Segunda Guerra Mundial, nazismo, hq, quadrinhos

Sequência Didática - Trabalho Final da disciplina Ensino de História: Teoria e Prática

Aluna: Beatriz Helena Silva

 

Objetivo: Acreditamos ser possível a utilização de histórias em quadrinhos, populares ou graphic novels, para a transmissão de conhecimento histórico. As HQs possuem uma linguagem  de  comunicação  própria,  mesclando  o  repertório  pictórico  e  escrito  na composição de sua narrativa, e que precisa ser entendido para não funcionarem como mera ilustração do conteúdo de uma aula expositiva. O objetivo é a partir da obra MAUS - A história de um sobrevivente, de Art Spiegelman, abordar a questão sensível em torno da Segunda Guerra Mundial, mais especificamente o da discriminação baseada na ideologia racial, que permitiu que o século XX fosse marcado pelo Holocausto, hoje parte de uma memória globalizada, e por mais uma série de perseguições motivadas por razões político, ideológicas e sociais. Pretendemos instigar a capacidade investigativa do aluno para fontes além da sala de aula, ampliando a sua capacidade de compreensão sobre o conteúdo programático, ao refletir sobre sua posição na sociedade de hoje, através da observação de permanências e transformações no transcorrer do processo histórico.

 

Importância da atividade: A partir das atividades que visam à análise do material fonte, que se trata tanto de uma construção ficcional, como também de um relato de experiência testemunhal traumática, consideraremos o conteúdo e a estrutura da HQ para problematizar além da temática da discriminação e racismo, questões referentes à construção da narrativa como uma “reescrita” do passado que permite a aqueles que não o vivenciaram se tornarem também testemunhas, mantendo uma memória coletiva significativa a partir da experiência individual, o que no caso de MAUS acreditamos favorecer uma ampliação dessa concepção de memória coletiva, além da percepção sobre os sujeitos do passado, “descristalizando” uma visão homogênea e passiva da figura do “judeu como vítima”, sem que isso signifique desprezar ou menosprezar os horrores pelos quais passaram.

 

 

A quem é direcionada? Alunos do Ensino Médio, referencialmente segundo ou terceiro anos.

SPIEGELMAN, Art. Maus. São Paulo: Cia das Letras, 2005.

 

 

 

Roteiro para as atividades:

 

1.  Aconselhamos   a   começar   um   debate   com   os   alunos,   para   conhecer   sua familiaridade com as histórias em quadrinhos, e introduzir o objeto da aula. O uso da obra completa seria um ótimo recurso para a análise e abordagem do tema, se for possível fazer um trabalho de longa duração, em que os alunos leiam a obra antes dessa aula; mas no caso dessa sequência vamos considerar a alternativa de que isso não tenha sido possível, e que muitos terão o primeiro contato com a obra nessa aula.

2.  Os alunos deverão formar grupos, de até 3 ou 4 pessoas no máximo. O professor deverá entregar uma folha com as seguintes informações: Quem é o autor? Quando a obra foi produzida?. Ao entregar essas primeiras questões com suas respostas, o professor precisa chamar a atenção para a importância delas para as análises a seguir, como primeiro passo de investigação.


3.  Após essa pequena introdução recomenda-se que seja esclarecido que o tema da aula é Segunda Guerra Mundial. Então o professor distribuirá alguns conjuntos com imagens e as questões referentes a elas, para que o grupo debata e faça a análise escrevendo suas conclusões no papel. Aconselha-se fazer esse trabalho por etapas: distribui-se o primeiro conjunto, os alunos analisam em um tempo determinado, mas não precisam entregar as conclusões ao final desse período, pois no decorrer da atividade podem repensar e reescrever suas impressões. Ao final da primeira atividade, com a análise dos 6 conjuntos, há uma segunda atividade, a qual pode ser emendada em uma aula dupla, ou feita em um próxima aula, caso as duas partes não possam acontecer em uma mesma aula.

