O Transporte público no Ensino de História

Sequência didática
Uma História para cidade de São Paulo: Um desafio pedagógico
Transportes Públicos da cidade de São Paulo:
“História do Passado e do Presente”
Aluno: André de Pina Moreira
Professora: Dra. Antonia Terra de Calazans Fernandes
Departamento de História
Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas
Universidade de São Paulo
São Paulo, 08 de Dezembro de 2013

 

Introdução: O Transporte público no Ensino de História

“As intenções educativas, isto é, aquilo que se pretende conseguir dos cidadãos mais jovens da sociedade, são reflexo da concepção social do ensino e, portanto, consequência da posição ideológica da qual se parte. Essas intenções ou propósitos educativos, explicitados ou não, determinam a importância daquilo que é relevante para os alunos aprenderem.” 1
(Antoni Zabala)

O que ensinar? Como ensinar? O que se pretende ao falar dos Bandeirantes? Revolução Constitucionalista? Ou quando se recorre aos jesuítas para explicar a fundação de São Paulo? Seguir estritamente os materiais didáticos, com seus temas já a muito consolidados, e as praticas tradicionais de ensino ou inovar e propor algo um pouco diferente aos alunos? Estas são questões pertinentes e vivamente presentes no dia-a-dia dos professores. Para nós, estas foram essenciais como ponto de partida e para estabelecer o tema desta sequência didática.

A decisão de trabalhar “Os transportes públicos da cidade de São Paulo” é fruto da nossa posição ante as diversas faces do Ensino e concepções do que é História. A partir daí, buscamos trazer para sala de aula um tema que se constitua realidade cotidiana dos alunos, assim como da maior parte dos outros cidadãos brasileiros. Pautamos, portanto, em uma abordagem histórica que tivesse sempre em conta as questões do “nosso próprio tempo”, principalmente aquelas essenciais à formação de cidadãos críticos e participativos. Em ultima instância, o que está colocado aqui é a necessidade de fazer emergir também o presente como aspecto importante da pesquisa e ensino da História, visando especialmente o reconhecimento por parte dos alunos de suas posições como agentes e sujeitos históricos.

As manifestações de Junho de 2013, ocorridas por todo Brasil, foi o maior incentivo para este trabalho. Identificadas no seu inicio como movimento de denuncia dos inúmeros problemas encontrados no sistema de transporte público, notadamente em oposição ao abusivo preço das tarifas, tornou se assunto obrigatório de rodas de amigos, meios de comunicações, debates

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1 ZABALA, Antoni. “Os enfoques didáticos”, in: COLL, César; MARTÍN, Elena; Et. Al (Orgs.). O Construtivismo na Sala de Aula. São Paulo: Editora Ática, 1996, p. 161.

 

 

universitários, surgindo a partir daí um leque de novas questões. Primeiro se falava sobre preços das passagens, sobre todo funcionamento do sistema de transporte, irregularidades em licitações e as relações entre donos de empresas e algumas figuras políticas, logo vieram os gritos pedindo o “Passe Livre”, questionamentos acerca do aparato jurídico-repressivo do Estado, começou a se falar de corrupção, saúde, educação. Eram cada vez mais comuns os debates televisivos sobre o assunto, tentando entender esse novo modo de participação política e até onde ele iria. Os impactos destas manifestações são ainda imensuráveis, indo muito além das primeiras conquistas. Certo mesmo é a sua importância e as diversas possibilidades de trabalho que se abrem ao abordar este assunto em sala de aula.

Por fim, falando especificamente sobre a nossa proposta de trabalho, pretendemos trazer a tona toda esta discussão sobre o transporte público da cidade de São Paulo através de três eixos primordiais. No primeiro destes eixos abordaremos os impactos das inovações tecnológicas dos meios de transporte da cidade, sejam eles de ordem social, econômica e ambiental. O segundo eixo voltará para as relações do transporte público com a cidade, notadamente no modo como o mesmo responde a certos projetos políticos e participa do crescimento de São Paulo, contribuindo para uma total “divisão social do espaço”. O terceiro e ultimo eixo, decorrente dos outros dois, busca discutir os “projetos” para um novo sistema de transporte da cidade de São Paulo, partindo daí para analisar algumas outras manifestações já realizadas na cidade, com suas conquistas e desdobramentos, inclusive resistências.

