Ecos da Ditadura Militar no Século XXI

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

DISCIPLINA FLH 0421 - ENSINO DE HISTÓRIA: TEORIA E PRÁTICA DOCENTE: PROF. DRA. ANTONIA TERRA CALAZANS FERNANDES

SEQUÊNCIA DIDÁTICA:

 

TRIBUNAIS DE RUA: ECOS DA DITADURA MILITAR NO SÉCULO XXI

LARISSA RESENDE MOREIRA Nº USP: 7198272

 

 

São Paulo

 

Outubro, 2014

Este material didático pretende trazer à reflexão, em sala de aula, uma das faces da ditadura militar que persistem no tempo presente à sombra do Estado Democrático, das políticas de segurança civil e do mito de democracia racial. O mote das discussões é a violência enquanto monopólio do Estado, e seus agentes enquanto prática à margem da legalidade.

 

O período que factualmente se inicia com o golpe militar de 1964 e finda em 1985 é parte de um processo histórico amplo que diz respeito à formação e conformação política e social do Brasil e, portanto, não é possível pensar que dele inexistam marcas e continuidades. No caso das populações de periferia nas grandes cidades, tais legados são ainda mais escancaradamente sentidos e provados cotidianamente sob os punhos da repressão policial. O chamado crime organizado, na figura do Comando Vermelho, que se gesta em meados do período ditatorial nas celas divididas entre presos políticos e presos comuns e estoura a partir da redemocratização, também figura como um eco do período. As resistências são múltiplas e algumas mobilizações sociais se reconfiguraram, novos grupos surgiram. Deste modo, o presente trabalho se concebe enquanto um ponto de partida para que professores e alunos possam pensar a ditadura militar no Brasil não como um acontecimento preso a um tempo linear contido no passado, mas como um processo histórico que, por sua vez, tem implicações e agências no nosso contemporâneo.

 

 

 

Sequência didática:

 

Tribunais de rua: ecos da ditadura militar no século XXI

 

 

 

 

“A ditadura segue meu amigo Milton

A repressão segue meu amigo Chico

Me chamam Criolo e o meu berço é o rap. Pai

Afasta de mim a biqueira, pai Afasta de mim as biate, pai Afasta de mim a coqueine, pai.

Pois na quebrada escorre sangue.”

(Criolo – Cálice)

 

 

 

Público-alvo: 3º ano do Ensino Médio Módulo 1: Nós somos quase dois irmãos(3 aulas)

O primeiro módulo compreende a exibição do longa-metragem de Lúcia Murat, “Quase dois irmãos”, que intercala dois períodos da história do Brasil, os anos 70 com o enrubescimento da ditadura militar, e os anos 2000 para cá, quando o crescente poder do

narcotráfico figura com um dos maiores impasses sociais do país. A ditadura militar surge como cenário, concebido enquanto contexto, para conflitos raciais e de classe nos arquétipos de seus protagonistas. Jorge, negro e morador de favela e Miguel, branco e de classe média alta, são amigos de infância unidos pela convivência dos pais em longas noites de samba no morro Santa Marta. O pai de Jorge é um sambista do morro e o de Miguel um jornalista e intelectual. A cultura popular na figura do samba carioca surge, neste caso, como elo que permite a constituição de relações de afinidade entre dois homens de origem social distinta. Quando adultos Jorge e Miguel se reencontram no presídio de Ilha Grande, enquadrados na Lei de Segurança Nacional durante os anos de chumbo, um como assaltante, o outro como preso político.

 

Neste cenário, o filme corrobora o dado defendido por estudiosos que se atentaram para a história das maiores frentes de narcotráfico no Brasil, como Carlos Amorim (2004,) de que a convivência entre presos políticos e presos comuns teria se conformado em trocas simbólicas que gestaram o que conhecemos hoje como crime organizado no país. Embora saibamos que modelos de organizações criminais no país remontam ao século XIX, como é o caso do cangaço, a criação do Comando Vermelho foi o germe de uma nova configuração do monopólio da violência por grupos marginais, envolvendo inclusive os três poderes, e representou o estopim para a formação de uma série de outras facções criminosas nas periferias dos maiores centros urbanos nacionais. A experiência prisional compartilhada entre presos políticos, sujeitos que detinham formação intelectual e política nos moldes das ideologias socialistas, e presos comuns, habituados ao chamado “mundo do crime”, teria conferido a organicidade ao narcotráfico, ao mesmo tempo em que escancarou a inabilidade da esquerda brasileira em lidar com as demandas raciais e com a “massa” que desejava libertar.

