Imigração em São Paulo – uma abordagem humanizada e contemporânea

São Paulo, 14 de dezembro de 2016.
Discente: Gustavo Pereira Machado de Melo Souza - Nº USP 8510601
 
Trabalho final da disciplina “Uma História para a Cidade de São Paulo: Um Desafio Pedagógico” (FLH0425)
Prof. Drª. Antonia Terra Calazans Fernandes
Departamento de História, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Universidade de São Paulo
 
 
Proposta Didática
Imigração em São Paulo – uma abordagem humanizada e contemporânea
 
 
“São Paulo, enorme de casas e gentes.
Casas e gentes de todos os estilos.
Cosmópolis.
Resumo do mundo.
Veja, pense:
- Lá, ali, por aí plantaram a sua vida de trabalho
povos de toda a terra.”
 
Guilherme de Almeida. Cosmópolis.
São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1962, p.12
 
 
 
 
I. Contexto e objetivos
 
 
Com frequência quando se ensina ou debate imigração o foco é sobretudo em questões econômicas e de mão-de-obra, secundarizando os aspectos humanos do fenômeno. Antese qualquer importância social ou estratégica, a imigração é uma escolha individual de grande impacto, a escolha de mudança radical de vida. A abordagem de ensino da temática proposta no presente projeto focaliza essa dimensão humana da imigração, sem abandonar os aspectos meramente econômicos ou estratégicos. Como ensinar história de pessoas pensando só em números? Aqui buscaremos trazer questões importantes para as pessoas imigrantes em si, mas que têm importância para a formação cidadã e em história de estudantes, que são quem recebe e receberá imigrantes contemporâneos e futuros.
 
 
O projeto apresentado é destinado ao ensino da temática imigração para estudantes de Ensino Fundamental II ou Ensino Médio. Ele será baseado na dialogicidade e participação, e busca ser uma aula diferente das que geralmente são dadas. Assim, constrói-se o aprendizado ao invés de impô-lo, tornando o processo mais eficaz e prazeroso. Considerando que no currículo obrigatório de história há pouco espaço para experimentação, o educador ou a educadora pode adaptar o presente projeto para uma ou duas aulas, de acordo com a disponibilidade e o interesse da classe. Encoraja-se fortemente que a(s) aula(s) inspiradas nesse projeto sejam realizadas com as carteiras da sala de aulas dispostas em círculo ou em pequenos grupos, para estimular a
participação e o aprendizado de cada estudante, mas se tal disposição não for possível ou gerar mais transtornos que vantagens, deve ser repensada.
 
A ideia do projeto é criar um ambiente diferente daquele que geralmente se tem nas escolas, instigando o interesse pelo tema. Serão propostas diversas abordagens e temas, mas cabe ao educador ou à educadora adaptá-los de acordo com as necessidades de cada turma. O projeto é inspirado na pedagogia de Paulo Freire, e por isso deve ser apropriado de acordo com a realidade em que se insere. As imagens utilizadas podem ser projetadas para a sala ou impressas e distribuídas ao(s) grupo(s). Posto isso, seguimos para a temática.
 
 
 
II. O tema
 
A imigração é uma temática contemporânea que não pode ser compreendida sem seus antecedentes históricos. Como o projeto aqui desenvolvido é parte de uma disciplina sobre a história da cidade de São Paulo, teremos esse espaço geográfico como foco prioritário. Entretanto, a temática pode ser também abordada sob as óticas regional, nacional e internacional, de acordo com as necessidades da turma. Além disso, o foco será as migrações internacionais e não as domésticas. Ambas são indissociáveis e precisam ser estudadas em conjunto, mas por questões de espaço o projeto se restringirá a problematizar a hierarquização que existe entre elas.
 
A imigração é colocada num papel protagonista na história brasileira, paulista e paulistana. A atual exaltação de determinados fluxos como o de italianos, alemães, eslavos e japoneses guarda por trás um triplo esquecimento: dos migrantes nacionais, das outras nacionalidades (sobretudo as de maioria negra) e da longa discriminação sofrida por esses grupos hoje exaltados. A cidade de São Paulo frequentemente se coloca como possuidora de uma forte herança italiana e japonesas, materializadas nos bairros da Liberdade e da Mooca. No entanto, essa interpretação se dá pela invisibilização ou ofuscamento da contribuição de outros povos, como os negros (que dominaram por décadas o bairro da Liberdade), os indígenas, os migrantes nacionais (sobretudo nordestinos) e até mesmo os sírios, turcos e libaneses, homogeneizados na categoria “árabes”.
 
