Ditadura- repressão, noções de democracia, tortura, linguagem midiática, relação passado- presente.

 

Prefácio

Após o restabelecimento da democracia fora feitos grandes esforços para apagar o período ditatorial das memorias pessoais, inclusive inibindo que essas memorias fossem passadas as futuras gerações, resultando uma apatia e um quase desconhecimento dos alunos mais novos. Essa cena tem mudado aos poucos, com a chegada de 50 anos do inicio do golpe militar vários eventos marcam o pais, aproveitando esse momento o professor pode se utilizar de diversos instrumentos, workshops, palestras, exposições temporárias. A ideia fazer os alunos tomar consciência desse momento histórico, se valendo das diversas ferramentas e mídias que cercam os jovens de hoje, como filmes, músicas, tirinhas, reportagens. Porém ao se tratar de um tema delicado, o professor deve tentar selecionar bem seu conteúdo, não convindo o foque minucioso nas práticas de tortura e aprendizagem através do choque e do espanto. O foco do material didático proposto é ir além de uma aula teórica, fazendo do aluno não apenas um receptor, mas também um interlocutor da história.
 

 

Público alvo: 1º a 3º do Ensino médio
 

Tema tratado: ditadura- repressão, noções de democracia, tortura, linguagem midiática, relação passado- presente.
 

Universidade de São Paulo - Departamento de historia
Sara Caroline da Silva- nº 8073841- vespertino

 

 

 

 

 

 

 

Aula introdutória

Desenvolvimento: 1 aula com cerca de 50 minutos

Objetivo: introduzir de maneira abrangente o que foi a ditadura, não se aprofundando demais nos assunto, que serão desenvolvidos nas demais atividades, a intenção é deixar que o aluno pense bastante antes de desenvolver as atividades e não que o professor fale tudo o que deva saber sem antes refletir. Entretanto este primeira aula será inevitavelmente mais teórica, mas uma teoria que busque elementos diferenciados para a aula não cair na mesmice.

Dinâmica : pesquisa, exposição teórica, imagens.

Nessa aula o professor selecionar alguns dos temas abaixo que ele considere mais importante. O enfoque do material didático é a repressão, por isso não há necessidade de saturar os alunos com algumas informações, pois não gravarão datas e nomes de presidentes e sim as ações. Apesar do enfoque depois do I5, também deve ser citados os antecedentes da ditadura, o golpe bem como a volta da democracia no país.

 

  • Motivações ideológicas
  • Decretos polêmicos de João Goulart em março de 1964
  • Salvaguardas e a doutrina da segurança nacional
  • Golpe militar e influência estrangeira
  • Governo Castello Branco (1964-1967)
  • Governo Costa e Silva e início da repressão (1967-1969)
  • Reações e protestos (passeata dos cem mil)
  • Governo Emílio Médici (1969-1974)
  • "Milagre" econômico
  • Governo Geisel e abertura política (1974-1979)
  • Governo Figueiredo e declínio (1979-1985)
  • Colapso do regime
  • Diretas já
  • Atos Institucionais I5 e suas implicações
  • Repressão
  • Violações aos direitos humanos
  • Censura e controle social
  • Perseguição política
  • Sindicatos e greves

 

 

• Outra forma interessante é da ênfase na participação de crianças e adolescentes nesse regime, bem como a repreensão nas escolas, mobilização estudantil e limitação e vigilância do que era ensinado, mostrando aos alunos o privilegio que eles têm ao poderem aprender e se expressar livremente.

1-Peça para que os alunos pesquisem o significado de ditadura no dicionário.
Sf. Forma de governo em que todos os poderes se enfeixam nas mãos de um individuo, grupo, partido ou classe. 2. Tirania. 3 poder ou autoridade absoluta.
Dicionário Aurélio, 2003

2-Agora que formulem frases com a palavra ditadura, uma com o sentido que igual ao explicado em sala de aula e outra frase com um sentido diferente.

Ex. ditadura politica versus ditadura da magreza.

