Futebol e Geopolítica - Guerra da Bósnia: Genocídio e Resistência

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
FLH0421 – ENSINO DE HISTÓRIA: TEORIA E PRÁTICA
PROFESSORA DOUTORA ANTONIA TERRA CALAZANS
GUILHERME MANZONI LEITE – N° USP: 8031715
FUTEBOL E GEOPOLÍTICA
GUERRA DA BÓSNIA: GENOCÍDIO E RESISTÊNCIA
SÃO PAULO
2015

 

Tema:
A Guerra da Bósnia como expressão de genocídio baseado em preconceito racial.

Público alvo:
Alunos de Ensino Médio.

Duração:
Quatro atividades.

Objetivos:
Traçar um panorama da Guerra da Bósnia como um processo da reorganização geopolítica ao final da Guerra Fria, incluindo na discussão uma abordagem que permita aos alunos a formação de uma postura crítica em relação aos conceitos de genocídio e raça, ligados pelo preconceito, terminando com uma introdução à pluriculturalidade.

A análise de um determinado episódio da Guerra deverá servir para criar ligações entre conceitos vindos da virada do XIX para o XX e da II Guerra Mundial, bem como de situações potencialmente similares que os alunos possam vir a identificar na política atual ou em suas vidas cotidianas.

A base do material didático seria o episódio referente à Predrag Pasic do documentário “Os rebeldes do futebol” (França, 2012), entretanto, outras fontes devem ser usadas, tais como reportagens jornalísticas sobre o conflito, depoimentos de sobreviventes, falas dos personagens da guerra e uma gama de recursos audiovisuais pertinentes; além de permitir uma lista de matérias de interesse para futuras consultas dos docentes ou dos alunos.

Conceitos abordados:
-Guerra da Bósnia.
-Genocídio e preconceito.
-Resistência não armada.
-Pluriculturalismo.

 

Atividade 1

Objetivos:

Neste primeiro momento, será dado aos alunos um contato, muito provavelmente, inédito com a Guerra da Bósnia através da exibição do trecho selecionado do documentário, seguida de uma primeira discussão sobre o tema. Note-se que a apresentação da fonte acontece diretamente, sem uma explicação anterior nos moldes curriculares sobre o conflito em questão, o objetivo é que os alunos construam este conhecimento a partir da própria fonte, e as primeiras impressões dos mesmos sobre o filme servirão como diagnóstico de conhecimento prévio e deverão ser contrastadas com as impressões finais, após as atividades subsequentes.

Nota: Para que algumas considerações importantes surjam na sala de aula, sugere-se que esta sequência seja apresentada após a classe ter estudado a Segunda Guerra Mundial – tema onde o preconceito é trabalhado no macro – além do nacionalismo.

Sugestão: Como a sequência toda trata de geopolítica recente, a mesma pode vir a ser realizada em parceria com o professor de geografia.

“Os rebeldes do futebol”, disponível legendado em: https://www.youtube.com/watch?v=VD1aFBMRITM

(Trecho sugerido: 00:55:46 de a 01:11:26; último acesso: 15/06/15)

 

Diretrizes: Após a exibição do filme, perguntas devem ser formuladas à classe; a resposta pode ser elaborada após uma discussão entre pequenos grupos ou através de uma conversa ampla com a participação do professor. Também é válido frisar que as questões abaixo não são um modelo rígido, podendo estar sujeitas a alterações do professor.

1. Vocês já tinham ouvido falar na Guerra da Bósnia? Quais foram os países envolvidos? Por que ela aconteceu? (Evidente que as respostas corretas não são essenciais aqui, o objetivo é apenas observar o quanto este momento histórico é conhecido).

2. Por que vocês acham que Pasic sentiu a necessidade de voltar ao seu país, que estava sendo atacado, mesmo podendo ficar longe do conflito e manter uma
carreira no futebol internacional? E por que tantas crianças foram à escolhinha de futebol mesmo com o risco de vida? (Aqui irá introduzir-se, indiretamente, o tema da resistência. Observação: evidente que a resposta para esta questão não deve se resumir a uma repetição da fala de Pasic no filme).

3. Se vocês estivessem em uma situação similar, fariam como eles? (É importante confrontar os alunos com uma realidade distinta; inicialmente a Guerra da Bósnia poderá parecer muito distante da realidade da classe [ou não], esta e a próxima questão servem para quebrar esta relação).