A sequência didática aqui proposta visa desmitificar os mitos que se formaram em torno da temática migratória, buscando mostrar a contribuição de um número maior de povos na construção e desenvolvimento da cidade. Além disso, escolheram-se questões importantes de serem debatidas frente aos fluxos migratórios contemporâneos e que tangenciem o dia-a-dia dos alunos, seja nos respectivos bairros ou nas regiões centrais da metrópole.
 
 
 
III. A sequência didática
 
A proposta pedagógica aqui sugerida parte de perguntas geradoras, que instigam a participação da turma e dirigem o debate para o aprendizado histórico a partir de problemáticas contemporâneas.
 
A fim de se prover um gatilho para as intervenções estudantis, serão propostas 3 perguntas geradoras. De acordo com as intervenções (ou falta delas), a educadora ou o educador deve introduzir as imagens oferecidas a seguir (ou outras que venha a desejar) para qualificar o debate e introduzir conceitos e fatos históricos importantes para a formação educacional e crítica dos e das estudantes. Junto das imagens serão levantados os temas e questões que podem ser desenvolvidos a partir delas.
 
 
1ª pergunta geradora: Quando falamos em imigração, qual a primeira coisa que vem na sua cabeça? Pense em coisas da cidade, do dia-a-dia.
 
Recomendar um dos seguintes filmes e reportagens (ou trechos deles) para serem assistidos em casa, antes da aula, ou até mesmo passá-los em sala de aula pode contribuir para que os e as estudantes respondam com maior facilidade a 1ª pergunta geradora:
 
 São Paulo, a capital da Bolívia (2012) – Direção de João Markun, Paola Schüler e Sarah Paviani
 
“Conta por meio de pesquisadores e pelos próprios bolivianos migrantes como essa nova comunidade se insere na cidade. O verdadeiro motivo que traz os bolivianos a São Paulo, como são recepcionados, sua real condição de trabalho e a forma como mesmo a 1300 km de distância de seu país ainda mantêm sua cultura e tradições é o que conta o documentário. Todo o preconceito criado em cima de um estereótipo é quebrado.”
 
Disponível em: https://vimeo.com/54523509
 
 Nova onda de imigração atrai para São Paulo latino-americanos e africanos (2015) – TV Folha
 
"O sotaque estrangeiro no Centro de São Paulo acompanhou a ascensão da cidade, desde a popular Rua 25 de Março, cuja vocação comercial foi despertada pelos árabes, à sede da Prefeitura, antigo prédio dos italianos Matarazzo. Se hoje os novos imigrantes vêm de locais tão distintos quanto Bolívia e Senegal, o destino continua sendo o centro de São Paulo."
 
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1579103-nova-onda-de-imigracao-atrai-para-sao-paulo-latino-americanos-e-africanos.shtml
 
 
 Era o Hotel Cambridge (2016) – Direção de Eliana Caffé
 
“Narra a trajetória de refugiados recém-chegados ao Brasil que, juntos com trabalhadores sem-teto, ocupam um velho edifício abandonado no centro de São Paulo.“
 
 Cosmópolis (2005) - Direção, roteiro e montagem de Camilo Tavares, Otavio Cury e Cói Belluzzo.
 
“Investiga a agitada vida paulistana através de paralelos entre a história da cidade e os universos de 12 de seus habitantes: comerciantes árabes e judeus, uma camelô boliviana, repentistas nordestinos, um campeão de karaokê e outros, que traduzem o jeito de ser dessa cidade de extremos.”
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Q_XWsXGpVwY
 
 
1 O filme estreou recentemente e até a data de entrega do presente trabalho, não foi disponibilizado online, conferir disponibilidade quando da aplicação do projeto.
 
 
 Gaijin – Os Caminhos Da Liberdade (1980) – Direção de Tizuka Yamasaki
 
“No início do século XX um grupo de japoneses vem para o Brasil, para trabalhar em uma fazenda de café em São Paulo. Lá eles encontram dificuldades para se adaptar pois são tratados com hostilidade, tendo que trabalhar quase como escravos e são roubados pelo patrão. Apenas alguns colonos os tratam bem, entre eles, Tonho, o contador da fazenda.”
 
