Presença, Permanência e Resistência Negra no Brasil, Perante a Marginália Social.

Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Graduação História
Curso: Ensino de História - Teoria e Prática
Ana Carolina Apolinário
Professora: Antonia Terra de Calazans Fernandes
Noturno - 1º Semestre 2013
São Paulo - SP

 

Objetivo:

A sequência didática tem como finalidade estabelecer uma retrospectiva na história negra do Brasil, a partir da data de 1850 até meados do século XX, mantendo um diálogo sócio cultural, pela descrição do seus atos de força e coragem através da língua pretuguesa, mostrando assim a sua atuação, seus hábitos e formas de resistência ao longo deste período e ainda presentes no momento contemporâneo, pois o racismo, o preconceito e a desigualdade social existem e ainda não se tratou a causa, porque a questão negra e indígena ainda é apresentada de forma marginal e com falhas nos livros didáticos, por propagarem conceitos depreciativos, não exibidores dos lados antagônicos para a reflexão e construção do senso crítico.

 Público Alvo:

- 2º ou 3º Ano do Ensino Médio.
- Material desenvolvido ao Professor, para que este possa trabalhar em sala as perspectivas afrodescendentes.

 

 Palavras Chaves:
Brasil Império, Escravidão, Abolição da escravatura, Urbanização, Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Movimento Negro, TEN.

 Duração: 5 aulas.

Aula 1: Contextualização

Diversidade étnica
“O Brasil não é só verde, anil e amarelo, o Brasil também é cor de rosa e carvão” 1, este verso musicado metaforicamente, por Antônio Carlos Santos de Freitas ou popularmente conhecido como: Carlinhos Brown nos leva a pensar sobre a heterogeneidade da população brasileira. Porque as relações étnico-raciais partem da ideia de que as identidade e culturas devem ser reconhecidas e valorizadas pela sociedade, embora historicamente o fato não tenha sido respeitado.
A independência do Brasil da metrópole e a formação do Estado imperial impuseram a necessidade de se construir à nação, que até então não existia. Cabia instituir no país uma unidade territorial, política e ideológica, criando uma memória coletiva que unificasse as populações em torno de uma única identidade histórica e cultural. A ideologia do novo Estado brasileiro baseava-se nos valores europeus de

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1) BROWN, Carlinhos, MONTE, Marisa e REIS, Nando, “Seo Zé”, em Alfagamabetizado primeiro álbum lançado 1996, por Carlinhos Brown.

 

 

 

civilização, modernização, progresso e superioridade do homem branco. Aos políticos e intelectuais do oitocentos colocava-se, então, um grande desafio. Como construir uma nação e uma história de brancos a partir de uma realidade repleta de índios e negros? Pois existia desde então, uma pluralidade étnica e cultural enorme, porém esta não era valorizada, porque é perceptível pelo relato de viajantes do período que havia um Brasil sem brasileiros, como citação de August de Saint Hilaire, em 1833: “Havia um país chamado Brasil, mas absolutamente não havia brasileiros”.2 Defendia-se uma igualdade e liberdade aos semelhantes da classe dominante e não da classe majoritária de subalternos, não se queria integração identitária entre as três raças, o índio era visto como indolente e o negro como negligente, ambos poderiam ser incorporados e utilizados como força de trabalho, sem cidadania.
A estrutura estatal era formada por base portuguesa, apoiada em dois partidos: conservadores e liberais, de constituição excludente da maioria da “nação”, as eleições contavam com aproximadamente 200 votos, devido ao sistema de sufrágio reduzido, que permitia apenas votantes do sexo masculino, maior de 21 anos, casado com família e renda própria, detentor de terras, possuidor do binômio articulado por liberdade e propriedade, elementos que definia quem era cidadão ou não. Entretanto não podia exercer o voto, mulheres, libertos de primeira geração, africanos, escravo por este ser considerado uma coisa e não uma pessoa, ex-escravos ainda que alforriados, podemos entender que quase 70% das pessoas não estavam inseridas no processo eleitoral e assim não escolhiam os seus representantes. Neste contexto como então formar uma nação, onde prevalece a exclusão da maioria, na qual a minoria almejava a europeização do Brasil, com o ideal de pertencimento a civilização, e a res pulica na qual somente os homens brancos eram iguais, sem a instituição democrática.
A diferença social, hierarquizada propiciou o que o historiador Ilmar Rohloff de Mattos, definiu como “Um império e três mundos”, levando-nos a reflexão de que haviam dois eixos de ordem: o mundo público, representado pelo Estado, o mundo privado, representado pelo senhor latifundiário e a sua casa, por fim o mundo da desordem, representado pelas pessoas da rua, (libertos, escravos de ganho, forros), vistos pela sociedade como baderneiros, vagabundos, a escoria, ralé.
Nesse contexto o senhor mantinha a população negra sob controle, porque os escravizados do meio rural eram pertencentes ao mundo privado, sendo o senhor a figura paternalista e patriarcal, que procurava manter a ordem dentro das senzalas. São muitos os relatos de viajantes como exemplo Debret3 e Rugendas, que retrataram a vida

Figura 01 - DEBRET, Jean Baptiste e FRÈRES, Thierry. Feitors corrigeant des nègres. 1834-1839. Litografia colorida.

