A imprensa na ditadura militar: atuação da grande imprensa comercial e da imprensa de resistência e desconstrução de mitos homogeneizantes

Júlia de Macedo Rabahie - Nº USP 7199328

Ensino de História – Noturno

Professora Antônia Terra

Sequência Didática

 

A imprensa na ditadura militar: atuação da grande imprensa comercial e da imprensa de resistência e desconstrução de mitos homogeneizantes

Introdução

Estudar a história da imprensa no regime militar é estudar uma importante forma de expressão e manifestação de ideias produzidas e publicadas – ou censuradas – naquele contexto específico de Brasil vivido pelo país durante os 21 anos de regime de exceção. A imprensa de então não pode ser considerada como um bloco homogêneo que agia e reagia da mesma forma às pressões e demandas do regime militar. Publicações da chamada grande imprensa comercial, que já existiam quando culminou o golpe de1964, e mesmo aquelas que surgiram depois, como a revista Veja, em 1968, tiveram atuações e papeis distintos daqueles exercidos pela imprensa que será chamada aqui, nesta sequência didática, de imprensa de resistência.

Outras denominações, como imprensa de esquerda, imprensa nanica, ou até mesmo panfletária, são comumente dadas às publicações que surgiram com o principal propósito de fazer um contraponto ao tipo de informação propagado pela grande imprensa, e, de maneira mais ampla, fazer oposição às contradições sociais, políticas, econômicas e culturais produzidas pela ditadura militar. Estudar a imprensa “nanica” deste período é essencial para que alunos do ensino médio que comumente já têm maior proximidade e contato com temas como a censura praticada neste período, pelos militares, de forma geral - e principalmente como as publicações maiores lidavam com esta prática - tenham contato com outras experiências e possibilidades que foram vividas pela imprensa neste período.

Nanicas ou não, estas publicações tiveram importante atuação no movimento de resistência contra ditadura, de forma inovadora no campo dos meios de comunicação. De baixo para cima, sem o apoio de patrocinadores e recursos que outras publicações dispunham, a imprensa de resistência se fez notar e alcançou uma circulação grande, além de propor debates até então nunca propostos pela mídia. É importante que os alunos tomem contato com este tipo de experiência que representa uma alternativa às conjunturas impostas pelo mercado editorial, e, mais especificamente, pela ditadura militar então em vigência no país.

 

Objetivos

 

- Identificar algumas das publicações que surgiram no contexto da repressão e o papel que desempenhavam.

- Comparar os objetivos e projetos destas publicações de resistência com os da imprensa comercial de então.

- Problematizar a questão da grande imprensa tradicional. Como atuou no golpe, e como se deu o processo para que parasse de apoiar a ditadura.

-Enfatizar a atuação das publicações de resistência como parte de um movimento amplo de oposição à ditadura, que se somava e atuava com movimentos estudantis, movimentos de trabalhadores, artistas, intelectuais, partidos políticos e movimentos de guerrilha.

- Problematizar a imprensa da época e seus atores como agentes heterogêneos, com diferentes objetivos e projetos de comunicação .

- Debater com e desenvolver com os alunos conceitos como liberdade de expressão, de pensamento, de reunião e manifestação. Como foram tratados durante a ditadura?

- Construir com os alunos a ideia de que as formas de resistência à ditadura eram várias. A imprensa “nanica” foi uma delas.

- Desconstruir mitos formados pelo senso comum de que a imprensa comercial foi desde sempre atuante e decisiva para o recuo e fim do regime.

- Problematizar: existe censura atualmente nos meios de comunicação? Como que se dá a seleção de notícias na mídia de hoje?

 

 

Conteúdo

Materiais necessários

Acervo dos jornais Opinião, Movimento , O Pasquim.

Acervo do jornal Folha de São Paulo, do jornal O Estado de S.Paulo, O Globo, Correio da Manhã.

Documentário O Pasquim, a subversão do Humor, produzido pela TV Câmara, de 2004. (Disponível no Youtube - https://www.youtube.com/watch?v=K_fgG3rATCU)

Música Cálice, de Chico Buarque.