4. Que tipo de situação similar a esta você pode citar, na atualidade ou na história? (É possível que relatem sobre a II Guerra Mundial [e outras guerras], a política oficial de embranquecimento da população brasileira e a realidade das periferias brasileiras [quanto a este último, seria interessante um estímulo do professor]).
Caberá ao professor direcionar o debate, dando liberdade para as considerações dos alunos, respondendo alguns questionamentos, mas sem nunca apresentar uma pretensa explicação totalizante.

 

Atividade 2

Objetivo: Fornecer aos alunos conceitos mais gerais acerca da guerra da Bósnia, porém, mantendo um caráter lúdico através do recurso audiovisual.

Diretrizes: Após essa conversa, deverão surgir algumas dúvidas e questionamentos sobre explicações gerais acerca do conflito. Isso pode ser tratado de duas maneiras: através de uma leitura coordenada do livro didático (caso este contemple o período) ou com a exibição do seguinte vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=3DPglCZxI74 (último acesso: 15/06/15).

Nota: a presença de imagens fortes no vídeo pode causar certo incômodo, cabe ao professor considerar se o mesmo deve ou não ser exibido. Como justificativa, pode-se remeter ao conceito de “educação para evitar a repetição da barbárie” de Theodor Adorno, onde o impacto tem uma função pedagógico-social a cumprir.

Observação: atentar para a trilha sonora, “miss Sarajevo” da banda irlandesa U2 e com o tenor italiano Luciano Pavarotti.

A primeira atividade pode ser encerrada com uma segunda série de perguntas (a serem respondidas em classe ou em casa, de acordo com o tempo disponível).

1. O que você acha das motivações sérvias para a Guerra? Você se lembra de movimentos nacionais similares ao sérvio em aulas passadas? O que eles acarretaram?
2. E quanto à limpeza étnica? Consegue encontrar paralelos históricos ou atuais?
3. A Bósnia tinha direito a sair da Iugoslávia na opinião de vocês, por que? (Estas 3 questões têm como objetivo despertar uma crítica aos dois filmes, agora sobrepostos).
4. Após essa explicação, como você reescreveria os itens 2 e 3 do primeiro questionário? (Essa questão irá possibilitar a observação de um desenvolvimento dos conhecimentos trabalhados no aluno).

 

Atividade 3

Objetivo: levar os alunos a um contato mais aproximado com a questão do conflito através de depoimentos de guerra, bem como confrontar-lhes a impunidade e a punição dos líderes sérvios.

Diretrizes: a leitura conjunta do depoimento a seguir, feito pelo jogador bósnio Edin Dzeko deverá permitir ligações diretas ao episódio de Pasic e introduzir a questão dos depoimentos. Note-se que questões ligadas ao futebol atual costumam atrair o interesse dos alunos.

Foi entre as bombas e balas do cerco de Sarajevo que o jovem Edin Dzeko viu-se diante de imagens que nenhuma criança deveria ver.

Dzeko acordava toda manhã ao som das armas de fogo, imaginando se ele e sua família seriam as próximas vítimas da guerra nos Balcãs.

Sua mãe, Belma, uma vez salvou sua vida quando menino, ao chama-lo do campo em que jogava futebol, segundos depois, uma bomba aterrissou no lugar onde estava.

Ele diz que suas primeiras lembranças lhe deixaram uma marca profunda.

"O conflito começou em meu país assim que nasci, e minha infância não foi nada além de lutas, guerra e balas nos muros das construções” diz Dzeko.

“O mais próximo que cheguei de ser uma vítima da guerra foi quando nossa casa foi destruída por bombas e minha família teve de mover tudo que tinha para casa de meus avós. Cerca de 15 de nós

fomos espremidos em pequenos quartos. Foi difícil.

“Nossas vidas eram dominadas pelo conflito, como todos que conhecem alguém no exército, éramos tocados pela morte de nossos amigos e família.

“Foi uma experiência assustadora estar em Sarajevo quando a cidade estava sob cerco todo dia, mas essa foi a vida que ganhei e, para ser honesto, não gosto de falar muito sobre isso”.