 

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2) MATTOS, Ilmar Rohloff de, “Tempos Saquarema, a formação do estado imperial”. São Paulo, Hucitec, 1990, pp. 109.
3) Figura 01- DEBRET, Jean Baptiste e FRÈRES, Thierry. Feitors corrigeant des nègres. 1834-1839. Litografia. Viagem Pitoresca, volume 2. Imagem extraída de MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, “A Travessia da Calunga Grande: Três séculos de imagens sobre o negro no Brasil (1637-1899)”, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000, Catalogo: Literatura de Viagens e Outras fontes século XIX, Revistas Ilustradas, Ilustrações, p. 376.

 

 

e violência presente nos castigos e maus tratos, que o escravo sofria nas mãos do feitor. Os negros resistiram com praticas diversas como exemplo: suicídio, aquilombando-se, ou exercendo fugas, entre outros.
No meio urbano os grilhões são invisíveis, ao olhar atento do viajante, mas é possível analisarmos como a situação era nociva, sobretudo com as mulheres escravizadas para o ganho, pois havia uma classe média de pequena posse, composta por mulheres, que investiam seus recursos advindos do dote4, para a venda de quitutes e artigos para a subsistência, algumas senhoras passavam a noite produzindo os quitutes, para que suas escravizadas de ganho vendessem no dia posterior. Cada qual com uma banca pela cidade, e muitas vezes estas mulheres pela condição de pequena posse cuidavam dos filhos de suas “funcionárias”, tal situação configura um jogo de submissão, gratidão e temor, na medida em que existia um laço “afetuoso”, e assim a família negra estava submetida e acorrentada a senhoras ou senhores urbanos, ainda que sem a figura do feitor, o controle da ordem se dava por meio de coerção e medo de malefícios para com os entes queridos.
Por muitos anos tentou-se mitificar e desqualificar o negro, como uma forma de legitimar-se assim a condição de escravizado imposta aos negros e negras africanos, sendo o negro interpretado por algumas vertentes como agente social sem ação, sem vontade e submisso por ter ciência de sua origem “inferior”. Para isso criaram-se teorias raciais, poligênicas, monogênicas, a fim de provar a “impureza, a inferioridade, a degeneração”, do negro com apoio em estudos científicos ou religiosos. De todas as teorias racistas a que ganhou extrema notoriedade foi a do branqueamento, pois acreditava-se que o negro seria sublimado pela cor branca, após as gerações futuras.

 

Glossário:
Ao longo do século XIX, os cientistas e naturalistas, buscavam resposta para a seguinte indagação: De onde vem à humanidade? Muitas respostas surgiram e boa parte delas legitimou discursos racistas de fundamento preconceituoso de diversas interpretações, como veremos a seguir:
 Criacionismo: mito de que todos os seres humanos, assim como os demais elementos da natureza (fauna e flora) foram criados por Deus, em nichos ecológicos precisos, nessa concepção condenava-se a mestiçagem ou hibridismo, pois climas e raças diferentes não deveriam interagir, por isso posicionavam-se contra os deslocamentos e o tráfico. Muitos cientistas observaram a situação como uma degeneração da espécie, pois segundo estes como exemplo: Louis Agassiz e Samuel G. Howe, (abolicionista estadunidense no ano de 1863, criou nos Estados Unidos, a imagem do “lago cristalino no qual a adição de uma só gota de tinta, embora permanecesse invisível, ainda assim o contaminava irremediavelmente.”) 5 o principio foi difundido em comparação ao negro, pois este tinha o poder de contaminar o sangue do branco, devido sua origem impura. Como solução estes abolicionistas e escravocratas defendiam a devolução dos negros ao continente Africano, para libertar os brancos do convívio e proximidade com o negros.

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4) DIAS, Maria Odila Leite da Silva, Quotidiano e Poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1984, pp. 83-128 e LEITE, Miriam Moreira, Livros de Viagem, 1803-1900. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997, capítulo: “Grupos de convívio no Rio de Janeiro (século XIX)”, pp. 67-98.
5) MACHADO, Maria Helena P. T. e HUBER, Sasha, (T)Races of Louis Agassiz: Photography, Body, and Science, Yesterday and Today/Rastros e Raças de Louis Agassiz: Fotografia, Corpo e Ciência, Ontem e Hoje. São Paulo: Capacete, 2010, pp.: 33.

 

 

 Eugenia: estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mental.
 Determinismo Social: baseava-se no princípio de que o homem é fruto de seu ambiente de convívio, e seus aspectos físicos, psicológicos, são condicionados pela influência que o meio exerce sobre o individuo, como uma apropriação de Darwin (darwinismo social).
 Embranquecimento/Branqueamento: acreditava-se que o hibridismo, propagado pela diluição do sangre negro no branco entre ambivalência branca e negra, o sangre ficaria tão diluído, originando uma raça branca, por ser o elemento branco superior, este iria sobrepor-se ao elemento negro, que permaneceria imperceptível e a solução estabelecida, pois o negro desaparecia da sociedade.
 Monogenismo: atrelada a vertente bíblica, interpretavam a humanidade como proveniente de uma origem comum, remetida a árvore da vida, Adão e Eva, sendo o casal branco e belo.
 Poligenismo: crença de que a humanidade não era una, mas formada por diferentes espécies, pois se interpretava que houve mais de uma criação divina e essa foi inicialmente hierarquizada, entre seres superiores (brancos) e inferiores (negros).