 

Tecnicamente, trata-se de um filme que guarda uma complexidade ímpar, pois sua narrativa se desenrola de forma não linear, ou seja, há deslocamentos temporais sem aviso prévio. Portanto, será preciso pausas frequentes para verificar a atenção do aluno e a criação de referenciais com a turma para que os alunos possam localizar a narrativa no tempo. A seguir, uma esquematização proposta de sequência de cenas consideradas, neste trabalho, como essenciais para as reflexões pretendidas.

 

 

 

Proposta - exibição comentada do filme “Quase dois irmãos de Lúcia Murat (2004:

 

1h41min):

 

Cena 1 – Bangu, 2004. Miguel reencontra Jorginho para propor-lhe a participação em um projeto social que pretende implantar na favela Santa Marta. Os dois rememoram o passado no presídio de Ilha Grande. Importante em algum momento do módulo contextualizar a criação do presídio de segurança máxima da Ilha e suas transformações no decorrer do tempo. Jorge, agora à frente do Comando Vermelho e às voltas pelo celular com as questões da guerra no morro, diz ao então deputado Miguel “você não sabe nada sobre o trabalhador”. Alertar para a forma como Jorge termina a ligação, dizendo “Paz, Justiça e Liberdade”.

Cena 2 – A voz de Miguel ao fundo dizendo “A vida de Jorginho talvez tenha sido uma tragédia anunciada que nós ajudamos a escrever”. Indagar sobre quem e a que Miguel se refere responsabilizando “nós” pelo destino que tomou Jorginho.

 

Cena 3 – “Aqui é todo mundo igual”, fala de um preso político a Jorginho. Poucos minutos depois o mesmo personagem afirma que Ilha Grande “é cadeia de preso político” e que lá são eles que ditam as normas.

 

Cena 4 – Dona Helena, mãe de Miguel, leva queijo suíço para o filho na cadeia. Chamar à atenção para a aparente distinção social entre as famílias dos presos políticos e dos presos comuns. Fala da mãe comparando o samba à revolução, afirmando serem os dois compostos por “povo, bagunça e sofrimento”.

 

Cena 5 – Reivindicações dos presos políticos por direitos, segundo a Convenção de Genebra, como o de não usar uniforme, por exemplo. Realizam greve de fome para que suas reivindicações sejam atendidas.

 

Cena 6 – A alegoria do navio negreiro no transporte dos presos comuns à Ilha Grande, expresso nas correntes.

 

Cena 7 – Para servir de caso exemplar em repressão à greve dos presos políticos, policiais torturam Jorginho dizendo “negro subversivo não existe”. Problematizar a tortura do negro e a diferença de tratamento dos policiais aos presos de pele branca.

 

Cena 8 – O termo racismo aparece na fala da filha de Miguel, frequentadora dos bailes funks em Santa Marta e amante do chefe do morro, Derley, que é subordinado direto de Jorginho. Ao ser questionada sobre suas relações no morro, quando Miguel pergunta “porque você quer viver no meio daqueles homens machistas, que querem engolir uns aos outros” Juliana critica a postura do pai acusando-o de ser racista “vocês (militantes de esquerda/políticos) queriam que os caras fossem brancos”.

 

Cena 9 – Santa Marta, 2004, fornecimento de armas aos traficantes pela polícia militar e comércio de drogas.

 

Cena 10 – “Quem manda no morro?”, diálogo entre Jorginho e Miguel.

 

Cena 11 – De volta aos anos 70, presos políticos tentam a integração com os novos presos comuns, mas encontram dificuldades.

 

 

 

não”.

Cena 12 – Numa discussão, Juliana diz à Derley “eu não sou tuas „neguinha‟ do morro

 

Cena 13 – Juliana chega à cozinha de sua casa e pede para ser servida pela empregada negra da família. Sua mãe vê a cena e diz “minha filha, realmente não dá para entender”.

 

Cena 15 – Em vista da chegada dos novos presos, da violência e de sua resistência em aderir ao coletivo de presos políticos, há uma discussão sobre a proposta de separação

entre presos comuns e políticos. Um dos militantes alega que isso geraria uma luta de classes e que a estratégia deveria ser a de “ganhar os caras”. Miguel defende separar “companheiro de quem não é”.

 

Cena 16 – Diante da proposta de separação, Jorginho indaga “quer dizer que nós

 

somos todos iguais?”.

 

Cena 17 – Construção do muro que separa a galeria entre presos comuns e presos políticos. Pintura de Jorginho em vermelho nomeando a sua quadrilha de “políticos proletários”.