“O futebol sempre me permitiu fazer algo diferente, algo incrível, para mim e para minha família, e eu sou muito grato a isso. Eu também sinto que minhas experiências na infância me fizeram desejar me tornar o melhor nesse esporte. Não temo nada agora”. Disse o atacante do Manchester City antes da partida contra o Chelsea pela Champion’s League.
(Fonte: http://www.edindzeko.ba/en/index.php/2-news/news/23-edin-deko-life-story; (último acesso: 15/06/15; tradução livre)

A seguir, o professor deve dividir os alunos em quatro grupos, deixando cada um deles responsável pela leitura e discussão de um dos seguintes depoimentos (ou notícia):

Depoimento: 'Guerra da Bósnia reduziu seres humanos a mera classificação étnica'

Passados 20 anos desde a ofensiva das tropas sérvias em Sarajevo, o então correspondente da guerra para a BBC, Allan Little, relembra os horrores da Guerra da Bósnia e as marcas que o conflito deixou em sua vida:

"Há uma memória que me vem à cabeça de forma recorrente: a de um idoso emergindo de um bosque e vindo em minha direção. O belo vale verde ganhava cores de outono naquela manhã fria e úmida.
O idoso era um entre as 40 mil pessoas expulsas de suas casas na cidade de Jajce, centro da Bósnia, e parte de um grupo que caminhava havia dois dias para tentar ficar em segurança.

A Guerra da Bósnia deu ao léxico do conflito um novo e grotesco eufemismo: limpeza étnica. Aquelas eram suas vítimas mais recentes.

Perguntei ao homem sua idade; ele disse que tinha 80 anos. 'Me permita fazer uma pergunta, o senhor é muçulmano ou croata?', questionei. E a resposta que ele me deu ainda me envergonha enquanto ecoa na minha cabeça, décadas depois. 'Sou um músico', ele respondeu.

Era uma repreensão ao conveniente atalho étnico ao qual os jornalistas reduzem a vida de seres humanos completos e inocentes.

As democracias ocidentais entenderam mal a guerra. Durante anos. Eram antigas rivalidades étnicas. Todos os lados eram igualmente culpados. Eram os Bálcãs. Nada podia ser feito.

Não era verdade. Os refugiados não estavam fugindo dos combates. Em muitas partes, sequer havia combates - o desequilíbrio em favor das milícias era grande demais para que houvesse um confronto entre partes.

Em vez disso, o que havia era uma enorme máquina militar que ia de município em município, expulsando as pessoas de suas casas. Milhares foram mortos; outros tantos foram detidos em campos de concentração, alvo de torturas e estupros.

A guerra durou 44 meses. Uma média de cem pessoas morreram a cada dia, por mais de três anos e meio.

O Ocidente assistiu a tudo com uma indecisão angustiante até que uma única atrocidade - o massacre de 8 mil bósnios muçulmanos em Srebrenica - levou o mundo a agir. Mas Srebrenica foi diferente apenas em escala do que vinha acontecendo havia mais de três anos.

Poucos dias depois de eu ter conhecido o músico, fui envolvido na guerra de uma forma pessoal e dolorosa. Meu cinegrafista - por quem eu me sentia responsável - foi morto em um incidente ao qual eu sobrevivi.

Ele tinha 25 anos e era um corajoso e criativo cineasta de Zagreb. Era engraçado e uma agradável companhia, que odiava a guerra mas acreditava na necessidade de documentá-la de perto. Seu funeral foi de cortar o coração. Eu estava imobilizado pelo luto e pela raiva, momentaneamente conectado, visceralmente, às paixões que fomentavam a guerra - o ciclo de vingança e contra-vingança.

Jornalistas de guerra amam o que fazem e sentem culpa por isso. Mas esse sentimento às vezes é cansativo. Você pode chegar da guerra e ser desdenhado pela indiferença dos demais. As pessoas te perguntam sobre a guerra, mas prestam pouca atenção na resposta. Então você acaba procurando por outros que passaram pela mesma situação.

Ao caminhar por um parque em Londres, instintivamente você evita as áreas de grama, para o caso de haver uma mina terrestre. Você observa o topo dos prédios do centro da cidade em busca de franco-atiradores. E, ao mesmo tempo, você não vê a hora de voltar."
Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/04/120406_bosnia_little_pa... (último acesso: 15/06/15).

