O avesso da Metrópole: Espacialidade e resistência das classes populares na Várzea do Carmo

Aluno (a): Maíra Carvalho de Moraes
Docente responsável: Antônia Terra

Disciplina USP: Uma História para a cidade de São Paulo: Desafios pedagógicos
 

 

 

     Objetivo

 

     O presente projeto didático pretende oferecer aos docentes uma nova possibilidade para o ensino de História de São Paulo. Apesar do grande número de trabalhos e pesquisas sobre a transformação espacial, econômica, política e social da cidade, infelizmente, no ambiente escolar, são pouco divulgadas as produções acadêmicas que estudam as classes populares. De maneira geral, livros didáticos promovem uma história de São Paulo, de fins do século XIX e início do XX, baseada na transformação da cidade provinciana em metrópole através da ação do capital. Focando apenas na ação da elite cafeeira. Nesse espaço de tempo ocorrem as remodelações do espaço físico da cidade a fim de que a cidade ingresse no eixo das cidades modernas e civilizadas, tendo como modelo as cidades européias como Paris, por exemplo.

     Posto isso, esse trabalho ambiciona promover um novo olhar sobre esse importante período da história. Fundamental para a industrialização nacional e para a economia, que se abria totalmente para o capitalismo internacional. As classes populares, sua sociabilidade, sua espacialidade e resistência frente às pressões da elite e do Capital na região da Várzea do Carmo são o objeto de estudo que possibilitará ao docente oferecer um novo tipo de material didático. Desconstruindo a história oficial, que observa as transformações de São Paulo de forma verticalizada, e que atribuem a essa cidade o cunho de cosmopolita e moderna. No entanto, verificaremos o avesso da metrópole, sua luta de classes, os eixos de sobrevivência dos excluídos, imigrantes, nacionais pobres e negros recém saídos da escravidão. A ação transformadora desses sujeitos no espaço da cidade, sua dialética com a nova conjuntura e suas medidas de sobrevivência diante da ação opressora do Capital.

De maneira geral, esse projeto utiliza um tema comum aos temas escolares, o tema da industrialização paulista, porém apresentado por um novo viés. Através do impacto da modernização da cidade, da dinamização da economia, das remodelações do espaço público, do ideário das elites que almejam uma civilização européia, nas classes populares da Várzea do Carmo. Grosso modo, apresentar a história da modernização pela luta de classes. Indicamos as seguintes atividades para educandos do Ensino Médio, pois elas abarcam tanto análise iconográfica e produção de texto.

 

Projeto Didático:

 

Aula 1 – exposição em classe “A dinâmica do Capital internacional e sua ação na cidade de São Paulo: Industrialização e formação da burguesia”

 

Sugestão de atividade: Aula expositiva

 

Texto de apoio

 

     Para a primeira aula sugerimos uma exposição sobre a influência do capital internacional e nacional na industrialização na cidade e a conseqüente formação da burguesia. Para que o educando possa começar a compreender os motivos das transformações sociais, políticas e espaciais em São Paulo.

     A Industrialização e a formação da burguesia e do proletariado paulistas guardam grandes diferenças da trajetória do processo de industrialização europeu. Principalmente devido à longa duração das relações de produção baseadas no trabalho escravo e no latifúndio, que caracterizavam as elites paulistas cafeeiras. Contudo, o processo de industrialização paulista não foi resultante da simples vontade dos barões do café, mas sim da conjuntura internacional da expansão imperialista das economias européias, sobretudo, neste caso, da economia-mundo de Londres. Segundo Francisco Foot Hardman e Victor Leonardi, a produção de mais-valia dessa economia não poderia mais ser aplicada nos países industrializados. Para gerar mais lucro a exportação de capitais se concentrou em países em proto-industrialização, caso do Brasil, que receberiam investimentos através da implantação de empresas para exploração da mãode- obra e de melhores percentuais de lucro. A política das burguesias imperialistas é dominar e submeter economias periféricas, impondo novas relações de produção baseadas no capitalista monopolista.1 O capitalismo imposto pela praça britânica não é capitalismo financeiro, ou seja, capital- dinheiro, mas o capital bancário e industrial simultaneamente, cujo desenvolvimento deriva da expansão do capitalismo industrial. A industrialização paulista sofreu forte influência da expansão capitalista inglesa resultando na chegada de indústrias com capital britânico. Dentre elas, a canadense Light & Power responsável pelas empresas de gás, água, esgoto, energia elétrica, transportes urbanos e telefone. Lembramos que a Light & Power não tinha operações