Música Cálice, versão do rapper Criolo.

Música Pesadelo, de Paulo César Araújo e Maurício Tapajós.

 

Bibliografia indicada

AZEVEDO, Carlos. Movimento, uma reportagem. 1ª edição. Belo Horizonte, Minas Gerais. Manifesto Editora, 2011.

AQUINO, M. A. Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência - O Estado de S. Paulo e Movimento.. 1ª edição. Bauru: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 1999.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários. 2ª edição, revista e ampliada, 2001, São Paulo, Edusp.

 

 

Público

Terceiro ano do ensino médio

Tempo estimado

Quatro horas/aula

Desenvolvimento

Primeira hora/aula

 

Atividade 1.

-Exibição aos alunos do documentário O Pasquim, a Subversão do Humor, de 40 minutos de duração.

-Após a exibição do documentário, será feito um debate com a classe.

Questões para debate sobre o documentário, através do levantamento de hipóteses com os alunos:

- Diferença entre documentário e filmes de ficção.

- Características da linguagem e da construção de um documentário, como registro no presente que representa um passado através da linguagem jornalística.

- Situar os alunos sobre as diferentes épocas: a que o documentário foi feito e a que é retrada pela fala dos entrevistados.

- Discutir conceitos de Memória e História. Aquilo relatado pode ser classificado como verdade absoluta? Algum documento histórico pode?

- Questionar os alunos sobre sua percepção do semanário O Pasquim: O que queriam seus fundadores? Atingiram seu objetivo? Como humor, política e resistência se relacionam no Pasquim?

 

 

Segunda Hora/Aula

 

Atividade 1.

Os alunos se dividirão em grupos de quatro pessoas para realizar a análise dos documentos 1 (Charge Henfil, sobre representação política) e 2 (Charge Graúna, de Henfil, Publicada no Pasquim, sobre a emancipação feminina).

 

 

Documento 1.

 

 

Sugerir que, nos grupos, os alunos levantem hipóteses para as seguintes questões:

- Diante do panorama político do país em 1969, quando surgiu o jornal, qual a ironia colocada pela charge?

- Quem os homens de cartola representam?

- Como a charge coloca a inversão de valores da representação política? Por quê? Como era visto o “povo”, pelo governo e por aqueles que apoiavam a ditadura, no final da década de 1960 e início da de 1970?

- Que “povo” é este citado na charge?

 

 

 

Documento 2.

 

 

Sugerir que, nos grupos, os alunos levantem hipóteses para as seguintes questões. Antes, contextualizar o personagem Graúna, criado por Henfil, com quadrinhos publicados no Pasquim.

- Sobre o que fala a charge de Henfil? Qual a crítica central feita por ele?

- Como era visto o papel da mulher e da família em geral pelos valores e projeto político daqueles que estavam no poder? Como a preservação dos “bons costumes” é colocada pela charge de Henfil?

- Como a charge enfrenta ideais colocados pelo regime e por alas mais conservadoras da sociedade, em geral?

 

 

Atividade 2.

 

Nos mesmos grupos, os alunos em grupo de quatro pessoas e distribuir editoriais e textos publicados por jornais da grande imprensa, nos primeiros dias de abril de 1964, após o golpe. Serão recortes dos jornais: O Globo, Correio da Manhã, e O Estado de S. Paulo (Documentos 3,4 e 5 respectivamente).

 

 

Documento 3.

 

 

Editorial O Globo de 2 de abril de 1964:

“Ressurge a Democracia”

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.

 

 

 

Documento 4 - Correio da Manhã. Editorial de 1º de abril de 1964

 

Fora!

A Nação não mais suporta a permanência do Sr. João Goulart à frente do governo. Chegou ao limite final a capacidade de tolerá-lo por mais tempo. Não resta outra saída ao Sr. João Goulart que não a de entregar o governo ao seu legítimo sucessor. Só há uma coisa a dizer ao Sr. João Goulart: Saia!