• Ou então de as frases e questione:
- se há diferença de sentidos?
- se sim, a que diferenças elas remetem?
- tem o mesmo sentido do temo ditadura que está sendo explicado em sala?

“No rastro do boicote à Bienal de 1969, que convulsionou o meio artístico, Geiger, 76, fugiu das discussões políticas que ocuparam a classe e encarou a ditadura com o registro de espirais e outros desenhos que fez na areia. "Havia uma crise no que eu acreditava", lembra. "Perdeu sentido qualquer obra que só pensasse na forma”.

Folha de São Paulo, 27/06/2009

 

“A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa entregou ontem ao presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), Martin Uhomoibai, e à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial relatório que diz existir uma "ditadura religiosa" promovida pelos neopentecostais no Brasi”l.
Folha de São Paulo, 27/06/2009

 

 

 

Ou ainda de frases com sentidos ambíguos, que podem ser comparadas também com o “as ditaduras” do artigo se jornal.
“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”
                                                                                                                                           Millôr Fernandes

“A ditadura e um estado em que todos temem alguém.”
                                                      Alberto Moravia

 

 

Sugestões para casa:

1-Realizar uma pequena entrevista com alguém mais velho e alguém relativamente mais novo, sendo que os dois devem ter passado pelo período militar.
 

Ano de nascimento,

O que pensa do período militar naquela época?
O que pensa do período militar atualmente?
Cite um momento que mais te marcou.

2-Passar alguns temas de livros infanto-juvenis, de linguagem fácil e de pouca extensão. Ficando a critério uma futura avaliação.

 

Lançado em 2008, com o objetivo de mostrar às novas gerações detalhes sobre esse período da história do Brasil, a jornalista Teresa Urban contou com desenhos de Guilherme Caldas para transformar sua história na forma de quadrinhos e tornar mais fácil a compreensão das crianças. A ideia veio quando ela quis mostrar aos netos suas experiências no movimento estudantil como uma militante de esquerda, presa política nos anos da repressão.

1968 – Ditadura Abaixo, com texto de Teresa Urban e arte de Guilherme Caldas.1968 – Ditadura Abaixo, com texto de Teresa Urban e arte de Guilherme Caldas.

 

 

 

Brasil – Ditadura Miliar – Um livro para os que nasceram bem depois…
Obra independente destinada ao público jovem, contando a história de Clarice, uma menina que cresceu durante o regime militar no Brasil. A partir de sua vida, são narrados alguns momentos marcantes desse período no nosso país.

 

 

Ditadura no ar, com textos de Raphael Fernandes e arte de Abel.
 

Criado originalmente em 2011, em formato digital, e depois publicado em versão impressa, conta a história do fotógrafo freelancer Félix Panta, que tenta a todo custo descobrir o paradeiro de sua namorada comunista Nina, presa pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, cujo objetivo era controlar e reprimir movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder) durante um protesto.

 

 

 

Subversivos, de André Diniz.
 

Ao todo, foram lançadas três edições:. Em cada volume, ilustrado por Laudo e Marco, uma história de dor e perda depois que pessoas decidiam lutar contra a imposição do governo ditatorial. A história é centrada no trio de amigos Juan, Gabriel e Lorena. Os três participam de uma companhia de teatro que enfrenta os obstáculos impostos pelas autoridades. Apesar do fantasma da ditadura, o foco está nas relações de amor e amizade entre eles.

 


Dama do Martinelli, com roteiro de Marcela Godoy e desenhos de Jefferson Costa.

Os autores misturam realidade e ficção nesta história de suspense. Perseguida pela ditadura militar no Brasil da década de 1970, uma família acaba indo morar no edifício Martinelli, no centro da cidade de São Paulo. Lá, seus integrantes descobrirão que as paredes do famoso edifício paulistano escondem muito mais do que perseguidos políticos.

 

 

 

A ditadura em imagens

Desenvolvimento: 1aula

Objetivo: através da visualização de imagens buscarem de forma criativa a participação dos alunos, aprofundando alguns temas da ditadura como a censura midiática, tortura e ufanismo.
 

