagens.
 
 
Quadro: Scene from the era of Norwegian Saga
Autor: Knud Baade.
Ano: 1850
 
Esse Quadro representa a cena de uma saga norueguesa. As sagas narram os feitos dos heróis nórdicos, enfrentando bestas, dragões e outros vikings. As sagas, além das pinturas, também compuseram o nacionalismo norueguês
 
Autor: Floyd Johnson
 
 
Bibliografia: LANGER, Johnni. Vikings. In: As Religiões que o Mundo esqueceu. FUNARI, Pedro Paulo (org.), São Paulo, Editora Contexto, 2009, p. 130-143.
 
SALIBA, Elias Thomé. As imagens canônicas e o ensino de história. III Encontro: Perspectivas do ensino de história. Curitiba: UFPR, 1999.
 
BITTENCOURT, Circe. Experiências e representações sociais: reflexões sobre o uso e
consumo das imagens. In. BITTENCOURT, Circe (org.). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2002.
AnexoTamanho
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