Durante dois anos o Brasil agüentou um governo que paralisou o seu desenvolvimento econômico, primando pela completa omissão, o que determinou a completa desordem e a completa anarquia no campo administrativo e financeiro. Quando o Sr. João Goulart saiu de seu neutro período de omissão foi para comandar a guerra psicológica e criar o clima de intranqüilidade e insegurança, que teve o seu auge na total indisciplina que se verificou nas Forças Armadas. Isto significou e significa um crime de alta traição contra o regime, contra a República, que ele jurou defender.

Sr. João Goulart iniciou a sedição no país, não é possível continuar no poder. Jogou os civis contra os militares, os militares contra os próprios militares. É o maior responsável pela guerra fratricida que se esboça no território nacional. Por ambição pessoal, pois sabemos que o Sr. João Goulart é incapaz de assimilar qualquer ideologia e quer permanecer no governo a qualquer preço. Todos nós sabemos o que representa de funesto uma ditadura no Brasil, seja ela de direita ou de esquerda. Porque o povo depois de uma larga experiência reagirá com todas as suas forças no sentido de preservar a Constituição e as liberdades democráticas.

O Sr. João Goulart não pode permanecer na Presidência da República, não só porque se mostrou incapaz de exercê-la, como também conspirou contra ela; como se verificou pelos seus últimos pronunciamentos e seus últimos atos. Foi o Sr. João Goulart que iniciou, de caso pensado, uma crise política, social e militar, depois de ter provocado a crise financeira com a infiltração desordenada e o aumento do custo de vida em proporções gigantescas.

Qualquer ditadura no Brasil representa o esmagamento de todas as liberdades, como aconteceu no passado e como tem acontecido em todos os países que tiveram a desgraça de vê-la vitoriosa. O Brasil não é mais uma Nação de escravos. Contra a desordem, contra a mazorca, contra a perspectiva de ditadura criada pelo próprio governo atual, opomos a bandeira da legalidade. Queremos que o Sr. João Goulart devolva ao Congresso, devolva ao povo, o mandato que ele não soube honrar.

Nós do Correio da Manhã defendemos intransigentemente, em agosto e setembro de 61, a posse do Sr. João Goulart, a fim de manter a legalidade constitucional. Hoje, como ontem, queremos preservar a Constituição. O Sr. João Goulart deve entregar o governo ao seu sucessor, porque não pode mais governar o país; a Nação, a democracia e a liberdade estão em perigo. O povo saberá defendê-las. Nós continuaremos a defendê-las.

 

Documento 5.

 

 

 

SÃO PAULO REPETE 32 - O Estado de S. Paulo, 1º de abril de 1964.

Minas desta vez está conosco (...) dentro de poucas horas, essas forças não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições.

 

Pedir que os alunos leiam os editoriais e analisem seu conteúdo partindo das seguintes questões norteadoras.

- Partindo do panorama social e político proposto pelas chamadas Reforma de Base do presidente destituído João Goulart, os jornais apoiavam quais sujeitos políticos? Por quê?

- O que temiam os jornais? Como fazem sua defesa aos argumentos expostos?

- Tomando como base a grande circulação das publicações em questão, e o evidente papel da mídia como ator social e formador de opinião, qual o papel da grande imprensa para o golpe de 1964?

-Apesar de serem produzidos em anos diferentes e em contextos e conjunturas distintos, é possível traçar uma comparação entre as charges do Pasquim e os editoriais apresentados. Quais são as diferenças notadas?

-Pelo discurso nas publicações, identificar quais sujeitos históricos e quais projetos políticos estavam em jogo em 1964.

 

 

Atividade 3.

 

Aos mesmos grupos, distribuir editoriais e manchetes dos jornais alternativos Movimento e Opinião (documentos 6, 7, respectivamente).

 

Documento 6.

 

 

Seleção de trechos do editorial de Movimento:

 

Um projeto de jornalismo independente, que passa por vários jornais, e chega a uma equipe de 70 redatores, cerca de duzentos acionistas, entre os quais mais de 100 jornalistas. Um jornal dirigido por um conselho eleito pela redação, propondo-se a narrar e comentar os acontecimentos da semana, descrever a cena brasileira e as condições de vida das massas. A história da criação de Movimento, um jornal democrático. (...) Sentia-se um certo cansaço daquele tipo de jornalista e se acreditava que a tarefa do jornalista não é apenas a de descrever o mundo mas de ajudar a transformá-lo. (...) Naquele momento, julgava a redação, as práticas democráticas de decisão deveriam ser fortalecidas e não abandonadas. (...) Se uma coceira incomoda no momento em que atravessamos a rua é certo ir depressa para a calçada e só então se coar.