Dinâmica: interpretação visual, charges, fotografias.
 

O professor deve expor essas imagens ou distribui-las aos alunos. A intenção desse exercício não é a escrita e sim que o professor pergunte e obtenha as respostas de fora interativa.
 

•Vocês conhecem algumas dessas imagens? Se sim, quais imagens?
 

•Você identifica alguém famoso? Se sim, que pessoa é essa? (por opção do professor pode ser introduzida um pouco da história pessoal da Dilma nossa presidente, e do porque de ter sido caçada e capturada.
 

•Alguma imagem te impactou ? Qual imagem?
 

•Quais são os tipos de imagens mostrados? Fotografias jornalísticas, charges, propaganda politica. Tente classificar cada imagem e depois as agrupe por temas. O professor pode depois agrupar do jeito que desejar.
 

• as charges são acompanhadas de um sentido cômico. Explique esse sentido nas imagens abaixo e também as possíveis ambiguidades.
Analisando as imagens diga em uma palavra o que elas representam ou o que um sentimento ao visualiza- las.

 

•Explique o que a 7º imagem tem a ver com a ditadura?
 

• Qual é o significado do carro na 6º imagem dentro do regime militar?
 

•Explique também os movimentos contra a ditadura, o diretas já e o movimento da comissão da verdade.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A música na ditadura.

Desenvolvimento: 1 aula

Objetivo: através da música entender a repressão e o “grito” de liberdade de um cantor, que representavam o desejo de milhares.
 

Dinâmica: leitura, interpretação e audição de musicas.
 

Numa época em que a liberdade de expressão é cerceada, nada mais criativo que expressar desejos e anseios através da música. Estas se tornam hinos e verdadeiros gritos de liberdade aos cidadãos que eram impossibilitados de se expressar. Através de letras complexas e cheias de metáforas, ou até mesmo de mensagens diretas (das quais estão listadas 4, logo abaixo) traduziam o momento histórico, fazendo do campo cultural um palco permanente de crítica e contestação.
 

•Acorda Amor, de Chico Buarque, 1974.
 

É uma musica explícita, narrando à história de alguém que é levado de casa pelos militares por ser um opositor ao regime. Em um dos trechos (“era a dura/numa muito escura viatura”) faz uma clara referência direta à ditadura militar. Mostrando também o sofrimento e a desesperança dos familiares daqueles que eram detidos, desnudando em sua letra os terrores que eram cometidos nos porões da ditadura.
 

•Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, 1973.
 

Faz alusão à oração de Jesus Cristo dirigida a Deus “Pai, afasta de mim este cálice”. Para quem lutava pela democracia, o silêncio também era uma forma de morte. O silencio representava a censura, mas também a morte de alguém torturado. Daí nasceu à ideia de Chico Buarque: explorar a sonoridade através de um inteligentíssimo jogo de palavras e o duplo sentido das palavras “cálice” e “cale-se” para criticar o regime instaurado. Além disso, faz claras referências ao regime da época em versos fortíssimos como “quero cheirar fumaça de óleo diesel”, se referindo à prática de tortura onde o preso era submetido ao processo de inalar fumaça.
 

•Pra Não Dizer que não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, 1968.
 

Hino para os cidadãos que lutavam pela abertura política. Não faz rodeios. Vai direto à crítica aos militares e retrata os desejos e anseios da geração da época. Através dela, Vandré chamava o público à revolta contra o regime ditatorial e ainda fazia fortes provocações ao exército. O refrão “Vem, vamos embora/ Que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora/ Não espera acontecer” foi considerado um verdadeiro chamado às ruas contra os ditadores.
 

•Mosca na Sopa, de Raul Seixas, 1973.
 

Através de uma metáfora, o povo e o próprio cantor são a “mosca” e a ditadura militar, “a sopa”. Desta forma, o povo é apresentado como aquele que incomoda, e que mesmo ´´quando mata um, vem outro em seu lugar”, sendo possível eliminar uma pessoa, mas não anular a luta pela liberdade e a contestação do regime.
 

