O USO DE DOCUMENTOS NAS QUESTÕES DO VESTIBULAR Seqüência Didática

 

O USO DE DOCUMENTOS NAS QUESTÕES DO VESTIBULAR

Seqüência Didática

 

 

 

José Francisco Guelfi Campos

 

Ensino de História: teoria e prática

Prof.ª Dr.ª Antonia Terra de C. Fernandes

Apresentação:

 

     Documentos de tipologia diversa atualmente são comuns em livros didáticos e também aparecem nas questões dos principais vestibulares do país. Todavia, há a necessidade de se pensar acerca da finalidade da inserção destes recursos nestes materiais.

     Para esta atividade, escolhemos o vestibular e os documentos constantes nas provas da Fuvest como base de nosso trabalho. Qual a finalidade da inserção de excertos de documentos históricos nas provas? Como ler e interpretar estes documentos? Como trabalhar os documentos de diferentes naturezas (textos, imagens...)?

     O que pretendemos é propor uma alternativa possível para trabalhar estas questões dentro da sala de aula, com um conjunto de alunos. Pretendemos mostrar que estes documentos representam não apenas uma ilustração e tampouco servem apenas como base ou apoio para a resolução das questões dos exames de vestibular.

     Trabalharemos aqui com duas naturezas documentais distintas: excertos de textos escritos e textos imagéticos. Ressaltamos que os caminhos propostos não constituem um padrão de trabalho, mas sim uma alternativa possível para abordagem e reflexão acerca da função dos documentos e das finalidades de cada questão do vestibular, passível de modificações e enriquecimentos a partir de sua aplicação.

     Esperamos que o professor ou aplicador desta seqüência didática possa perceber que a abordagem destes documentos permite, ainda, a expansão das discussões para além do conteúdo das questões, mobilizando e construindo muitos outros novos saberes e conhecimentos junto aos alunos.

 

Atividades Propostas:

 

  • 1ª Atividade: fonte textual

 

1. DOCUMENTO: PRIMEIRO CONTATO...

 

“A autoridade do príncipe é limitada pelas leis da natureza e do

Estado... O príncipe não pode, portanto, dispor de seu poder e de

seus súditos sem o consentimento da nação e independentemente

da escolha estabelecida no contrato de submissão...”

(Diderot, artigo “Autoridade política”, Enciclopédia, 1751.)

 

a) Ler o documento para os alunos.

 

2. EXPLORANDO O DOCUMENTTO...LEVANTANDO HIPÓTESES...

 

A partir da leitura, o professor ou aplicador da atividade deve introduzir as seguintes questões, motivando os alunos a levantarem hipóteses, sem a preocupação de obter respostas exatas.

 

  •  O que significa dizer “o príncipe”?
  •  Este “príncipe” tem poderes?
  •  O que limita a sua autoridade?
  •  Qual a relação entre o príncipe e seus súditos?
  •  Ao longo da História, é possível identificar uma relação semelhante?
  •  O “Príncipe” pode agir de acordo com seus interesses pessoais?
  •  Quem foi Diderot?
  •  O que foi a Enciclopédia?
  •  Onde este documento foi escrito? Em que século? O que você se lembra de ter acontecido neste lugar alguns anos depois de Diderot ter escrito o artigo “Autoridade Política”?

 

Para melhor organizar as idéias que surgem do debate engendrado pelas questões acima, sugerimos o uso de uma tabela como a que segue. Ela deverá ser preenchida individualmente por cada aluno.

 

a) o preenchimento das colunas 1 e 2 deve ser feito durante o debate.

b) as colunas 3 e 4 deverão ser preenchidas após o debate. Sugere-se que esta atividade seja realizada na biblioteca da escola ou que o professor disponibilize na sala de aula algumas ferramentas de pesquisa além do próprio livro didático dos alunos (livros, enciclopédias, textos adaptados...).

(Este é um momento interessante para que o professor demonstre aos alunos que o livro didático também pode ser utilizado como uma ferramenta de pesquisa, dentro e fora do contexto da sala de aula). (Bittencourt, 2008: 294 – 324).

 

O que eu já sei? O que eu preciso descobrir? Onde eu procurei? O que eu descobri?

 

(Neste espaço os alunos marcam dados e informações que dispõem para responder às questões propostas)

 

(Neste espaço os alunos marcam dados e informações que necessitam, mas ainda não dispõem, para responder às questões propostas)

 

(Os alunos marcam as fontes que utilizaram para a pesquisa das informações que precisavam descobrir)

 

(Nesta coluna os alunos anotam os resultados da pesquisa para suas dúvidas relatadas na segunda coluna desta tabela)

 

Acreditamos que o preenchimento individual desta tabela contribui para a percepção, por parte do aluno, do trajeto de construção e transformação do conhecimento, permitindo que ele perceba a si mesmo como agente desta construção e que se dê conta das ferramentas que atuam como mediadoras deste processo.

