Avenida São João ontem e hoje, um olhar fotográfico (1935-37/ 2010)

Aluno:William Gama dos Santos Período: Noturno N° USP: 5937101

Introdução: Uma das críticas freqüentemente realizadas a respeito dos materiais didáticos utilizados no ensino de história, é referente à má exploração das fontes iconográficas presentes nessas obras. É comum ver a iconografia ser utilizada apenas para ilustrar o texto, ou até mesmo em total desacordo com a análise textual proposta. Podemos dizer que são raros os trabalhos que permitem à exploração da fonte iconográfica como material de produção de conhecimento histórico, a regra vigente é a da subordinação da imagem ao texto. A proposta desse trabalho é subverter essa lógica. Pretendemos, através de alguns expedientes, ressaltar o valor da fonte iconográfica como instrumento de trabalho em sala de aula.A fonte de que tratamos nesse caso é um conjunto de fotografias que será o nossoprincipal material de análise e de produção de conhecimento. Para além do importante passo da valorização da iconografia, propomos também realçar o papel do aluno como produtor de novas fontes históricas e, portanto de conhecimento. A produção de material histórico nesse trabalho tem como principal objetivo capturar as mudanças históricas que afetam a configuração do espaço urbano, da cultura (como vestuário, tipos sociais, etc), e a dispersão, e alteração, das formas econômicas instaladas dentro de um espaço delimitado (nesse caso uma avenida). A contraposição entre fonte histórica apresentada nesse trabalho, e a fonte histórica produzida pelos próprios alunos, será fundamental no processo na formação do conhecimento histórico. Devido à abrangência da análise que iremos propor, e o aspecto multidisciplinar que pauta essa atividade, entendemos que o ideal é que essa atividade seja realizada com alunos do último ano do ensino fundamental. Alunos que já possuem os conceitos geográficos de paisagem urbana assimilados, e que também possam compreender o contexto histórico onde a fonte primária da nossa análise esta situada. Em última instância o objetivo desse material didático é analisar uma série de dez fotografias de autoria de Claude Lévi-Strauss, em paralelo com o mesmo número de fotografias realizadas pelos alunos envolvidos na atividade. A comparação entre as mudanças históricas existentes entre as duas épocas permitirá formatar um melhor conhecimento do nosso tempo, o diálogo das fontes, o próprio relacionamento com oespaço analisado no momento da produção das fotografias, permitirá a construção de uma reflexão que englobará às inúmeras dinâmicas de transformação sofridas por esse espaço em especial. A seguir o contexto de produção desse material iconográfico será exposto, assim como métodos de análise dessa fonte serão sugeridos.

 

Claude Lévi-Strauss, fotografia e uma representação para a cidade de São Paulo

Em 1955, Claude Lévi-Strauss, lança em Paris, o livro Tristes Trópicos, misto de relato de viagem, ensaio antropológico, e livro de memórias. A obra terá enorme repercussão mundial ao expor a visão de um jovem etnólogo totalmente envolvido nas experiências enriquecedoras vividas nos trópicos. Parte dessa experiência se dará na cidade de São Paulo e às impressões sobre a cidade e a sua população foram registradas em um capítulo específico do livro. Além desse registro, Lévi-Strauss irá realizar uma série de fotografias na cidade, essas fotografias foram editadas e lançadas como livro em 1996, com o título de “Saudades de São Paulo”(1), usaremos parte desse material para realizar nosso trabalho. Claude Lévi-Strauss ao travar conhecimento com a cidade irá defini-la como, “cidade do novo mundo”. Ou seja, uma cidade que cresce rápido demais não dando oportunidade de suas partes constituintes se estabilizarem, o ritmo de crescimento e mudança não permite à maturidade e estabilidade de suas partes. Vive-se o ciclo de morte e vida repentinamente. Podemos ver essa análise nas palavras do próprio autor no seguinte trecho: “Para as cidades européias a passagem dos séculos constitui uma promoção; para as americanas, a dos anos é uma decadência. Pois não são apenas construídas recentemente; são construídas para se renovarem com a mesma rapidez com que foram erguidas, quer dizer, mal. No momento em que surgem, os novos bairros nem sequer são elementos urbanos: são brilhantes demais, novos demais, alegres demais para tanto. Mais se pensaria numa feira, numa exposição internacional construída1-

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LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades de São Paulo.São Paulo,Companhia das Letras,1996

 

para poucos meses. Após esse prazo, a gesta termina e esses grandes bibelôs fenecem: as fachadas descascam, a chuva e a fuligem traçam seus sulcos, o estilo sai de moda, o ordenamento primitivo desaparece sob as demolições exigidas, ao lado, por outra impaciência. Não são cidades novas contrastando com cidades velhas; mas cidades com um ciclo de evolução curtíssimo, comparadas com cidades de ciclo lento. Certas cidades da Europa adormecem suavemente na morte; as do Novo Mundo vivem febrilmente uma doença crônica; eternamente jovens, jamais são saudáveis, porém.”(2). Esse ciclo de evolução febril também é analisado pelo autor ao dizer que: “Em 1935, os paulistas vangloriavam-se de que construíam em sua cidade, em média, uma casa por hora. Tratava-se, na época, de mansões; garantem-me que o ritmo se manteve igual, mas com edifícios. A cidade desenvolve-se a tal velocidade que é impossível obter seu mapa: a cada semana demandaria uma nova edição. Parece, inclusive, que se formos de táxi a um encontro marcado algumas semanas antes, corremos o risco de chegar com um dia de avanço em relação ao bairro. Em tais condições, a evocação de lembranças de quase vinte anos atrás assemelha-se à contemplação de uma fotografia apagada. Mas pode, ao menos, oferecer um interesse documental; despejo de gaveta de minha memória nos arquivos municipais.”(3) Ao realizar essa metáfora, que recorre à idéia da fotografia como memória fotográfica, o autor nos dá elementos que podem ajudar a analisar as fotografias realizadas, por ele, em sua estadia na cidade.