A atividade que se segue constitui apenas uma proposta inicial, ponto de partida para uma discussão que se faz necessária, podendo o professor realizar diversas alterações, adaptando a sequência a realidade encontrada dentro da sua sala de aula. Defendemos antes de tudo a necessidade de estarmos sempre atentos as particularidades de cada escola, dos seus inúmeros espaços coletivos e cada aluno. Aqui estarão algumas linhas gerais, estruturadas em quatro aulas e indicadas para alunos do 1° ano do Ensino Médio, com atividades baseadas numa perspectiva construtivista de ensino. Esperamos assim contribuir para a formação dos nossos alunos de modo que incentivemos o senso de realidade e o nervo crítico que tanto se faz necessário, principalmente agora que manifestar parece ter se tornado uma opção.

 

Plano de Aula - Transportes Públicos da cidade de São Paulo: “História do Passado e do Presente”

A seguir estruturamos os conteúdos, atividades e objetivos de cada uma das aulas de nossa proposta. Começaremos por apresentar breves panoramas que visam interar o professor para mediar à execução desta sequência didática na sala de aula, indicando a bibliografia pertinente a cada um dos eixos tratados. Os materiais em anexo podem ser alterados, assim como outros adicionados, a depender dos objetivos estabelecidos por cada professor como mais importante, sempre em atenção as particularidades daqueles e daquelas que compõe a classe.

 

 Primeira Aula: Dos bondes a tração aos Ônibus de hoje

O objetivo principal desta primeira aula é incitar os alunos a reconhecerem as transformações que se passaram na sistematização do transporte público da cidade, as inovações tecnológicas e os projetos envolvidos a cada um deles. Os materiais estruturam-se em torno dos diversos meios de transportes já utilizados na cidade, principalmente da virada do século XIX para cá. Disporemos de vídeos, fotos, musicas e trechos de texto, partindo daí para alguns questionamentos dos alunos e a proposta de um trabalho coletivo que deverá ser entregue ao fim da ultima aula. Importante ressaltar a importância das respostas dadas pelos alunos nesta primeira atividade, pela possibilidade de servirem como uma espécie de diagnostico dos saberes trazidos pelos alunos e a partir deles fundamentar o restante da proposta, inclusive norteando as possíveis alterações ao que foi por nós indicado.

1) Exibição de vídeos: “A Luta pelo Transporte em São Paulo”, Jean Manzon, e “A História do bonde de São Paulo”, Reportagem TV Gazeta.
2) Leitura de texto: “Perdendo o Bonde” (Excertos), Boris Fausto (Anexo I).
3) Primeiras questões: Sugerimos o apontamento de algumas questões a serem respondidas pelos alunos com intervenções por parte dos

 

 

professores sempre que surgirem duvidas, as problematizando e não apenas indicando uma possível resposta. Abaixo algumas das questões:

 No vídeo “A História do bonde de São Paulo” qual é o elemento usado para marcar o tempo em que se utilizavam os bondes a tração animal?
 Em “A Luta pelo transporte em São Paulo” qual seria a intenção do autor por trás deste filme? As criticas contidas no vídeo parecem ser corretas? A quem se destinam?
 Na década de 50 haveria muitas outras opções, além dos bondes, para se movimentar pela cidade? Há no filme de Jean Manzon, imagens destes outros meios de transportes?
 Os bondes eram rápidos? A nossa vida hoje, dentro do dia-a-dia da cidade, permitiria usar um meio de transporte com esta mesma velocidade?
 Qual seriam os motivos para que se tenha acabado com os bondes?
 Estes bondes eram importantes? O que se perdeu com o seu fim?