 

Sugestão de leitura: AZEVEDO, Aluizio de, “O Cortiço”. Publicado em 1890, o livro não é uma ficção com preocupações sociais. É uma obra naturalista de visão coletiva e traça um retrato implacável da sordidez e dos vícios humanos, com personificação do Cortiço, símbolo do meio.

Aula 2: Estudo com imagens

Para trabalhar os conceitos e inspirar o senso crítico, proponho o estudo de imagens para um debate do conteúdo exposto durante a aula.

Figura 02 - RUGENDAS, Johann Moritz & Deroi e Engelmann. Habitation de nègres. 1835. Litografia. Domínio Público. pp. 459

 

Figura 03- RUGENDAS, Johann Moritz & Deroi e Engelmann. Transport d’un convoi de nègres. 1835. Litografia. Domínio Público. pp. 451

 

As litografias de Rugendas, presentes na figura 02 e 03 respectivamente, extraídas de MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, “A Travessia da Calunga Grande. Três séculos de imagens sobre o negro no Brasil (1637-1899)”, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000, Catálogo: Literatura de Viagens e Outras fontes século XIX, Revistas Ilustradas, Ilustrações, pp. 459 e 451. Demonstram-nos como era a habitação de negros, uma analise possível é a discussão acerca do fogo, para as comunidades negras, a partir do livro de Robert Slenes6 é possível compreendermos a ligação do fogo como símbolo da matriz africana, pois os indícios aparentemente insignificantes, presentes nos detalhes das gravuras feitas por viajantes, foram observados, o que propiciou ao autor a comparação, por exemplo, padrões de construção em aldeias africanas com os de senzalas brasileiras, reinterpretando radicalmente as razões de certas soluções arquitetônicas. A ausência de janelas, em particular, vista comumente como recurso de controle senhorial contra fugas, ganha exaustiva explicação "africana". Mesmo que fosse interessante para o senhor que as senzalas não tivessem janelas, os próprios escravos tinham interesse de que fosse assim, e assim construíam suas próprias casas quando conquistavam o direito de fazê-lo, porque no ambiente privado interior o fogo representa o sagrado.

Figura 04: BROCOS, Modesto, pintor espanhol (1852-1936): “Redenção de Cã”, 1895. Óleo sobre tela, 199 X 166 cm. Rio de Janeiro, RJ, Museu Nacional de Belas Artes.

 

 

A cena representa a defesa da teoria do branqueamento da população brasileira, por retratar quatro personagens na porta de uma habitação popular da época. Ao centro do quadro há uma mulata com uma criança branca no colo; À esquerda, um homem branco com traços europeus, e à direita da imagem, uma negra idosa com os brancos levantados para o alto aclamando a Deus: o nascimento do neto branco, que será poupado das agruras e das memórias do passado escravocrata. Esse conjunto nos apresenta sinteticamente, a conclusão dos teóricos do branqueamento: a crença de que no decorrer de um século o país seria branco, como a criança retratada. O título é uma referência ao episódio bíblico da maldição lançada por Noé sobre seu filho, Cã, e todos os seus descendentes, conforme relatado no livro do Gênesis. Cã foi punido por zombar de sua nudez e embriaguez, Noé profetizou que o mesmo seria "o último dos escravos de seus irmãos", segundo Alfredo Bosi.

 

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6) SLENES, Robert W. “Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999. O título deste livro refere-se à imagem usada por um viajante estrangeiro no Brasil, Charles Ribeyrolles, para quem não haveria "uma flor" na senzala - não haveria amor, família, "nem esperanças nem recordações" entre os escravos brasileiros. O historiador Robert Slenes, da Universidade Estadual de Campinas, encontrou essa flor. Seu excelente livro combate a opinião, dos observadores do passado, e muitos historiadores até recentemente, de que os escravos eram sexualmente promíscuos, não tendo um mínimo de vida familiar normal. Outros pesquisadores vêm publicando sobre o tema, em diversos veículos acadêmicos.

 

Figura 05 – CHAMBERLAIN, Henry e CLARKE, John. The chege and cadeira”. 1819. Gravura Colorida. Domínio Público. pp. 349                     Figura 06 – CHAMBERLAIN, Henry e CLARKE, John. “A market stall”. 1819. Gravura Colorida. Domínio Público. pp. 348.

 

Ambas as gravuras (figura 05 e 06), nos mostram o ambiente de trabalho urbano, presente na vida do escravizados de ganhos do século XIX.

Destaque as funções exercidas, como transportes dos senhores: nas cadeiras de arruar ou liteiras, na compra e venda de quitutes nos tabuleiros da cidade. Um elemento de distinção social são os trajes, pois mesmo os escravizados com indumentária nobre, são exibidos com os pés descalços, indícios de sua condição de servidão.

