O (esquecido) protagonismo de Carolina de Jesus numa São Paulo miserável

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

CURSO DE UMA HISTÓRIA PARA A CIDADE DE SÃO PAULO: UM DESAFIO PEDAGÓGICO – FLH0425/ 2º SEMESTRE DE 2013

PROFESSORA DRA. ANTONIA TERRA DE CALAZANS FERNANDES

BASEADO EM FATOS REAIS:

O (esquecido) protagonismo de Carolina de Jesus numa São Paulo miserável

 Sequência didática elaborada como trabalho de finalização do curso.

Aluno: José Bento de Oliveira Camassa

Número USP: 8575409

São Paulo

2015

 

“Daria um filme, uma negra e uma criança nos braços/

Solitária na floresta de concreto e aço”

(Racionais Mc’s, Negro Drama, 2002)

 

 

Resumo

            Este projeto de sequência didática, destinado a professores de Educação de Jovens e Adultos (EJA), tem como tema o famoso livro-diário Quarto de Despejo – Diário de uma favelada[1] (1960) da escritora Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977), moradora da favela do Canindé, na capital paulista. Nossas análises são uma tentativa de olhar as contradições da década de 1950 da cidade de São Paulo por meio da história individual de Carolina e da dura realidade vivida por ela. Assim, pretendemos resgatar a memória da importante figura de Carolina, que tem estado em desconhecimento do grande público nas últimas décadas. Também sugerimos que se aproveite Carolina de Jesus como um caso que abre portas para se refletir com os alunos, em forma de diálogo, outros dois temas: a relação entre a História e as histórias de vidas; e a importância da leitura e da escrita para o ser humano.

 

Defendemos que a aula não seja resumida à exposição do(a) professor(a) e à lousa ou slides. Por isso, entremeamos as partes expositivas com sugestões de aproximação do tema ao mundo atual e ao cotidiano dos alunos, bem como dando espaço para que eles relatem vivências relacionadas aos assuntos que forem abordados ao longo do projeto. Além disso, a sequência contém propostas de atividades de análise de dados geográficos e de leitura de documentos (vídeos e fotos) da época de Carolina. Não indicamos que se precisem fazer todas as atividades ou reflexões propostas – até por falta de carga horária disponível para tantos assuntos nas aulas de História em EJA – mas deixamos possibilidades entre as quais possam se escolher algumas.

Sugerimos que as aulas do projeto sejam acompanhadas de prévia leitura integral da obra, mas reconhecendo a também falta de tempo na rotina dos alunos para isso, indicamos uma atividade de leitura de trechos de Quarto de Despejo.

 

Palavras-chave: Carolina de Jesus; Quarto de Despejo; segregação urbana; São Paulo; história de vida.

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[1] JESUS DE, Carolina Maria. Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 5ª edição. São Paulo: Ática, 1995

 

 

 

Introdução

Num primeiro momento, pode parecer estranho falar de uma mulher negra, pobre e de pouca escolaridade, numa aula de História, disciplina que comumente é encarada como encarregada de relatar supostos grandes feitos da Humanidade em tempos passados. Sugerimos que o professor inicie uma aula sobre Carolina de Jesus provocando esse estranhamento nos alunos. O que teria a ver uma mulher que grande parte da sociedade rotularia preconceituosamente como “insignificante” e a História da cidade de São Paulo, tão gigantesca e economicamente importante? No decorrer da apresentação, essa questão aos poucos será respondida, mostrando que as duas coisas são mais próximas do que se imagina. Buscaremos, com isso, propor aos alunos questionamentos sobre o que entendemos por História, inspirados na historiografia dos Annales e sua proposta de uma História vista de baixo.

 

Quem foi Carolina de Jesus?

 

Imagem A – Carolina Maria de Jesus com seu livro Quarto de Despejo

 

Sugerimos a seguir um breve resumo da vida de Carolina de Jesus, que mais parece uma saga.

Carolina Maria de Jesus teve uma trajetória de vida ímpar, cheia de dificuldades, angústias, mas também de perseverança. Nasceu por volta de 1914 no vilarejo de Sacramento, interior de Minas Gerais, como filha ilegítima de um homem já casado. Por isso, logo na infância, cresceu num ambiente familiar conturbado, no qual ela era mal tratada e não recebia carinho, alimentando nela um comportamento agressivo. Parou de frequentar a escola básica no segundo ano, porém conseguiu aprender a ler e a escrever, o que viria a ser fundamental na sua vida. Em 1947, dez anos depois de sua mãe morrer, Carolina, com 33 anos, migrou a São Paulo e foi lutar pela sobrevivência na favela do Canindé às margens do Rio Tietê e próxima a um depósito de lixo. Improvisava seu barraco com materiais que lá encontrava, como madeira, lata e papelão. Aliás, foi como catadora de papel que lutou para sobreviver em boa parte da vida. Teve vários filhos, mas não quis se casar por presenciar muita violência doméstica contra as mulheres na favela.

 

Com as folhas aqui e ali achadas nas ruas, Carolina não apenas obtinha os trocados que lhe davam sustento. Ela as aproveitava como diário, no qual podia colocar reflexões, relatar o amargo dia-a-dia da favela, além de contar seus sentimentos e opiniões. Esse hábito de escrever ainda viria a ser um ponto de virada em sua vida.

 

Em 1958, foi descoberta por Audálio Dantas, então um jovem jornalista encarregado de escrever uma matéria sobre a então crescente favela do Canindé. Dantas, fascinado com os diários de Carolina de Jesus, colocou trecho desses em jornais, revistas e ajudou a transformá-los no livro comercialmente colocado no mercado Quarto de DespejoDiário de uma favelada, lançado em 1960. Operou-se então grande mudança na vida de Carolina. Como diz o brasilianista Robert M. Levine: “Em um curto e fulgurante espaço de tempo, ela se tornou uma celebridade internacional, ocupando lugar de realce na história editorial brasileira, latino-americana e até mundial. Sem dúvida um fenômeno. Seu sucesso editorial era o reverso da rotina que até então enfarava-se em biografias de figuras notáveis”[2]. A mulher ainda escreveu outros livros em sua vida, embora não tenham chegado a ter um mínimo de reputação que Quarto de Despejo alcançou. Ela passou a participar de eventos oficiais, conhecendo alguns governantes e escritores famosos da época.

 

Entretanto, logo que veio, o sucesso foi embora para Carolina. Dizem os mesmos autores:

 

“Por razões diversas e algumas de explicação indireta (...), mas especialmente pela reação estranha da escritora em face da atitude impertinente da imprensa, da classe média brasileira e paulistana e da elite intelectual, a queda de seu prestígio foi tão brusca quanto fora sua ascensão. Em pouco tempo, ela foi forçada a voltar à condição de pobre, com dificuldades de sobrevivência. Na miséria, viu terminarem seus dias”[3].