 

 

Documento 7.

 

 

Seleção de trechos do Editorial

Um jornal que não defende interesses pessoais, não pertencea nenhum partido, não é porta-voz de qualquer ideologia e se recusa a aceitar um volume de publicidade que ultrapasse a 20 por cento de sua receita. (...) O jornal não pretende se limitar a um simples relato dos fatos da semana. “Devemos analisar, criticar e interpretar esses fatos para o leitor com a maior honestidade e seriedade possível”, diz o editor. OPINIÃO propõe-se a atingir uma ampla faixa de leitores. (...) Um Jornal de oposição? - Opinião não vai fazer “política” na medida em que não vai fazer propaganda de movimentos políticos ou preservar a unidade de grupos ou igrejinhas – garante Raimundo Pereira, seu editor-chefe. Mas su honestidade não deve ser confundida com omissão: - Não temos medo de ter opinião – diz ele. Somos, por exemplo, contra a depredação do meio ambiente, a exploração do consumidor, o roubo das riquezas nacionais e temos como compromisso a defesa dos direitos do cidadão e das liberdades democráticas.

 

 

Pedir para que discutam hipóteses baseados nas seguintes questões norteadoras:

- Qual o propósito da fundação destes jornais, baseando-se nos textos apresentados?

- Baseando-se no ano de fundação de cada um deles, traçar as diferenças e continuidades nas conjunturas políticas e sociais vividas pelo país com aquelas vividas em 1964, quando os editorias dos jornais da grande imprensa apresentados foram publicados.

- Colocadas estas diferenças pelo grupo, comparar os discursos apresentados. Os projetos políticos defendidos são os mesmos? A defesa de determinados sujeitos históricos é a mesma? São defendidas rupturas ou continuidades no regime?

- A partir das datas de criação de cada jornal ( 1972, o Opinião, e 1975, o Movimento) e o cenário de institucionalização do regime e o chamado “endurecimento”após 1968, desenvolver hipóteses sobre o papel de jornais de resistência ao governo militar.

- Quais as limitações da chamada imprensa de resistência?

-A liberdade de expressão e sua restrição aparecem, em algum momento, no editorial dos jornais?

Perguntar aos alunos sobre os conhecimentos prévios que têm sobre a imprensa de resistência. A partir daí, contextualizar no tempo o nascimento dos jornais cujos recortes foram apresentados. Após o debate em grupos, cada um deles apresenta suas conclusões e a classe debate em conjunto quais as principais diferenças entre os objetivos da grande imprensa comercial e da imprensa de resistência.

 

 

Terceira Hora/Aula

 

Atividade 1.

 

Dividir os alunos em grupos, de quatro ou cinco pessoas, e distribuir editoriais dos grandes jornais na ocasião dos 50 anos do golpe.

Folha de São Paulo – “Editorial: 64”, publicado em 30/03/2004

O regime militar (1964-1985) tem sido alvo de merecido e generalizado repúdio. A consolidação da democracia, nas últimas três décadas, torna ainda mais notória a violência que a ditadura representou.

Violência contra a população, privada do direito elementar ao autogoverno. E violência contra os opositores, perseguidos por mero delito de opinião, quando não presos ilegalmente e torturados, sobretudo no período de combate à guerrilha, entre 1969 e 1974.

 

Aquela foi uma era de feroz confronto entre dois modelos de sociedade –o socialismo revolucionário e a economia de mercado. Polarizadas, as forças engajadas em cada lado sabotavam as fórmulas intermediárias e a própria confiança na solução pacífica das divergências, essencial à democracia representativa.