 

3. O DOCUMENTO NO VESTIBULAR

 

Nesta etapa, veremos como o documento está inserido na questão do vestibular.

 

(Fuvest, 2004)

“A autoridade do príncipe é limitada pelas leis da natureza e do Estado... O príncipe não pode, portanto, dispor de seu poder e de seus súditos sem o consentimento da nação e independentemente da escolha estabelecida no contrato de submissão...”

(Diderot, artigo “Autoridade política”, Enciclopédia, 1751)

 

Tendo por base esse texto da Enciclopédia, é correto afirmar que o autor:

 

a) pressupunha, como os demais iluministas, que os direitos de cidadania política eram iguais para todos os grupos sociais e étnicos.

b) propunha o princípio político que estabelecia leis para legitimar o poder republicano e democrático.

c) apoiava uma política para o Estado, submetida aos princípios da escolha dos dirigentes da nação, por meio do voto universal.

d) acreditava, como os demais filósofos do Iluminismo, na revolução armada como único meio para a deposição de monarcas absolutistas.

e) defendia, como a maioria dos filósofos iluministas, os princípios do liberalismo político que se contrapunham aos regimes absolutistas.

 

(RESPOSTA: E)

 

a)    pedir para que os alunos leiam individualmente o documento.

b)    retomar as questões propostas na segunda etapa de trabalho.

c)    solicitar que os alunos respondam individualmente a questão.

d)    coletar hipóteses acerca da alternativa que os alunos julgam ser a correta, pedindo para que cada aluno que levantar uma hipótese a justifique com base no debate e na pesquisa individual realizada, deixando claro que não basta apenas “chutar” uma alternativa.

e)    assinalar a resposta correta.

 

 

4. REFLETINDO SOBRE A QUESTÃO...

 

Esta etapa serve a dois objetivos: desconstruir o enunciado da resposta correta e induzir a reflexão acerca da utilidade do debate e da pesquisa para a resolução da questão.

 

a) ler o enunciado da resposta correta para os alunos.

b) levantar as seguintes questões:

 

  •   de que forma chegamos a esta conclusão?
  •   quais dos conhecimentos que já possuímos (coluna 1 da tabela) foram úteis para respondermos à questão?
  •   qual a importância das dúvidas que levantamos (coluna 2 da tabela) e as descobertas que fizemos (coluna 4)?
  •   que ferramentas (fontes) de pesquisa utilizamos (coluna 3)? Quais as limitações de cada uma? Que outras fontes poderíamos usar?

 

c) pedir para que os alunos produzam um “roteiro” (individualmente ou em grupo) para a leitura do documento, baseado nas experiências que vivenciaram ao longo da aplicação desta atividade.

 

Com esta etapa pretendemos que os alunos possam recordar os passos que seguiram para ler e interpretar o documento antes de responder à questão. O “roteiro” que propomos que seja produzido deve conter a descrição de cada etapa de trabalho, incluindo também a descrição desta última etapa de reflexão.

Acreditamos que desta forma os alunos poderão apreender a profundidade de todo o processo de leitura e interpretação de um texto, além de perceberem as etapas envolvidas no exercício da aprendizagem e o papel que eles mesmos desempenham neste processo.

 

 

  • 2ª Atividade: fonte imagética

 

1. DOCUMENTO: PRIMEIRO CONTATO...

 

 

Tarsila do Amaral, A Negra, 1923.

Óleo sobre tela. Acervo MAC – USP.

 

 

a) projetar a imagem em um telão

b) pedir para que os alunos observem atentamente a imagem

 

 

 

2. EXPLORANDO O DOCUMENTO... LEVANTANDO HIPÓTES...

 

O professor ou aplicador da atividade deve introduzir as seguintes questões:

 

  •   Quem foi Tarsila do Amaral?
  •   Que outras obras dela vocês conhecem?
  •   Em qual movimento artístico ela tomou parte?
  •   Quais eram as propostas dos artistas modernistas?

 

a) pedir que observem novamente a imagem:

 

  •   Quais as características da “negra”?
  •   Esta “negra” se parece com uma pessoa real?
  •   Por que a artista a representou desta forma?
  •   Por que a “negra” foi pintada nua?
  •   O que será que Tarsila queria mostrar com esta pintura?

 

b) pedir para que os alunos observem atentamente a coletânea de imagens no material didático.

 

(Imagens que compõem a coletânea: Tarsila do Amaral. A Negra, 1923; Tarsila do Amaral, São Paulo, 1924; Lasar Segall, Paisagem Brasileira, 1925; Lasar Segall, Morro Vermelho, 1926; Hugo Adami, Fábrica, 1930; Di Cavalcanti, Paisagem de Subúrbio, 1930; Antonio Parreiras, Uma Cena do Meu Passado, 1932; Tarsila do Amaral, Operários, 1933.)

 

 

  •   Quando estas pinturas foram feitas?
  •   Qual o tema predominante nestas imagens?

 

c) compare o quadro Uma Cena do meu Passado, de Antonio Parreiras (1932) com as demais figuras.