 

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2 MEIHY, José Carlos Sebe Bom, LEVINE, Robert M. Cinderela Negra – A Saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994, p. 17

 

 

 

Após o curto período de consagração, Carolina foi sendo relegada ao esquecimento, visto que boa parte da imprensa e da opinião pública a rotulava como arrogante e oportunista. Alguns chegaram até acusá-la de ter enlouquecido.

Hoje, por mais que seus livros continuem a vender no Brasil e principalmente no exterior, Carolina de Jesus já não é tão conhecida e reconhecida no país. Entre os acadêmicos, sua obra também tem caído em descrédito ou esquecimento.

É interessante antes ou depois desse resumo de biografia, perguntar se os alunos já tinham ouvido falar de Carolina. Em caso negativo, só se reforça a necessidade de estudar quem foi ela e do perturbador conteúdo de seus livros, tirando sua memória do abandono.

 

Atividade 1: leitura de trechos de Quarto de Despejo

Antes de expor o conteúdo, é interessante selecionar alguns trechos de Quarto de Despejo sobre os diferentes assuntos que Carolina Maria de Jesus fala e fornecê-los para os alunos, separados em grupos. Cada grupo recebe trechos diferentes, os lê e troca entre si as impressões que tiveram. Após isso, cada grupo relata à sala o que discutiu. Essa dinâmica vai ajudar os estudantes a ter um primeiro contato com a realidade de Carolina.

Entre os diferentes assuntos dos trechos, sugerimos os seguintes temas vistos na ótica da escritora: Cidade e favela; Fome: angústia, dor, agonia; Sociedade e Política; Atitude de escrever; Sonhos em meio à realidade dura.

 

Cidade e favela

 

Este tema é muito importante por mostrar a visão que Carolina Maria tinha da segregação socioespacial de São Paulo. As analogias que a autora faz revelam a consciência de que a periferia pobre não existe por si só: faz parte de uma dinâmica urbana excludente, que faz do centro espaço exclusivo para as classes mais ricas.

 

– 13 de Maio de 1958: “O Palácio é a sala de visita. A Prefeitura é a sala de jantar e a cidade é o jardim. E a favela é o quintal onde jogam os lixos” (DE JESUS, 1995, p.28)

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3.  Ibidem, p.18

 

 

–  19 de Maio de 1958: “Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.” (Ibidem, p.33)

 

É interessante ressaltar que a exclusão da favela era tão grande que nem se a considerava como parte da cidade, como vemos na linguagem da escritora. Usa-se a palavra “cidade” como sinônimo de centro, ao qual se opõe a favela. Também vale destacar a metáfora do quarto de despejo que dá ao título ao livro, emblemática da segregação urbana.

 

Fome: angústia, dor, agonia

 

            Este é um dos principais assuntos do livro. A extrema pobreza vivida na favela do Canindé leva a existência dos seus moradores ser algo demasiadamente duro, sombrio. Podemos ver esse cenário agonizante nos seguintes trechos:

 

– 19 de Maio de 1958: “Vera ia sorrindo. E eu pensei no Casemiro de Abreu, que disse: ‘Ri criança. A vida é bela’. Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a época está apropriada para dizer: ‘Chora criança. A vida é amarga.’” (Ibidem, p. 32)

 

– 20 de Maio de 1958: “Como é horrível ver um filho comer e perguntar: Tem mais? Esta palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.” (Ibidem, p. 34)”

 

– 21 de Maio de 1958: “Os favelados aos poucos estão convencendo-me que para viver precisam imitar os corvos.” (Ibidem, p. 37)

 

– 20 de Maio de 1958 “Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isso não pode ser real num paiz fértil igual ao meu. (...) No outro dia encontraram o pretinho morto.” (Ibidem, p. 36)

 

– 14 de Junho de 1958: “Quero ver é como vou morrer. Ninguém deve alimentar a ideia de suicídio. Mas por hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte é um herói. Porque quem não é forte desanima.” (Ibidem, p. 55)

 

– 15 de Junho de 1958: “Pobre mulher! Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminar-se, porque as mães têm muito dó dos filhos. Mas é uma vergonha para uma nação. Uma pessoa matar-se porque passa fome.” (Ibidem, p. 56)

 

            Esse conjunto de citações reforça o abalo destruidor que a miséria causa no ser humano. A fome acarreta uma série de complicações médicas, emocionais e psíquicas, vistas na morte por destruição, na ideia de suicídio e no sofrimento da mãe em não poder cuidar bem do filho. Nessa vida amarga e quase animalizada, os favelados, como disse oportunamente Carolina, são obrigados a serem perseverantes para lutarem pela sobrevivência.

 

Sociedade e Política

 

Carolina também mostra uma visão muito firme e lúcida sobre os políticos e a sociedade da época. Percebe que a atuação deles voltava-se a uma realidade social muito distante da que a favela enfrentava. Mostra-se uma desilusão com a política e a crença de que ela possa trazer melhoras para os pobres.

 

– 20 de Maio de 1958 “Quando um político diz nos seus discursos que está ao lado do povo, que visa incluir-se na política para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas. Depois divorcia-se do povo. Olho o povo com os olhos semicerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade” (Ibidem, p. 34)

 

– 20 de Maio de 1958 “Para não presenciar aquele quadro, saí pensando: faz de conta que eu não presenciei esta cena. Isso não pode ser real num paiz fértil igual ao meu. (...) No outro dia encontraram o pretinho morto.” (Ibidem, p. 36)

 

 – 20 de Maio de 1958 “E o meu filho João José disse-me:

 

– Pois é. A senhora disse que não ia mais comer as coisas

do lixo.

 

– Foi a primeira vez que vi a minha palavra falhar. Eu disse:

 

– É que eu tinha fé no Kubstcheck.

 

– A senhora tinha fé e agora não tem mais?

 

– Não, meu filho.” (Ibidem, p.35)

 

– 19 de Maio de 1958 “O que o senhor Juscelino tem de aproveitável é a voz. Parece um sabiá e a sua voz é agradável aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o Catete. Cuidado sabiá, para não perder esta gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são gatos. Tem fome” (Ibidem, p. 30)

 

– 22 de Maio de 1958 “Foi lá que [no Serviço Social] que eu vi  as lagrimas deslisar sobre os rostos dos pobres. (...) Como é pungente ver os dramas que ali se desenrola. A ironia com  que são tratados os pobres. (...) A única coisa que querem saber são os nomes e os endereços dos pobres.” (Ibidem, p. 37)

           

Interessante notar a possibilidade de revolta citada por Carolina. Indica que os setores mais pobres da sociedade demandam do Estado melhorias urgentes na qualidade de vida. Além disso, cabe indicar o descaso com que eram tratados os despossuídos, mesmo por órgãos estatais. Carolina de Jesus transmite bem essa mensagem quando fala do Serviço Social, mais preocupado com registros burocráticos do que com o sofrimento humano.