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1 Hardmann, Francisco Foot e Leonardi, Victor. “História da Indústria e do Trabalho no Brasil”. Ed Àtica, São Paulo, 1991.pg 59

 

apenas em São Paulo, mas também na Capital federal, à época, o Rio de Janeiro. A São Paulo Railway, responsável pela ferrovia (Santos- Jundiaí), por exemplo, foi outra grande empresa britânica a monopolizar os transportes na cidade.2

     A fusão da expansão do capital financeiro inglês com o capital nacional produzido pelas fazendas cafeeiras gerou o processo de industrialização paulista.

     A recém- nascida burguesia brasileira, responsável pelas primeiras indústrias, ficaria espremida entre os proprietários rurais e o imperialismo britânico. Contudo, ao contrário do que ocorreu na Europa, o campo não era uma antítese da modernização. Mas o seu alimentador. Burguesia e proprietários rurais caminhavam em consonância em seu projeto político e econômico. Porém, subordinado e dependente ao imperialismo econômico britânico.

     Desse modo, a cidade de São Paulo de fins do Século XIX e início do XX pretendia sobrepor as velhas relações de produção, implementar a modernização da cidade em função da indústria e modernizar-se ao modo e semelhança das cidades européias.

     O espaço urbano surge como uma das condições favoráveis para a formação e desenvolvimento do capitalismo industrial. 3Pois, oferece com a aglomeração das populações um amplo mercado consumidor e um exército de reserva. Necessário para baratear a mão-de-obra e aumentar a mais-valia das indústrias.

     São Paulo construía sua industrialização com as forças imperialistas britânicas, o capital cafeeiro e burguês, almejando a modernização completa. Porém esse desejo de modernização não se restringiu à economia, mas também ao espaço público, que deveria servir para a livre – circulação do capital. A região central, ao invés de ser um espaço de sociabilidade deveria ser palco para a ação do Capital. Por isso, as elites ansiando por uma modernização econômica e social procuraram apagar quaisquer resquícios do passado arcaico. Baseado na escravidão e na dependência econômica. Portanto, transformar o espaço da cidade, torná-lo semelhante ao das cidades européias ___________________________________

2 Hardmann, Francisco Foot e Leonardi, Victor. “História da Indústria e do Trabalho no Brasil”. Ed Àtica, São Paulo, 1991. Pg 61

3 Hardmann, Francisco Foot e Leonardi, Victor. “História da Indústria e do Trabalho no Brasil”. Ed Àtica, São Paulo, 1991.pg 121

 

constituiu-se uma obsessão por parte das classes hegemônicas. Delimitar, expurgar os territórios das classes populares era a condição necessária para a modernização.

     O docente poderá oferecer essa explanação para iniciar as atividades práticas de análise iconografia. È importante oferecer uma base teórica ao educando para que ele possa refletir e emitir suas críticas ao conteúdo.

 

Aula 2: Mutações do Espaço – São Paulo na dinâmica do Capital- A Várzea do Carmo

 

Sugestão de texto de apoio

 

     A Várzea do Carmo está situada no que atualmente chamamos de Parque Dom Pedro II. Seu espaço compreende a Av. Rangel Pestana, sua descida do espigão da Sé, até meados da Rua do Gasômetro e Largo do Brás ( atual estação de trem). Essa região era constantemente alagada pelas águas do rio Tamanduateí. Em diversos documentos é possível verificar que essa região juntamente com o Sul da Sé e a região do Triângulo sempre foram um refúgio das populações pobres da cidade de São Paulo. Principalmente após as remodelações da região central, que expulsaram de cortiços e casa simples todas as classes populares. O Estado fez intenso uso dos Códigos de Posturas, das reformas das leis de zoneamento para criar uma política higienista verticalizada. Ou seja, impondo através de leis a expulsão dessas populações com a justificativa de que essas habitações eram insalubres. O uso de termos científicos e médicos para determinar essas regiões eram comuns. Washington Luís cunhou a Várzea do Carmo como “uma vasta superfície chagosa e mal cicatrizada...”. A obsessão pelo controle do espaço público é uma constante nos documentos. Cesário Ramalho da Lima no Relatório apresentado à Câmara Municipal de São Paulo em 1893 solicita uma comissão encarregada para investigar cortiços, e aconselha a sua demolição para a construção de casas de vila, espaçosas e higiênicas. A preocupação com a higiene e com a saúde pública é uma das justificativas para a perseguição das populações pobres e suas moradias populares.4