CONJUNTO 1: Figuras A e B


 

 

4.  A despeito da promessa feita a seu pai, Art Spiegelman acrescenta em seu livro a narração de “coisas particulares”, inclusive sobre a sua relação com o pai. Quais eram as pretensões do autor ao optar por tais escolhas? Por que ele vê a necessidade de tornar tudo mais “real, mais humano”?

5.  A narrativa de MAUS é um relato autobiográfico, ou uma ficção? Seria possível qualificar o seu livro como um ou outro gênero?


CONJUNTO  2: Figuras C e D

6.   Sobre  as imagens  acima, qual é função  do retângulo?  Em que tempo  a fala está situada?

 A  narração  de  uma  memória  é fruto  apenas  do  presenciado?

Os  doisquadrinhos  partem do relato da memória de Vradreck,  mas podemos  considerar  os dois como uma tentativa de reprodução um momento real "tal como foi"?

 

 

CONJUNTO   3: Figuras E e F

 

 

7.  Sobre as duas imagens acima: É possível identificar conflitos étinico-raciais antes do auge da campanha nazista? Vradeck diz que acreditavam que as pretensões de Hitler eram territoriais, em decorrência da Primeira Guerra, e por isso estariam seguros, por que essa crença era equivocada? Na segunda imagem qual é a atitude de Vradeck perante uma proibição que impedia legalmente sua vontade de voltar para casa?



 

CONJUNTO  4: Figuras G, H e 1

 

8.  Sobre a sequência das três imagens acima: Por que Art se preocupa com o fato do retrato de seu pai acabar como uma “caricatura racista do judeu avarento”? O que é possível dizer sobre o desejo de Art pelos diários da mãe, com base em sua afirmação sobre ela e em suas preocupações quanto a narrativa do pai? Há apenas um ponto de vista sobre determinada história? Toda experiência é igual em um grupo que passou pelo mesmo trauma? O que podemos refletir sobre as diferentes posturas em relação à memória nas falas “já conheço meu história de cor” e “preciso anotar essa conversa antes que eu me esqueça”? Por que o autor se preocuparia em recriá-las em sua narrativa?


CONJUNTO  5: Figuras J e K


 

 

9.  Sobre as duas imagens (J e K) acima: Há elementos na composição das imagens que são “liberdades” do autor em relação ao retrato de uma realidade “tal como foi”, identifique-os. Qual a função desses recursos visuais aliados ao texto conciso da narração? É possível identificar a qual momento da Segunda Guerra Mundial a imagem K se refere?


CONJUNTO  6: Figuras Me N


 

 

10. Sobre as figuras M e N: Na tentativa de Art de retratar seu pai de forma justa como suas ações o caracterizam? Reflita sobre a personagem de Vradreck e a visão que se tem do “judeu vítima”, ela significaria que Vradreck deveria ser mais sensível a questões  de discriminação?  É  possível  traçar  paralelos  em relação aos grupos étnico-raciais discriminados socialmente ainda hoje e as perseguições e discriminações durante o regime nazista? Quais são as bases de pensamento que sustentam a ideologia racial?

 

 

 

Segunda Parte da Atividade

 

CONJUNTO  7: Figura O e P


 

11. Os alunos deverão continuar em grupos e receberão as imagens acima, O e P: Identifique,   considerando   as   outras   páginas   vistas,   quais   são   os   animais personagens  do  livro,  cada  espécie  corresponde  a  quem?  Por  que  Art  tem problemas em decidir como desenhar Françoise? A representação zoomórfica dos personagens  também  está  presente  em  estórias  infantis,  como  fábulas, considerando a linguagem visual da HQ e o tema abordarem uma questão sensível, com muitas passagens fortes, qual o efeito da escolha de animais como personagens?

12. Nesse ponto deverá se abrir o debate sobre as impressões de cada grupo, que agora podem dialogar entre si através da mediação do professor. As discussões podem se encerrar antes da chegada às questões da segunda parte das atividades.

