Memorial do Imigrante

Carolina Sciarotta Gomes dos Reis (6838346) – Noturno Universidade de São Paulo/FFLCH - Departamento de História

Uma História para a Cidade de São Paulo: Um Desafio Pedagógico (FLH0425)

Prof. Drª. Antonia Terra Calazans Fernandes

 

 

Memorial do Imigrante

 

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1. Introdução

 

     Pode-se dizer que um dos objetivos centrais do ensino de história na atualidade se relaciona com sua contribuição na construção de identidades e, nessa perspectiva, a identidade nacional é uma das que tem sido formada pelos projetos da História escolar. Entretanto, historiadores e professores de História ainda têm pela frente o desafio de entender e transmitir as relações dessa identidade nacional com o local e com o mundial.

      A história local torna-se útil ao ensino por possibilitar a compreensão, por parte do aluno, de seu entorno e do contexto em que nasceu e no qual vive. Dessa forma, intenciona-se que o aluno possa identificar a presença do passado nos vários aspectos materiais (espaços, objetos, instituições, etc.) e imateriais (cultura, mentalidades, imaginários, etc.), situando-o nos problemas do presente. Ela se liga à história do cotidiano, ao fazer com que as pessoas comuns se tornem participantes de uma história aparentemente desprovida de importância, na medida em que estabelece relações entre grupos sociais de condições diversas que participaram de entrecruzamentos de histórias, tanto no presente como no passado.

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1 Acervo Iconográfico do Memorial do Imigrante.

 

     No entanto, é preciso ter cuidado ao lidar com este enfoque, pois a história local pode simplesmente reproduzir a história do poder local e das classes dominantes, caso se limite a fazer com que os alunos reforcem e tomem com verdade representações construídas por aqueles que têm ditado o que é ou não “digno” de ser lembrado.

     Nesse ponto, a questão da memória impõe-se por ser base da identidade. E a ela deve ser dada uma atenção especial, porque apesar da necessidade de recuperá-la e evocá-la, devemos confrontá-la. Afinal, nenhuma memória, individual ou coletiva, constitui a história. A história “consiste na escolha e construção de um objeto, operação que pode dar-se a partir de evocações, de lembranças” 2, e exige análise crítica e rigor no confrontamento com outros registros e testemunhos.

     Em suma, a história do “lugar” como objeto de estudo, apesar de ganhar contornos temporais e espaciais, não deve se restringir a compreensão dela na história do presente ou de determinado lugar do passado, mas sim, procurar identificar a dinâmica do lugar, as transformações do espaço e as articulações dos processos históricos (econômicos, sociais, políticos) com outras diversas, inerentes a “outros lugares”.

     Com esses pressupostos, pretendo nas próximas linhas trabalhar uma proposta para o ensino da história de São Paulo que se diferencie da reprodução do que se tem escrito como “história oficial” da Cidade: uma história das elites, que reflete a visão e o comando da burguesia paulista (antes cafeeira, depois industrial e hoje financeira), e que tem exaltado a riqueza, a descendência européia da população, a herança do “espírito desbravador” dos primeiros paulistas e o progresso como suas principais características.

     Para tanto, a proposta é de que, por meio de uma visita ao Memorial do Imigrante, o professor possa trabalhar o tema das imigrações e migrações para a Cidade numa perspectiva mais ampla do que propõem os livros didáticos ou os programas curriculares: buscando demonstrar a presença do migrante, do nacional na construção da Cidade de São Paulo do início do século XX, enquanto se tentava criar uma civilização moderna, branca e europeizada.

     Cabe ressaltar que se busca com esta proposta, sobretudo uma “equiparação de importâncias” entre o migrante e o imigrante para a história de São Paulo. Longe de diminuir a contribuição do imigrante europeu para a constituição da Cidade e de seu povo, a idéia é demonstrar e fazer com que o aluno reconheça também a presença dos nacionais nesse processo, e de como, até hoje, eles permanecem presentes, continuam a chegar e a participar da história de São Paulo, no sentido mais amplo possível que o termo possa abarcar.