 

Cena 18 – As famílias são separadas ao desembarcar para visitação por questão de “segurança”. Dona Helena diz à Catarina que “se vocês continuarem com medidas de segurança, vão ficar iguais aos militares”.

 

Cena 19 – A facção “Falange Vermelha”, liderada por Jorginho, elimina um grupo de presos que lhes faziam oposição na galeria. Voz de Miguel ao fundo “por mais utópico que possa lhe parecer, eu não quero a morte como solução”.

 

Cena 20 – A sequência final traz a guerra no morro em meio ao carnaval, o estupro de Juliana como arma de guerra, a paisagem antagônica dividida pelo morro dois irmãos, no Rio de Janeiro. Ao fundo, o samba.

 

Estes são alguns direcionamentos que podem ser tomados para servir de aporte à proposta final da sequência didática, e dizem respeito à necessidade de se afigurar um olhar crítico para o conteúdo da ditadura militar.

 

Após a exibição comentada e os apontamentos prévios realizados com a sala, será necessário dividir os alunos em grupos. Cada grupo irá responder a uma série de perguntas propostas pelo professor. Ao final, as respostas serão lidas e comparadas, uma a uma, e resultarão na confecção de um texto único em nome da sala.

 

- Quem são os presos políticos e os presos comuns? Eram todos iguais, como afirmam os presos políticos? Se não, quais as diferenças entre eles?

 

- O que é ser político? Em sua opinião, o crime organizado pode ser considerado como uma organização de cunho político?

 

- “Negro subversivo não existe”, é a fala do policial enquanto tortura Jorginho. O que

 

essa fala denuncia?

 

- O que você sabe sobre as “guerras no morro”?

 

- Em seu ponto de vista, a polícia hoje trata da mesma forma os criminosos brancos e negros? Por quê?

 

- De acordo com seus conhecimentos prévios sobre o período da ditadura militar, responda: Os militantes políticos lutavam por igualdade racial ou igualdade de classes? Há diferenças entre as duas bandeiras?

 

- Os personagens Miguel e sua filha, Juliana, eram racistas? Comente.

Módulo 2 : Tribunais de rua

 

(2 aulas)

 

Cabe ao segundo módulo dar continuidade à discussão sobre o ser/fazer político segundo a lógica da violência e revolução. Entendemos na primeira etapa da sequência didática que alguns presos políticos fizeram uso de práticas enquadradas no perfil delinquente, como assaltos e sequestros, em nome da luta armada e da revolução socialista pretendida no país. Técnicas de guerrilha urbana eram amplamente divulgadas entre os grupos militantes e um de seus principais modelos foi o manual criado pelo líder negro da Aliança Libertadora Nacional, Carlos Marighela. Sua figura, tradicionalmente relacionada às lutas de classe à frente de uma militância predominantemente branca e de classe média, vem sendo apropriada e seu mito resignificado pelas demandas dos movimentos negros. O clipe da música “Marighela – Mil faces de um homem leal”, do grupo de rap Racionais MC‟s, é um exemplo de como o baiano marxista pode representar um símbolo de luta para o povo negro que ultrapassa até mesmo seu real posicionamento enquanto militante e líder da ALN.

 

A demanda racial nunca foi uma grande pauta para os principais movimentos revolucionários dos anos de chumbo, e o pensamento marxista se mostrou inapto a resolver a questão das massas periféricas, herdeiras dos longos séculos de escravidão no país. Tal problemática foi apontada no módulo anterior e aqui pretendemos ir além, demonstrando que a narrativa histórica pode ser rearticulada de forma política para dar conta de lacunas deixadas pela história oficial. Ao aproximar Marighela da imagem de um líder negro, de periferia e que empunha uma arma em nome da revolução do povo, os Racionais criam uma narrativa que se afina com o discurso do filme “Quase dois irmãos”. Os ideais socialistas, as técnicas de guerrilha apreendidas na convivência entre presos políticos e comuns, junto à intrínseca demanda social dos últimos, teria gerado um novo conceito de revolução na periferia, expresso em muitas facções criminosas que dominam os morros e são e fazem a lei. Além disso, representa a agência do povo negro à frente de umas das principais narrativas da história da ditadura militar, a luta armada.

 

As propostas a seguir podem ser desenvolvidas no decorrer de duas aulas. São modelos de discursos que nos permitem discutir em sala sobre os atuais métodos de luta e protesto e a que camada social eles correspondem, numa trajetória expositiva que vai do período ditatorial até os dias de hoje. Por métodos de interpretação de texto e comparação, os textos serão usados como base para a discussão, exposição de opiniões e debates sem perder de vista nosso fio condutor, a violência como fazer político.