 

"Deixei meu pai coberto de sangue", relata sobrevivente de "limpeza étnica" em Haia

O primeiro depoimento em Haia descreve o horror da limpeza étnica contra os bósnios muçulmanos cometida pelas tropas do ex-general sérvio Ratko Mladic.

A "limpeza étnica", termo técnico que ilustra a imposição pela força da homogeneidade de um território, ganhou corpo nessa terça-feira (10), de forma vívida, durante o julgamento de Ratko Mladic. E foi com as declarações da primeira testemunha de acusação, Elvedin Pasic, um bósnio muçulmano de 34 anos que sobreviveu quando adolescente à execução de 150 civis pelas mãos de soldados sérvios, em 1992.

 

Em uma declaração tão descritiva que os fatos pareciam se desenrolar na sala de audiências, Pasic, que emigrou para os EUA, lembrou a fuga que custou a vida de seu pai e seu tio na Bósnia.

Acusado de genocídio e crimes de guerra e contra a humanidade, Mladic escutou com atenção o depoimento no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPIY) em Haia.

 

Pasic evitou olhar para ele. Depois de dois atrasos provocados por erros da promotoria, que não enviou a tempo à defesa cerca de 7 mil documentos, a chegada do depoimento da testemunha representou o início definitivo do processo contra Mladic. Nascido na localidade bósnia de Hrvacani, as lembranças de Pasic passaram da vida em uma comunidade "100% muçulmana, onde crianças de todas as etnias brincavam no colégio próximo e se realizavam as diversas festividades religiosas", à tragédia da separação e a morte do progenitor.

 

Sereno no início, e chorando abertamente na medida que o relato derivava em tragédia, falou de seus anos no povoado. "Passávamos muito bem. Não havia animosidade entre os moradores", relatou. Um dia, sem aviso prévio, a situação se alterou. "Chegaram tanques e comboios militares de tropas sérvias [o comandante em chefe era Mladic] e começou o ataque. Foi surreal. As bombas caíam sobre as casas e minha mãe nos disse para cobrirmos a cabeça", afirmou.

 

Quando a situação se tornou insustentável, ele abandonou seu lar junto com os irmãos por uma janela traseira. "Mamãe nos disse para evitarmos nos expor às balas na rua. Ao cruzar uma campina correndo, continuou a chuva de balas", afirmou. O povoado ficou deserto, com exceção de cinco idosos que foram assassinados. "Lembro do cheiro dos corpos quando voltamos e os enterramos", contou.

 

A fuga de Pasic e sua família seguiu o padrão descrito por outras testemunhas da guerra dos Bálcãs. As mulheres e as crianças acabaram separadas dos homens entre 15 e 60 anos. Muito poucos se reencontraram no final da contenda. Os Pasic se refugiaram em um povoado croata onde foram bem tratados. Quando os moradores se renderam aos soldados sérvios, voltaram para sua casa em Hrvacani. No caminho, "um soldado sérvio nos gritou para que fôssemos para a Turquia porque estávamos na Sérvia e não era nossa terra".

 

Um dos motivos dados para explicar o nacionalismo exacerbado de Mladic é seu desejo de vingar o que considera séculos de ocupação turco muçulmana da sérvia. Por isso insultava os bósnios muçulmanos durante a guerra, chamando-os de turcos.

 

Pasic não conseguiu evitar o choro ao lembrar a despedida de seus pais antes de separar-se para sempre: "Se durante nosso matrimônio fiz algo que a feriu, perdoe-me. Não sei o que será de nós", disse seu pai.

 

A tentativa posterior de escapar pelas montanhas bósnias foi penosa. "Éramos um grupo de cerca de 200 homens e dez mulheres. Papai me disse para não soltar sua mão enquanto passávamos por povoados destruídos. Havia gente que caía, mas não podíamos parar para os recolher." Quando se renderam, desceram pela colina e caíram nas mãos dos sérvios. "Passamos por um túnel e um homem pôs sua camisa em um pau, como se fosse uma bandeira branca de rendição. Depois saímos do corredor. Eu usava um abrigo escuro muito pesado e grande, e tinha tanta sede que tentei beber as gotas de água que vazava pelas rachaduras."