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2 LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: Edições 70, 2000, p. 109.

 

2. Breve história da Hospedaria de Imigrantes sobre a documentação de que ela dispõe 3.

 

     A Hospedaria de Imigrantes de São Paulo foi inaugurada em 1888 e teve suas atividades encerradas em 1978. Ela cumpriu, durante seus noventa anos de história, três funções básicas: recepção, triagem e encaminhamento de trabalhadores estrangeiros e nacionais inseridos, prioritariamente, nas grandes propriedades produtoras de café, no interior do Estado. Por suas dependências passaram aproximadamente 3,5 milhões de pessoas sendo, 1,9 milhão de estrangeiros e 1,6 milhão de trabalhadores nacionais, oriundos notadamente da região nordeste do país.

     Grande parte da documentação refere-se a registros produzidos na dinâmica dos serviços de recepção-triagem-encaminhamento. Nela encontramos registros individualizados ou de composição familiar cujos suportes básicos são: livros de registro e fichas de identificação. Há que se ressaltar, porém, a existência no acervo do Memorial do Imigrante (sucedâneo da Hospedaria) de uma variedade de outros suportes documentais; dentre eles, destacam-se os processos da Secretaria da Agricultura nos quais são encontradas informações sobre a política de terras, colonização e povoamento empreendida pelo governo estadual entre o final do século XIX até os anos 1960.

     No que se refere à documentação de registro, seu objetivo básico era o controle de informações sobre os imigrantes e migrantes e seu encaminhamento para o destino final. Do ponto de vista dos suportes, esses registros variaram com o tempo; os livros constituíram a primeira e mais longeva forma de identificação dessas pessoas. Produzidos desde o início das atividades da Hospedaria, no final do século XIX, eles ainda foram utilizados nos anos 1930.

 

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3 PAIVA, Odair da Cruz. MOURA, Soraya. Hospedaria de Imigrantes de São Paulo. São Paulo: Paz e Terra, 2008

4 Imagem de um livro de registros da Hospedaria de imigrantes - Acervo pessoal.

 

     Após a Segunda Guerra mundial, um novo suporte foi utilizado: pequenas fichas registravam informações sobre os imigrantes e migrantes hospedados. A mudança do suporte documental da informação tem relação com o refluxo da imigração para São Paulo a partir dos anos 1930, o que se refletiu na ausência de grandes levas de trabalhadores que adentravam em suas dependências.

     A rigor, essa mudança não alterou o teor das informações consideradas indispensáveis na identificação dos trabalhadores. Grosso modo, encontramos na maior parte dos registros, elementos como: nome, idade, sexo, estado civil, nacionalidade, região de procedência, profissão, religião, grau de instrução, composição familiar e lugar de destino (região do estado ou nome da fazenda ou nome do proprietário ou nome indústria, etc.).

 

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     Na década de 1970, o encerramento das atividades da Hospedaria produziu um novo olhar sobre esta documentação. O término dos serviços de recepção, triagem e encaminhamento determinou o fim da produção desses registros e a possibilidade de apreendê-la em seu sentido histórico. Sobre eles, passam a incidir – ao menos potencialmente - interesses de outros sujeitos, dentre estes,fundamentalmente historiadores e sociólogos.

     Apesar disso, as possibilidades de uso dessa documentação eram bastante restritas dadas as condições de seu armazenamento e organização. Enquanto registros individualizados, as coletas de informações impunham um trabalho bastante moroso e feito muitas vezes de forma estatística, resultando num conhecimento cuja expressão, no conjunto total da documentação, era bastante parcial e pouco afeito a generalizações confiáveis.

     O fim da produção de registros a partir de 1978 com o encerramento das atividades da Hospedaria criou uma distância cada vez maior entre os novos documentos produzidos a partir de então e aqueles das décadas anteriores. Nos anos 1980 - e particularmente com a criação do Centro Histórico do Imigrante em 1982- abre-se um caminho para que os registros pudessem ser tratados de forma a subsidiar pesquisas relativas à imigração para São Paulo. Retoma-se a curiosidade e interesse de historiadores e arquivistas sobre essa documentação de modo a produzir as primeiras iniciativas para sua classificação, organização e publicização.