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=I8J7SSj5iTg
 
 
A partir da 1ª pergunta geradora provavelmente alguém citará o bairro da Liberdade e seus restaurantes japoneses. Pode ser que apareçam também comentários sobre os vendedores ambulantes do continente africano, ou até mesmo a presença de comerciantes de origem síria e libanesa, ou os bolivianos do bairro, ou as sinagogas na cidade. As respostas vão depender das regiões em que o ou a estudante vive e circula. Para uma identificação maior com a temática, é interessante que o educador ou a educadora traga referências históricas da presença imigrante no bairro em que a escola se localiza.
 
As imagens a seguir (Seção de imagens nº 1) podem auxiliar provendo referências históricas e contemporâneas da presença de imigrantes na cidade, permitindo também a comparação histórica da ocupação dessa população:
 
1. Loja de tecidos síria ou libanesa na Rua 25 de Março, no início do século XX. Disponível em: http://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/arabes/insercao-no-mundo-do-trabalho.html
 
2. Italiano vendedor ambulante de frutas, no início do século XX. Disponível em: http://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/italianos/os-imigrantes-nas-cidades.html
 
3. Boliviana vendedora ambulante, na Avenida Paulista, em 2015. Disponível em: http://migre.me/vIVX3
 
4. Saudades de Nápoles (1895), pintura de Bertha Worms. A obra retrata um menino italiano engraxate, figura bastante comum nas ruas de São Paulo na época. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Bertha_Worms#/media/File:Bertha_Worms_-_Saudades_de_N%C3%A1poles,_1895.JPG
 
5. Camelôs haitianos no Brás, em 2016. Disponível em http://www.diariosp.com.br/noticia/detalhe/89640/haitianos-se-viram-como-camelos-em-sao-paulo
 
 
Seção de imagens nº 1
 
 
 
Com a imagem a seguir, podemos abordar a distribuição da população imigrante dentro da cidade. Apesar de uma pequena porcentagem de imigrantes ricos, sobretudo europeus, viver em bairros de classe alta como Morumbi e Jardins, a grande maioria se localiza nas periferias das zonas Sul, Leste, Norte e Oeste e na região central. No Pari, Brás, Belém e Bom Retiro se concentram os imigrantes que trabalham em oficinas de costura, muitas vezes em condições análogas à escravidão. Essa população, juntamente com a de origem africana, migra cada vez mais para bairros afastados como São Mateus, Guaianases, Anhanguera e outras cidades da Região Metropolitana, como Carapicuíba. Bela Vista, Sé, Brás e República concentram imigrantes e refugiados haitianos e do continente africano (congoleses, senegaleses, malineses, nigerianos, angolanos), muitos dos quais vivem em ocupações desses bairros e amparados por instituições que se localizam nessas regiões, como a Caritas Arquidiocesana de São Paulo, na Sé, e a Missão Paz, no Glicério.
 
Disponível em: https://historiasdopari.wordpress.com/2013/05/05/pari-tem-indice-grande-de-imigrantes/
 
 
 
.2ª pergunta geradora: Por que há/houve tantos imigrantes em São Paulo?
 
Com essa pergunta é possível que surjam aspectos históricos como “necessidade de mão-de-obra para a lavoura do café”, “desenvolvimento da indústria”, “guerra na Europa”, “promoção da imigração pelos governos italiano, japonês”. Porém, é mais provável que surjam respostas como “porque São Paulo é o principal centro econômico do Brasil”. Se de fato ocorrer, é necessário desconstruir o simplismo implícito nesta colocação, trazendo para o debate os antecedentes históricos da pujança econômica paulista e a construção da identidade paulista e paulistana como diferenciada do resto do país. Se a turma já tiver aprendido, é interessante contextualizar essa criação de identidade sobretudo no contexto de perda do poder político com a Revolução de 1930 e a consequente “Revolução” Constitucionalista de 1932.
 
Apesar de serem importantes esses conhecimentos conjunturais deve-se buscar instigar a visão humanizada do imigrante: por que essas pessoas vinham pro Brasil? Quais eram as condições em que viviam em seu país natal? Estavam seguros? Quais eram as condições nos barcos que partiam da Europa e do Japão rumo ao Brasil? Assim os e as estudantes poderão compreender o fluxo migratório para além de seu aspecto de Estado. As mesmas reflexões devem ser feitas sobre a imigração hoje em dia.
 