     È interessante notar que os alunos poderão compreender a mentalidade das elites e do Estado paulista através da reflexão do registro fotográfico. È possível inferir, como

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4 Celestina, Maria. E Torres, Teixeira Mendes. “ O bairro do Brás”. Série história dos bairros de São Paulo A rquivo público.pg 170.

 

o tempo da cidade foi transformado, acelerando-se, devido ao trabalho industrial e a dinamização do sistema de transportes. O ideal de modernização, para se concretizar, almejava a perseguição aos bairros em que habitações pobres são majoritárias.

     A Várzea do Carmo passou a ser intensamente combatida e foram apresentados planos de reurbanização. O educador deve explorar essa região como uma localidade em que os populares conseguiam efetivamente a sua sobrevivência. E que apesar do início da industrialização, negros e pardos, não conseguiam colocação facilmente. Após o inchaço da cidade, com a fuga de imigrantes das fazendas cafeeiras, essa situação tornou-se mais problemática. A exclusão social de negros e mulatos, e a falta de empregos na indústria obrigaram imigrantes e nacionais pobres a sobreviverem de pequenos expedientes.

     A documentação iconográfica proporcionará ao educando a perceber as transformações físicas da cidade. A voracidade das elites em controlar o espaço público e conseqüentemente controlar as classes populares e afastá-los da região central direcionada ao comércio.

     Sugestão de atividade:

     As fotografias poderão ser distribuídas para pequenos grupos em cartões. Cada grupo deverá dissertar sobre a imagem. E deverão perceber as transformações espaciais nessa região. O educador explicará, com o apoio do texto acima, os motivos dessas transformações. Como a ação do capital influenciou o ideal de modernização das elites e o controle do espaço público. E poderão discutir o impacto dessas transformações espaciais no cotidiano dessas populações. O professor poderá ouvir os educandos contarem memórias de seu bairro. Sobre as mudanças espaciais que mudaram sua relação com o espaço. Por exemplo, a primeira foto oferece uma análise rica das condições de sociabilidade desse bairro. Em 1862 Militão registrava Casas, iluminação pública e um quiosque.Esses quiosques eram usados para a venda de comidas, bebidas e bilhetes de loteria. O educador poderá argumentar sobre as condições de sociabilidade da região, que à época era apenas residencial.

     Em 1903 Gaensly já testemunhava a ação do Capitalismo internacional, através da formação da ferrovia. Atualmente o espaço da estação de trem aumentou e muito integrando os trabalhadores do Brás a outras regiões da cidade. A aula apresentará uma segunda parcela de fotografias relacionadas à Várzea do Carmo. Localidade em que é possível verificar mais atentamente as transformações do espaço público. A primeira foto (4a) da Várzea do Carmo, de Aurélio Becherini, mostra o alagamento total da região. A segunda foto (4b) a região está plenamente urbanizada.

     *Nos anexos serão apresentadas alternativas para essa atividade. No caso, os cartões poderão conter fotos do Rio Tamanduateí. È visível na discussão das fotos a ação do Capital na transformação dos espaços.

maria carvalho

maria carvalho2Foto 2 - Largo do Brás (26/08/1903) – fotografia Gaensly & Indemann

maria carvalho3Foto 3 -Largo do Brás- estação Brás (2010) fotografia – Maíra Moraes

 

Transformação espacial da Várzea do Carmo

maria carvalho4Foto 4a - Várzea do Carmo – 1918 Aurélio Becherini

maria carvalho5Foto 4b - Parque Dom Pedro II – estação de metrô Pedro II – (2010) Maíra Moraes

 

 

Aula 3: Trabalhadores da Cidade – resistência e sobrevivência de Negros, mulatos, brancos e imigrantes pobres.