     Paralelamente, o aumento do interesse nos pedidos de dupla cidadania – em consonância com o maior afluxo da migração de brasileiros para a Europa, Estados Unidos e Japão - fizeram com que os descendentes de imigrantes afluíssem à antiga Hospedaria em busca de informações sobre seus antepassados. Tratava-se de uma nova entrada naquele espaço: os descendentes dos imigrantes encontraram na antiga Hospedaria não mais um espaço de acolhida, mas sim, um lugar de resgate da memória de seus antepassados. Esse interesse contribui para a aceleração do tempo da organização do acervo, ao passo em que colocava sujeitos não acadêmicos no conjunto de interesses no resgate da história da imigração para São Paulo.

     O avanço dos trabalhos de organização e informatização da documentação propicia, atualmente, um acesso universal (pessoal ou via internet) às informações constantes nos livros de registro; esses compreendem o período entre 1882 (quando eram produzidos na Hospedaria do Bom Retiro, antecessora da Hospedaria dos Imigrantes no bairro do Brás) até os anos 1930. As informações das fichas de registro - suporte documental básico da identificação dos imigrantes entrados no período pós Segunda Guerra (1947-1978) – estão parcialmente disponíveis na internet. Nesse caso, informações de caráter mais geral como nome, nacionalidade, profissão, região de origem, etc., estão acessíveis e, dado que muitos dos imigrantes estão vivos, outras podem ser conseguidas mediante termos de responsabilidade e pesquisas acadêmicas que utilizam essa documentação são possíveis mediante assinatura de termos de responsabilidade específicos.

 

3. A presença do migrante nacional, sobretudo nordestino, na cidade de São Paulo

 

     O crescimento urbano de São Paulo está relacionado diretamente ao fenômeno migratório, e este, aos processos de urbanização e industrialização. O fluxo migratório nacional de maior destaque foi o dos nordestinos para São Paulo. Segundo Baptista 5, a participação dos migrantes nordestinos, no total de imigrantes em São Paulo em 1950 era de 27,8%, em 1974 de 49%, em 1982 de 56% e em 1997 de 46%. Para se ter uma dimensão desse universo, Ângelo 6 afirma que

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5 BAPTISTA, D. M. T. Nas terras do “Deus Dará”: Nordestinos e suas redes sociais em São Paulo”. (Tese de doutorado em Ciências Sociais) - São Paulo, PUC, 1998. 324 p.

6 ÂNGELO, A. A presença dos Cordelistas e Cantadores Repentistas em São Paulo. In: Cidade. Ano 2. São Paulo: Departamento do Patrimônio Histórico. 1995.

 

existem mais de 200 pontos de encontro de nordestinos na capital paulista. Eles estão espalhados por toda cidade, incluindo os restaurantes e casas noturnas. O autor faz um levantamento minucioso dos restaurantes, casas noturnas, e até de lojas que vendem discos, cds e livros ligados à cultura nordestina. A primeira casa no gênero a ser inaugurada foi o Forró de Pedro Sertanejo, no começo dos anos 1960.

     Os nordestinos, na maior parte, residem nos centros deteriorados, nos cortiços, nas diversas favelas da metrópole, por serem estas alternativas de moradia barata. Isso se dá em razão dos preços baixos dos terrenos, mas faz com que essa parcela da população se submeta a viver em loteamentos clandestinos e em áreas de risco e insalubres, e nos conjuntos habitacionais. Segundo pesquisa Datafolha, 41% dos moradores da área Sé/Brás (distritos do Brás, Bom Retiro, Cambuci, Pari e Sé) são nordestinos. É o maior índice das 19 áreas do município pesquisadas (Folha de São Paulo, 25-01-2004).