 

Proposta 1 - exibição do clipe Mil faces de um homem leal do grupo Racionais MCs

 

(2012: 6min), disponível em https://www.youtube.com/watch?v=v6vO-kIXFAM

 

[Marighela]

 

"Esta mensagem é para os operários de São Paulo

 

Da Guanabara, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco

Rio Grande do Sul, incluindo os trabalhadores do interior

 

Para criarmos juntos um exército de Libertação

 

O poder pertence ao povo

 

Nosso lema é unir as forças revoluciorias

 

(De qualquer parte do Brasil, para os patriotas de toda parte) Podem surgir dos bairros, das ruas, dos conjuntos residenciais Das favelas, mucambos, malocas e alagados

(O dever de todo revoluciorio é fazer a revolução) Cada patriota deve saber manejar sua arma de fogo Aumentar sua resistência física

O principal meio para destruir seus inimigos é aprender a atirar"

 

 

A postos para o seu general Mil faces de um homem leal Protetor das multidões

Três encarnações de célebres malandros

 

De cérebros brilhantes

 

Reuniram-se no céu

 

O destino de um fiel, se é o céu o que deus quer

 

Consumado, é o que é, assim foi escrito

 

O mártir, ou mito

 

Um maldito sonhador Bandido da minha cor Novo messias

Se o povo dormia ou não

 

Se poucos sabiam ler

 

Iam morrer em vão

 

Leso e louco sem saber

 

Coisas do Brasil, super-herói, mulato Defensor dos fracos, assaltante nato Ouçam, é foto e é fato planos cruéis Tramam 30 Fariseus contra Moisés, morô? Reaja ao revés, seja alvo de inveja

Irmão, esquinas revelam a sina de um rebelde, oh meu

 

Que ousou lutar, amou a raça Honrou a causa que adotou, Aplauso é pra poucos

Revolução no Brasil tem um nome

 

Vejam o homem

 

Sei que esse era um homem também

A imagem e o gesto

 

Lutar por amor

 

Indigesto como o sequestro do embaixador

 

O resto é flor, sem ter festa eu vou

 

Eu peço, leia os meus versos, e o protesto é show Presta atenção que o sucesso em excesso é cão Quem se habilita a lutar? Fome grita horrível

A todo ouvido insensível que evita escutar

 

Acredita lutar, quanto custa ligar?

 

Cidade em chama, vida que se vai por quem ama

 

Quem clama por socorro, quem ouvirá? Crianças, velhos e cachorros sem temor Clara meu eterno amor, sara minhas dores Pra não dizer que eu não falei das flores

Da Bahia, de São Salvador, Brasil Capoeira mata um mata mil, porque Me fez bil como um cão

bio como um monge Anti-reflexo de longe Homem complexo sim Confesso que queria Ver Davi matar Golias Nos trevos e cancelas Becos e vielas

Guetos e favelas

 

Quero ver você trocar de igual

 

Subir os degraus, precipícios E vida difícil, oh povo feliz Quem samba fica,

Quem não samba, camba

 

Chegou, salve geral da mansão dos bamba Não se faz revolução sem um fura na mão Sem justiça não há paz, é escravidão Revolução no Brasil tem um nome...

A postos para o seu general Mil faces de um homem leal Marighella

Essa noite em São Paulo um anjo vai morrer

 

Por mim, por você, por ter coragem em dizer.

[Marighella]

 

"Todos nós devemos nos preparar para combater

 

É o momento de trabalhar pela base, mais e mais pela base Chamemos os nossos amigos mais dispostos, tenhamos decisão Mesmo que seja enfrentando a morte

Porque para viver com dignidade, para conquistar o poder para o povo

 

Para viver em liberdade, construir o socialismo e o progresso

 

Vale mais a disposição

 

Cada um deve aprender a lutar em sua defesa pessoal

 

Aumentar sua resistência física

 

Subir ou descer por escarpos e barrancos

 

À medida que se for organizando a luta revolucionária

 

A luta armada, a luta de guerrilha, que venha com a sua arma" (Marighella, mil faces de um homem leal – Racionais MCs)

 

 

Proposta 2 - Leitura de extratos do livro Manual do guerrilheiro urbano de Carlos

 

Marighela (1969).