•Atividades
 

1-Peça aos alunos que em casa escolham uma das musicas propostas e distribua impresso suas letras. Peça que em casa façam uma pesquisa sobre a música, seguindo o roteiro abaixo.

(Só a pesquisa deve ser feita em casa, as demais questões devem ser feitas em sala de aula.)
 

  • Pesquisa bibliográfica e discográfica
  • Autoria e data de produção
  • Contexto no qual a música foi produzida
  • Recepção no momento em que foi produzida. Foi censurada¿
  • Veiculação na época (rádio, tv, fita).

2- o que você acha que o autor quis dizer com essa letra¿ que elementos presentes na musica remetem a ditadura, cite e explique o porquê de estarem relacionados ao período militar.
 

3- agora escolha apenas uma palavra que seja impactante e que marque esse período estudado.
 

4- audição das músicas propostas e comentário do professor em sala de aula:
 

Aspectos poéticos das musicas (letra relacionada à ditadura e ou censura)
 

Aspectos musicais (sons altos e baixos- ritmo calmos e agressivos que remeteriam a melancolia- violência e outros elementos que lembram a ditadura)
 

 

Ditadura: ontem e hoje
 

Desenvolvimento: 1 a 2 aulas
 

Objetivo: através de entrevistas e depoimentos fazer os alunos interagirem. O objetivo é deixar que os alunos façam seu próprio debate, onde o professor pode intervir apenas no final.
 

Dinâmica: leitura, interpretação e discussão em grupos em sala de aula.
 

•A sala deve ser dividida em grupos de cerca de 5 alunos
• discussão de possíveis elementos remanescentes do período ditatorial na nossa sociedade atual, assim como discutir elementos da diferença entre os governos da ditadura e da democracia.
•Os grupos exporem seu ponto de vista para o restante da sala
•Comparar possíveis diferenças entre a reflexão dos grupos.

 

Hecilda Fontelles Veiga,

“Quando fui presa, minha barriga de cinco meses de gravidez já estava bem visível. Fui levada à delegacia da Polícia Federal, onde, diante da minha recusa em dar informações a respeito de meu marido, Paulo Fontelles, comecei a ouvir, sob socos e pontapés: ‘Filho dessa raça não deve nascer’. Depois, fui levada ao Pelotão de Investigação Criminal (PIC), onde houve ameaças de tortura no pau de arara e choques. Dias depois, soube que Paulo também estava lá. Sofremos a tortura dos ‘refl etores’. Eles nos mantinham acordados a noite inteira com uma luz forte no rosto. Fomos levados para o Batalhão de Polícia do Exército do Rio de Janeiro, onde, além de me colocarem na cadeira do dragão, bateram em meu rosto, pescoço, pernas, e fui submetida à ‘tortura cientifi ca’, numa sala profusamente iluminada. A pessoa que interrogava ficava num lugar mais alto, parecido com um púlpito. Da cadeira em que sentávamos saíam uns fios, que subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios. As sensações que aquilo provocava eram indescritíveis: calor, frio, asfi xia. De lá, fui levada para o Hospital do Exército e, depois, de volta à Brasília, onde fui colocada numa cela cheia de baratas. Eu estava muito fraca e não conseguia fi car nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitei-me no chão. As baratas, de todos os tamanhos, começaram a me roer. Eu só pude tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Aí, levaram-me ao hospital da Guarnição em Brasília, onde fiquei até o nascimento do Paulo. Nesse dia, para apressar as coisas, o médico, irritadíssimo, induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Foi uma experiência muito difícil, mas fiquei firme e não chorei. Depois disso, ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, semsentimentos. Todos queriam ver quem era a ‘fera’ que estava ali”.
 

Ex-militante da Ação Popular (AP), era estudante de Ciências Sociais quando foi presa, em 6 de outubro de 1971, em Brasília (DF). Hoje, vive em Belém (PA), onde é professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (UFPA).

 

 

Depois de denunciar violência da PM, Dumatu dá detalhes sobre “sessão de tortura”.