Também é importante desmitificar o argumento oficial de necessidade de mão-de-obra. Com a abolição da escravidão, milhares de ex-escravos ficaram desempregados. Por que eles não se tornaram empregados remunerados na lavoura? Por que ex-escravos de outras partes do país não migraram para São Paulo (ou ainda do Vale do Paraíba para o Oeste Paulista)? Pagar para quem outrora trabalhou sob o regime de escravidão não parecia palpável para as elites brasileiras daquele momento. Junto da ânsia de embranquecimento da população, marginalizou os negros e investiu na importação de mão-de-obra.
 
Questão importante: se não surgir no debate, é importante instigá-la - e a imigração hoje? Por que tantos grupos de nacionalidades chegam a São Paulo? Desde a década de 80 a comunidade latino-americana vem crescendo muito sua representatividade na cidade (sobretudo bolivianos, peruanos, paraguaios, chilenos e colombianos). A quantidade de bolivianos já ultrapassou a de italianos. Mas encontramos restaurantes bolivianos com a mesma frequência que italianos? Circulam na cidade da mesma forma que os descendentes de italianos? Migrantes bolivianos são vistos pela sociedade da mesma forma que os italianos são vistos hoje? A partir dos anos 2010 os fluxos de nacionalidades de maioria negra se intensificaram: congoleses, senegaleses, malineses, nigerianos, angolanos, haitianos. Com o aprofundamento da Guerra Civil na Síria e a continuidade das violações de direitos humanos na República Democrática do Congo, o fluxo de sírios e congoleses aumentou enormemente. Em quais locais vemos essas pessoas? Qual o posicionamento delas na sociedade? Qual a visão da sociedade paulistana sobre imigrantes e refugiados muçulmanos? É importante aqui ressaltar a diferença entre imigrante e refugiado:
 
 Refugiado é alguém que “temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país” (Convenção de Refugiados de 1951).
 Imigrante é alguém que opta buscar uma vida melhor em outro país. Muitas vezes é impelido a fazê-lo, por causa de desemprego, situação de pobreza, economia em recessão, etc. Mas não há violação generalizada dos direitos humanos no seu país ou fundado temor de perseguição como no caso de refúgio.
 
Disponível em: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/37405/Sao+paulo+nao+trata+imigrantes+com+dignidade+diz+secretario+de+direitos+humanos.shtml
 
 
As imagens, mapas e gráficos a seguir podem auxiliar os e as estudantes a entenderem melhor o porquê da enorme presença imigrante na cidade, sobretudo desde os fins do século XIX. O professor ou a professora deve tentar primeiramente que a turma interprete sozinha as imagens, para então explicá-las ou propor as perguntas sobre elas.
 
As 4 primeiras imagens (Seção de imagens nº2) são relativas à promoção da imigração rumo ao Brasil. As 2 imagens da primeira fileira podem servir para falar dos interesses estratégicos e econômicos dela para o governo brasileiro e paulista e para a cafeicultura paulista. A imagem da esquerda é a capa do 1º volume da revista “O Immigrante” (1908) (pode ser encontrada na íntegra em http://www.rodrigotrespach.com/wp-content/uploads/2012/05/O-Imigrante-19...). Publicada pelo Estado de São Paulo em português, espanhol, italiano, francês, alemão e polonês, trazia aos imigrantes chegados ao Porto de Santos informações e propaganda sobre o processo migratório e fazendas de café. A imagem da esquerda (disponível em http://www.museoemigrazioneitaliana.org/assets/Uploads/thumbs/_resampled...) é um guia de emigração do governo paulista para italianos interessados em vir para cá. Publicações do tipo eram comuns para os países que queriam promover imigração, e mostravam imagens de fartura e belezas na terra de destino.
 
 
Seção de imagens nº 2
 
As imagens da última fileira são propagandas de incentivo à imigração para o Brasil. A da esquerda é oficial, do governo japonês2, e a da direita é da empresa alemã de transporte de imigrantes e mercadorias Hambur Süd3 (imagens dispoíveis em https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/de/7c/87/de7c87983b0a3d7571397... e http://wp.clicrbs.com.br/almanaquegaucho/2014/08/page/2/?topo=13%2C1&sta...). Em conjunto com as imagens anteriores, permite ao educador/ à educadora explicar os interesses de Estado e das companhias de transporte na imigração. À medida que diminuíam os incentivos à imigração do governo brasileiro ou paulista, os fluxos migratórios continuaram, em decorrência da propaganda das companhias de transporte e da situação deteriorada nos países de origem.
 
Os mapas e gráficos da próxima seção (Seção de imagens nº4) permitem contextualizar o Estado de São Paulo dentro da conjuntura econômica e migratória nacional. Eles podem ser encontrados pelo seu código, indicados abaixo de cada imagem, no site http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/repositorio_digital/documento_cartografico.
 