13. Recomenda-se que o professor aproveite o momento de síntese da primeira parte das atividades, e recomeço de novas questões, caso seja possível, para passar uma parte do documentário “Arquitetura da Destruição”, em que se menciona o documentário nazista “O Judeu Eterno” no qual judeus são comparados a pragas, a ratos. Um vídeo contendo essa passagem do documentário encontra-se no youtube, e          possui         menos         de         4         minutos.         Segue         o         link: https://www.youtube.com/watch?v=LXtG3hs-SAc

14. Sobre o vídeo, qual a intenção de seus idealizadores e produtores ao fazerem tal comparação  com  animais?  Considerando  o  conteúdo  do  vídeo,  do  material analisado até aqui, e do debate prévio sobre as representações dos sujeitos como animais, as escolhas visuais de Art Spielgeman em MAUS ao caracterizar seus personagens refletem qual postura do autor diante de um passado que o atingiu mesmo que indiretamente?

15. Após essas últimas questões os grupos de alunos podem fazer outro debate sobre suas análises. Os grupos entregam ao final as atividades escritas.


 

 

 

ATIVIDADE PARA OS ALUNOS DESENVOLVEREM INDIVIDUALMENTE FORA DE SALA DE AULA:

 

 

 

16. Questão de encerramento das análises: A partir das afirmações de Art sobre as dificuldades de produção de seu livro, visualizar e desenhar um passado que ele não presenciou, e o trabalho de edição necessário, você acredita que ele tenha conseguido reproduzir para o leitor a história de Vradeck “do jeito que aconteceu”? Você diria que suas pretensões iniciais foram alcançadas? Refletindo sobre a memória, como combinação de guarda e esquecimento, é possível que o relato testemunhal de Vradeck corresponda a realidade do passado tal como foi?

17. A quais fatos se referem às memórias de Art Spielgelman, direta ou indiretamente?

 

Há dois núcleos de narrativa em MAUS, eles se relacionam? Por quê?



 

18. Por quem fala? Qual visão de mundo permeia a obra?

 

19. Qual é a relevância da produção e divulgação de MAUS?

 

20. Considerando suas conclusões é possível considerar processos de rememoração, em que uma memória coletiva é alimentada por meio de datas, produção discursiva, celebração  de  heróis,  como  parte  da  seleção  de  um  grupo  que  define  sua identidade? Quais fatores são determinantes para que a memória de um grupo seja reconhecida em relação a outra?

21. Você consegue identificar elementos de alguma memória coletiva que fazem parte da sua identidade? Por que você acredita que esta memória ainda marca a sua trajetória enquanto indivíduo? Em quais meios se propaga essa memória?

22. Essas questões podem ser retomadas e discutidas em aula, para que os alunos tenham um retorno e possam refletir sobre as suas escolhas nessas atividades.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

 

 

ALBERTI, Verena. “Algumas estratégias para o ensino de história e cultura afro-brasileira” IN: Pereira, Amilcar Araújo e MONTEIRO, Ana Maria (org). Ensino de história e cultura afro- brasileiras e indígenas. RJ: Pallas, 2013, p. 27 - 55.

BITTENCOURT, Circe. “Identidade nacional e ensino de História do Brasil. In: KARNAL, Leandro (org.). História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas.” São Paulo: Contexto, 2003

RAMA, Angela e VERGUEIRO, Waldomiro (org) “Como usar histórias em quadrinhos em

 

sala de aula” São Paulo, Editora Contexto, 2008.

 

ROZA, Luciano Magela. “Heterogeneidade temática e usos da memória de uma experiência histórica:  uma  visita  ao  Museu  Digital  da  Memória  Afro-Brasileira  e  Africana”  Revista História Hoje, v.3, nº6, 2014 p.223-238

SPIEGELMAN, Art. “MAUS: História Completa” São Paulo, Companhia das Letras, 2009. Páginas das imagens: 15, 25, 34, 35, 39, 62, 66, 133, 134, 135, 171, 176, 194 e 259. ZABALA, Antoni. “Os enfoques didáticos” In: COLL, César, MARTÍN, Elena … (org) O construtivismo em sala de aula. São Paulo: Ática, 1996, p. 153 - 196.

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