Publicado por Guilherme Junkes em 21/01/2014 às 11:11 |

Na última segunda-feira (20), Dumatu voltou a acusar a violência da PM do Mato Grosso do Sul e apresentou um depoimento em vídeo com detalhes do ocorrido no último dia 26.
 

Como havíamos informado no último dia 31, o rapper recusou parar para averiguação policial por estar com o carona sem capacete e acabou sendo perseguido.
 

Diferente do informado previamente, não houve queda durante a perseguição; Dumatu teria, na verdade, parado após 20 minutos para que o jovem que o acompanhava descesse. Ele afirma ainda que os perseguidores teriam disparado duas vezes em sua direção.
 

O rapper teria escapado e voltado para casa. Ao sair para tentar encontrar seu colega, que, portelefone, havia dito que estava perdido, foi capturado pela polícia e levado para um terreno afastado; não antes de, supostamente, ter sido espancado e atirado para dentro da viatura.
 

A ideia de que Dumatu teria sido confundido com algum criminoso mais perigoso e, por isso, despertado a ação reforçada da polícia, parece ter sido descartada; ele afirma que os policiais sabiam quem ele era.
 

“Você que é o Dumatu que foi tocar com o Facção lá em São Paulo? Você é bandido!”, conta o rapper interpretando a fala dos policiais; ele ainda relembrou outras falas que seguiram no mesmo sentido, com os membros da Rotam (Ronda Tático Motorizada) afirmando que RAP é coisa de bandido.
 

Dumatu assume seu erro em ter fugido e até em ter chamado os policiais de “vagabundos” quando se referiu a eles pelo celular em contato com seu colega. Entretanto, não existe precedente algum que justifique o depoimento que ele dá em seguida, detalhando a tortura sofrida no terreno afastado:

 

“Nesse matagal, quando eles mandaram eu tirar a roupa, eu desci da viatura, tirei a roupa e eles pegaram uma enxada; eles colocaram minhas pernas por cima da enxada e as duas mãos eles mandaram eu passar por dentro aqui ó [o rapper revive a cena explicando a posição] e eles amarraram, nessa posição aqui que eles me amarraram; nessa posição. Dezesseis policiais contra um civil desarmado. Eles me amarraram. Os policiais seguraram de um lado da enxada, do cabo, e outros policiais seguraram do outro; eles me viraram de cabeça pra baixo… pelado. Eles me davam socos, pontapés, com o cassetete eles batiam no meu pé, na minha canela e na minha cabeça. [...] Das onze horas da noite até as quatro da manhã, eles me torturaram. Me bateram por mais de quatro, cinco horas; eu não tinha relógio para contar as horas [o relógio, retirado pelos policiais, ainda não foi encontrado pelo rapper]. Eles amarram um saco preto no meu rosto e eles trouxeram galões de água; cerca de cinco litros cada galão, vários galões. Eles me viraram de cabeça pra baixo amarrado; amarram um saco preto e cada policial militar segurou de um lado em um colchão com mola de ferro solta, que tinha no lugar porque o lugar é propício pra tortura. Eles despejaram litros e mais litros de água na minha boca e no meu nariz. Eles seguraram minha boca e derramaram no meu nariz. [...] Eles pegaram uma garrafa cheia de pimenta e eles encheram minha boca de pimenta e meu nariz de pimenta. Eles me davam porrada toda hora no meu abdômen, na minha barriga. Eu vomitei mais de quatro vezes; eu desmaiei várias vezes. Eu pensei que ia morrer”.
 

Visivelmente alterado emocionalmente por reviver os momentos de desespero, Dumatu ainda relatou que, no dia seguinte, foi acusado de ser traficante e afirmou que os policiais forjaram as evidências.
 

Preso por mais de uma semana, o rapper foi solto porque um defensor público, mesmo na época de recesso, compadeceu-se da sua causa e pediu a revogação da prisão preventiva; por não existir requisitos legais para ele estar preso, o juiz o liberou.
 

“Eu não sou traficante, eu vou provar que eu não sou traficante. E eu vou provar que eles mexeram com o cara errado; que eu fui torturado”, finalizou ele.