 

Depois de sair do túnel, os fugitivos foram obrigados a se deitar de boca para baixo em um charco. "Assim eu fiquei junto de meu tio e meu pai. Um soldado lhe bateu porque usava botas que pareciam militares. Ele disse que eram deles, de caçador. Perguntaram se estava com alguém de sua família, respondeu que não e lhe bateram de novo. Ainda posso ouvir seus gritos. Então chamaram as mulheres e as crianças. Eu não queria ir, mas papai me disse para ir. Que era pequeno e devia me salvar. Apesar de me proibir de olhar para trás, notei que estava coberto de sangue."

 

Pasic foi levado depois a Graboviuca, onde lhe bateram e de onde saiu em um ônibus com as demais mulheres e crianças. "Ao partirmos, uma mão nos disse adeus do segundo andar da
escola que ocupávamos. Meu pai e meu tio estavam ali, presos com o resto dos homens. Na noite anterior à deportação, tive medo de subir para vê-lo. Ainda vejo essa mão em meus sonhos", contou soluçando.

 

Concluída sua declaração, chegou a vez da defesa. A acareação correu a cargo de Branko Lukic, advogado de Mladic. Muito mais tranquilo, Pasic respondeu a perguntas sobre a imagem do exército sérvio entre seus vizinhos muçulmanos. "Antes da guerra não era ruim", afirmou. De fato, relatou Pasic, seu irmão estudou na academia militar.

 

O letrado Lukic quis saber assim mesmo se voltou a ver seu pai e tio. "Não, nunca mais", foi a resposta rápida. E sobretudo se conhecia um documento que supostamente os não sérvios deveriam assinar para certificar sua submissão ao exército sérvio. "Não o vi, mas sei de uns vizinhos muçulmanos que o assinaram e foram queimados do mesmo modo na mesquita", disse a testemunha.

 

Depois de quase duas décadas escondido da justiça, Mladic nega as acusações contra ele. Como autores dos crimes indica as tropas que atuaram por sua conta. A acareação de Pasic terminaria nesta terça-feira.
Fonte: http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2012/07/deixei-meu-pai-coberto... (último acesso: 15/06/15).

 

 

Karadzic diz que causa dos sérvios da Bósnia era "justa e sagrada"

O ex-líder servo-bósnio Radovan Karadzic assegurou hoje que a causa dos sérvios da Bósnia era "justa e sagrada" em seu depoimento inicial no julgamento que enfrenta no Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia (TPII).

 

O réu, cuja ausência no início do julgamento em outubro forçou o adiamento do processo até hoje, afirmou que os sérvios da Bósnia nunca quiseram deixar a Iugoslávia e que queriam "viver com os muçulmanos", mas "não sob um regime que não respeitasse os direitos fundamentais".

 

Karadzic, também ex-líder do Partido Democrático Sérvio (SDS), iniciou sua defesa afirmando que não tinha comparecido à corte "para defender a si próprio", mas para defender sua "pequena grande pátria".

 

O acusado, que voltou a denunciar uma "conspiração" internacional para levá-lo ao banco dos réus em Haia, explicou que nunca quis a cisão bósnia da Iugoslávia e falou de "legitima defesa" no marco de uma guerra civil. Ele ressaltou que não é "um monstro" e que não há provas contra ele.

 

Ele também afirmou que "queríamos prevenir o caos, introduzir a ordem. Mas, uma vez instaurado o caos, foi impossível tê-lo sob controle”. Karadzic é acusado de 11 crimes de genocídio e crimes de guerra pela guerra civil da Bósnia-Herzegovina de 1992-95. As duas acusações de genocídio procedem do massacre de mais de 7 mil homens e jovens muçulmanos na cidade de Srebrenica (1995) e o assédio de Sarajevo que durou durante todo o conflito, e que causou mais de 10 mil mortos.

 

Para sua defesa, ele mencionou uma conversa da ex-promotora do TPII Carla Del Ponte. Segundo Karadzic, nessa conversa, Del Ponte assegura que a investigação indicava que de fato existiu a promessa de imunidade por parte dos Estados Unidos dentro dos acordos de Dayton de 1995, que encerraram o conflito.