 

Sugestão de texto de apoio

 

      A cidade foi um espaço privilegiado para a camuflagem de escravos fugidos do trabalho forçado das fazendas. Na cidade, antes da abolição, os chamados escravos de ganho e os escravos das municipalidades transitavam ativamente pelas ruas. Se o corpo estava cativo, a rua oferecia liberdade, ainda que restrita, e promovia socialização. Com a abolição e a chegada dos imigrantes, as áreas populares da cidade sofreram um intenso inchaço. A intensa estigmatização por parte das elites marginalizou, sobretudo nos espaços que eram ocupados por negros, mulatos, pardos e imigrantes. As constantes remodelações da cidade fizeram surgir um padrão espacial ideal, que culminou com a segregação de bairros populares e suas populações. No ideário das classes hegemônicas, os negros representavam o arcaísmo e as velhas relações de produção. Os imigrantes recém-chegados seriam o elemento civilizador e branqueador da população. Contudo, grande parte dos imigrantes viveu em condições paupérrimas de vida, em trabalho semiescravo nas fazendas e empreenderam fuga para a cidade de São Paulo. Na cidade ocuparam os cortiços e bairros pobres, desenvolvendo novas sociabilidades.

     A Várzea do Carmo e o Brás não eram apenas locais de presença de proletários da indústria. Trabalhadores pobres que viviam de pequenos expedientes eram extremamente comuns. Na Várzea, especificamente, algumas fotos mostram lavadeiras negras carregando seus cestos de roupa e estendo-as em varais ou na relva. Muitas dessas lavadeiras trabalhavam para os senhores burgueses dos Campos Elíseos. Ainda que, a escravidão tenha acabado os laços de servidão, muitas trabalhadoras domésticas continuaram trabalhando para algumas famílias.

     Outros expedientes como varredores de rua, quitandeiros, vendedores de ervas, limpadores de trilhos eram comuns entre as populações negras. Imigrantes também trabalhavam na Várzea do Carmo como vendedores de quitutes. Em quiosques da Rua Rangel Pestana chamados “freges-moscas”, portugueses e italianos vendiam fígado, sardinha, bacalhau, bolinhos fritos na hora, pizzas e sanduíches5.

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5 Celestina, Maria. E Torres, Teixeira Mendes. “ O bairro do Brás”. Série história dos bairros de São Paulo A rquivo público.pg 187.

 

     O mercado de rua da Várzea era importante fator de distribuição de víveres para as populações pobres. A produção desse mercado era trazida por habitantes das áreas periféricas da cidade como a Penha. Os “caipiras” chegavam com seus burrinhos e ofereciam seus produtos de porta em porta. Juntamente com os “caipiras” estavam os lenhadores, geralmente negros, e os carregadores do mercado.6

     Através da iconografia é possível que o educando apreenda as formas de sobrevivência dessas populações. E que de fato não são tão diferentes dos chamados camelôs ou mesmo da figura do feirante. A intenção desse trabalho é desconstruir a idéia de negros e mulatos eram inaptos ao trabalho assalariado. Eles trabalhavam e muito para conseguirem a sua sobrevivência. Outro fator importante é que os imigrantes não foram totalmente absorvidos pelo trabalho industrial. Muitos montaram seus pequenos negócios, como os negros, vendendo quitutes e verduras nas ruas. A rua não era apenas o espaço de socialização, mas o espaço de sobrevivência das classes pobres. Por isso, o combate á presença de populares, ao expediente de vendas foi tão intenso. O Estado e as elites desejavam construir uma cidade higienizada, sem a presença de pobres e negros.

 

Sugestão de atividade:

 

     As fotografias de Vincenzo Pastore são uma das mais raras demonstrações da riqueza do cotidiano das classes populares. O educador poderá explorá-las de diversas formas. A sugestão é usar essas fotos, juntamente com as do fotógrafo Aurélio Becherini, e “descobrir” na iconografia esses sujeitos da cidade. Promover com a análise uma redescoberta das populações pobres de São Paulo e fazer com o educando possa compreender o importante papel das classes populares na construção da cidade.