 

Bibliografia: SÁVIO, Marco A. C. A cidade e as máquinas: Bondes e automóveis nos primórdios da metrópole paulista (1900-1930). São Paulo: Annablume, 2010.
LOPES, Miriam B. P. Oelsner. Pequena História dos transportes públicos de São Paulo. São Paulo: Museu CMTC dos Transportes Públicos, 1985.
FAUSTO, Boris. “Perdendo o Bonde”, in: Folha de São Paulo (Caderno Mais!). São Paulo, 10 fev. 2008. p. 3 – Disponível também online: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1002200804.htm [Consultado pela ultima vez no dia 15/12/2013]

 

4) Trabalho Final: Aqui serão dados os primeiros passos para execução coletiva de um trabalho final. O norteador do trabalho que estamos propondo está no mote desta sequência, “História do passado e do presente”. Os alunos devem ser divididos em grupo, onde cada um escolherá um tipo de material (vídeo, fotografias, musica, jornal) que deverá ser produzido conjuntamente retratando o transporte publico hoje. Dentro desta atividade os alunos devem deixar explicito a ligação com as discussões que vão sendo realizadas na sala de aula. Por fim, cabe lembrar que o professor é fundamental para execução desta atividade, devendo dispor sempre alguns minutos das aulas seguintes para discutir o que está sendo feito pelos alunos, podendo mesmo adicionar uma aula a mais para este fim.

 

Devemos problematizar os recortes e assuntos tratados pelos alunos, incentivar o trabalho coletivo e expor alguns exemplos do que deve ser feito, tal como: reproduzir fotos antigas, tentando as tirar hoje do mesmo ângulo e a partir daí discutir o que está sendo representado; Realizar entrevistas acerca do transporte público de hoje, observando continuidades e mudanças; Encontrar algumas músicas que abordem o tema e analisar alguns dos seus trechos.

 Segunda Aula: Problemas nos transportes públicos

Os problemas atuais dos transportes públicos são mais que evidentes, indo desde preços abusivos das passagens a superlotações ou mesmo as péssimas condições dos veículos. Mas vários destes são problemas comuns já na primeira metade do século XX, havendo varias fotos e noticias de jornais a relatarem as dificuldades de então. Propomos aqui o trabalho com imagens, com diferentes grupos escolhendo uma imagem a ser discutida e que servira como ponto de partida para realização de uma “micro-história”, uma narrativa que busque explicitar os problemas retrados nas fotos e outros documentos utilizados nesta aula. Pequenos trechos historiográficos, excerto de jornal, reprodução de uma música e a distribuição de sua letra, serão importantes suportes desta aula. Por fim, como forma de “amarrar” o que foi tratado e se preparar para a próxima aula, seria interessante que os alunos trouxessem “memórias” dos seus pais, avôs, mas também suas, sobre as mudanças que presenciaram no sistema de transporte e se enfrentam dificuldades de mobilidade e quais são estas. Peça para se atentem aos destinos dos ônibus que passam próximo a suas casas e que descrevam o itinerário para ir aos grandes parques da cidade e também museus.

 

As imagens estarão em anexo, juntamente com a letra da musica “Bonde Camarão”, de Cornélio Pires, e alguns trechos do livro do Marco A. C. Sávio e um texto de Beltrina Côrte no livro “Cotidianos do Metrô”. Estes textos, assim como a música, excertos de jornais e a letra da música devem ser entregues a todos os grupos e servir de “suporte” para o trabalho que vão realizar. O professor pode adicionar outras imagens, principalmente quando o numero de grupos for maior do que o numero de imagens aqui indicadas. Se necessário, também poderá escrever um breve roteiro para os alunos realizarem a “tarefa de casa”.