 

 

As reproduções fotográficas ao lado, exemplificam a condição atual das pessoas que vivem nas periferias da cidade, em decorrência da desigualdade social ainda presente, boa parte destas pessoas são de origem afrodescendente. Pontos de abordagem sugerido, englobando as condições sociais, pois a moradia periférica muitas vezes se dá em áreas impróprias como Várzea de rios, dentre outras; Atuação policial, porque em geral as milícias urbanas utilizam-se do estereótipo da “cor padrão” e “má aparência”, em que homens pretos e pobres são abordados com frequência e com violência. Matérias sensacionalistas atribuem muitas vezes “cor”, à situação de criminalidade e violência urbana, mas não discutem a distribuição da renda e a desigualdade dos aspectos sociais: desemprego, miséria, estes elementos são vistos genericamente como uma tragédia brasileira em torno das grandes metrópoles.

 

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Figura 07 e 08 – ALMEIDA, Lalo de /Folha Imagem, Fotografias extraídas de matéria: “Explosão da periferia”, SECCO, Alexandre e SQUEFF, Larissa, revista Veja, Edição 1 664, 24/01/2001, disponível na Veja on line: http://veja.abril.com.br/acervodigital/home.aspx.

 

 

Atividade proposta:

1) Observe e reflita sobre as imagens analisadas. Quais são os estereótipos embutidos e apresentados, as teorias raciais desenvolvidas ao longo do século XIX, podem ser aplicadas ao contexto atual? Relacione as cenas imagéticas com o conteúdo exibido durante a aula.

2) Você acha que essa sequência de imagens correspondem à realidade brasileira? Monte um grupo de discussão e analise, pois a atividade consiste em registrar, situações cotidianas. Com seu grupo realize um roteiro de estudo do meio, organizado a partir de um trajeto pelas ruas da cidade de São Paulo, redija um texto com a resposta para a questão, quem é o brasileiro e como ele vive?

 

Aula 3 e 4: Representatividade e resistência

Tição, tizil, esse é o povo do Brasil!7 A imagem do negro escravizado é muito retratada e foi muito analisada pela historiografia convencional, porém alguns assuntos ainda não são tratados em sala de aula ou pela opinião pública, deixando a sensação de vazio frente às manifestações de resistência, os livros didáticos não abordam os levantes protagonizados por negros, como a revolta da vacina, revolta da chibata, revolta dos Malês, a Greve negra de 1857 na Bahia, entre outros, os tópicos podem ser utilizados para o debate entre os alunos.

 A greve negra de 1857 na Bahia:
Em 1857, a maioria dos negros de Salvador, escravos ou não, trabalhava na rua, ou entre a casa e a rua. Eles eram responsáveis pela circulação de coisas e pessoas pela cidade. Carregavam de tudo: pacotes grandes e pequenos, do envelope de carta a caixas de açúcar, tinas de água e fezes, tonéis de aguardente e gente em cadeiras de arruar. Não se viam mestiços, muito menos brancos nessa função. “Tudo que corre, grita, trabalha, tudo que transporta e carrega é negro”, observou em 1858 o viajante alemão Robert Avé-Lallemant.8 Mas o primeiro dia de junho de 1857, uma segunda-feira, as ruas de Salvador amanheceram estranhamente calmas. Os negros haviam decidido cruzar os braços, em protesto contra uma postura municipal em vigor a partir daquela data.

Porque havia se estabelecido que os ganhadores, como eram chamados os trabalhadores de rua, só poderiam “ganhar” mediante licença concedida pela Câmara Municipal. Por esta licença, ou matrícula, pagariam dois mil réis. No mesmo ato deveriam pagar uma taxa adicional de três mil réis por uma chapa de metal com o número de inscrição, de uso obrigatório ao pescoço sempre que estivessem no ganho. Na data de 1857 o valor equivale a uma arroba, ou seja, quinze quilos de carne.9 Além de que os libertos deveriam apresentar um fiador idôneo que se comprometesse pelo comportamento futuro deles, como uma espécie de liberdade tutelada.
7) COUTINHO, Eduardo, “O Fio da memória”, 1991, fala extraída do documentário, no momento de manifestação do Movimento Negro.

 

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8) ROBERT-Avé Lallemant, Viagem pelas Províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (1859). Belo Horizonte/São Paulo, 1980, pp. 22. Nota de João José Reis, na revista USP, nº 18.
9) REIS, José João, “A greve negra de 1857 na Bahia”, Revista USP, nº 18, 1993, pp.s 6-29 disponível em (http:// WWW.usp.br/revistausp/18/01-joaojose.pdf).

 

 

Os negros existiam em grande quantidade, entretanto aparentemente simbolizasse uma minoria, pois utilizava-se maquiar o resultado censitário, os senhores evitavam a contagem de todos os escravos, por temerem aumento de impostos ou até mesmo confisco dos importados de forma ilegítima.

Assim sendo a lei foi uma maneira de controlar e disciplinar a horda negra presente e em grande densidade demográfica nas ruas de Salvador. E ao cair da noite todos já deveriam estar longe da rua, porque as pessoas noturnas eram vistas como baderneiras, vagabundas, vadias, pelo órgão municipal. Pois o mundo público estava em desordem, por essa razão escravos ou libertos deveriam ser vigiados e limitados a determinada área de circulação imposta pelo Estado.

Como sugere Robert Slenes, os africanos descobriram uma nova África no Brasil, e a partir dessa nova identidade desejavam e nutriam seus próprios anseios, negando a liberdade tutelada, vigiada do Estado, que mantinha a ordem aos moldes de senhores e subalternos. A Greve de 1857 mostra o quanto havia de articulação entre os movimentos sociais, pois a maior parte da população em geral composta de negros e negras estava em subcondição de vida e por isso fizeram a greve para que suas reivindicações fossem analisadas.