 

Atitude de escrever

 

Carolina também nos conta suas atitudes pessoais e da postura que assume ao longo da sua narrativa.

 

– 1 de Junho de 1958: “Não tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada. “E as feridas são incicatrizáveis” (Ibidem, p.43)

 

– 13 de Junho de 1958: “Os bons eu enalteço, os maus eu critico. Devo reservar as palavras suaves para os operarios, para os mendigos, que são escravos da miseria.” (Ibidem, p. 54) 

 

            Nisso podemos ver uma tomada de atitude da escritora negra: a de fazer dos seus diários um registro das dificuldades enfrentadas pela população pobre, opondo-se à situação calamitosa de miséria. Logo, a autora não apenas retrata sua realidade, mas se posiciona criticamente a ela.

 

Sonhos em meio à realidade dura

 

            A precariedade da situação material de Carolina de Jesus é tamanha a ponto de depender de seus devaneios para atingir momentos de bem-estar. O escapismo da realidade é bastante frequente na obra: para os sonhos é que a autora canaliza suas esperanças.

 

– 21 de Maio de 1958: “Passei uma noite horrível. Sonhei que eu residia numa casa residivel, tinha banheiro, cozinha, copa e até quarto de criada. Eu ia festejar o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu ia comprar-lhe umas panelinhas que há muito ela vive pedindo. Porque eu estava em condições de comprar. Sentei na mesa para comer.  A toalha era alva ao lirio. Eu comia bife, pão com manteiga, batata frita e salada. Quando fui pegar outro bife despertei. Que realidade amarga! Eu não residia na cidade.

 

Estava na favela. Na lama, as margens do Tietê. E com 9 cruzeiros apenas. Nao tenho açucar porque ontem eu saí e os meninos comeram o pouco que eu tinha.” (Ibidem, p.35)

 

– 23 de Maio de 1958: “Fiz a comida. Achei bonito a gordura fringindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles”. (Ibidem, p.38)

           

            Propomos que se destaque o caráter dessas quimeras. No geral, as maiores ambições de Carolina acabam por corresponder ao atendimento de necessidades básicas de subsistência, como higiene, alimentação e moradia. O deslumbramento com alimentos básicos como arroz e feijão – e, para a classe média, plenamente acessíveis – ajuda a refletir o tamanho das privações pelas quais a favela do Canindé passava.

 

A perturbadora realidade que Carolina nos conta

“Miséria é miséria em qualquer canto” (Titãs, Miséria, 1989)

 

            Carolina de Jesus joga o leitor diante da hostil realidade da miséria. Realidade sombria, árdua, cruel. Realidade em que a vida é antes de tudo um desafio de sobrevivência a cada dia. Em que é preciso fazer epopeias para conseguir minimamente ter algo para comer. A carência que se sofre é tão grande a ponto de alimentos básicos como água potável e pão em bom estado serem encarados quase como um luxo.  A fome é um elemento trágico que permeia todo o livro, indicando a degradação da vida Carolina, seus filhos e os moradores da favela do Canindé. A preocupação com o pouco dinheiro que se tinha é constante, os trocados são sempre contados, nunca sobram, fazendo a pobre mulher ficar endividada ou deixar de se alimentar.

Não bastasse isso, Carolina Maria também, como qualquer ser humano, tinha que enfrentar problemas pessoais e emocionais, o que tornava a sobrevivência ainda mais taciturna. Vale ressaltar que nos relatos da escritora, não se fala apenas das dificulades materiais, mas das psicológicas, como a constante preocupação com os filhos e a relação conturbada com os vizinhos.

Em uma situação de sala de aula, é muito importante se frisar isso, uma vez que mostra a humanidade de cada pessoa que se encontra em situação desfavorável. Todo ser humano tem seus dilemas, seus problemas existenciais. Como dizem versos muito pertinentes da música Comida, dos Titãs: “A gente não quer só comida / A gente quer comida / Diversão e arte” (Titãs, Comida, 1984), isto é bem-estar e dignidade humana.

Com uma pessoa que precisa enfrentar a pobreza extrema não seria diferente. E aí que está a crueldade da miséria. Ela pode acometer qualquer ser humano, qualquer semelhante de nós. As dores de Carolina também poderiam ser nossas, se estivéssemos em condições socioeconômicas como as dela.

Sensibilizar os alunos para esse caráter humano da miséria é fundamental, uma vez que na maioria das vezes a mídia fala da pobreza extrema como um dado econômico estatístico, apresentado friamente entre uma notícia e outra nos jornais. Por isso, o livro Quarto de Despejo ainda causa tanto impacto. Ele retrata com força e emoção o sofrimento que a miséria causa, seja ontem, seja hoje.

 

Relacionando com os dias de hoje

Da década de 1950 para os dias atuais, o número de pessoas vivendo pobreza extrema aumentou drasticamente, por mais que tenha diminuído na última década. É interessante citar o lema do governo federal entre 2011 e 2015: “País rico é país sem pobreza”, o que mostra que o Brasil ainda sofre com a existência de inúmeros focos de miséria e que erradicá-los deve ser uma necessidade urgente do país. Tantas Carolinas anônimas continuam por aí, a se deparar com o desespero da fome.   

 

Miséria ontem – Contexto histórico paulistano e brasileiro na época de Carolina

“Eu lutava contra a escravatura atual – a fome!”[4] (Carolina de Jesus, Quarto de Despejo)

Mas, quais as razões para ter existido tamanha pobreza na cidade de São Paulo, como a que Carolina viveu? É pertinente lançar um questionamento como esse ao estudar o período histórico passado. Colabora para a desnaturalização das conjunturas sociais, ou seja, a entender que essas não surgem do nada, mas fazem parte de um contexto histórico, que algo contribuiu para que acontecessem. Enfatizando isso numa situação de sala de aula, podemos estimular os alunos a se interessar a investigar a História, já que muitas vezes nessa disciplina o estudante sente que precisa decorar como eram as sociedades no passado, embora sem entendê-las de fato, ou seja, por que eram de tal forma.