 

Para justificar os conflitos após o desmembramento da ex-Iugoslávia, Karadzic também culpou o reconhecimento internacional "prematuro" da independência de Croácia, Eslovênia e Bósnia por parte dos países europeus e dos EUA.

 

O acusado disse que nunca recomendou "as trocas de população" - em aparente referência às deportações forçadas de croatas e muçulmanos da Bósnia. Ele acrescentou que defender um território "não é um crime".

 

Dentro de sua estratégia de transferir a culpa aos líderes bósnio-muçulmanos, Karadzic citou uma conversa telefônica que teve em 1991 com o então presidente iugoslavo Slodoban Milosevic (morto em 2006). Karadzic afirmou ter dito a Milosevic que o líder opositor muçulmano e mais tarde primeiro presidente da Bósnia-Herzegovina, Alija Izetbegovic, impôs a divisão do país.

 

Como parte de sua defesa, Karadzic apresentou alguns extratos da Declaração Islâmica de 1970, na qual Izetbegovic afirmava que "a Bósnia deveria ser um estado islâmico regido por leis islâmicas" e que "não pode haver paz nem coexistência entre a comunidade islâmica e as instituições não-islâmicas".

 

Karadzic também acrescentou que preveniu os bósnios muçulmanos de que seria melhor evitar um conflito civil, já que "não tinham a possibilidades de se proteger, não tinham outra saída a não ser se renderem".

 

Por isso, ele afirmou que são os líderes muçulmanos como Izetbegovic, morto em 2003, os que deveriam ser acusados e levados ao banco dos réus do TPII.

 

Entre os culpados da "conspiração" que afirma existir contra ele, Karadzic acusou a imprensa, por "criar e divulgar rumores". Ele explicou que algumas reportagens publicadas durante o conflito "foram de filmes", o que torna "incrível" que tenham sido apresentadas como provas ao tribunal.

 

Karadzic assegurou que seu depoimento era "a verdade absoluta" e reiterou seu pedido de contar com mais tempo para sua defesa e que sejam desclassificados todos os documentos que pediu durante a instrução.

 

Seguro e sereno, o réu se defendeu a si mesmo com a assessoria do advogado britânico Richard Harvey - nomeado de ofício pelo tribunal - em um depoimento de quase cinco horas que teve que ser interrompido até cinco vezes pelos tradutores, que pediam a ele para falar mais devagar.

Karadzic, de 65 anos e psiquiatra de profissão, foi detido quando se fazia passar por curandeiro em Belgrado em 21 de julho de 2008 e foi levado então ao TPII nove dias depois.

Fonte: http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/03/01/karadzic-diz-que... (último acesso: 15/06/15).

 

 

Fim da Iugoslávia
Não houve genocídio na guerra dos Bálcãs, decide Corte de Haia

O crime de genocídio depende de dois requisitos: o ato em si (matar ou impedir a procriação de um grupo étnico ou religioso) e a intenção (o desejo de eliminar tal grupo). Sem um desses elementos, não há genocídio. A explicação foi dada pela Corte Internacional de Justiça, que decidiu que nem a Croácia nem a Sérvia praticaram o crime durante a guerra dos Bálcãs.
 

A decisão da corte foi anunciada nesta terça-feira (3/2) na sede do tribunal, que fica em Haia, na Holanda. O julgamento é definitivo e não cabe mais recurso. Nele, os juízes consideraram que, nos conflitos durante o desmembramento da Iugoslávia, tanto a Croácia como a Sérvia cometeram assassinatos que poderiam configurar a prática de genocídio. Mas, para os julgadores, não ficou comprovado que os dois países tivessem a intenção de eliminar um povo.
 

O processo na Corte de Haia foi aberto pela Croácia em 1999 contra a Iugoslávia. Mais tarde, o tribunal considerou que a Sérvia era a sucessora do bloco socialista e devia ser chamada ao processo. Uma década depois, com o caso ainda pendente de julgamento, a Sérvia decidiu também juntar uma petição acusando os croatas pelo mesmo crime.
Fonte: http://www.conjur.com.br/2015-fev-04/nao-houve-genocidio-guerra-balcas-d... (último acesso: 15/06/15).