Apesar de ser uma política do Estado brasileiro atrair imigrantes, para povoar o Sul, embranquecer a sociedade e expandir a lavoura do café, a distribuição dos imigrantes é desigual dentro do território nacional. Como demonstram os gráficos, São Paulo é o estado onde se concentra a maior parte dos imigrantes atraídos, devido à necessidade de sua mão-de-obra para a expansão da lavoura do café. Aqui é importante citar os tipos de contrato que se estabeleceram entre cafeicultores e imigrantes, como por exemplo o colonato; e a Lei das Terras, que mantinha os interesses dos latifundiários frente aos recém-chegados.
 
O estado de São Paulo inicia em 1884 sua política de atração de imigrantes, mas se torna o principal protagonista a partir da década de 10 do século XX. É importante ressaltar que, apesar da maioria da mão-de-obra imigrante ser introduzida na cafeicultura, diversas outras famílias se inseriram em outros setores, como os japoneses no hortifrutigranjeiro, os portugueses, turcos, sírios e libaneses no comércio e os italianos na indústria.
 
2 Tradução livre: "Vamos lá, com a família inteira, para a América do Sul!"
3 Tradução livre: "Com destino ao Sul do Brasil - Santa Catarina etc. / Um lar para colonos alemães. / Clima saudável / Condições favoráveis para o trabalho da terra. / Empreendimento e administração alemãs."
 
 
Seção de imagens nº 3
 
 
 
A seção de imagens seguinte (Seção de imagens nº5) permite informar à classe a composição por nacionalidade dos imigrantes chegados em São Paulo e sua relação com o desenvolvimento urbano e industrial da cidade e do estado. A educadora ou o educador devem contextualizar o processo de industrialização e urbanização pelo qual a cidade de São Paulo passou e sua relação com os imigrantes italianos, o trabalhismo e o anarquismo. O quadro “Os Operários” (1933) de Tarsila do Amaral pode ser utilizado para uma dupla análise: da industrialização paulista (e a exaltação dela por meio do modernismo) e da composição étnico-racial da população paulistana. Além das chaminés de indústria ao fundo da tela, Tarsila representa brasileiros e imigrantes de diversos tipos que trabalhavam na cidade.
 
O último gráfico mostra o vertiginoso aumento da migração de brasileiros para São Paulo nas décadas de 20 e 30 do século XX. Cabe ao professor ou à professora indagar se os avós ou bisavós de alguém da turma participou desse fluxo, o que é muito provável de haver. A migração nordestina para a cidade e o estado de São Paulo são secundarizadas e até hoje existe um grande preconceito com essa população. Esse problema deve ser tratado na sala de aula, perguntando se alguém já sofreu esse tipo de discriminação. Também se deve buscar problematizar com a turma por que a imigração europeia é tão exaltada e a migração nordestina tão mal vista.
 
 
 
Seção de imagens nº5
 
Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/discovirtual/galerias/imagem/0000000900/0000009520.jpg
 
 
 
3ª pergunta geradora: Como a sociedade brasileira recebe imigrantes? Como se dá e se deu a integração deles na sociedade brasileira?
 
Com esse último grande questionamento queremos desenvolver novamente a capacidade de fazer paralelismos entre presente e passado e de analisar criticamente o dia-a-dia de cada um(a) e da cidade. Aqui podem surgir comentários sobre alguns mitos como “brasileiro é um povo que recebe bem” ou da “democracia racial”. É importante que o educador ou a educadora traga fatos históricos e contemporâneos que provem o contrário, como será apresentado a seguir.
 
Os trechos de jornal da Seção de imagens nº6 fornecem informações que contradizem as narrativas contemporâneas da imigração
 
1. Selo comemorativo dos 80 anos da imigração japonesa no Brasil (1988). Disponível em: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/236x/11/47/81/1147811fac367859a54745f02c0c16a9.jpg
 
2. Excerto do jornal santista A Tribuna de 18 de junho de 1908. Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/fotos088.htm
 
3. Trecho da edição do jornal carioca A Rua de 2 de setembro de 1916. Disponível em: http://midiacidada.org/sentindo-se-roubado-nesse-negocio-por-que-alemaes-estao-deixando-o-brasil-da-decada-de-1910/
 