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4.  JESUS DE, Op. cit., p. 27

 

Teresa Pires do Rio Caldeira dá algumas pistas para entender a pobreza existente na época de Carolina Maria. Em seu livro, Cidade de Muros, ela aponta que a segregação social e espacial de São Paulo teve diferentes padrões ao longo do século XX. Do começo do século até os anos de 1940, os diferentes grupos sociais estavam aglutinados em uma pequena área urbana, sendo que a diferenciação social se dava pelos tipos de moradia, mais modestas ou ricas. A partir de 1940, a cidade foi crescendo, principalmente pelo aumento da migração de brasileiros despossuídos (como Carolina) a São Paulo, em busca de oportunidades na capital paulista[5]. A população crescia drasticamente e, em consequência, o município se via obrigado a expandir sua área urbana. Não havia espaço para tanta gente. Começavam a proliferar as ocupações de regiões distantes do pequeno centro, onde, além da falta de terrenos livres, o custo de vida era alto e inacessível aos migrantes.

 

Teresa Caldeira aponta que surgia então um novo padrão de espaço urbano: centro-periferia. Nesse padrão, as classes médias e altas concentram-se nos tradicionais bairros centrais, com boa infra-estrutura e com imóveis caros. Concomitantemente a isso, o número crescente de migrantes pobres era afastado para periferias, distantes e precárias.

 

Atividade 2: leitura de dados populacionais e espaciais

Para se visualizar mais precisamente o tamanho da transformação pela qual São Paulo passava, pode-se propor uma atividade de análise de dados populacionais e espaciais da cidade. Sugerimos os seguintes conteúdos: uma tabela com a evolução populacional da cidade de São Paulo e um quadro com a expansão da mancha urbana. Sugerimos que em grupos, os alunos os interpretem em grupo, respondendo as seguintes perguntas:

 

1) Nas décadas de 1940 e 1950, a população paulistana cresce, diminui ou se mantém estável? E a área urbana?

2) Podemos estabelecer alguma relação entre a transformação que acontece na população e a que ocorre com a área urbana?  Um processo causa o outro? Qual é causa e qual é consequência?

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5.  CALDEIRA, Teresa Pires do Rio, Cidade de Muros – Crime, Segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34; EDUSP, 2000, pp. 218-221

 

 

 

Tabela B

 População de São Paulo em habitantes por ano entre 1920 e 1960

 

Ano

População

1920

579.033

1940

1.326.261

1950

2.198.096

1960

3.781.446

 

Imagem C

 Evolução da Mancha Urbana de São Paulo

Da esquerda para a direita: em 1881, 1905, 1914, 1930, 1952 e 1962

 

           

Atentando à tabela e à evolução da mancha urbana, podemos propor aos alunos tentar identificar uma correlação entre as imagens. A tabela atesta numericamente o aumento da população paulistana ao qual a cidade, consequentemente, teve de se adaptar, por meio da ampliação de sua mancha urbana, vista na Imagem C.

 

Nas décadas de 1940 e 1950, a cidade aumentou quase que 3 vezes e meia em população. Se em 1940, São Paulo já contava com o expressivo número de mais de 1 milhão e 300 mil de habitantes, mais do que o dobro do que possuía em 1920, seguiu um crescimento exponencial, alcançando quase 4 milhões em 1960. Para abrigar um contingente cada vez maior de habitantes, era inevitável que o espaço urbano da cidade se ampliasse, como mostra a expansão da mancha urbana. Embora ela já fosse grande em 1930, vemos que sua grande dilatação se dá na década de 1940, entre 1952 e 1962.

 

Cabe então uma pergunta. Quem fez a urbanização das periferias? Ela não foi comandada pelo Estado, foi deixada para a iniciativa privada. A legislação da época regulava apenas o que se definia como perímetro urbano, deixando que a ocupação dessas áreas fosse caótica e que os loteadores dos terrenos desenvolvessem práticas irregulares. Assim, para a população mais pobre eram vendidos terrenos “no meio do mato”, em bairros sem asfalto, eletricidade, água, esgoto, telefone, escolas ou hospitais. Além disso, lampejos de melhora de infra-estrutura e serviços urbanos na periferia eram raros, apenas em momentos de eleições, capitalizados como troca de votos, como fazia o político paulistano Jânio Quadros [6].

 

Nesse contexto, não surpreende que a favela do Canindé estivesse crescendo drasticamente. E a pobreza proliferando. O descaso estatal, sem cuidados mais duradouros e efetivos estimulava a continuidade das condições degradantes na periferia, desestimulando os moradores-sobreviventes a vislumbrarem perspectivas de um futuro minimamente melhor.       Reféns da falta de infraestrutura e isolados do centro, que abrigava as maiores oportunidades de emprego, os favelados das periferias amarguravam a vida numa São Paulo rude.

 

Trata-se de um lado sombrio e pouco mostrado do processo de modernização brasileiro nos anos 1950. Se de um lado, temos uma imagem de entusiasmo, regado às melodiosas canções de Bossa Nova, dos “50 anos em 5”, da Indústria Automobilística, da ascensão da classe média urbana – o que em São Paulo se traduzia em financiamentos para casa própria e no início da verticalização da cidade, no centro rico– temos, deste, um contraponto áspero. A miséria para Carolina de Jesus lhe demonstrava que o mundo estaria voltando à “primitividade” (sic) da fome e não progredindo. Fala a escritora: “Antigamente, isto é, de 1950 a 1956, os favelados cantavam. Faziam batucadas. 1957, 1958, a vida foi ficando causticante”[7].

 

A escritora traz à tona outra face da História sobre o período. Revela que o regime político que se então vivia tinha sim sérios problemas que alimentam, em vez do propagado otimismo sobre a época, uma descrença no cenário político vigente por parte de setores sociais silenciados. Diz Carolina, em tom profético: “A democracia está perdendo seus adeptos. (...) A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco, morre um dia” [8].

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6. Ibidem, p. 221
7.  DE JESUS, Op. cit, p. 32

 

Relacionando com os dias de hoje

Pensamos que olhar a década de 1950 sob o prisma de Carolina de Jesus é uma boa forma de introduzir aos alunos um questionamento sobre o processo de modernização do Brasil, feito à revelia das necessidades urgentes da população, especialmente as mais pobres. Um interessante paralelo atual dessa problemática é o país ser sede da Copa do Mundo de futebol, em 2014. O evento implicou gastos e financiamentos públicos astronômicos em obras de sofisticados estádios. Por mais que a competição tenha trazido lucros para a iniciativa privada, para boa parte dos cidadãos brasileiros, realizar um evento caro como a Copa foi uma hipocrisia política desvelada numa nação que ainda carrega tantas mazelas e desigualdades sociais.

 

Atividade 3: roteiro de comparação de vídeos

            Para que os alunos possam visualizar as contradições que apresentamos sobre a época, propomos uma comparação entre dois documentos audiovisuais da São Paulo dessa época, disponíveis no Youtube.