 

 

 Terceira Aula: Transporte público e Especulação imobiliária

Neste bloco, discutiremos a imbricada relação entre o sistema de transporte público e especulação imobiliária. O primeiro material a ser usado é aquele produzido pelos próprios alunos, tal como fora pedido na ultima aula. O regime constante do processo de especulação nos dá inúmeras possibilidades a serem trabalhadas, tendo ainda mais efeito ao relacionarmos com a realidade dos alunos. Sabemos que a cidade de São Paulo iniciou a arrancada para transformar-se na maior metrópole brasileira já na ultima década do século XIX, sendo os bondes elétricos da Light, notadamente a partir de 1900, fator decisivo na reordenação espacial da cidade em expansão, de incorporação e valorização de novas áreas e de crescente especulação imobiliária. Entretanto, foram os ônibus aqueles que mais contribuíram para o processo. Portanto, discutiremos alguns trechos de textos e artigos que falem sobre esta ligação, assim como um mapa retratando a expansão urbana da cidade. Conjuntamente produziremos textos acerca dos processos de especulação imobiliária que estão ligadas aos nossos cotidianos, usando os materiais indicados para esse aula a fim de objetivar as memórias, dados e informações trazidos pelos alunos.

 

Bibliografia:
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros: Crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Edusp; Ed. 34, 2000.
IMAEDA, Ricardo; VITTE, Claudete C. S. “Transporte coletivos e urbanização na cidade de São Paulo na primeira metade do século XX: Aspectos político-institucionais, atores, alianças e interesses”, in: GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, N° 21, p. 67-84, 2007.
ROLNIK, Raquel. “De como São Paulo virou a capital do capital”, in: Lícia do Prado Valadares (org.). Repensando a habitação no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, p. 109-134.

 

 Quarta Aula: Revoltas e Manifestações – “Por um sistema de transporte melhor!”

Na penúltima aula desta sequência, abordaremos o tema das manifestações. Como já exposto, estruturamos nossa proposta de Ensino de História através da estruturação do tema a ser trabalhado por sua ligação com aspectos da realidade cotidiana dos nossos alunos, eventos presentes que façam com que eles vejam de forma nítida a importância dos estudos históricos. O material privilegiado nesta etapa será as matérias jornalísticas, com diferentes opiniões e noticias que enfoque os diferentes grupos e argumentos envolvidos em um mesmo debate. Sugerimos também o trabalho com textos e noticias que abordem manifestações e revoltas antigas contra as mazelas do transporte publico. O professor pode, e deve, explorar bem esta etapa, por isso indicamos a leitura do livro “Cidades Rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil”, como forma de aprofundar a discussão de algumas reivindicações por parte dos manifestantes de Junho e conhecer melhor este lado que pouca voz possui dentro dos veículos de massas. Aos alunos devemos pedir para que elabore uma “carta protesto”, na qual denunciam e, se possível, realizem uma proposta para solucionar um ou outro problema que enfrenta no seu cotidiano. Se quiserem, podem realizar um “panfleto” chamando a todos para lutarem por alguns dos seus direitos!

 

As noticias que serão utilizadas, assim como um vídeo informativo e indicação de alguns artigos, estão nos anexos, no bloco da quarta aula. Eles serão indicados por seus “links”, de modo que os professores podem acessa-los e usa-los como achar melhor, imprimindo, levando os alunos para salas de informáticas ou copiando as partes das noticias que acreditem como mais relevantes.

 

 Quinta Aula: Exposições

Esperando estarem os alunos já preparados e tendo construído parte do conhecimento necessário para execução dos trabalhos pedidos na primeira aula, sugerimos um ambiente de exposição e discussões, além da avaliação da proposta e sua execução, tanto por parte dos alunos quanto do professor. Este ponto é importantíssimo para as próximas execuções, devendo ser continuamente repensada e alterada, visando sempre maiores ganhos.