     Não podemos deixar de abordar a recepção dada aos nordestinos em São Paulo. Desde o início até os dias atuais, ela sempre foi carregada de muita discriminação e preconceito, estigmatizando-os como “baianos” ou “cabeça chata”. O estudo de Maura Penna 7 trata da identidade do nordestino em São Paulo e aborda o preconceito que ele enfrenta. E para exemplificar, a autora faz um levantamento, na imprensa, de diversos artigos e situações, na época em que a paraibana Luísa Erundina venceu as eleições para a prefeitura, que mostram a xenofobia dos paulistanos.

     Os migrantes nordestinos aparecem no plano do visível e do invisível, ocupam o “DNA” da metrópole. Eles não estão somente nos espaços de aglutinação, concentração, mas aparecem na forma de trabalho e não trabalho no processo de formação da metrópole. A leitura de Singer 8 reforçou a teoria das desigualdades regionais como o motor das migrações internas, as quais acompanham a industrialização das regiões mais desenvolvidas. A divisão regional do trabalho aponta para a interdependência dessas regiões. Há uma subordinação econômica das regiões que exportam matéria-prima e mão-de-obra (o chamado exército de reserva) e importam os produtos industrializados de outra região. Singer discute a migração interna a partir dessa reflexão e faz uma leitura da urbanização brasileira, principalmente de São Paulo. A cidade de São Paulo concentrou um grande número de indústrias. O ciclo do café trouxe à cidade alguns elementos, como a ferrovia, bancos, mão-de-obra, mercado regional, entre outros, que vão servir de apoio para as primeiras indústrias nacionais.

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7 PENNA, M. O que faz ser nordestino: identidades sociais, interesses e o “Escândalo Erundina”. São Paulo: Cortez, 1992. p. 1-113.

8 SINGER, P. Economia política da urbanização. 12ª ed. (1973). São Paulo: Brasiliense, 1990. 152 p.

 

     Não há dúvida de que a integração do espaço nacional, por meio de ferrovias e rodovias, acelerou e estimulou a migração interregional, aumentando deliberadamente o número de nordestinos em São Paulo. Outros elementos contribuíram para a expansão dessa migração, como a política trabalhista de Getúlio Vargas que regulamentava algumas reivindicações do operariado, entre elas o salário mínimo. Os salários nas áreas urbanas eram um atrativo à migração interregional, pois os ganhos salariais, apesar da legislação federal, eram e são diferenciados país afora. Outro fator significativo é a política migratória, em 1930, para a qual Getúlio Vargas propõe uma lei de cotas, que desestimula a imigração externa. Ele assina um decreto que limita “... em 1/3 o número de trabalhadores estrangeiros por empresa, é dado um passo decisivo para que os trabalhadores nacionais superem em número os estrangeiros na composição da classe operária” 9.

     Os migrantes nordestinos incentivados pelo Estado se alojavam na mesma estrutura que muito foi usada para a recepção dos imigrantes estrangeiros, a Hospedaria dos Imigrantes. A edificação enorme, com capacidade de alojar cerca de quatro mil pessoas, documenta a política pública de incentivo ao fluxo, arregimentando a mão-de-obra barata para suprir o rápido crescimento da cafeicultura, embora muitos fiquem na capital para atender às necessidades urbanas em expansão. Na Hospedaria, os nordestinos pernoitavam por um ou dois dias, eram submetidos a uma triagem que consistia em verificar seus documentos, suas condições de saúde e o local de destino.

     Atendendo às necessidades dos cafeicultores, o Estado cria em 1939 o Departamento de Imigração e Colonização, vinculado à Secretaria de Indústria e Comércio. O objetivo era o de conduzir os imigrantes nacionais às fazendas de café. Estima-se que no ano de 1939 ingressaram no Estado paulista 100 mil nordestinos e mineiros. Há uma queda nesse fluxo na década de 1940, em virtude de um novo ciclo extrativo da borracha na Amazônia. Essa diminuição continua em 1950, pois tanto a economia cafeeira declinou quanto as necessidades econômicas de São Paulo se transformaram.