O primeiro vídeo é um trecho do documentário “São Paulo 400” [9], produzido no contexto das comemorações do IV Centenário da cidade, em 1954. O segundo, por sua vez, é um registro audiovisual de algumas partes da favela do Canindé [10] em 1961.

            Para a comparação, podemos pedir aos alunos que eles prestem atenção em alguns aspectos (roteiro abaixo) em um vídeo e no outro e discutam em grupos.

 

1) Quais as épocas representadas nos filmes?

2) Quais são as construções que aparecem? Em que região da cidade elas ficam?

3) Há ruas e carros?

4) Como é a velocidade do vídeos? São lentos ou rápidos?

5) Aparecem pessoas? Se sim, quem são? O que estão fazendo?

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8.  Ibidem, p. 35
9.  “São Paulo 400 Anos” <http://www.youtube.com/watch?v=zuqCyjDPfbQ>. Acesso em 27-11-2013.
10.  “Repórter Esso”, TV Tupi <http://www.bcc.org.br/tupi/detalhe/44929>. Acesso em 27-11-2013.

 

 

            Com a observação desse roteiro, os alunos podem perceber que o vídeo 1 faz propaganda de apenas uma parte da cidade: o centro, que é exaltado pela modernidade de arranha-céus, pelas suas ruas asfaltadas, pela velocidade dos carros e pela galopante música de fundo. Entretanto, não se mostram muitas pessoas no vídeo. Constrói-se uma imagem de progresso da “cidade que mais cresce no mundo”, em que importa mais transmitir o progresso material do que a vida das pessoas na cidade.

 

            O vídeo 2 faz um contraponto ao primeiro. Em outra parte da cidade, na favela da periferia, não há prédios, não há carros e sequer há ruas de pedra ou asfalto. Só há barracões, ruas de terra e falta de saneamento básico. A carência é tanta que até as crianças têm que ajudar a buscar água não encanada, em baldes. Mostra-se, diferentemente do primeiro vídeo, que a vida das pessoas em São Paulo é, em muitos casos, bem difícil. A sensação não é de progresso e de velocidade, mas de retrocesso e pobreza, como falou Carolina de Jesus.

 

 

 

Atividade 4: roteiro de comparação de fotografias

 

Uma alternativa à atividade de comparação de filmes que mantém a proposta de comparação das diferentes realidades de São Paulo pode ser feita com fotografias.

A Fotografia 1 representa uma importante parte do centro da cidade. A foto foi tirada em 1954, também por ocasião das celebrações do IV Centenário.  A Fotografia 2, extraída de uma cena do vídeo 2, mostra  uma criança na favela do Canindé, em 1961.

Para a comparação, podemos pedir aos alunos que eles prestem atenção em alguns aspectos (roteiro abaixo) em um vídeo e no outro e discutam em grupos.

 

1) Quais as épocas representadas nas fotos? Em que região da cidade os locais fotografados ficam?

2) Como são as ruas? Elas estão asfaltadas? Têm calçadas?

3) É possível ver edifícios? Como eles são?

4) É possível ver carros e luz elétrica? O que são os luminosos dos edifícios da Foto 1?

5) O que a criança da Foto 2 está carregando no balde?

 

 

    

Foto 1 – Imagem D

Rua Doutor Falcão (atualmente Praça da Bandeira), em 1954

 

Foto 2 – Imagem E

Criança carregando balde d’água na Favela do Canindé, em 1961

 

As duas imagens podem ser comparadas e analisadas de maneira semelhante à atividade 2 feita com os vídeos: elas mostram as enormes disparidades de infraestrutura entre o centro (Foto 1) e a periferia (Foto 2).

 

De um lado, a rua Doutor Falcão conta com excelentes condições urbanas, vistas nas ruas limpas, asfaltadas, iluminadas com calçada e postes de iluminação. São vias adequadas para o fluxo de pedestres e de carros. Nesse centro, bem equipado pelo poder público, vemos prédios altos e modernos para a época. Em cima deles, podemos ver luminosos, que pelos nomes, dão pistas de serem propagandas. Isso revela que os moradores e as pessoas que freqüentam a região central da cidade são um público potencial consumidor e, logo, têm maior poder aquisitivo.

 

De outro, a favela do Canindé tem ruas de terra, carece de calçada e muito menos asfalto. A precariedade do saneamento básico, também denunciada pelo fato de a criança ter que buscar água em balde, ou seja, água não encanada, mostra o abandono da periferia pelo poder público e a pobreza de boa parte da população.

 

            Assim, a Foto 2 mostra uma São Paulo de pobreza, desamparada pelo Estado, contrapondo a Foto 1. A imagem do centro da cidade, feita no contexto das comemorações oficiais do aniversário da cidade, faz propaganda apenas de um recorte da cidade: o centro, idealizado por sua boa estrutura e habitado por uma população rica. A foto da favela, entretanto, nos mostra que nem toda a São Paulo é assim.

 

 

Carolina: História ou história de vida?

“O historiador é como o ogro da lenda. Onde fareja carne humana sabe que ali está a sua caça.” (Marc Bloch, Apologia da História[11])

 

“E eu não sabia que a minha história/Era mais bonita que a de Robinson Crusoé” (Carlos Drummond de Andrade, Infância[12])

 

Podemos dizer, portanto, que a vida de Carolina no Canindé não foi algo isolado. Fazia parte do contexto da época em que viveu. Comprova para isso o que diz Robert M. Levine:

 

“O progresso material coletivo foi a tônica das administrações de Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros. (...) Paradoxalmente, na fermentação dos debates sobre a industrialização nacional, em particular nos fins dos anos 50, a imposição do problema migratório aflorou, forçando a pensar nas consequências básicos da inversão populacional do campo para a cidade. Fatos concretos que evidenciam o crescimento da marginalidade traziam o fenômeno da pobreza para os discursos, que tiveram que incluir as favelas no vocabulário político. Nesse cenário, Carolina se fez mote, e seria impossível qualquer debate sem passar por alguns argumentos contidos no livro” [13].

 

 

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11.  BLOCH, Marc, Apologia da História ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 54
12.  DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos, Infância. In: Alguma Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 13

 

Assim, pode surgir uma reflexão pertinente. Ao estudarmos Carolina de Jesus, estudamos a sua história de vida ou a História de São Paulo e do Brasil? A resposta que sugerimos para isso é que estudamos ambas. Na medida em que analisamos a situação de miséria vivida por ela, buscamos entender as suas causas, as razões de a pobreza extrema existir naquela época. Conseguimos, desse modo, conhecer um pouco do passado por meio da vida da mulher. Conseguimos saber da História por meio de uma história de vida.  Carolina é emblemática da época em que viveu. Reflete as contradições e os problemas sociais do Brasil na década de 1950.