Porque diferente do escravizado rural, a escravidão urbana, não mostrava um feitor direto que impunha ordem dentro da Senzala, mas ao mesmo tempo mantinha os negros acorrentados a mecanismos de dominação, aviltamento e opressão imposta pelo sistema patrimonialista. E mesmo neste cenário os negros rebelaram-se, através da resistência coletiva, que mais tarde daria lugar a ação individual, na qual cada indivíduo consciente de seu papel ocupara a função de agente social indignando-se com a opressão.

 Saiba Mais: João José Reis é professor de História da UFBA e autor de Rebelião Escrava no Brasil: a História do Levante dos Malês, (Brasiliense) e A Morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta Popular no Brasil do século XIX, (Companhia das Letras).

 

 Revolta da Chibata:

Outro movimento importante foi a Revolta da Chibata, pois mesmo após a abolição da escravatura, os negros marinheiros eram açoitados e humilhados, em decorrência de uma hierarquia segregacionista.
Estatutos jurídicos diferentes para a ordem política do país não mudavam o rumo da questão do racismo e sua violência legalizada e sancionada pelo Congresso, este recebia foros de ciência pela Eugenia, ambiente de discussão de ideias difundidas tanto pelos autores quanto perante a opinião pública urbana, que se horrorizaram com a repressão da revolta, liderada pelos políticos, oficiais e outros participantes da repressão e vingança contra o movimento.

Após tantos anos do desfecho da Revolta e das mortes de seus líderes, ainda persiste o problema da discriminação racial no nosso país, onde a “raça/cor” é um dado importante na documentação dos alunos, inclusive com fins econômicos e de obtenção de bolsas de estudo ou benefícios de programas sociais, onde propaga-se a imagem colorida e pacífica da “democracia racial”, mas o problema da discriminação racial é de uma necessidade de discussão ampla e imparcial e solução efetiva, tanto na contemporaneidade quanto no início do século XX, quando os soldados negros da Marinha Brasileira tiveram que ameaçar a Capital da Federação de bombardeio para que suas reivindicações e necessidades fossem ouvidas. E a aula de História pode ser um bom espaço de discussão, para os alunos que vivenciam estes problemas e podem trazer o diálogo para outros espaços onde vivenciam o saber histórico, como a vizinhança, a família, as redes sociais da Internet, etc.
A proposta de discussão sugere a utilização dos fatos e da canção: “O Mestre-Sala Dos Mares” como forma interdisciplinar de problematização da condição em que viviam homens livres, em um contexto pós-abolicionista do ano de 1910, no qual castigos físicos ainda eram praticados.

Figura 09: Ao lado de um dos Marinheiros, João Cândido lê o manifesto da Revolta: fim dos castigos corporais (Agência Estado).

 

O Mestre-Sala Dos Mares10
Há muito tempo nas águas da Guanabara O dragão do mar reapareceu Na figura de um bravo feiticeiro A quem a história não esqueceu Conhecido como o navegante negro [...]
Rubras cascatas Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas Inundando o coração do pessoal do porão Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então
Glória aos piratas Às mulatas, às sereias
[...]

 

 

 Revolta dos Malês:

Malê aparentemente era um título honroso, pois significa ser respeitado pelo uso da cultura escrita, ter habilidade e eficácia diante dos conhecimentos mágicos religiosos, porque este grupo era prestigiado e reconhecido na África, em certa medida tal pratica reproduziu-se na Bahia. Outra característica advém da adoção do islamismo entre os malês, sendo que na Bahia de 1835, as expressões religiosas africanas ou muçulmanas eram vistas como subversivas e deveria ser contida para manutenção da ordem.

A sociedade Malê, previa inicialmente uma Bahia para os africanos, os mais rebeldes almejavam matar todos os brancos, pardos, crioulos e negros que não quisessem se unir a causa, ficariam vivos os mulatos e cabras (nomenclatura racial da época para designar um mestiço de mulato com crioulo), para servirem como lacaios e escravos11.
Este foi um levante bem planejado, por negros de etnia haussa majoritariamente, a rebelião foi representante de um movimento complexo, multifacetado, concebido principalmente por indivíduos escravizados, que buscavam a liberdade e tinham que

 

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10) Mestre-Sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc, composto nos anos 1970, imortalizou João Cândido e a Revolta da Chibata. Como diz a música, seu monumento estará para sempre "nas pedras pisadas do cais". A mensagem de coragem e liberdade do "Almirante Negro" e seus companheiros resiste.
11) REIS, João José, Rebelião escrava no Brasil: A história do levante dos Malês em 1835. Edição revista e ampliada. São Paulo: Cia das Letras, 2003, cap. 8, pp. 266.

 

 

enfrentar pela frente um inimigo poderoso, contra o qual deviam mobilizar-se por alianças entre grupos comprometidos com o elemento religioso ou não. Através do estudo dos depoimentos, compreende-se que por parte dos lideres não havia um projeto de liberdade amplo, haveria uma reprodução do modelo já em vigor, mas no lugar de senhores brancos, a figura seria de senhores negros, com a manutenção de escravizados para as tarefas. O levante foi reprimido antes de acontecer, pois narra-se que existiram delatores como: Guilhermina Rosa de Sousa e seu companheiro Domingos Fortunato.