 

O guerrilheiro urbano, no entanto, difere radicalmente dos delinentes. O delinqüente se beneficia pessoalmente por suas ações, e ataca indiscriminadamente sem distinção entre explorados e exploradores, por isso há tantos homens e mulheres cotidianos entre suas vítimas. O guerrilheiro urbano segue uma meta política e somente ataca o governo, os grandes capitalistas, os imperialistas norte-americanos. (...)

 

O guerrilheiro urbano é um inimigo implacável do governo e infringe dano sistemático às autoridades e aos homens que dominam e exercem o poder. O trabalho principal do guerrilheiro urbano é de distrair, cansar e desmoralizar os militares, a ditadura militar e as forças repressivas, como também atacar e destruir as riquezas dos norte-americanos, os gerentes estrangeiros, e a alta classe brasileira.

 

O guerrilheiro urbano não teme desmantelar ou destruir o presente sistema econômico, político e social brasileiro, que sua meta é ajudar ao guerrilheiro rural e colaborar para a criação de um sistema totalmente novo e uma estrutura revolucioria social e política, com as massas armadas no poder.(...)

 

No entanto, o guerrilheiro urbano tem certa vantagem sobre o exército convencional ou sobre a polícia. Esta é, enquanto a pocia e os militares atuam a favor do inimigo, a quem as pessoas odeiam, o guerrilheiro urbano defende uma causa justa, que é a causa do povo.

 

As armas do guerrilheiro urbano são inferiores às do seu inimigo, mas vendo desde o ponto de vista moral, o guerrilheiro urbano tem uma vantagem que não se pode negar. Esta superioridade moral é o que sustem ao guerrilheiro urbano. Graças a ela, o guerrilheiro urbano pode levar ao fim seu trabalho principal, o qual é atacar e sobreviver.

A questão básica na preparação técnica do guerrilheiro urbano é o manejo de armas, tais como a metralhadora, o revólver autotico, FAL, vários tipos de escopetas, carabinas, morteiros, bazucas, etc.

 

O conhecimento de vários tipos de munições e explosivos é outro aspecto a considerar. Entre os explosivos, a dinamite tem que ser bem entendida. O uso de bombas incendiárias, de bombas de fumaça, e de outros tipos são conhecimentos prévios indispensáveis.(...)

 

Aprender a fazer e construir armas, preparar bombas Molotov, granadas, minas, artefatos destrutivos caseiros, como destruir pontes, e destruir trilhos de trem são conhecimentos indispensáveis a preparação cnica do guerrilheiro.(...)

 

Com a arrogância típica da pocia e das autoridades militares fascistas, o inimigo virá lutar com armas pesadas e equipamento, e com manobras elaboradas de homens armados até os dentes. O guerrilheiro urbano tem que responder a isto com armas leves facilmente transportáveis, para que sempre possa escapar com velocidade máxima, sem aceitar uma luta aberta. O guerrilheiro urbano não tem outra missão do que atacar e retirar-se.(...)

 

Antes de qualquer ação, o guerrilheiro urbano tem que pensar nos todos e no pessoal disponível para realizar a ação. As operações e ações que demanda a preparação técnica do guerrilheiro urbano não podem ser executadas por alguém que carece de destrezas técnicas. Com estas precauções, os modelos de ação que o guerrilheiro urbano pode realizar são os seguintes:

 

a. assaltos b. invasões

c. ocupações

 

d. emboscadas e. ticas de rua

f. greves e interrupções de trabalho

 

g. deserções, desvios, tomas, expropriações de armas, munições e explosivos h. libertação de prisioneiros

i. execuções j. seqüestros

l. sabotagem

 

m. terrorismo

 

n. propaganda armada o. guerra de nervos (...)

Desde agora, os homens e mulheres escolhidos para a guerra de guerrilha urbana são trabalhadores; camponeses a quem a cidade atraiu por seu potencial de trabalho e quem regressarão à área rural completamente doutrinados e tecnicamente preparados; estudantes, intelectuais e sacerdotes. Este é o material com o qual estamos construindo-- começando a guerra de guerrilhas--a aliança armada de trabalhadores e camponeses, com estudantes, intelectuais e sacerdotes.

 

 

 

Proposta 3: Leitura de extrato da carta de um membro do Comando Vermelho, extraída do

 

livro “Abusado: O Dono do Morro Dona Marta de Caco Barcellos (2003) Venho por meio desta desde já desejando a todos muita sde e paz de espirito para suportá esses momento deceis. bem como muita PAZ JUSTIÇA E LIBERDADE.

Meu respeito a todos do grupo bem como os demas irmãos.