4. Trecho de editorial do jornal Folha da Manhã de 25 de fevereiro de 1926. Disponível em: http://midiacidada.org/dois-seculos-de-imigracao-no-brasil/
 
5. Navio Kasato Maru, atracado pela primeira no Porto de Santos, 17 de junho de 1908. Trouxe a 1ª leva de imigrantes japoneses para a lavoura do café em São Paulo. Disponível em: http://www.novomilenio.inf.br/santos/fotos088.htm
 
6. Haitianos desembarcam na rodoviária de Porto Alegre, em 2015. (Foto: Secretaria de Direitos Humanos / Divulgação) Disponível em: http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/06/onibus-com-28-haitianos-desembarca-em-porto-alegre.html
 
As imagens 1 e 2 mostram com clareza a diferença: enquanto em 1988 comemorávamos a imigração japonesa, 80 anos antes, com a chega dos primeiros japoneses, os jornais e a população temiam o “perigo amarelo”. A imigração chinesa e japonesa eram indesejáveis pois se acreditava que essas nacionalidades formavam uma “sociedade própria”, inassimilável, em que utilizavam sua língua e interagiam somente com seus compatriotas, além de constituírem “raça inferior”, diametralmente oposta a nossa (qual seria a “nossa” raça?). Isso foi um dos motivos para o início tardio dos fluxos dessas nacionalidades. Começaram a povoar o bairro paulistano da Liberdade a partir de 1912, primeiramente na Rua Conde de Sardezas e depois na Rua dos Estudantes, onde viviam em porões de aluguéis baratíssimos.
 
A xenofobia com japoneses é maximizada com o início da 2ª Guerra Mundial, quando ecoa a discriminação nos EUA e dos seus “campos de internamento” para nisseis. O Estado novo baixou diversos decretos restringindo a liberdade de nacionais dos países do Eixo que residiam no Brasil, mas a hostilidade foi maior com japoneses do que com alemães e italianos. Nenhum deles poderiam usar suas línguas maternas no Brasil, mas para muitos que ainda não falavam português, essa medida representou marginalização. Sob a desconfiança de sabotagem, japoneses não podiam conduzir automóveis sem autorização policial, foram restringidos de viver no litoral (Santos sobretudo) e os bens das empresas nipônicas foram confiscadas. Com a criação da organização Shindô-Renmei após o fim da guerra, mais estigmas recaem sobre a comunidade japonesa: fanática e terrorista.
 
 
 
Seção de imagens nº6
 
 
 
Pode-se fazer um paralelo das condições insalubres em que os japoneses viviam no bairro da Liberdade com a dos imigrantes hoje em dia. Qual a possibilidade de um(a) imigrante ou refugiado(a) recém-chegado pagar um aluguel na cidade de São Paulo? A grande maioria não tem condições, e acaba vivendo em ocupações na região central ou em cortiços com diversas outras famílias imigrantes. Quem trabalha no setor têxtil frequentemente mora no local de trabalho, geralmente em condições insalubres e com jornadas de trabalho excessivas, constituindo trabalho análogo à escravidão. Até 2014, quando foi inaugurado o Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI) da Prefeitura Municipal, São Paulo não tinha nenhum abrigo público para imigrantes, delegando a acolhida a instituições religiosas.
 
 
As imagens 5 e 6 permitem também uma comparação das condições insalubres de transporte de imigrantes. Enquanto no século passado muitos imigrantes europeus e japoneses pobres vinham para o Brasil com passagens de 2ª e 3ª classe, onde frequentemente havia má higiene e superlotação, em 2013 e 2014 a maioria dos haitianos que entraram no país por Brasileia, no Acre, utilizaram-se de rotas terrestres clandestinas desde Quito ou Lima, onde eram extorquidos e roubados e ao atravessarem a fronteira vivenciaram uma crise humanitária no Acre, que depois os enviou de ônibus para estados do Sul e Sudeste.
 
 
Com os efeitos da crise econômica que o Brasil vem sofrendo desde 2014, muitos haitianos reimigraram do Brasil para o Chile, Argentina e EUA. Apesar de pouco noticiado na mídia, muita gente viu isso como um oportunismo por partes deles, sem pensar nas condições humanitárias e que os levam a imigrar. (Mais informações: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/05/1768958-para-fugir-da-cri... ) É um cenário muito semelhante ao que se pensava dos alemães no século passado, como demonstra a imagem 3. O jornal A Rua instiga que os brasileiros se sintam roubados pelos alemães, que apesar de custeados pelo governo em sua chegada e estabelecimento, posteriormente reimigraram para o Paraguai e para a Argentina.
 