 

Atividade Proposta:
Para a discussão em sala, refletir porque por muito tempo para deslegitimar a manifestação, utilizou-se na historiografia convencional, o argumento de que o levante era uma guerra justa, “Jihad” ou guerra santa de negros e sem propósitos palpáveis.

 

Aula 5: Construção/Desconstrução de mitos

Por muito tempo o mito da brasilidade entravou o reconhecimento amplo da existência de racismo entre nós, o mito da cordialidade e da mistura entre as raças sempre serviu para amenizar as considerações sobre o racismo brasileiro. Pois o racismo camuflado pelo discurso apropriado de Gilberto Freyre, cultivou uma ideologia de igualdade social, não pautada na democracia ouvinte das reivindicações do negro. E instituiu a vergonha de falar e sentir preconceito, por conta disso todo bom brasileiro afirma não ser preconceituoso e afirma nunca ter passado por situação de racismo, mas se invertemos a pergunta, todos afirmam que conhecem alguém ou já presenciou uma cena de preconceito.

Entretanto o mito da democracia racial, ou melhor, discriminação racial, fez com que diversos negros se empenhassem para a aquisição de ações positivas e afirmativas, acerca da imagem negra.
Em 1931, foi fundada a Frente Negra Brasileira (FNB), símbolo de um marco pela cidadania afrodescendente, em 1943 fundou-se a União dos Homens de Cor (UHC) e no ano de 1944 Abdias do Nascimento fundou o Teatro Experimental do negro (TEN), publicações impressas em revistas, jornais, entre outros, todos estavam unidos no propósito de luta pelo direito dos negros.

O TEN queria eliminar a exclusão dos atores negros dos palcos, porque era comum atores brancos terem seus rostos pintados para interpretar papeis de personagens negros, (assim como a expressão pó de arroz advém do fato de que jogadores de futebol negros deveriam maquiar seus rostos com pó de arroz para disfarce da tez negra), o TEN incentivou e favoreceu a criação de uma dramaturgia afro brasileira. Muitas foram às lutas do movimento negro por igualdade. A militância foi interrompida apenas durante as ditaduras do Estado Novo e militar a partir do ano de 1964, pois falar que o Brasil era um país preconceituoso era sinônimo de subversão, pois o lema nacionalista da pátria previa a igualdade e integração de todos os irmãos, embasados no jargão “Brasil ame-o, ou deixou-o”.

 

 

Para autoestima as entidades empregaram campanhas como “100% negro” e para a valorização da população negra, criaram-se mitos, heróis e heroínas, como a Mãe Negra, figura presente durante a instituição escravista, personalizou-se a imagem da ama de leite (mulher negra que sacrificou a si própria e aos filhos para garantir a formação da família e da nacionalidade brasileira, muitas vezes precisavam descuidar dos próprios filhos, ou abandoná-los na roda dos expostos, para a realização de tal tarefa), entretanto as feministas negras não aceitaram este símbolo como suas representantes, recriaram a imagem pelo prisma oposto, exaltando a não passividade destas mulheres, pois a mesma ama de leite foi importante para a luta, proteção e manutenção de sua família, pois por mecanismos diversos elas organizavam fugas e rebeliões. Outras mulheres como Dandara, Nzinga, representam esse universo também.

Atividade:
O olhar do observar e agente social atento prioriza o elemento que se quer realçar, para a construção ou desconstrução de um mito, atualmente existem muitos negros em destaque, embora a desigualdade social ainda persista.
Relacione o conteúdo das aulas, com os dados a seguir e reproduza uma canção e eleja o seu próprio herói.
Você conhece as pessoas abaixo? Você se identifica com alguma delas, se sim por quê?

Imagens: Zumbi: líder do Quilombo de Palmares, Thais Araujo: atriz, Joaquim Barbosa: presidente do STF, garotos anônimos, Neymar: jogador de futebol, Lazaro Ramos: ator e Milton Santos: geógrafo.

 

 

Reflexão:
Carta a Mãe África12

É preciso ter pés firmes no chão

Sentir as forças vindas dos céus, da missão...

Dos seios da mãe África e do coração

É hora de escrever entre a razão e a emoção

Mãe! Aqui crescemos subnutridos de amor

A distância de ti, o doloroso chicote do feitor...

Nos tornou algo nunca imaginável, imprevisível

E isso nos trouxe um desconforto horrível

As trancas, as correntes, a prisão do corpo outrora...

Evoluiram para a prisão da mente agora

Ser preto é moda, concorda?

Mas só no visual

Continua caso raro ascensão social

Tudo igual, só que de maneira diferente

A trapaça mudou de cara, segue impunemente

As senzalas são as ante salas das delegacias

Corredores lotados por seus filhos e filhas...

Hum! Verdadeiras ilhas, grandes naufrágios

A falsa abolição fez vários estragos

Fez acreditarem em racismo ao contrário

Num cenário de estações rumo ao calvário

Heróis brancos, destruidores de quilombos

Usurpadores de sonhos, seguem reinando...