 

  •   Quais as diferenças entre a paisagem pintada por Parreiras e as que vemos nas outras obras?
  •   O que estava acontecendo com a economia e na sociedade paulistas neste período?
  •   De que forma podemos associar as transformações sociais e econômicas ao projeto dos Modernistas?

 

Para organizar as idéias resultantes do debate, pode-se lançar mão da tabela utilizada na atividade anterior.

 

 

3. O DOCUMENTO NO VESTIBULAR

 

(Fuvest 2005)

Sobre este quadro, A Negra, pintado por Tarsila do Amaral em 1923, é possível afirmar que:

 

a) se constituiu numa manifestação isolada, não podendo ser associada a outras mudanças da cultura brasileira do período.

b) representou a subordinação, sem criatividade, dos padrões da pintura brasileira às imposições das correntes internacionais.

c) estava relacionado a uma visão mais ampla de nacionalização das formas de expressão cultural, inclusive da pintura.

d) foi vaiado, na sua primeira exposição, porque a artista pintou uma mulher negra nua, em desacordo com os padrões morais da época.

e) demonstrou o isolamento do Brasil em relação à produção artística da América Latina, que não passara

por inovações.

 

(RESPOSTA: C)

 

a)    pedir para que os alunos observem individualmente as imagens.

b)    retomar as questões e as hipóteses levantadas no debate.

c)    solicitar que os alunos respondam individualmente a questão.

d)    coletar hipóteses acerca da alternativa que os alunos julgam ser a correta, pedindo para que cada aluno que levantar uma hipótese a justifique com base no debate e na pesquisa individual realizada, deixando claro que não basta apenas “chutar” uma alternativa.

e)    assinalar a resposta correta.

 

 

 

 

4. REFLETINDO SOBRE A QUESTÃO...

 

Procuraremos, nesta etapa, desconstruir o enunciado da resposta correta e induzir a reflexão acerca da utilidade do debate e da pesquisa para a resolução da questão.

 

a) ler o enunciado da resposta correta para os alunos.

b) levantar as seguintes questões:

 

  •   de que forma chegamos a esta conclusão?
  •   quais dos conhecimentos que já possuímos (coluna 1 da tabela) foram úteis para respondermos à questão?
  •   qual a importância das dúvidas que levantamos (coluna 2 da tabela) e as descobertas que fizemos (coluna 4)?
  •   que ferramentas (fontes) de pesquisa utilizamos (coluna 3)? Quais as limitações de cada uma? Que outras fontes poderíamos usar?
  •   qual foi a importância da coletânea de outras imagens para o nosso esforço de comparação?
  •   será que a organização cronológica das imagens da coletânea foi relevante para o nosso trabalho? Há outras formas de organizá-las? E de que forma uma nova organização das imagens poderia interferir em nosso trabalho?    

 

c) pedir para que os alunos produzam um “roteiro” (individualmente ou em grupo) para a leitura do documento imagético, baseado nas experiências que vivenciaram ao longo da aplicação desta atividade. As tarefas para a produção deste “roteiro” podem ser divididas entre pequenos grupos formados pelos alunos. A idéia é que seja montado um painel para exposição, contendo a descrição das etapas que os estudantes vivenciaram, desde o primeiro contato com o documento até a última etapa, ou seja, a reflexão sobre todo o processo.

 

 

 

 

Estratégias de Avaliação:

 

Não acreditamos que o sucesso das duas seqüências didáticas que sugerimos possa ser avaliado simplesmente pelo fato de os alunos conseguirem responder corretamente à questão do vestibular. Esta é, evidentemente, uma preocupação do docente e nossa também, mas nossos objetivos vão além disso.

Ao longo dos caminhos propostos, procuramos organizar as atividades em etapas que combinassem a discussão e o trabalho realizados em grupo com o trabalho individual. Pretendemos, desta forma, fazer com que o aluno perceba que ao mesmo tempo em que ocupa um lugar de protagonista na produção e transformação do conhecimento, a autonomia intelectual não pode ser alcançada sem a participação do grupo e sem a mediação de outros elementos (as ferramentas de pesquisa).

É por isso que propomos que, depois de respondida a questão do vestibular, os alunos promovam uma reflexão sobre todo o processo. A elaboração do “roteiro” de leitura dos documentos abordados funciona como uma síntese das experiências vivenciadas, permitindo tal reflexão e a avaliação, por parte do professor, dos sucessos e dos pontos falhos da aplicação da atividade, possibilitando seu enriquecimento em outras oportunidades.

 

 

Bibliografia Sugerida para o Professor / Aplicador da Atividade:

 

BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2008. (“Análises de documentos”, pp. 328 – 335; “Imagens no Ensino de História”, pp. 360 – 377).

 

CHARLOT, Bernard. Da Relação com o Saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.

 

ZABALLA, Antoni. As seqüências didáticas e as seqüências de conteúdo. In: A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998, p. 53 – 87.

 

 

 

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