 

Os grupos devem reunir-se e discutir suas impressões acerca do depoimento que receberam, cabe ao professor lembrá-los de utilizar o documentário e o vídeo da aula anterior, bem como o depoimento de Dzeko, para auxiliá-los na tarefa. É importante que o depoimento seja descrito, através de algumas questões fundamentais, por exemplo:
 

Quem produziu este depoimento? Quem o colheu? Quando? Com que intenções? Qual o tom do discurso? Entre outras.
 

Após a discussão, cada grupo deverá apresentar brevemente de que se trata seu depoimento, depois, narrar os questionamentos e opiniões que surgiram após a leitura; o professor deverá interferir de modo a possibilitar um debate construtivo em torno da questão da guerra étnica e das dificuldades em se estabelecer uma responsabilidade e, por fim, apresentar o verbete de dicionário da palavra “pluriculturalismo”:

Significado de pluriculturalismo:
Antr. Multiplicidade e diversidade cultural. Ex.: A ONG propõe-se a desenvolver ações de pluriculturalismo pelo mundo. [Antônimo: uniculturalismo]
[F.: plur(i)- + -culturalismo]

Definições da web
Multiculturalismos (ou pluralismo cultural) é um termo que descreve a existência de muitas culturas numa localidade, cidade ou país, sem que uma delas predomine, porém separadas geograficamente e até convivialmente no que se convencionou chamar de “mosaico cultural”. (...) Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Pluriculturalismo (último acesso: 15/06/15).

 

Atividade 4
Enfim, apresente as questões finais:
1. Você acha que o conceito de pluriculturalismo poderia ter evitado a Guerra da Bósnia? Por que ele não foi aplicado? (É importante que fique claro que outros conceitos – nacionalismo, pan-eslavismo, etc. – sobrepuseram o pluriculturalismo na Guerra).

2. Tendo em vista conflitos como a Guerra da Bósnia e outros momentos da história e da atualidade em que o preconceito racial e cultural chegou ao extremo de violência, qual a importância do pluriculturalismo na sociedade atual? (O debate não deve ficar restrito a um discurso moralizante, mas a uma desconstrução do conceito de hierarquização das diferentes culturas).

3. Podemos dizer que, ao permanecerem em Sarajevo durante os ataques, ocuparem o espeço e realizarem uma atividade de lazer, despreocupada e cotidiana como jogar futebol, Dzeko e Pasic estavam, de certa forma, resistindo à Guerra? Por que? Que outros exemplos deste tipo de resistência você conhece? (Aqui, o tema da resistência retorna).

4. O futebol pode associar-se à política? De que maneira? Cite exemplos também de outros esportes. (Completa-se o tema metafórico central da aula, temas como a relação entre a Copa e as eleições de 2014 devem surgir, a seguir, o professor pode indicar outros eventos relacionados: Democracia Corintiana na ditadura militar, futebol alinhado ao governo no Estado Novo, ataque à delegação israelense nas Olimpíadas de Munique, Copa do Mundo e Olimpíadas durante o nazi-fascismo, etc.).

5. O tipo de racismo que culminou na guerra da Bósnia existe no Brasil? É possível que nos vejamos em uma situação similar a da Bósnia? (O ponto central desta
pergunta é confrontar o aluno com o estereótipo de que “não existe racismo no Brasil”, mostrando que a linha entre preconceito e violência é mais tênue do que pode aparentar).

Nota: fica a critério do professor pedir a elaboração de alguma atividade de avaliação baseado no tema.

 

Materiais interessantes:
FILIPOVIC, Zlata. O diário de Zlata: a vida de uma menina na guerra. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
“Memórias do chumbo – o futebol nos tempos do condor”, Dir. Lúcio de Castro, Brasil, 2012.
“Os rebeldes do futebol”, Dir. Gilles Perez e Gilles Rof, França, 2012.
Bibliografia:
ADORNO, Theodor. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995.
BITTENCOURT, Circe. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo, Cortez, 2004.
FRANCO JÚNIOR, Hilário. A dança dos deuses. São Paulo, Companhia das Letras, 2010.
THOMAZ, Omar Ribeiro. Bósnia-Herzegovina: a vitória da política do medo. Revista Novos Estudos CEBRAP, N° 47, Março de 1997.
ZABALA, Antônio. “Os enfoques didáticos”. In: COLL, César, MARTÍN, Elena,... (org.). O construtivismo em sala de aula. São Paulo, Ática, 1996.

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