Bibliografia
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidades de muros: Crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Edusp; Ed. 34, 2000.
FILHO, Nelson Aprobato. Kaleidosfone: As novas camadas sonoras da cidade de São Paulo – Fins do século XIX – Início do XX. São Paulo: Edusp, 2008.
LOPES, Miriam B. P. Oelsner. Pequena História dos transportes públicos de São Paulo. São Paulo: Museu CMTC dos Transportes Públicos, 1985.
MARICATO, Ermínia; [et. al]. Cidades Rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial; Carta Maior, 2013.
MEDINA, Cremilda (Org.). Cotidianos do Metrô. São Paulo: ECA-USP, 1999.
PORTELA, Fernando. Bonde: Saudoso paulistano. São Paulo: Terceiro Nome. 2006.
SÁVIO, Marco A. C. A Cidade e as máquinas: Bondes e automóveis nos primórdios da metrópole paulista (1900-1930). São Paulo: Annablume, 2010.

 

 

ANEXO

 

Aula I

“Perdendo o bonde”

Marco cultural brasileiro, esse meio de transporte foi exemplo de uma sociabilidade que não existe mais nas atuais formas de locomoção das metrópoles
BORIS FAUSTO COLUNISTA DA FOLHA

Há certos fatos, para a vida das pessoas, que marcam a transição de uma época para outra.
Muitas vezes, são acontecimentos sabidamente relevantes, como, por exemplo, o antes e o depois da crise econômica iniciada em 1929 ou o antes e o depois da Segunda Guerra. Talvez, forçando um pouco a nota, mudanças na aparência de pouca importância possam marcar também a separação entre dois tempos - o do presente e "os velhos bons tempos", como os saudosistas gostam de dizer. Isso acontece, por exemplo, para a gente que viveu a época dos bondes nas grandes cidades brasileiras e assistiu à sua desaparição, aí pelos anos 60 do século passado.
A extinção do bonde marca a passagem de um tempo para outro porque ele não era apenas um meio de transporte, mas um espaço de sociabilidade cujo reflexo se encontra em crônicas, em contos e na música popular brasileira.

Nos bondes abertos, onde as fileiras de bancos de madeira para oito passageiros estendiam-se no seu interior, a socialização era maior, seja entre as pessoas sentadas, seja entre as que se postavam nos estribos, por gosto ou por falta de espaço. Neles iam os jovens pingentes, pendurados como certos brincos, para demonstrar que já eram homens feitos, capazes de realizar façanhas acrobáticas, ao descer do veículo em velocidade, com classe e destreza suficientes para não se esborrachar no chão de paralelepípedos.
Nos bancos do bonde aberto, corriam as conversas com o passageiro ou a passageira do lado, sobre o tempo, a carestia, a pressa insuportável da vida moderna ou, ainda, brotavam aqui e ali alusões tímidas que ensaiavam namoros.

Explodiam também muitos protestos contra os que, ao entrar no veículo, perturbavam as pessoas já acomodadas, esbarrando nelas com enormes tranqueiras, pisando em seus pés, ou deixando respingar as gotas dos guarda-chuvas molhados.

Todas essas coisas desapareceram com a extinção do bonde, por volta dos anos 60. Cada vez mais a classe média se enfiou nos automóveis, depois acrescentou o hábito dos vidros fechados e o ar-condicionado, isolando-se das cenas de miséria e violência das ruas. Depois, pelo menos uma faixa da gente pobre, mesmo em piores condições, seguiu caminho semelhante.
Como os automóveis, em breve, vão se transformar em objetos inúteis, paralisados por falta de espaço, quem sabe surja, dentre as alternativas em andamento, a ideia da volta dos antigos bondes. Infelizmente, ainda assim, muito pouca coisa seria como dantes, pois a sociabilidade perdida não dependia apenas dos bondes, mas das formas de um certo tipo de convivência social que desapareceu para sempre.