     Já em 1935, o governo do estado de São Paulo celebra contratos com companhias particulares de imigração, de colonização, com o objetivo de aumentar o número de migrantes nacionais, “mediante uma subvenção oficial”. Essas companhias iam aliciar no Nordeste e Norte de Minas Gerais pessoas interessadas em vir para São Paulo. Em 1939, o próprio Estado faz esse aliciamento, criando a Inspetoria de Trabalhadores Imigrantes. Os funcionários da Secretaria de Migração e Colonização ficavam instalados nos terminais ferroviários de Montes Claros e de Pirapora, nas localidades portuárias, ao longo do percurso dos gaiolas no rio São Francisco.

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9 ALBUQUERQUE JR., D. M.. Paraíbas e Bahianos: órfãos do campo, filhos legítimos da cidade. In: Travessia, São Paulo: Centro de Estudos Migratórios. São Paulo, n. 8, p. 28, set./dez.1990.

 

     Muitos problemas ocorriam, como o favorecimento e o assédio sexual. De lá, embarcavam as famílias, que seriam recebidas na Hospedaria do Imigrante. Ali os fazendeiros recrutavam os migrantes para irem trabalhar na lavoura no interior de São Paulo.

     Esse aliciamento pelo Estado ocorrerá até 1943, pois nesse período, a Hospedaria passa para o Ministério da Aeronáutica. “Embora a inspetoria continuasse a funcionar, a coisa era caótica, porque as pessoas que ali chegavam eram alojadas em pensões, ali da própria região do Brás” 10. Essa situação perdurou até 1952. Depois disso há uma alteração no quadro de registros desses migrantes, que não necessariamente passam pela Hospedaria, porque já têm outros pontos de apoio, como os familiares. A orientação de mandar a pessoa para o interior deixa de existir e elas acabam permanecendo na capital, pois o quadro econômico também é outro. A situação no campo também se modifica: em 1965, vigora o Estatuto do Trabalhador Rural e não há mais interesse em trazer gente para morar na fazenda, os expulsos tornam-se os bóias-frias, que vão engrossar as periferias das cidades.

 

4. “O migrante brasileiro na São Paulo estrangeira” 11

 

     Conforme se vê em Martins, é basicamente com a imigração estrangeira que se começa a contar os migrantes internos, devido, devido à contabilidade da mão de obra na cultura do café. O migrante brasileiro na cidade contrastava com a figura do estrangeiro que impressionava a muitos, pois era concebido como tosco e residual. O brasileiro acabava sendo, de certo modo, desprovido de atributos da sociedade em que vivia. O “estrangeiro” não estava apenas nas pessoas e em suas origens: estava também nas modalidades de costumes, nas modernidades dos modos, gestos e mediações do viver. E nesse sentido,o individuo “brasileiro” representava o passado.

     No entanto, desde antes da substituição do trabalho escravo pelo livre, migrantes nacionais se deslocavam para São Paulo (basicamente da Bahia e de Minas) e se empregavam no trabalho pesado de abertura das novas fazendas, derrubando a mata, formando o cafezal e tocando a expansão da frente pioneira. Raramente esse fluxo declinou. Mais adiante, com a abolição, também o migrante nacional (de início espontâneo) tornou-se, como vimos, procurado e subsidiado.

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10 BOSCO, S. H.; JORDÃO NETO, A. Migrações: estudo especial sobre as migrações internas para o Estado de São Paulo e seus efeitos. São Paulo: Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, 1967. p. 1-40.

11 MARTINS, José de Souza. “O migrante brasileiro na São Paulo estrangeira” In: História da Cidade de São Paulo: a cidade na primeira metade do século XX, 1890-1954. v.3, São Paulo: Paz e Terra, p. 154-213.

 

     A documentação disponível para que se estude a presença desse migrante nacional não vai muito além das estatísticas e censos governamentais, o que restringe as possibilidades de reconstrução de suas trajetórias da forma como tem sido feito com o imigrante europeu ou asiático.