Mesmo separado de ti pelo Atlântico

Minha trilha são seus românticos cantos

Mãe! Me imagino arrancado dos seus braços

Que não me viu nascer, nem meus primeiros passos

O esboço! É o que tenho na mente do teu rosto

Por aqui de ti falam muito pouco

E penso... Qual foi o erro cometido?

Por que fizeram com a gente isso?

O plano fica claro...

É o nosso sumiço

O que querem os partidários, os visionários disso

Eis a questão...

A maioria da população tem guetofobia

Anomalia sem vacinação.

E o pior, a triste constatação:

Muitos irmãos patrocinam o vilão...

De várias formas oportunistas, sem perceber

Pelo alimento, fome, sede de poder

E o que menos querem ser e parecer...

Alguém que lembre, no visual, você.
( Refrão 2x ) (Colagem: A Carne - Elza Soares)

A carne mais barata do mercado é a negra,

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12) GONÇALVES, Genival Oliveira nasceu em Sobradinho, DF, em 1965, mais conhecido como GOG, é um rapper e escritor brasileiro. É um dos pioneiros do movimento rap no Distrito Federal. Desde o início da carreira, ganhou a alcunha de Poeta.
Figura 10) Ama Mônica junto ao menino por ela criado Augusto. O que chama a atenção nessa foto é que, apesar de Mônica ter sido adornada com toda uma parafernália de riqueza (quem sabe, com vestido e joias emprestados ou “doados” pela própria senhora?), e de não ter ido até o estúdio do fotógrafo por livre vontade, ela não se intimidou perante a máquina e conseguiu dar a sua contribuição pessoal, por meio da sua expressão, do seu olhar, que encarou fundo a máquina e parece querer nos contar a sua história, e da forma como se enrolou no xale, como se fora um pano da costa, cobrindo o ombro direito, passando por baixo da axila esquerda e vindo cruzar-se na frente. O luxo não conseguiu mascarar a condição humilhante da escravizada e ela participou na construção da sua própria imagem naquele processo. O rosto de Mônica é o seu retrato, assim como o ombro, que quase escapa do jogo que ela dera ao xale, e as mãos grossas encolhidas, de veias altas – mãos de quem já trabalhou muito; mãos às quais aquelas joias possivelmente não pertenciam; mãos que não sabiam como bem se posicionar para a foto.
Luiz Felipe de Alencastro escreveu um pequeno texto sobre essa foto, bem colocado no epílogo do livro ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org.). História da vida privada no Brasil 2. Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Cia. das Letras, 1997, pp. 439-440, no qual concluiu sobre a união dos dois personagens retratados: “Uma união fundada no amor presente e na violência pregressa. Na violência que fendeu a alma da escrava, abrindo o espaço afetivo que está sendo invadido pelo filho de seu senhor. (...)”.

 

 

A carne mais marcada pelo Estado é a negra
[...] Eterno! É o tempo atual, na moral
No mural vedem uma democracia racial
E os pretos, os negros, afrodescendentes...
Passaram a ser obedientes, afro convenientes.
Nos jornais, entrevistas nas revistas
Alguns de nós, quando expõem seus pontos de vista
Tentam ser pacíficos, cordiais, amorosos
E eu penso como os dias tem sido dolorosos
E rancorosos, maldosos muitos são,
Quando falamos numa mínima reparação: Ações afirmativas, inclusão, cotas?!
- O opressor ameaça recalçar as botas..
Nos mergulharam numa grande confusão
Racismo não existe e sim uma social exclusão
Mas sei fazer bem a diferenciação
Sofro pela cor, o patrão e o padrão
E a miscigenação, tema polêmico no gueto
Relação do branco, do índio com preto
Fator que atrasou ainda mais a autoestima:
-Tem cabelo liso, mas olha o nariz da menina
O espelho na favela após a novela é o divã
Onde o parceiro sonha em ser galã; Onde a garota viaja...
Quer ser atriz em vez de meretriz ; Onde a lágrima corre como num chafariz
Quem diz! Que este povo foi um dia unido
E que um plano o trouxe para um lugar desconhecido [...]

 

 Outra canção que pode ser trabalhada é Mama África, de Chico Cesár. “Mama África / A minha
mãe / É mãe solteira / E tem que / Fazer mamadeira / Todo dia / Além de trabalhar / Como
empacotadeira / Nas Casas Bahia / Mama ...”

 

 

 Tome nota:
Sugestão para a atividade proposta anteriormente: com o seu grupo de discussão, saia
para as ruas da cidade e faça registros fotográficos de seus heróis e heroínas.

Aula Complementar: preconceito, desigualdade social e miséria.

 

                                             

                                                                                                                                                                                                        AGOSTINI, Angelo. “Preto e amarello. É possível que haja quem
                                                                                                                                                                                                        entenda que a nossa lavoura só pode ser sustentada por essas
                                                                                                                                                                                                          duas raças tão feias! Mau gosto!

 

AGOSTINI, Angelo. “Pobre lavoura! Já não bastava o preto, vaes ter o                                                                                     
amarello! Com o auxílio de duas raças tão inteligentes, Ella ha de
progredir de um modo espantoso”                                                                                                                                             

 

 

As ilustrações estão reproduzidas em MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, “A
Travessia da Calunga Grande. Três séculos de imagens sobre o negro no Brasil (1637-1899)”,
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000, Catálogo: Literatura de Viagens e
Outras fontes século XIX, Revistas Ilustradas, Ilustrações, pp 582 e 583.