Nosso entendimento é baseado, também, na proposta da Micro-História, método que permite, por meio de um estudo de caso bem delimitado, tendo por objeto um indivíduo ou pequeno grupo social, uma reflexão sobre a sociedade em que se insere. Assim, o estudo do micro não exclui o estudo do macro, mas se entrelaça e permite vermos com concretude como se vivia dentro das estruturas sociais do passado[14].

O caso de Carolina abre margem para promover um diálogo muito válido com os alunos sobre esta disciplina que os acompanha na vida escolar. Afinal, o que é História? O que seria algo “histórico”? Existem diferenças entre a História matéria de escola, com “H maiúsculo”, e a história (real e não ficcional) de vida de cada pessoa?

 Estamos longe de querer dar respostas a questionamentos tão complexos e que causam grandes divergências até mesmo nos mais renomados historiadores. No entanto, essas reflexões certamente já devem ter passado de uma forma ou de outra pelas nossas cabeças e dos próprios estudantes. Antes de tudo, é interessante ouvi-los a respeito do assunto, já que a opinião deles será o ponto de partida para a discussão que pretendemos atingir.

 

            Ouvindo os alunos

Perguntar à classe:

1) O que seria “entrar para a História”?

2) Quem seria uma pessoa “histórica”? Citem exemplos.

3) A história de vida de cada pessoa teria algo a ver com a disciplina escolar História (com “H maiúsculo”) ?

 

Desde certa idade, nossa bagagem cultural é alimentada com várias referências históricas e concepções sobre a História, às quais inevitavelmente não ficamos alheios. Feriados, nomes de ruas, datas, filmes, figuras apresentadas como “heróis” e outras como “vilões”, estimulam a pensarmos que é a História é pra poucos, digna apenas de ações raras. Esses eventos se destacam do cotidiano, como um foco de luz em meio a um período de tempo longínquo, obscurecido por nosso desconhecimento.

“Entrar para a História” tem sido sinônimo de se tornar alguém muito reconhecido e a executar feitos grandiosos. Por exemplo, um time de futebol só faz algo “histórico” quando ganha um campeonato difícil, como o Mundial de Clubes. Se jogar muito bem, mas ficar em segundo ou terceiro lugar, será ignorado pela mídia e não será enaltecido às gerações futuras.

 Quando pensamos em Independência do Brasil, de bate-pronto, pensamos em 7 de Setembro, em 1822 e em Dom Pedro I. O que muitas pessoas sabem mais dessa época? Talvez nada, porém essas informações ficam registradas em suas mentes, muitas vezes por terem sido obrigadas a decorá-las.

Podemos ajudar os alunos a, se não desconstruir totalmente tais estereótipos que recaem sobre a matéria, pelo menos ampliar suas perspectivas do conhecimento que ela pode propiciar. A História não surge apenas de acontecimentos pontuais e ações sobre-humanas. Ela é mais próxima dos seres humanos “normais”, como todos nós, que não somos “heróis” e muito menos “vilões”. O estudo da realidade humana do passado, isto é, a História, também está no cotidiano, no dia-a-dia, no nosso modo de viver. Como um provérbio árabe[15] diz: “os homens se parecem mais com a sua época do que com seus pais.”

 

Relacionando com os dias de hoje

Todos nós somos, de um modo ou de outro, reflexo do momento histórico em que vivemos. Um exercício interessante: tentar imaginar como viveríamos se estivéssemos, com a nossa idade de hoje, na época dos nossos pais? E dos nossos avôs? Ou, no caso de alunos mais velhos, da infância deles? Nem precisa dizer que seria muito diferente. Da mesma forma, outra reflexão válida pra se propor aos alunos: quem na atualidade consegue viver sem usar – ou ao menos ter contato, se não puder possuir – nenhuma forma de tecnologia contemporânea, sem televisão, telefone, celular, computador ou eletrodomésticos? Muito poucos.

Esses objetos integram um universo de experiência, constituindo a identidade individual e o imaginário coletivo. É o “espírito” de uma época se materializando no cotidiano de uma pessoa. 

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15.  BLOCH, Op. cit.

 

           

Isso nos mostra que a História não é apenas para uma seleta minoria de figuras famosas, como sugerem as Histórias Oficiais. A História tem cara humana, ou seja, de todos os seres humanos e não apenas de pessoas destacadas Não precisamos ser Ayrton Senna, Juscelino Kubitschek ou Pedro Álvares Cabral para sermos históricos. A História pode ser vista de baixo, como defendiam Bloch e os Annales: ela é de todos que vivem em uma determinada época. Não observamos indiferentemente o nosso tempo presente, ele nos afeta, fazemos parte dele. Nesse sentido, todos estamos na História, todos somos sujeitos históricos: não precisamos fazer coisas extraordinárias para “entrar” nela.

 

            Relacionando com os dias de hoje

O aluno, assim, pode ficar mais estimulado em se interessar por sua história de vida, seu passado e seu passado e seu presente. Podemos relacionar os períodos da História recente do Brasil com algumas fases vida de cada um, evidenciando a conexão entre eles. Nos anos 1980 para os 1990, período que muitos dos alunos de EJA devem ter vivido, a turbulência econômica do país impactava diariamente atos cotidianos como compras e recebimento de salário. Isso colabora para que eles se enxerguem como protagonistas de suas vidas e, de certo modo também, de um contexto histórico, ao lado de milhões de brasileiros.

 

A atitude de valorização da vivência individual dos alunos pode abrir portas para projetos mais ambiciosos no que tange a centralidade deles. Nesta sequência didática, por mais que incentivemos atividades de análise de documentos, busquemos aproximar o conteúdo ministrado dos alunos, abramos espaços para expressarem suas visões, ainda não nos desvencilhamos totalmente do modelo tradicional de aula expositiva. No entanto, as ideias que aqui desenvolvemos preparam terreno para outros planos de aula, em que os alunos, de fato, sejam os atores principais, contando não a história de vida de Carolina de Jesus, mas as deles mesmos.

Trata-se de proposta bastante relacionada à História Oral, em que a matéria-prima para o conhecimento do passado consiste nos próprios depoimentos dos alunos. Nesse caso, inverte-se a didática enunciativa do professor como emissário e o estudante como receptor. Este se torna entrevistado e aquele, entrevistador, cuja função se torna fomentar, capacitar o aluno a contar e refletir sobre a sua história de vida. Uma iniciativa com a mesma perspectiva é a do Museu da Pessoa[16], organização da sociedade civil que registra, preserva e transforma em informação histórias de vida de toda e qualquer pessoa da sociedade. Além disso, contar e ouvir histórias de vida ajuda a construir uma troca de vivências que agrega muito ao espaço pedagógico: aproxima as pessoas, o que tem um grande valor, ainda mais em tempos de individualismo exacerbado, como os atuais.