     E já aqui é possível perceber e ressaltar que não havia interesse por esse migrante brasileiro, não havia quem por ele se interessasse ou se preocupasse. E essa mentalidade acaba por ser continuada através da perpetuação de uma história da imigração em São Paulo que, ao ser transmitida para o grande público ou ao público escolar em espaços como o Memorial do Imigrante, continua a privilegiar a cultura, a descendência e a influência européia, em detrimento do que é nacional, quase que se esforçando por escondê-lo, apagá-lo da história. Parafraseando Martins, “temos muito pouco, enfim, para compreender esses brasileiros de difusa identidade, desprovidos economicamente e que a cidade recebeu, mas não acolheu” 12.

 

5. Sugestões para trabalhar o tema em sala de aula

 

     Ainda que pareça desnecessário ressaltar, quero deixar claro que o que proponho aqui é apenas uma das formas de se trabalhar o tema em sala de aula. As variáveis são múltiplas, desde o grau de desenvolvimento dos alunos com os conceitos e temas já abordados pelo professor até mesmo a disponibilidade de tempo. Desejo apenas oferecer um “norte” para reflexão e espero despertar o interesse sobre abordagens do tipo e o aprofundamento bibliográfico sobre q questão.

     As atividades propostas ficam, sobretudo melhor embasadas se os alunos estiverem em processo de aprendizagem sobre temas como a economia cafeeira, a formação da elite Paulista Cafeeira, a abolição da escravatura e a questão da mão-de-obra no pós-abolição, as políticas de “embranquecimento” da população na Primeira República, a industrialização e a urbanização de São Paulo e todas as vertentes ligadas a esses temas. Assim, estarão mais aptos a observar as transformações ocorridas não só na cidade, mas também no país, ampliando o campo de visão sobre o período que vai do final do século XIX até a metade do século XX.

     Primeiramente, a visita ao museu não deve se restringir ao termo, portanto é necessário esclarecer aos alunos sobre o que é o Memorial, qual o seu papel na constituição da memória social, que tipo de objetos são ali preservados e expostos e, sobretudo, qual é o discurso do

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12 MARTINS, José de Souza. “O migrante brasileiro na São Paulo estrangeira” In: História da Cidade de São Paulo: a cidade na primeira metade do século XX, 1890-1954. v.3, São Paulo: Paz e Terra, p. 162.

 

museu ou o que ele coloca como missão. Para tanto, é possível utilizar o texto deste trabalho ou sugerir aos alunos que façam uma pesquisa prévia, a ser discutida em sala de aula (de forma a “organizar” os conteúdos trazidos pelos alunos e as concepções que eles carreguem ou tenham criado, na forma de um diálogo).

     Após a constatação (natural) da priorização do imigrante europeu nas informações, inclusive as fornecidas pelo próprio museu, é possível também indagar aos alunos sobre suas origens, a descendência de seus pais, avós ou parentes. Talvez aí seja o momento para levar a reflexão para um outro patamar. Neste ponto, é possível ao professor trabalhar a história do período e demonstrar em que contexto os imigrantes foram trazidos para São Paulo, quais as expectativas sobre eles e quais os discursos da época a respeito dessa imigração.

     Em seguida, já é possível então colocar que o imigrante não foi o único a participar das transformações econômicas e sociais que ocorriam na cidade. Havia aqui uma outra parcela da população, tão numerosa quanto, que tem sido colocada em segundo plano e que também precisa ser conhecida. Para tal, sugiro o tópico três, que fala da presença do migrante nacional, sobretudo nordestino, na cidade de São Paulo. Um ponto de contato interessante com o cotidiano dos alunos é falar a respeito da presença nordestina em São Paulo hoje, não só em termos culturais, mas espaciais e numéricos também. Conforme foi citado, só na região Sé/Brás (onde se situa o Memorial), 41% da população é de origem nordestina.

     Já no espaço do Memorial do Imigrante e após essas reflexões prévias, é possível visitar as dependências do prédio e conhecer a exposição. A seguir, algumas fotografias do que irá se encontrar na área externa, na área interna e na exposição principal (fixa):

 

Fachada do prédio da Hospedaria de Imigrantes.