 

“Comer do lixo não pode, né”13

 

Dona Carmem é uma senhora de 62 anos, bastante simpática, com aquele ar de vó afetuosa, com a diferença de que puxa diariamente um carrinho abarrotado de lixo reciclável, visivelmente pesando horrores, pelo centro da cidade, às vezes tendo que carregar na mão grandes quantidades de lixo que algum lojista a chama para buscar (inclusive um dos entrevistadores esteve presente em uma ocasião dessas, se oferecendo para ajudá-la. Ele teve mais dificuldade do que a senhora idosa, mesmo carregando talvez menos peso do que ela, mesmo com menos que a metade da sua idade). Assim Dona Carmem, sem ser perguntada do porquê que começou no trabalho, nos contou a seguinte história: “Um dia os meninos que moram lá em casa [que não são seus filhos] encontraram uns frango no lixo. Aí vieram me perguntar se podia comer. Eu falei que não né, comê coisa do lixo... aí eles insistiram, ‘ah num tem nada pra comê’... mas eu não deixei, Aí falei com eles: cês espera que eu vou dar um jeito. Eu tinha ouvido falar que tinha uns depósito que dava dinheiro por papelão, papel, essas coisas. Aí no mesmo dia eu procurei e achei lá o lugar, aí me explicaram como é que era, o que é que valia, que as coisas tinha que sê separada, o papel tinha que ta limpo, o papel higiênico sujo não pode viu minino, aí eu fui, no mesmo dia, já juntei umas coisas, levei lá, e já deu para comprar um saquinho de arroz e um feijão. Aí levei lá pros minino, foi uma alegria... que comer do lixo não pode né.”

 

 

Este depoimento foi extraído da obra A ralé brasileira: quem é e como vive de Jessé Souza, na qual o sociólogo faz um mapeamento das camadas marginalizadas da sociedade e critica a cordialidade, a desigualdade, a democracia racial brasileira, entre outros mitos e teorias raciais.
Pois segundo o autor: “Fala-se em todos os jornais que a desigualdade brasileira está desaparecendo e que o nosso único problema é a corrupção da política. As duas teses não poderiam ser mais falsas e as mesmo tempo não poderiam estar mais relacionadas. Elas formam o núcleo mesmo da “violência simbólica”, aquele tipo de violência que não “aparece” como violência, que torna possível a naturalização e a reprodução infinita de uma desigualdade social profunda como a brasileira”.
Tanto a gravura quanto a imagem podem ser utilizadas em sala para tratativa da desigualdade social e o preconceito. Porque muitas vezes as pessoas deixam de se relacionar com outras em decorrência dos estereótipos físicos e atualmente cada vez mais as pessoas tornam-se individualistas, vivendo em um mundo virtual de aparências, sem sentir indignação diante das mazelas sociais. Cada um estabelece o seu mundo particular sem usufruto da vida como um todo. A discussão pode contemplar um balanço das aulas anteriores, bem como a apresentação dos trabalhos em grupo ao professor e os demais colegas. A apresentação dos trabalhos pode ser realizada no laboratório de informática.

 

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13) SOUZA, Jessé, “A ralé Brasileira: Quem é e como vive”. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, pp 260.

 

 

Referências Imagéticas:

MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de, “A Travessia da Calunga Grande. Três séculos de imagens sobre o negro no Brasil (1637-1899)”, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000, Catalogo: Literatura de Viagens e Outras fontes século XIX, Revistas Ilustradas, Ilustrações.

DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/EDUSP.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de, “História da vida privada no Brasil 2. Império: a corte e a modernidade nacional”. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.

 

Referências Bibliográficas:

SCHWARCZ, Lilia Moritz. “O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930”. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

CARVALHO, Francione Oliveira e LIMA, Dulcilei da Conceição. “Relações Étnico-Raciais: A presença negra no Brasil”. São Paulo: Mundo Mirim, 2012.

SOUZA, Jessé, “A ralé Brasileira: Quem é e como vive”. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

MATTOS, Ilmar Rohloff de, “Tempos Saquarema, a formação do estado imperial”. São Paulo, Hucitec, 1990, pp. 109.

DIAS, Maria Odila Leite da Silva, Quotidiano e Poder em São Paulo no século XIX. São Paulo: Brasiliense, 1984, pp. 83-128 e LEITE, Miriam Moreira, Livros de Viagem, 1803-1900. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997, capítulo: “Grupos de convívio no Rio de Janeiro (século XIX)”, pp. 67-98.

MACHADO, Maria Helena P. T. e HUBER, Sasha, (T)Races of Louis Agassiz: Photography, Body, and Science, Yesterday and Today/Rastros e Raças de Louis Agassiz: Fotografia, Corpo e Ciência, Ontem e Hoje. São Paulo: Capacete, 2010, pp.: 33.

SLENES, Robert W. “Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava, Brasil Sudeste, século XIX”, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999.

REIS, João José, “Rebelião escrava no Brasil: A história do levante dos Malês em 1835”. Edição revista e ampliada. São Paulo: Cia das Letras, 2003, cap. 8, pp. 266.

AnexoTamanho
Presença, Permanência e Resistência Negra no Brasil, perante a marginalia social..pdf1.33 MB