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2-LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos.São Paulo, Companhia das Letras,1996, p.91 e 92 3- LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos.São Paulo, Companhia das Letras,1996, p. 92

 

Auferimos que Lévi-Strauss entende a fotografia como banco de memória de um passado inalcançável, pois à dinâmica de crescimento da cidade extirpou as marcas existentes naquele tempo passado. Entretanto o quê exatamente esse olhar fotográfico tentará registrar? É significativo que a coletânea de fotos inicie justamente com o Edifício Martinelli. Mais significativo ainda é o fato de que todas às fotografias realizadas na avenida São João têm esse edifício como ponto de fuga da composição. O Edifício Martinelli significava “um referencial cuja silhueta dominava todos os outros prédios. Era visto de quase toda a parte, mesmo do fundo dos barrancos escarpados que desciam das elevações da avenida Paulista.”(4) Dessa forma podemos entender que não é proposital o foco nesse edifício, construção que explicita esse símbolo, a violenta transformação, e a diacronia vivida pela cidade. Tendo em mente o contexto, e às idéias que formataram a produção dessas fotografias, vamos analisar um outro método de tratamento desse material iconográfico. Boris Kossoy, em Fotografia e Memória: Reconstituição por meio da Fotografia, alerta-nos quanto à possibilidade de “as imagens técnicas tornam (tornarem-se) as imagens mentais reais.”(5) Segue adiante o trecho onde Kossoy se deterá nessa análise, essa proposta irá embasar à proposição que norteará a nossa atividade: “Das múltiplas faces da imagem fotográfica apenas uma é explicita , a iconográfica, mimese de uma pretensa realidade, ou a realidade da imagem como tal, isto é, sua realidade exterior. Entre o referente e a representação existe um labirinto cujo mapa se perdeu no passado: desapareceu com o próprio desaparecimento físico do fotógrafo, o criador da representação. A fantasia mental desloca o real em conformidade com a visão de mundo do autor da representação e do observador que a interpreta segundo seu repertório cultural particular. O que é real para uns é pura ficção para outros. A ficção pode então substituir o real, tendo o documento fotográfico como prova “convincente”, como constatação definitiva de uma legitimação de todo um ideário: a mensagem simbólica, emblemática de um real alcançado, cobiçado ou destruído.”(6)

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4- LÉVI-STRAUSS, Claude. Saudades de São Paulo.São Paulo, Companhia das Letras,1996, p. 23 5- KOSSOY, Boris. Fotografia e Memória: reconstituição por meio da fotografia. In O Fotográfico, organizador: Etienne Samain. Segunda Edição. Editora Hucitec/Editora Senac, São Paulo, p.44 e 45 6-Ibid

 

Partindo dessa ruptura metodológica, além de ganharmos subsídios para criticarmos os pressupostos de Levi-Strauss na produção das fotografias, ou seja, o condicionamento de uma série de fotografias a um “símbolo”, ou elemento estrutural fundamental para o entendimento daquele local, também abre-nos à possibilidade de um olhar independente sobre aquela mesma região, em um outro momento histórico. Assim, após o aluno estar familiarizado com os antecedentes históricos daquela avenida, ponto nobre da cidade onde a ação modernizadora ocorria desenfreadamente, ele terá conhecimentos suficientes para formatar o seu próprio olhar para a atual realidade histórica da região. Ou seja, o edifício Martinelli é o elemento central da região? O prédio do Banespa, atrás do edifício Martinelli, é um novo símbolo para o local, ou já foi superado em seu caráter de figura central? (E neste caso a análise de Lévi-Strauss, que propõe a dinâmica da cidade com ciclo de evolução curtíssimo, é pertinente) Existem outros símbolos que possam registrar o caráter da avenida atualmente? Essas, e outras questões, poderão ser respondidas pela análise, e produção fotográfica, dos alunos.

 

Roteiro para realização do trabalho didático

Abaixo segue o mapa da avenida São João em 1935-37 com os ângulos das fotografias realizadas por Levi-Strauss:

Willian

considerar apenas as numerações marcadas em verde iremos considerar a numeração proposta pelo autor que dispõe as fotos fora de uma ordem sistemática

 

 

A proposta é que as fotos sejam realizadas nos mesmos locais, seguindo, ou não, o ângulo capturado pelo fotógrafo. O importante é que ambas as imagens dialoguem e produzam novos entendimentos históricos a partir desse diálogo.

 

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As fotos 35 e 36 foram claramente tiradas à pouquíssimos metros uma da outra no lado esquerdo da avenida São João.

 

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cruzamento da avenida São João com a avenida Ipiranga

 

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fotos realizadas no cruzamento com a rua Dom José de Barros em ambos os lados

 

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AnexoTamanho
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