            Enfim, podemos tecer um elo entre a História disciplina, com “H maiúsculo”, e a história de vida de cada ser humano. Acreditamos que é essa uma missão enriquecedora por parte de nossa matéria: a de mostrar a humanidade das pessoas que viveram em outras épocas.

Carolina, protagonista de sua vida

            Assim, Carolina de Jesus nos estimula a refletir o quanto cada um é sujeito histórico, o quanto somos influenciados pela época em que vivemos. Explicita também que devemos dar grande importância à vivência de cada pessoa, que é protagonista de sua vida. Entretanto, o protagonismo de Carolina foi além. Ela enfrentou os preconceitos que na época recaíam sobre as populações negra, pobre, feminina e com pouca escolaridade. Diferentemente da maioria dos seus vizinhos, cultivava o hábito de ler e teve a iniciativa de registrar criticamente a realidade da favela em seus diários. A escrita, para ela, correspondeu uma forma de tirar do anonimato o sofrimento de tantos favelados, ignorado por entre os setores dominantes da sociedade. Carolina conseguiu colocar em pauta nacional as enormes populações pobres, negras e marginalizadas do país, fazendo a sociedade, governantes e intelectuais refletirem sobre elas.

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16 <http://www.museudapessoa.net/_index.php/o_que_es>. Acesso em 28-10-2013

 

 

 

            Robert M. Levine afirma:

 

 “A trajetória de Carolina implica a visão de um lado pouco mostrado da cultura brasileira: a luta quotidiana de uma mulher ‘de cor’, pobre e desprovida de favores do Estado, de organismos sociais, de instituições e até de amigos. Logicamente, isto não remete a ela apenas enquanto indivíduo, mas também a todo o sistema que abriga os despossuídos legados ao anonimato. O que a distinguiu dos demais foi o fato de ser um tipo capaz de desafiar a pobreza e seus pormenores através de incomum capacidade de luta e perseverança e de uma agressiva personalidade. (...) Carolina foi, pode-se dizer, uma guerreira valente contra as tropas da herança racista, antiinteriorana, preconceituosa em relação às mulheres e, sobretudo, uma pessoa afrontadora da marginalidade e da negligência política.”[17]

           

            A independência de Carolina era frequentemente confundida com prepotência, levando alguns até a conspirar que tudo não passava de golpe publicitário. Que Quarto de Despejo tivesse sido escrito por outrem, na intenção de enriquecer e de fazer a mulher famosa. No entanto, o poeta Manuel Bandeira, em um artigo, colocou as coisas no devido lugar: ninguém poderia inventar a linguagem de Carolina e imitar seu modo de sentir[18].          

 

Este é o principal elemento protagonismo de Carolina de Jesus. Ela viveu e sentiu na pele, em (pouca) carne e (muito) osso todas as dificuldades retratadas no livro-diário. O seu drama não é ficcional, é baseado em fatos reais. Carrega a autenticidade de quem viu de perto as crueldades do mundo. Autenticidade de quem estudou só até o segundo ano e comete, inevitavelmente, erros ortográficos. Autenticidade de quem fala a “língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”[19], como nos versos do mesmo Bandeira.

 

            Nisso, é interessante comparar Carolina com alguns escritores do Modernismo brasileiro. Jorge Amado e Graciliano Ramos, na década de 1930, já haviam feito em seus livros duros retratos da pobreza no país, tanto nos centros urbanos, como no interior. Porém, Amado e Ramos tinham boa condição econômica, de modo que, embora suas literaturas tenham dado voz aos despossuídos, tal voz não emergiu diretamente desses. No caso da escritora, porém, vemos uma representante da população desfavorecida que fez aparecer sua voz diante do cenário nacional. Os escritores, portanto, não alcançam o grau de realismo dos escritos de Carolina.

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17.  MEIHY, LEVINE, Op. cit, p. 19
18.  Apud DANTAS, Audálio, “A atualidade do Mundo de Carolina”. In: DE JESUS, Op. cit, p.5
19.  BANDEIRA, Manuel, Evocação do Recife. In: Libertinagem & Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira, 2005, p. 24

 

 

 

Carolina: A importância da leitura e da escrita na experiência da vida

            A figura de Carolina de Jesus também nos leva a perceber a grandeza do papel da leitura e da escrita na vida dos seres humanos. Seria interessante abordar esse tópico principalmente com os alunos do EJA, pois muitos deles devem ter se alfabetizado já com idade acima da recomendada. Devem, em suas trajetórias, ter se dado conta da importância social que a leitura e a escrita desempenham. A alfabetização cumpre papel essencial para a inserção no mercado de trabalho, por exemplo.

            Carolina de Jesus nos apresenta, além dessa, outra função da leitura e da escrita: a de tornar a nossa experiência de vida mais ampla, isto é, de humanização e subjetivação. A leitura de literatura ou de qualquer tipo de arte, seja erudita, seja popular, cumpre um papel fundamental para os seres humanos. O crítico literário Antonio Candido, no famoso ensaio “O Direito à Literatura”[20] afirma que a Literatura pode propiciar a transformação das atitudes indivíduo, por meio das reflexões e motivações que os livros nos inspiram. Carolina confirma essa ideia, dado que quando perguntada o significado da literatura em sua vida, respondeu: “A transição de minha vida foi impulsionada pelos livros. Tive uma infância atribulada. É por intermédio dos livros que adquirimos boas maneiras e formamos nosso caráter.”[21]

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20.  CANDIDO, Antonio; BAPTISTA, Abel Barros. O direito à literatura e outros ensaios. Angelus Novus Editora, 2004.
21.  DE JESUS, Op. cit, p. 170

 

 

            Da mesma forma que a leitura, a escrita traz novas possibilidades à vivência individual. O escrever autobiográfico, como na forma de diário, permite um autoconhecimento maior, além de preservar a memória de cada um. Isso permite que lidemos melhor com nossos dramas, nossos problemas e consigamos tornar o dia-a-dia mais agradável. Uma folha branca (ou nem tão branca no caso de Carolina, já que seus papeis eram catados na rua) para escrevermos significa um convite para traduzirmos em palavras as esperanças de uma outra vida, um futuro melhor, mesmo quando as perspectivas são desanimadoras. O diário, desse modo, se torna confessionário e refúgio. Carolina narra a triste razão de ter começado a escrever: “Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário.”[22]

           

Ouvindo os alunos

Perguntar aos alunos:

1) Quando e com que idade aprenderam a ler e a escrever? Quem os ensinou?

2) Que transformações a alfabetização trouxe nas suas vidas?