 

 

Helvécio Ratton

“A ditadura se utilizou da experiência de torturar os presos comuns na delegacia e trouxe isso para os presos políticos. Sempre houve no Brasil uma politica de maltrato ao preso, como se você pudesse arrancar informações de uma pessoa a qualquer custo “nós temos o direito de fazer mal a essa pessoa na medida em que a informação que a gente vai arrancar dela vai fazer bem”. Agora quem julga isso é a pessoa que está praticando a tortura. Na verdade não há nada que justifique que você possa se apropriar do corpo de uma pessoa e infringir algum mal a ela para extrair uma informação. Não há nada que justifique isso. Mas essa pratica é utilizada há tempos no brasil e na época da ditadura era praticada contra um publico específicos – os inimigos do estado (estudantes, militantes, políticos, intelectuais, etc.) - e hoje são outros os torturados”.
 

Trecho retirado da entrevista com O cineasta sobre seu último longa-metragem, “Batismo de Sangue”.
 

•Pontos levantados antes do debate dos alunos:
 

Peça que eles tentem definir o tipo de governo Militar em oposição ao democrático e anote as comparações na lousa.
Inicie uma discussão sobre o exercício dos direitos durante este regime, proponha questões como: o que mudou? Para quem mudou? Como mudou?

 

•Pontos levantados para o debate:
 

Quais depoimentos são atuais? e quais são da época da ditadura?
 

Existe alguma semelhança entre esses depoimentos? Se sim, identifique essa semelhança.
 

Você acha que é verídico esses depoimentos ou há certo exagero na dimensão da tortura? Você acha que ele existe ainda nos dias de hoje? Qual é a diferença então entre a praticada no regime ditatorial e a de agora? Quais são as vítimas?
 

Você já viu alguma situação que lembre as situações narradas pelo professor em sala de aula?
 

Vimos algumas formas de contestação no período militar. Hoje também existem formas de contestação. Que formas são essas? Elas são parecidas?
 

 

 

Avaliação

Peça que eles criem uma história ficcional imaginando que vivam na época da ditadura. Narrando o cotidiano de uma família, onde o aluno pode fazer parte ou não dessa historia. O texto deve ter no máximo 30 linhas e conter pelo menos 3 elementos discutidos em sala de aula. Ex. censura, protestos, etc.
 

 

Referencia bibliografia

Sites:

http://arquivosdaditadura.com.br/
http://www.documentosrevelados.com.br/
http://www.desaparecidospoliticos.org.br/
http://www.armazemmemoria.com.br/
http://www.memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br/
http://bnmdigital.mpf.mp.br/
www.arquivonacional.gov.br
http://www.arquivoestado.sp.gov.br/

 

 

Livros:

CALDEVILLA, Vinicius; LOCONTE, Wanderley A Ditadura no Brasil - Coleção Por Dentro da História Editora: Saraiva.
COSTELA, A. O controle da imprensa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1970.
Couto, Ronaldo Costa História Indiscreta da Ditadura e da Abertura - Brasil: 1964 – 1985. Editora: Recorde
IMPRENSA OFICIAL. Dossiê Ditadura - Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985 Editora: Imprensa Oficial SP
MARCONI, P. A censura política na imprensa brasileira (1968-1978). São Paulo: Global, 1980.
REZENDE, Maria José de A Ditadura Militar no Brasil - Repressão e Pretensão de Legitimidade 1964-1984. Editora: Eduel
S., Frederico de. Fatos da Ditadura Militar no Brasil - Coleção Temas Brasileiros. Editora: Martins Editora
SILVA, Marcos Brasil - 1964 / 1968 - A Ditadura Já Era Ditadura Editora: LCTE
SIMÕES, I. Roteiro da intolerância. São Paulo: Ed. Senac; Terceiro Nome, 1998.
VALE, Maria Ribeiro do. 1968 : O Diálogo É a Violência - Movimento Estudantil e Ditadura Militar no Brasil Editora: Unicamp

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