     Nas fotos estão vendedores de aves, engraxates e trabalhadores da estrada de ferro. A sugestão é que o educando possa descrever a indumentária, a etnia, as condições do espaço que rodeiam as personagens. Poderão ver que os imigrantes também faziam trabalhos pesados. Neste caso adicionei uma tela de Carlos da Silva Prado. Esta tela é interessante, pois registra o trabalho dos varredores de rua de etnia majoritariamente negra. Essa obra é emblemática para desconstruir a idéia de que negros e mulatos não faziam parte da cidade. O educador apresentará as imagens com uso de Datashow ou retroprojetor. Com o auxílio do texto explicativo explorará as 

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6 Santos, Carlos F. dos.”nem tudo era Italiano – São Paulo e pobreza (1890 -1915). Pg 107

 

formas de sobrevivência dessas populações. A fotografia e a obra de arte são ótimas alternativas para o educando visualizar os expedientes das classes populares. A sala de aula seria um centro de reflexão e discussão das formas de sobrevivência frente ao crescimento industrial. Temas como o inchaço das cidades, o crescimento da pobreza e do exército de reserva e a exclusão social de negros e mulatos dos trabalhos da indústria seriam explorados. As imagens são interessantíssimas para discutir a idéia de uma São Paulo cosmopolita com ampla oferta de empregos e oportunidades.

maria carvalho6Crianças engraxando sapatos – Vincenzo Pastore

maria carvalho7Vendedores de aves- Vincenzo Pastore

maria carvalho8Trabalhadores na estrada de ferro – Aurélio Becherini

maria carvalho9Carlos da Silva Prado “Varredores de rua” – São Paulo – 1935 - Acervo MASP

 

 

Aula 4 – Refazendo os caminhos dos fotógrafos da cidade – A São Paulo de Vincenzo Pastore

 

     Vincenzo Pastore foi um dos mais importantes fotógrafos da cidade de São Paulo. Sobretudo, porque registrou as imagens das populações pobres em seu cotidiano. Seus ofícios, suas formas de sociabilidade e suas espacialidades. Sempre preocupado em captar os sujeitos e não a imagem de um burgo aprazível que fotógrafos como Gaensly e Becherini, por exemplo, preferiram.

     Nesta aula o educador apresentará esse pequeno percurso de Pastore e fará a contraposição com as fotos atuais. A intenção é que o educando perceba que para a elite da república essas populações deveriam ser combatidas. Ser moderno, civilizado e nacional não significava ser negro ou pobre. Trabalhar na rua demonstrava falta de adaptação ao trabalho industrial. Os educandos deverão refletir sobre as políticas de Estado da época baseadas na remodelação da cidade, dinamização da economia e a influência do capital estrangeiro e cafeeiro na cidade.

     Nas transformações da cidade é visível a intenção de tornar o espaço público em área de movimentação. O centro em área de negócios. O educador poderá imbricar esse ideário às subseqüentes greves operárias do proletariado. O que acirrou ainda mais a intenção de controle do espaço público e da necessidade de evitar a aglomeração. A operação de expulsão dos pobres do centro evitou possíveis manifestações por direitos ao trabalho e á cidadania. Através do controle do espaço público o educando compreenderá as políticas da República Velha, por exemplo, que monopolizavam o poder político e manipulavam o voto. Temendo qualquer demonstração de resistência.

     As fotos abaixo demonstram as continuidades desse espaço. Na rua da figueira, outrora um imenso rio e hoje uma via com enorme trânsito. O vendedor de frutas do início do século se parece e muito com o vendedor de doces da região da antiga Várzea do Carmo.

maria carvalho10Rua da figueira – Vincenzo Pastore

maria carvalho11Rua da Figueira – Maíra Moraes

maria carvalho12Vendedor de rua- Vincenzo Pastore

maria carvalho13Vendedor de rua- Maíra Moraes

 

 

Aula 5- Dialética passado e presente – similaridades dos discursos sobre o Parque Dom Pedro II (início XX e início do XXI)

 

     Após a leitura desses dois excertos, um discurso de Washington Luís, prefeito da província de São Paulo, e uma reportagem de jornal atual. Os educandos deverão produzir um texto apontando similaridades nos discursos sobre a Várzea do Carmo e o Parque Dom Pedro II. Temas como cidadania, controle do espaço público, relação entre cidadãos e Estado, estão presentes nas formas de sobrevivência e resistência das populações da Várzea do Carmo e das classes populares que passam pelo Parque Dom Pedro II. O educando deverá imbricar a sua sociabilidade com a dos sujeitos da antiga Várzea do Carmo.