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BORIS FAUSTO, historiador, é presidente do Conselho Acadêmico do Gacint (Grupo de Conjuntura Internacional) da USP. É autor de, entre outros, "A Revolução de 30" (Cia. das Letras).
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1002200804.htm)

 

 

Bonde Camarão (1929-1930)
Cornélio Pires
Aqui em São Paulo o que mais me amola
É esses bonde que nem gaiola
Cheguei, abriro uma portinhola
Levei um tranco e quebrei a viola
Inda puis dinhêro na caixa da esmola!
Chegô um véio se facerando
Levô um tranco e foi cambeteando
Beijô uma véia e saiu bufando
Sentô de um lado e agarrô assuando
Pra morde o vizinho tá catingando.
Entrou uma moça se arrequebrando
No meu colo ela foi sentando
Pra morde o bonde que estava andando
Sem a tarzinha está esperando
Eu falo claro, eu fiquei gostando!
Entrou um padre bem barrigudo
Levô um tranco dos bem graúdo
Deu um abraço num bigodudo
Um protestante dos carrancudo
Que deu cavaco c´o batinudo
Eu vou m´imbora pra minha terra
Esta porquêra inda vira em guerra
Esse povo inda sobe a serra
Pra morde a light que os dente ferra
Nos passagero que grita e berra!

 

 

Aula II

“Os bondes, que desde o início da operação tinham dificuldade em trafegar pelas estreitas ruas daquela região (Triângulo Central), passaram a enfrentar um tráfego cada vez maior que em alguns momentos, tornava praticamente inviável a circulação, resultando em longos congestionamentos. Essa situação acabava por refletir negativamente nos já sérios problemas que essa forma de transporte enfrentava na cidade de São Paulo. Como o modelo de transporte no município era baseado na irradiação centro-periferia, praticamente todas as linhas se viam condenadas a um aumento de atraso graças ao tempo perdido no tráfego pela região central da cidade.”
Marco A. C. Sávio (A cidade e as máquinas: Bondes e automóveis nos primórdios da metrópole paulista, 1900-1930), p. 147.

 

“E os bondes elétricos com o barulho de ferragens sobre os trilhos, percorrendo as ruas com lotações sempre esgotadas, os estribos de ambos os lados sempre apinhados de pingentes, cada qual mais impaciente para chegar ao seu destino! Não queriam imaginar o trabalho do pobre condutor para realizar a cobrança... Tinha que ser um hábil malabarista, e muito cauteloso para realizar tal façanha; porquanto, ao menor descuido, poderia sofrer uma queda, que lhe seria até fatal, dado a grande quantidade de postes da “Light”, que havia no percurso de cada linha. [...] Era comum presenciar-se quase que diariamente os desastres que ocorriam em toda a extensão da linha de bondes, principalmente as que percorriam a Av. Rangel Pestana e Celso Garcia em direção ao bairro da Penha; eram pingentes que, mal acomodados nos estribos, eram derrubados por alguma carroça ou caminhão, estacionados ou que passavam quase rente ao elétrico; outras vezes o indivíduo mal se agarrava ao balaústre do carro; num solavanco mais forte, ou num leve empurrão, ocasionado por outro passageiro mais afoito, que também procurava firmar-se no estribo, lá ia o infeliz para o chão de encontro aos paralelepípedos, onde, muitas vezes, era apanhado pela traseira do bonde, sofrendo sérias escoriações; quando não, até a própria morte.”
Geraldo Sesso Júnior (Retalhos da Velha São Paulo), p. 161 e 163. [Retirado do Livro “Kaleidosfone: As novas camadas sonoras da cidade de São Paulo – Fins do século XIX – Início do XX”]
“Levando em conta a distribuição espacial das classes município afora, a Light (Empresa de eletricidade, também responsável pelo serviço de bondes) concentrava os seus melhores carros e mantinha os melhores serviços nas regiões mais abastadas de São Paulo. Bairros como Higienópolis, Campos Elíseos e a região da Avenida Paulista eram privilegiados com um sistema de transporte de melhor qualidade, com mais carros e com melhor tecnologia – além de receberem os seus usuários um melhor tratamento por parte de condutores e motorneiros.
No caso dos subúrbios as condições de uso, de instalação de trilhos e cobrança de tarifas eram um tanto quanto distintas. A começar pelos carros, que eram menos asseados e recebiam uma manutenção menos cuidadosa, e os preços praticados pela companhia nos caminhos que levavam em direção às regiões mais distantes, que era bem maior do que aqueles cobrados para carros que serviam aos bairros elegantes.”
Marco A. C. Sávio (A cidade e as máquinas: Bondes e automóveis nos primórdios da metrópole paulista, 1900-1930), p. 140.
“A partir do deslocamento do metrô tem um novo olhar, arbitrário, dispersivo e veloz. É o fim da rua como espaço público. Fim da calçada. Fim da paisagem. Ruas, calçadas, edifícios, avenidas, bairros e monumentos desaparecem. A cidade é assim descartada.”
“Se antes os lugares eram regidos pela lentidão e os limites, agora são regidos pela velocidade e como tal passam a ser espaços de passagem. De travessia. E é no anonimato do lugar-passagem que se experimenta a nova sociabilidade, espaço de indiferença. Um redesenho veloz, momentâneo, não fixo e não durável.”
“Se a cidade era feita para se estar nela, hoje se passa por ela. São Paulo não reúne. Separa. Não fixa. Porque a cidade é essencialmente via de passagem, feita para se passar por ela de uma estação a outra.”
Beltrina Côrte (“Zapear a metropaulização”, in: Cotidianos do Metrô), p. 147.