3) Vocês têm o hábito de ler? O quê? (Por exemplo: jornais, revistas, livros, internet) Por quê?

4) Vocês costumam escrever diários? Se sim, por quê?

 

Considerações finais

            Buscamos com as considerações feitas, resgatar a memória de Carolina Maria de Jesus, uma figura que nas últimas décadas, caiu no esquecimento do grande público brasileiro. Carolina e seus relatos são um pertinente instrumento para analisarmos um período da História da Cidade de São Paulo e do Brasil, mostrando uma face obscura dos chamados “Anos Dourados” e trazendo a tona temas que persistem na atualidade como a desigualdade social, a pobreza extrema e a modernização – de cunho um tanto quanto elitista – do país. Além disso, acreditamos que propor aos alunos o estudo de uma pessoa favelada, pobre, negra, mulher e mãe sozinha – ou seja, fora dos padrões de que se entende no senso comum como personagem “histórica” – pode ampliar os horizontes deles sobre o que é História e como as vivências individuais podem estar relacionadas a ela.

 

NOTAS

1 – JESUS DE, Carolina Maria. Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 5ª edição. São Paulo: Ática, 1995

2 – MEIHY, José Carlos Sebe Bom, LEVINE, Robert M. Cinderela Negra – A Saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994, p. 17

3 – Ibidem, p.18

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22.  Ibidem, p. 171.

 

 

 

4 – JESUS DE, Op. cit., 27

5 – CALDEIRA, Teresa Pires do Rio, Cidade de Muros – Crime, Segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34; EDUSP, 2000, pp. 218-221

6 – Ibidem, p. 221

7 – DE JESUS, Op. cit, p. 32

8 – Ibidem, p. 35

9 – “São Paulo 400 Anos” <http://www.youtube.com/watch?v=zuqCyjDPfbQ>. Acesso em 27-11-2013.

10 – “Repórter Esso”, TV Tupi <http://www.bcc.org.br/tupi/detalhe/44929>. Acesso em 27-11-2013

11 – BLOCH, Marc, Apologia da História ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 54

12 – DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos, Infância. In: Alguma Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 13

13 – MEIHY, LEVINE, Op. cit, p. 20

14 – GINZBURG, Carlo. “O nome e o como. Troca desigual e mercado Historiográfico.” In: Idem. A Micro-História e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1991, pp. 169-179

15 – BLOCH, Op. cit

16 – <http://www.museudapessoa.net/_index.php/o_que_es>. Acesso em 28-10-2013

17 – MEIHY, LEVINE, Op. cit, p. 19

18 – Apud DANTAS, Audálio, A atualidade do Mundo de Carolina”. In: DE JESUS, Op. cit, p.5 

19 – BANDEIRA, Manuel, Evocação do Recife. In: Libertinagem & Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira, 2005, p. 24

20 – CANDIDO, Antonio; BAPTISTA, Abel Barros. O direito à literatura e outros ensaios. Angelus Novus Editora, 2004.

21 – DE JESUS, Op. cit, p. 170

22 – Ibidem, p. 171.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BANDEIRA, Manuel. Evocação do Recife. In: Libertinagem & Estrela da Manhã. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005, p. 24

BLOCH, Marc. Apologia da História ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 54

CALDEIRA, Teresa Pires do Rio, Cidade de Muros – Crime, Segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34; EDUSP, 2000, pp. 218-221

CANDIDO, Antonio; BAPTISTA, Abel Barros. O direito à literatura e outros ensaios. Angelus Novus Editora, 2004.

DE JESUS, Carolina Maria. Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 5ª edição. São Paulo: Ática, 1995

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos, Infância. In: Alguma Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 13

GINZBURG, Carlo. “O nome e o como. Troca desigual e mercado Historiográfico.” In: Idem. A Micro-História e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1991, pp. 169-179

MEIHY, José Carlos Sebe Bom; LEVINE, Robert M. Cinderela Negra – A Saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994, p. 17

 

FONTES DAS IMAGENS E TABELAS

 

A: <http://cincomeiasete.blogspot.com.br/2009/12/carolina-maria-de-jesus-intelectual-do.html> Acesso em 29 -11-2013

 

B: <http://extras.ig.com.br/infograficos/2012/brasil/populacao-sao-paulo/> Acesso em 29 -11-2013

 

C:<http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/c_deak/CD/5bd/1rmsp/m02-evol/index.html> Acesso em 29 -11-2013

 

D: <http://www.abril.com.br/especial450/materias/lorca/foto16.html>  Acesso em 08 -12-2013

 

E: <http://www.bcc.org.br/tupi/detalhe/44929>. Acesso em 27-11-2013

 



[1] JESUS DE, Carolina Maria. Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 5ª edição. São Paulo: Ática, 1995

[2] MEIHY, José Carlos Sebe Bom, LEVINE, Robert M. Cinderela Negra – A Saga de Carolina Maria de Jesus. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994, p. 17

[3] Ibidem, p.18

[4] JESUS DE, Op. cit., p. 27

[5] CALDEIRA, Teresa Pires do Rio, Cidade de Muros – Crime, Segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34; EDUSP, 2000, pp. 218-221

[6]Ibidem, p. 221

[7] DE JESUS, Op. cit, p. 32

[8] Ibidem, p. 35

[9] “São Paulo 400 Anos” <http://www.youtube.com/watch?v=zuqCyjDPfbQ>. Acesso em 27-11-2013.

[10] “Repórter Esso”, TV Tupi <http://www.bcc.org.br/tupi/detalhe/44929>. Acesso em 27-11-2013.

[11] BLOCH, Marc, Apologia da História ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 54

[12] DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos, Infância. In: Alguma Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 13

[13] MEIHY, LEVINE, Op. cit, p. 20

[14] GINZBURG, Carlo. “O nome e o como. Troca desigual e mercado Historiográfico.” In: Idem. A Micro-História e outros ensaios. Lisboa: Difel, 1991, pp. 169-179

[15] BLOCH, Op. cit.

[16] <http://www.museudapessoa.net/_index.php/o_que_es>. Acesso em 28-10-2013

[17] MEIHY, LEVINE, Op. cit, p. 19

[18] Apud DANTAS, Audálio, “A atualidade do Mundo de Carolina”. In: DE JESUS, Op. cit, p.5 

[19] BANDEIRA, Manuel, Evocação do Recife. In: Libertinagem & Estrela da Manhã. Editora Nova Fronteira, 2005, p. 24

[20] CANDIDO, Antonio; BAPTISTA, Abel Barros. O direito à literatura e outros ensaios. Angelus Novus Editora, 2004.

[21] DE JESUS, Op. cit, p. 170

[22] Ibidem, p. 171.

 

 

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