     O educador poderá formar um círculo em sala de aula e discutir a relação deles e dos antigos paulistanos com o espaço público. Apontando similaridades e rupturas na discussão sobre a relação sujeito e cidade.

 

Sugestão

 

     Uma das possibilidades de discussão do excerto de Washington Luís é refletir sobre a necessidade de controle e do uso da polícia contra os habitantes da Várzea do Carmo. No documento integral não existe nenhuma menção a crimes ou a ilegalidades. A Várzea do Carmo deve ser repreendida e controlada apenas por ser um reduto de populares. Na matéria de jornal sobre um protesto no Parque Dom Pedro II devido ao aumento de tarifa, a polícia repreende com violência os manifestantes. Usa como alegação para sua conduta o fato de os populares terem pulado as catracas. Contudo, para os transeuntes que freqüentam o Terminal, já é conhecido, que desde a implantação do bilhete único o terminal não tem catracas eletrônicas.

     Posto isso, fica claro que as ações policiais desde o início do século passam a se concentrar em áreas das classes populares. E procuram coibir quaisquer manifestações. Ainda que sejam pacíficas e direito de todo o cidadão.

     O educador poderá dialogar com os educandos sobre a presença do estado e da polícia em áreas pobres. E explorar a relação entre cidadão e cidade no início do século e hoje. Verificar rupturas e continuidades.

 

Excerto de discurso de Washington Luís:

“...È aí que se cometem atentados que a decência manda calar; é para aí que se atraem jovens estouvados e velhos concupiscentes para matar e roubar, como nos dão notícias os anais judiciários, com grave dano para a moral e para a segurança individual, não obstante a solicitude e a vigilância da nossa polícia. Era aí que a polícia faz o expurgo da cidade, encontrando a mais farta colheita...”7

 

Protesto contra aumento de tarifa de ônibus vira tumulto em SP

Manifestantes tentaram pular catraca do terminal Pq. Dom Pedro e agentes usaram força para contê-los, diz PM

07 de janeiro de 2010 | 20h 31

Priscila Trindade, da Central de Notícias _ Jornal “O Estado de São Paulo”

 

Uma manifestação contra o aumento da passagem em São Paulo resultou em tumulto na noite desta quinta-feira, 7, no terminal de ônibus Parque Dom Pedro, no centro da cidade.

Segundo a Polícia Militar, dos manifestantes tentaram pular a catraca do terminal e os agentes usaram de força para impedir. Cerca de 200 pessoas participaram do protesto que ocorreu entre 18 horas e 19h30.

A tarifa de ônibus sofreu reajuste de R$ 2,30 para R$ 2,70 e passou a vigorar no dia 4 de janeiro, primeiro dia útil deste ano. O aumento foi anunciado no final de 2009 pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM).

Tópicos: SP, Cidades, São paulo

 

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7 Celestina, Maria. E Torres, Teixeira Mendes. “ O bairro do Brás”. Série história dos bairros de São Paulo A rquivo público.pg 183

 

 

Anexo 1 – Alternativa para atividade 2 Fotos do rio Tamanduateí

maria carvalho14Rio Tamanduateí – 1903 -fotografia Gaensly & Indemann

maria carvalho15Rio Tamanduateí – 2010 – fotografia Maíra Moraes.

 

 

 

Bibliografia • Celestina, Maria. E Torres, Teixeira Mendes. “ O bairro do Brás”. Série história dos bairros de São Paulo A rquivo público. • Hardmann, Francisco Foot e Leonardi, Victor. “História da Indústria e do Trabalho no Brasil”. Ed Àtica, São Paulo, 1991. • Lemos, Carlo. A. C. “O álbum de Afonso”. Edições Pinacoteca,2001 • Santos, Carlos F. dos.”nem tudo era Italiano – São Paulo e pobreza (1890 - 1915). • Santos, Renato Emerson. ”Diversidade, espaço e relações étnico-raciais – O negro na Geografia do Brasil”. Ed. Autêntica, 2007 • “A São Paulo de Vincenzo Pastore”. Instituto Moreira Salles • “São Paulo – Registros 1899-1940, Eletropaulo, 1992