 

Irmãos estou mais uma vez abrindo meu coração a vocês, me orgulha toda

 

a Luta que tenho com a bandeira do Comando Vermelho que no alto do Santa

 

Marta es fincada.

 

a vida por isso, man a filozofia de Paz Justiça e Liberdade.

 

Quando me envouvi foi nos anos 80. A falia tava em alta o povo acreditava em nós. Todo o povo! Acreditei nisso também. Lutá pelo povo! Por nossos

filhos, por um futuro melhor! (...)Irmãos, pronto a morrê também. Pois dedico corpo mente alma a eles

 

meus irmãos que mesmo diante da tortura e da morte não revelaram nem o nome nem as intenções de seus irmãos, os quais não morrerão por dinheiro o poder morrerão pela Paz que não nos deichamo tê. Morreram pela Justica que só serve contra nós o povo. E morreram pela Liberdade de nossos pequeninos países estranjeiros nessa sociedade racista.

Me honrra sê do Comando Vermelho irmãos! Tem uma diferença Realmente

 

com migo, não tô nisso por dinheiro o poder! A boca para mim não é mais importante que o morador, e a irmandade.

Para mim não somos só donos. Somos o líder não só das nossas respequetivas famílias mas também da comunidade, o pai dos orfãos, o imão do povo.

Quando pasamos a ezisti nas favelas foi quando prometemos aos moradores

vivê o rltimo que estava acontecendo na cadeia, que seria protejê os oprimidos, ajulos não com dinheiro, mas com conciencia também. Hoje depois

de tanta guerra estamos deichando de ezisti nos corações desses moradores. Eu não gosto disso.

Minha luta é por Paz, Justica e Liberdade. Tenho um filho de 12 vai fazer

 

13. O que ele vai pensá de mim? Que sô um simpres traficante! ele que naceu no morro, foi criado no Morro??? Se eu esquecê

dos moradores.! Estarei esquecendo dele e de mim!! A Boca é só a baze de minha responsabilidade, bem como todo meu povo. Tenho que cuidá dos filhos dos meus irmãos que morreram ao meu lado, tenho

que falá para eles a respoa que os pais deles eram, tenho que um

 

pouco pais deles, prometi a eles isso, irmãos! ! Tenho que enchergá o futuro e

 

prepará meus irmãos para esse futuro, tenho total respeito a família e porissovivo assim. Estou errado me diga??? Meu Presidente!!!

Tenho muita dor no coração. A útima vêz que eu mandei uma carta me diceram que eu estava muito poeta. Porque falei que a falia tava ficando velha,

tinha passado dos 20 anos e teríamos que ter propostas para o futuro!! Para

 

mim é verdade isso pois a muitos companheiro que querem vê uma luz no fim do túnel e é nossa responçabilidade isso, podemos achá solução para todos!

Somos muitos.

 

Somos tão grandes que Medellin tem inveja de nós.

 

Somos mais que várias gerrilhas que estão lutando pelo povo na América

 

Latina.

 

Somos mais que a FARC da Combia

 

Somos maior que os zapatistas do México.

 

Mas não passamos de gangue dos morros cada um com seus intereces Quem tem medo perde a iluzão que tem na mão! Irmãos, falo de coração aberto, tem um ditado que diz ..quem fala a verdade não merece castigo

Nossa chance es em nós mesmo. Basta acreditar nisso e conscientizarmos que a maior riqueza é a Paz Justica e Liberdade. Temos a maior bandera

poderíamos preci para obiter a Liberdade que essa legenda nos dá, poIs com ela que nossas comunidades acreditaram em nós no passado e pode acontecê de novo até voltarmos ao caminho de sê os guerreiros do povo na prática. Pois hoje isso não acontece em vários morros.

É o que vejo e o que povo diz e a voz do povo é a voz de DEUS. Vou ,

 

um ezemplo. Fale da falta que o povo tem do Naí da Mineira, do Izaias do Borel, do Maluco do Vidigal, do Dênis da Rocinha, do próprio Marcinho V.P., o

peixe do Jacaré. Isso é um pequeno ezemplo: estoricamente o povo saiu para fechá a rua por causa dessas lideranças e de outras, quando o nosso saudoso Orlando Jogador, que DEUS o tenha em bom lugar bem como o Bolado da Rocinha, morreram. O dezespero do povo estava estampado em todos os jornais,

o Meio-Quilo,o nosso saudoso líder Rorio Lengruber. Todas essas pessoas fazen parte da estória do Rio e do Brasil.