A direita e parte dos liberais violaram a ordem constitucional em 1964 e impuseram um governo ilegítimo. Alegavam fazer uma contrarrevolução, destinada a impedir seus adversários de implantar ditadura ainda pior, mas com isso detiveram todo um impulso de mudança e participação social.

 

Parte da esquerda forçou os limites da legalidade na urgência de realizar, no começo dos anos 60, reformas que tinham muito de demagógico. Logo após 1964, quando a ditadura ainda se continha em certas balizas, grupos militarizados desencadearam uma luta armada dedicada a instalar, precisamente como eram acusados pelos adversários, uma ditadura comunista no país.

 

As responsabilidades pela espiral de violência se distribuem, assim, pelos dois extremos, mas não igualmente: a maior parcela de culpa cabe ao lado que impôs a lei do mais forte, e o pior crime foi cometido por aqueles que fizeram da tortura uma política clandestina de Estado.

 

Isso não significa que todas as críticas à ditadura tenham fundamento. Realizações de cunho econômico e estrutural desmentem a noção de um período de estagnação ou retrocesso.

Em 20 anos, a economia cresceu três vezes e meia. O produto nacional per capita mais que dobrou. A infraestrutura de transportes e comunicações se ampliou e se modernizou. A inflação, na maior parte do tempo, manteve-se baixa.

 

Todas as camadas sociais progrediram, embora de forma desigual, o que acentuou a iniquidade. Mesmo assim, um dado social revelador como a taxa de mortalidade infantil a cada mil nascimentos, que era 116 em 1965, caiu a 63 em 1985 (e melhorou cada vez mais até chegar a 15,3 em 2011).

 

No atendimento às demandas de saúde e educação, contudo, a ditadura ficou aquém de seu desempenho econômico.

 

Sob um aspecto importante, 1964 não marca uma ruptura, mas o prosseguimento de um rumo anterior. Os governos militares consolidaram a política de substituição de importações, via proteção tarifária, que vinha sendo a principal alavanca da industrialização induzida pelo Estado e que permitiu, nos anos 70, instalar a indústria pesada no país.

 

A economia se diversificou e a sociedade não apenas se urbanizou (metade dos brasileiros vivia em cidades em 1964; duas décadas depois, eram mais de 70%) mas também se tornou mais dinâmica e complexa. Metrópoles cresceram de modo desordenado, ensejando problemas agudos de circulação e segurança.

 

O regime passou por fases diferentes, desde o surto repressivo do primeiro ano e o interregno moderado que precedeu a ditadura desabrida, brutal, da passagem da década, até uma demorada abertura política, iniciada dez anos antes de sua extinção formal, em 1985.

 

As crises do petróleo e da dívida externa desencadearam desarranjos na economia, logo traduzidos em perda de apoio, inclusive eleitoral. O regime se tornara estreito para uma sociedade que não cabia mais em seus limites. Dissolveu-se numa transição negociada da qual a anistia recíproca foi o alicerce.

 

Às vezes se cobra, desta Folha, ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro.

 

Este jornal deveria ter rechaçado toda violência, de ambos os lados, mantendo-se um defensor intransigente da democracia e das liberdades individuais.

É fácil, até pusilânime, porém, condenar agora os responsáveis pelas opções daqueles tempos, exercidas em condições tão mais adversas e angustiosas que as atuais. Agiram como lhes pareceu melhor ou inevitável naquelas circunstâncias.

 

Visto em perspectiva, o período foi um longo e doloroso aprendizado para todos os que atuam no espaço público, até atingirem a atual maturidade no respeito comum às regras e na renúncia à violência como forma de lutar por ideias. Que continue sendo assim. 

 

 

 

Estado de São Paulo: “ Editorial: Meio século depois”, publicado em 31/03/2014

 

 

- Pedir para, nos grupos, os alunos discutirem, a partir de uma analogia com os textos e editoriais publicados pelos grandes jornais quando aconteceu o golpe, em 1964, sobre o que significa os editoriais publicados em 2014.

- Trata-se de um pedido de desculpas?

- Quais são as teses defendidas pelos jornais em seus editoriais?

- As teses condizem com o que representou a ditadura militar para a maioria da população brasileira?