 

 

 

 

 

Aula III

 

 

“O mais famoso empreendimento urbanístico do governo municipal no começo do século levou a uma transformação do padrão de segregação e representou uma mudança na concepção da intervenção do Estado no planejamento urbano. Foi o Plano de Avenidas, elaborado por Francisco Preste Maia durante a administração de José Pires do Rio, o último prefeito da República Velha. O plano propunha mudar o sistema de circulação da cidade abrindo uma série de avenidas partindo do centro até os subúrbios. Ele exigiu uma considerável demolição e remodelação da região central, cuja zona comercial foi reformada e aumentada, estimulando a especulação imobiliária. Consequentemente, os trabalhadores que não podiam pagar os elevados aluguéis acabaram expulsos do centro. O Plano de Avenidas também optou por investir nas ruas em vez de expandir o serviço de bondes. Uma das principais causas da concentração da cidade era que o transporte coletivo baseava-se no sistema de bondes, que requeria instalações caras e, portanto, expandia-se lentamente. Porque esse sistema cobria apenas uma pequena área da cidade, era difícil desalojar os moradores pobres do centro da cidade, onde trabalhavam. O lançamento de um sistema de ônibus, associado à progressiva abertura de novas avenidas, possibilitou a expansão da cidade em direção à periferia.”
“O principal agente de expansão dos serviços de ônibus não foi o governo, mas empresários particulares, a maioria dos quais também eram especuladores imobiliários. Como consequência, o sistema era irregular e aleatório, projetado para servir sobretudo aos interesses imobiliários. Ele tornou possível vender lotes localizados “no meio do mato” e ajudou a criar um tipo peculiar de espaço urbano no qual áreas ocupadas e vazias intercalavam-se aleatoriamente por vastas áreas. Não havia nenhum planejamento prévio e as regiões ocupadas eram aquelas nas quais os especuladores tinham decidido investir. Sua estratégia era deixar áreas vazias no meio das ocupadas para que fossem colocadas no mercado mais tarde por preços mais altos.”
Teresa Pires do Rio Caldeira (Cidade de Muros: Crime, segregação e cidadania em São Paulo), p. 216 e 219-120.

 