O povo acreditava que eles poderia mudá a miséria que eles viviam. Digo

 

viviam porque com esse governo que tá jogando de todas as formas com o povo fazendo o que eles tão pedindo e nós estamos perdendo terreno. Essa é a verdade. As mães dos morro tão cansadas de vê seus filhos morrerem em guerras mesquinhas, já não vê mais aquela concideração, aquele respeito. Isso conta e conta contra nós. Ainda temos chance, basta fa o q o povo quê!! Nós não perderemos nunca! Pois o poder de liderança é nosso! E para sempre agora o

que fazemos com ele é outra coisa. Podemos manipulá ou amostrá na prática pra nossos filhos e comunidade que podemos ser mel do que já somos! O

mais importante é nossa falia, digo também mãe, pai, mulher, filhos etc. Vamos dá uma chance para elas e s!! A história nos julgará irmãos, que ela não

nos julgue mas nos reverencie!!

 

Luto na baze por Paz Justica e Liberdade. Devemos lembrá que o Comando naceu entre os guerrilheiros da Ilha Grande e um dia pensamos em lu pelo povo. Por isso estamos perpetuados a isso, quera ou não é esse e o caminho da Liberdade!!

HUMILDI MENTE PEÇO UM JULGAMENTO JUSTO COMO A FILOSOFIA

DO COMANDO VERMELHO DETERMINA. NA CERTEZA QUE O

 

CERTO É O CERTO NUNCA O ERRADO NEM O DUVIDOZO. PAZ JUSTIÇA E LIBERDADE A TODOS!!!!!!!!!!! MUITA EM DEUS.

R.L.O.J.P.J.L.C.V.S.T.M. JULIANO (Rogério Lengruber - Orlando Jogador - Paz - Justiça- Liberdade-Comando Vermelho-Santa Marta)

 

 

 

Proposta 4 - leitura do Manifesto Black Block, disponível em

 

http://anarquistarc.wordpress.com/2013/07/08/manifesto-black-bloc/

 

1. O BB não é um grupo deliberadamente e randomicamente hostil. Nossa luta é contra as grandes corporações, instituições e organizações opressoras e em defesa de suas vítimas – de forma ativa.

 

2. O BB repudia infiltrações e tentativas de desmoralização e corrupção de movimentos sociais. Frente a infiltrados e provocadores, o BB irá coibir a ação através da conversa e da denúncia. Caso necessário, empregará outras cnicas.

 

3. O BB é organizado de forma horizontal e descentralizada Não temos líderes. Todas as decisões são pautadas de forma democrática e autônoma.

 

4. Acreditamos que a forma mais eficaz de atingir grandes corporações, instituições e organizações opressoras dá-se no âmbito financeiro Daí o caráter hostil de nossas ações contra multinacionais e semelhantes.

 

5. Reconhecemos o pequeno empresário como vítima do sistema. Repudiamos e tentamos a toda força coibir atos que visam prejudicá-lo.

 

6. Repudiamos toda forma de política extremista Somos contra o monolio de riquezas e a exploração das massas.

 

7. Somos contra veículos de comunicação tendenciosos e mentirosos.

 

8. Declaramos inimigos quaisquer meios de repressão e/ou opressão, sejam essas de caráter físico ou psicogico.

 

9. A corporação policial torna-se nossa inimiga [somente] a partir do momento em que suas ações tomam caráter opressor ou repressor.

 

 

 

Proposta 5 - Depoimento do cientista político Adriano Pilatti, disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/525872-o-regime-militar-nao-acabou-nas-periferias- mudou-apenas-a-cor-do-uniforme-entrevista-especial-com-adriano-pilatti.

 

As possibilidades estão aí nos corpos e mentes jovens, potentes e indoveis que tomaram as ruas e reatualizaram a ideia de ação direta, a ideia maquiaveliana dos tumultos que produzem boa ordem, dos conflitos que criam as instituições da liberdade, (...) A

criminalização dos movimentos sociais é pura e simplesmente a continuidade dessa incapacidade das elites brasileiras de aceitar a ação política que vem de baixo. Os primeiros movimentos sociais criminalizados foram os quilombos e, assim como os quilombolas eram caçados, hoje os dissidentes pobres também o são", (...) "esses meninos que tomaram as ruas do Rio de Janeiro e que não querem ser traficantes, nem milicianos, nem policiais, mas também não querem ser escravos remunerados em sórdidos ambientes de trabalho. Eles querem ser cidadãos e são satanizados pura e simplesmente porque põem uma scara no rosto, independentemente do que fizerem ou deixarem de fazer. O que poucos sabem é que, para muitos deles, que vivem em territórios onde os direitos civis não chegaram, territórios controlados por milícias, traficantes, etc., a máscara é um recurso de autodefesa sem o qual seriam perseguidos ao retornarem para casa, ou perderiam seus empregos, porque muitos trabalham para os seus territórios de origem, onde os direitos civis não chegaram. O enunciado

se usa scara, então faz vandalismo é falso.(...) a dimensão coletiva da criminalização da vida dos pobres que permanece. (...) O regime militar não acabou nas periferias, mudou apenas a cor do uniforme.