A imigração italiana era vista como mão-de-obra barata, para baixar o preço do café e aumentar o lucro da elite cafeeira. Muitos dos italianos burlavam as leis migratórias e as instituições responsáveis para ficar na cidade de São Paulo (como mostra a imagem 4), onde sofriam preconceito por causa de seu sotaque. O mesmo que assola os imigrantes de países falantes de espanhol ou francês na cidade hoje. Cabe perguntar: como valorizamos os sotaques da cidade? O sotaque interiorano paulista é pejorativamente cunhado de “caipira”, há nordestinos que vão a fonoaudiólogos(as) para perder seu sotaque. A mesma discriminação não ocorre frequentemente, por exemplo, com um sotaque italiano hoje. Apesar de já incorporada na narrativa da construção identitária paulista e paulistana, ainda hoje há preconceito linguístico com japoneses, como nas recorrentes piadinhas do tipo “pastel de flango”.
 
A comunidade italiana ascende socialmente após a quebra do café decorrente da Crise de 29, podendo ser incluídos na identidade de construção da cidade e do país. Com o fim da 2ª Guerra Mundial e do Estado Novo, a concepção do Brasil como "paraíso racial" passa a ser propagada nos mais diversos meios sociais, perseverando até hoje e fazendo parte do discurso oficial do Estado desde então. Cabe indagar aos e às estudantes se acreditam nisso, trazendo os casos de racismo e xenofobia destacados abaixo para qualificar o debate. Também se pode instigar uma comparação: qual a presença da cultura italiana e japonesa no nosso dia-a-dia, comparada à boliviana ou congolesa? Como olhamos para os imigrantes de cada nacionalidade?
 
 Caso Zulmira Cardoso: em 2012, um grupo de brasileiros brancos atirou em um grupo de estudantes africanos que conversavam em uma esquina do Brás, pouco após uma discussão em um bar onde os africanos foram chamados de "macacos" e "ladrões de empregos". A estudante angolana Zulmira Cardoso morreu na hora, com um tiro na testa, e se tornou símbolo da violência xenofóbica e racista na cidade e no país. Para mais detalhe deste e outros casos de imigrantes assassinados no Brasil, acesse http://zulmirasomosnos.blogspot.com.br/ e/ou http://www.ceert.org.br/noticias/violencia-seguranca/2385/caso-zulmira-alerta-para-o-duplo-preconceito-vivido-por-africanos-no-brasil
 
 Caso Brayan: em 2013 causou grande comoção nacional e mobilização na comunidade imigrante paulistana. Brayan, um menino boliviano de 5 anos foi morto durante um assalto a sua casa no bairro de São Mateus. As casas de imigrantes eram alvo de quadrilhas de assaltantes porque, devido à dificuldade de sua bancarização,
guardavam grandes quantias de dinheiro em casa. Após o trágico assassinato, os trâmites para abertura de contas por imigrantes, especialmente bolivianos, foi facilitado. Informações adicionais no link https://oestrangeiro.org/2013/07/03/bolivianos-sofrem-racismo-xenofobia-e-pobrefobia/
 
 Caso Maristela Basso: em 2013 a professora de direito internacional da USP Maristela Basso deu uma declaração em cadeia nacional dizendo que “A Bolívia é insignificante” e “os bolivianos que vem de lá não contribuem para o desenvolvimento tecnológico, cultural, social e desenvolvimentista do Brasil”. O trecho em que ela faz a declaração pode ser encontrado em https://www.youtube.com/watch?v=bFJ-MnogWXk . Esse episódio de xenofobia pode servir de exemplo para mostrar a visão que os brasileiros têm, e que é muito popular mundo a fora, de que imigrantes de países ditos “desenvolvidos” são qualificados e vêm para ajudar no desenvolvimento do país, dão uma contribuição positiva para a economia e para o desenvolvimento, enquanto imigrantes dos países ditos “em desenvolvimento” vêm para “roubar empregos” e “usufruir dos nossos serviços públicos”. É um preconceito não só de nacionalidade, mas também de cor e raça.
 