“Na primeira metade do século XX havia o entendimento de que as cidades deveriam ser adaptadas à sua época, mesmo que para isso fosse necessário transfigurá-las totalmente. Essa era a percepção dos precursores do movimento moderno. Em parte, a realização desse desejo foi antecipada pela presença maciça do automóvel, modificando o traçado das ruas e rasgando impiedosamente o tecido urbano. Em decorrência desse processo, uma nova condição urbana se configurou nas grandes cidades contemporâneas.
[...]
Não há dúvida de que a parceria entre o transporte coletivo e o mercado imobiliário continuará determinando por muito tempo a forma de ocupação das cidades brasileiras. Se no passado esse processo era iniciado pela implantação das linhas de bondes e pelos ramais de trem, atualmente é o mercado imobiliário quem determina a localização das novas aglomerações urbanas. Ao lançar seus empreendimentos em localidades desprovidas de infraestrutura e de transporte coletivo faz a festa dos empresários de ônibus e dos donos de vans, regulares e irregulares. Desse modo se estabelece um processo especulativo do solo urbano cujo passo seguinte é pressionar o poder público a dotar essas localidades com a infraestrutura necessária. Como geralmente isso não acontece pela falta de recursos para atender a essa demanda, cria-se um círculo vicioso que contribui para a ocupação informal do espaço urbano, para a degradação do ambiente local e, consequentemente, para o comprometimento da própria integridade da cidade. Cabe perguntar: a quem interessa manter essa lógica da especulação imobiliária que se apoia nos meios de transporte rodoviário em detrimento dos sistemas de transporte de massa sobre trilhos? Bingo para quem acertar.”
Luis Fernando Janot (A lógica da especulação imobiliária, in: jornal O Globo no sábado, 8 de junho de 2013)

 

AULA IV

Links – Notícias:
- http://expresso-noticia.jusbrasil.com.br/noticias/2685991/protesto-contr...
- http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2011/05/11/apos-pr...
- http://raquelrolnik.wordpress.com/2011/05/12/sabado-tem-churrasco-contra...
- http://diariosp.com.br/noticia/detalhe/20857/Morumbi%3A+protesto+contra+...
- http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2013/07/moradores-desapropri...
- http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,manifestacao-contra-aumento-d...
- http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-06-11/terceiro-protesto-aumento-passagem-movimento-passe-livre.html
Links - Artigos:
- http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-82/tribuna-livre-da-luta-de-cl..., por David Harvey.
- http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2011/05/11/metro-de-higienop..., por Leonardo Sakamoto.
- http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tema-livre/pessoal-de-higien..., por Ricardo Setti.
- http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/higienopolis-o-preconceito-..., por Reinaldo Azevedo.
- http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joseluizportella/2013/08/1329968-di..., por José Luiz Portela.

 

Link – Acervo Estadão: Protesto contra aumento da tarifa em 1958
- http://acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,protesto-contra-tarifa-deix...
* Ver também: Revolta do Vintém ocorrida no Rio de Janeiro entre 1879 e 1880
Link – Vídeo informativo:

- http://www.youtube.com/watch?v=a1dLn15986A
- http://vimeo.com/49178655

 

“A história dessa revolta começa no dia 25 de março de 1909. Naquele dia foi publicado no jornal “Correio Paulistano” um longo parecer do advogado da Guinle & Cia., demonstrando que a empresa canadense (Light) se valia de um monopólio ilegal, não sendo cabível a exigência de exclusividade em localidades onde suas redes sequer serviam. [...]
Esses acontecimentos resultaram numa inquietação de ânimos para vários grupos letrados do município, em sua maioria estudantes e profissionais liberais. Os estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco organizaram-se e passaram a realizar manifestações contra o monopólio da Light e a favor dos Guinle. Foi numa dessas manifestações que, após um inflamado discurso criticando a Câmara Municipal e a empresa canadense, a cidade transformou-se num campo de batalha envolvendo principalmente carroceiros, operários, crianças e Força Pública.
Após o final de sua manifestação no Largo São Francisco, um grupo de estudantes saiu às ruas gritando palavras de ordem contra o monopólio e dando vivas ao prefeito Antonio Prado. Num crescendo, a manifestação começou a angariar adeptos ruas afora e, num determinado momento, quando os estudantes se encontravam em frente ao Café Guarany (centro de agitações estudantis no período), aproveitaram a passagem de um bonde e começaram a atirar frutas contra o carro, atingindo o motorneiro, o condutor e alguns passageiros. Foi o sinal para que a revolta explodisse.”
Marco A. C. Sávio (A cidade e as máquinas: Bondes e automóveis nos primórdios da metrópole paulista, 1900-1930), p. 160-161.

 

 

AnexoTamanho
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