 

 

 

Módulo 3O movimento negro na ditadura militar

 

(1 aula)

 

 

 

“Era só mais uma dura Resquício de ditadura Mostrando a mentalidade

De quem se sente autoridade

Nesse tribunal de rua

Nesse tribunal

Nesse tribunal de rua”

(O Rappa – Tribunal de Rua)

 

 

 

A criação do Movimento Negro Unificado se dá em meio ao regime militar e é um ótimo ponto de partida para se pensar as lutas do povo negro contra a repressão e a favor de demandas próprias, como o combate à discriminação racial. O governo militar, adepto das teorias freyrianas de democracia racial, criminalizava qualquer movimento que levantasse as bandeiras do povo negro acusando-os de incitar o ódio racial e o racismo. Neste módulo, pretendemos demonstrar que, apesar de os movimentos pró-revolução marxista não darem conta da questão racial no país e serem compostos, em sua maioria, por uma classe média branca, o povo negro se organizou politicamente de forma independente e lutou não apenas pela questão de classes, mas por igualdade racial.

 

O artigo “Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos históricos” de Petrônio Domingues traça uma trajetória das organizações políticas negras desde o início da República até os dias atuais e servirá como base teórica para a aula expositiva proposta.

Proposta 1 Exposição sobre o Movimento Negro na luta contra o regime militar com base no artigo Movimento Negro Brasileiro: alguns apontamentos hisricosde Petrônio Domingues, que pode ser acessado no link: http://www.scielo.br/pdf/tem/v12n23/v12n23a07.

 

Proposta 2 Após a aula expositiva sobre a história do movimento negro, realizar um exercício de análise da imagem abaixo e do extrato de um documento oficial do órgão Serviço Nacional de Informações (SIN) que incita a criminalização da organização recém-criada:

 

 

 

 

 

Realizou-se em São Paulo, no dia 7 julho de 1978, na área fronteiriça ao Teatro Municipal, junto ao Viaduto do Chá, uma concentração organizada pelo autodenominado Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial, integrado por vários grupos, cujos objetivos principais anunciados são: denunciar, permanentemente, todo tipo de racismo e organizar a comunidade negra. Embora não seja, ainda, um movimento de massa, os dados disponíveis caracterizam a existência de uma campanha para estimular antagonismos raciais no País e que, paralelamente, revela tendências ideogicas de esquerda. Convém assinalar que a presença no Brasil de Abdias do Nascimento, professor em Nova Iorque, conhecido racista negro, ligado aos movimentos de libertação na África, contribuiu, por certo, para a instalação do já citado Movimento Unificado. (Documento do Serviço Nacional de Informações (SNI), de

14 de julho de 1978 relatando sobre a manifestação, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, que deu o impulso para a formação do Movimento Negro Unificado (MNU), uma das principais entidades do movimento negro surgidas no Brasil na cada de 1970, durante o período militar. Revista de História, 18/11/2011. Disponível no link: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/na-rhbn/orgulho-da-cor-1)

Propõe-se em seguida, a realização de um debate em sala de aula com base em um questionamento: Em sua opinião, o que representa a ditadura militar?

 

Proposta 3 Finalizar o módulo com a exibição do clipe Ecos da Ditadura, feito pelos rappers Mira Potira, Bruno Makalé, Revolução nacional, Felipe Além, Mr Ronney, O Levante, K2, Dialética, Bandeira Negra, Felix, Delirio Black e Kiko Santana disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=r3_yBkaHdBY

 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

 

 

2004.

AMORIM, Carlos. CV_PCC : A irmandade do crime. 4. Ed. Rio de Janeiro: Record,

 

BARCELLOS, Caco. Abusado: O Dono do Morro Dona Marta. Ed. Record, 2003.

 

 

 

 

DOMINGUES, Petrônio. Movimento Negro Unificado: alguns apontamentos históricos.

 

Revista Tempo, UFF, Rio de Janeiro, v. 23, p. 100 – 122, 2007.