 
 
IV. Últimas considerações
 
Se a educadora ou o educador interessado(a) em aplicar o projeto em sala precisar buscar mais informações sobre o cenário atual da imigração na cidade de São Paulo e no Brasil, pode recorrer ao portal MigraMundo.com, que conta com notícias diárias sobre o tema. Se forem necessários ou se houver interesse em trabalhos acadêmicos que tratem da temática migratória (por nacionalidade, período histórico, tema, etc.), pode-se se recorrer ao Portal Cosmópolis (http://www.cosmopolis.iri.usp.br), um projeto de extensão universitária da USP. O portal “Dois séculos de imigração no Brasil pela imprensa” (http://midiacidada.org/) mostra a abordagem jornalística sobre a imigração desde 1818, fornecendo diversos excertos de jornais sobre o tema. O acervo digital do Museu da Imigração (http://www.inci.org.br/acervodigital/) também é uma rica fonte de material para o debate.
 
Deve-se buscar na aula aliar os diversos aspectos que rodeiam a imigração em São Paulo, como o cenário nacional, estadual, municipal e internacional e a imensa gama de causas mais imediatas, que vão desde a propaganda das companhias de navegação, passando pelas cartas de chamada dos emigrados e a demanda de mão-de-obra. O projeto aqui proposto é um formato ideal, mas deve ser adaptado de acordo com as capacidades e necessidades de cada turma. As perguntas e abordagens devem variar em resposta ao tipo de interação que se estabelecerá.
 
Quando achar conveniente, o educador ou a educadora pode também trazer a produção artística imigrante em São Paulo ao conhecimento da sala. Valorizar a cultura dos imigrantes contemporâneos é importante para sua integração na sociedade brasileira, bem como para o reconhecimento da sua importância na construção da sociedade e cultura nacional. O projeto Visto Permanente (http://www.vistopermanente.com/) fornece um extenso acervo das novas culturas imigrantes na cidade de São Paulo.
 
Se possível, após a(s) aula(s) que tratarem de imigração, seria de grande valia a organização de uma visita ao Museu da Imigração, no prédio da antiga Hospedaria de Imigrantes da Cidade de São Paulo, próximo à estação de metrô Bresser-Mooca. O Museu conta com uma equipe educativa muito bem capacitada para trabalhar com diversos tipos de públicos, que instigaria ainda mais o interesse que o presente projeto deveria despertar nos e nas estudantes. No portal do LEMAD também está disponível uma sequência didática de 2010 intitulada “Memorial do Imigrante” que propõe um guia de visita ao Museu. Apesar de obsoleto, já que o Museu passou por uma reforma em 2014, muitas das considerações podem ser reaproveitadas na atualidade.
 
 
 
V. Bibliografia
BRASIL. “Discriminação por Nacionalidade dos Imigrantes Entrados no Brasil no Período de 1884-1939”. Revista de Imigração e Colonização, vol. 1, n.3, pp. 617-642, jul. 1940
 
CALIXTO, Dodô; ROCCELO, Mariane. São Paulo não trata imigrantes com dignidade, diz secretário de Direitos Humanos. Opera Mundi, São Paulo, 16 de agosto de 2014. Disponível em <http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/37405/Sao+paulo+nao+trata+imigrantes+com+dignidade+diz+secretario+de+direitos+humanos.shtml> Acesso em: 12 de dezembro de 2016.
 
CAMPOS, Gustavo Barreto de. Dois séculos de imigração no Brasil - A construção da imagem e papel social dos estrangeiros pela imprensa entre 1808 e 2015. 2015. 544 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Cultura), Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
 
CENNI, Franco. Italianos no Brasil. São Paulo: EDUSP, 2003.
 
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005, 42.ª edição
 
IBGE. Brasil 500 anos - território brasileiro e povoamento. 2007. Disponível em <http://brasil500anos.ibge.gov.br/territorio-brasileiro-e-povoamento/> Acessado em 12 de dezembro de 2016.
 
PERRIN, Fernanda. Nova onde de imigração atrai para São Paulo latino-americanos e africanos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 23 de janeiro de 2015. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/01/1579103-nova-onda-de-imigracao-atrai-para-sao-paulo-latino-americanos-e-africanos.shtml>. Acesso em: 11 de dezembro de 2016.
 
SHIZUNO, Elena Camargo. Bandeirantes do oriente ou “perigo amarelo”: os imigrantes japoneses e a DOPS na década de 40. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 23., 2005, Londrina. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História – História: guerra e paz. Londrina: ANPUH, 2005. CD-ROM.
 
TUCCI CARNEIRO, Maria Luiza. Distintos olhares: Intolerância e a representação do “Outro” nos séculos XIX e X. Navegar,vol. 2, nº 2, Jan.-Jun. 2016, pp. 121-143
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