- A partir da questão anterior, que agentes políticos e históricos representam os grandes jornais?

 

 

Atividade 2. (Avaliação parcial –vale 3 pontos)

 

-Pedir para que os alunos escrevem uma redação com o seguinte tema: A partir da ideia de que os grandes jornais deixaram de apoiar o regime, principalmente na década de 70, problematizar: Quais os possíveis motivos que levaram a isso, levando em conta os acontecimentos e as conjunturas históricas?

 

Quarta Hora/Aula

Tocar a música Pesadelo, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro. (https://www.youtube.com/watch?v=LePlhJolWas)

 

Pesadelo

Quando um muro separa, uma ponte une.

Se a vingança encara, o remorso pune.

Você vem me agarra, alguém vem e me solta.

Você vai na marra, ela um dia volta.

E se a força é tua, ela um dia é nossa.

Olha o muro! Olha a ponte!

Olha o dia de ontem chegando...

Que medo você tem de nós!

Olha aí...

Você corta um verso, eu escrevo outro.

Você me prende vivo, eu escapo morto.

De repente...

Olha eu de novo!

Perturbando a paz, exigindo o troco.

Vamos por aí, eu e meu cachorro.

Olha o verso, olha o outro,

Olha o velho, olha o moço chegando...

Que medo você tem de nós!

Olha aí...

O muro caiu. Olha a ponte!

Da liberdade, guardiã.

O braço do Cristo, o horizonte,

Abraça o dia de amanhã.

Olha aí...

 

 

Pesadelo, gravada em 1972 pelo grupo MPB4 no disco Cicatrizes.

 

Debater com a classe questões sobre a música:

- Questionar aos alunos sobre quando acham que a letra foi escrita.

-Quem são o “nós” colocado no poema? E o “você”? A quem o poema se dirige?

- Qual o tema central da música?

- A que tempo histórico se refere o poema? Ele é, necessariamente, preso a este tempo histórico?

-A que tipo de cerceamento de liberdade fala a música? Vivemos hoje algum tipo de cerceamento de liberdade? Qual?

Após o debate, colocar, em sequência, a música Cálice (1978), de Chico Buarque (https://www.youtube.com/watch?v=26g1jQG-n4Y) e a versão do rapper Criolo (2011) – (https://www.youtube.com/watch?v=akZY0-6Rs0A)

 

Cálice, Chico Buarque

 

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça
 

Cálice, Criolo

 

Como ir pro trabalho sem levar um tiro
Voltar pra casa sem levar um tiro
Se as três da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo pra manter sua brisa
Os saraus tiveram que invadir os botecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio,
E uma gente que se acha assim muito sabida

Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mas não há preconceito se um dos três for rico, pai.

A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo e o meu berço é o rap

Mas não existe fronteira pra minha poesia, pai.
Afasta de mim a biqueira, pai
Afasta de mim as biate, pai
Afasta de mim a cocaine, pai
Pois na quebrada escorre sangue,pai.

Pai
Afasta de mim a biqueira, pai
Afasta de mim as biate, pai
Afasta de mim a coqueine, pai.
Pois na quebrada escorre sangue.
 

 

Discutir com os alunos as seguintes questões:

- Quais as semelhanças entre as duas músicas? E as diferenças?

- Com mais de 30 anos de diferença entre as letras, quais são as continuidades observadas na realidade social retrada nas músicas?

- A que Cálice, ou “cale-se” se refere Chico Buarque? É o mesmo Cálice a que se refere Criolo?

- Para quem se dirigem a música de Chico Buarque? E a de Criolo?

- Hoje há liberdade de expressão? Quais vozes dissonantes vemos hoje na mídia?

 

Avaliação

- Texto – Atividade de avaliação parcial, valendo 3 pontos: Atividade 2 da Terceira Hora/Aula.

- Trabalho, valendo 7 pontos: Pedir para alunos escreverem editoriais de seus próprios jornais com a temática dos 50 anos do Golpe Militar no Brasil, levando em conta questões como a atuação da imprensa de resistência e da grande imprensa comercial.

 

 

 

 

 

 

 

AnexoTamanho
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