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Fachada do prédio da Hospedaria de Imigrantes.

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Portão principal, da rua visconde de Parnaíba, visto da área interna.

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Vista da área interna

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Entrada do Refeitório

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Área externa

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Espaço ecumênico destinado a homenagear as crenças dos povos que passaram pela hospedaria

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Exposição permanente do memorial

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Reprodução de uma rua de São Paulo dos anos 1920

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Em primeiro plano, à esquerda, um Café, à direita, a barbearia, ao fundo uma chapelaria e uma Botica

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     Além destes ambientes, há também a possibilidade de se realizar passeios de bonde e maria-fumaça. A estação ferroviária foi recriada no local para ambientar o percurso que vai até a Rua da Mooca. Foram reconstituídos o carro-bagagem, o carro de passageiros de segunda classe, de 1900, e outro de primeira classe, de 1914, da antiga São Paulo Railway. Há direita do prédio há uma sala destinada a exposição de objetos da hospedaria e dos que passaram por suas dependências. Na entrada desta parte do acervo, o visitante é recebido com um vídeo que fala sobre os imigrantes em São Paulo, cuja transcrição na íntegra, se encontra a seguir:

 

"Há sempre muitas histórias dentro de uma história só. Cada história traz consigo uma série de caminhos, ramificações que nos levam a uma série de outras histórias. Assim é a história deste prédio, palco de inúmeros episódios, construídos por personagens importantes com suas trajetórias tão diversas, que juntas remontam à história de São Paulo. Contar a história da hospedaria de imigrantes é passar em revista mais de um século da história de São Paulo. Essa nossa história começa por volta do século XIX, quando a capital paulistana era apenas uma província de 20 mil habitantes e está diretamente ligada ao ciclo do café. O frutinho vermelho, que começou a ser plantado no rio de janeiro e depois em São Paulo, se tornou o novo ouro brasileiro. Sacas e sacas de café cruzavam o oceano. O rumo era principalmente a Europa, onde o café era artigo de luxo. Logo a mancha verde dos milhares de pés de café tomou conta do estado de São Paulo, atravessando as terras do vale do Paraíba. Novas cidades apareceram, novas fortunas se consolidaram. E enquanto na Europa, o café estimulava as idéias da burguesia crescente e iluminava a vida nos centros urbanos emergentes, surgia no Brasil a aristocracia cafeeira: os grandes fazendeiros se tornavam os barões do café. O café alavancava o progresso do país. Impulsionou a industrialização e a urbanização da cidade de São Paulo. Era um momento próspero, que mudava rapidamente a configuração da cidade. Logo, novas máquinas foram necessárias para aumentar a produção, uma malha ferroviária foi construída para atender a demanda. Logo era necessária mais mão-de-obra. A chegada de imigrantes está diretamente ligada ao fim da escravidão. Com a proibição do tráfico de escravos em 1850, o governo passou a incentivar a imigração. Queriam mão-de-obra para trabalhar nas lavouras de café e em 1886, começava no país a chegada em massa de imigrantes europeus: alemães, portugueses, espanhóis, italianos, que aos poucos mudavam a cara da cidade. vinte anos depois, o navio Kasatu-Maru trazia as primeiras famílias japonesas em busca de emprego nas fazendas do oeste paulista. Era gente se deslocando para todos os lados.

O Brasil recebeu cerca de 4 milhões de imigrantes, entre 1882 e 1934. Mais que a metade deles entrou pelo porto de santos. Com o grande fluxo imigratório, surgiu a necessidade de hospedar e organizar a mão-de-obra que chegava. Foi então que em 1885, ficou decidida que seria erguida uma Hospedaria, capaz de acompanhar a economia cafeeira. A escolha pela região era estratégica: quase 20 anos antes era inaugurada a estação do Brás. No cruzamento dos trilhos da ferrovia da central do Brasil, que vinha do rio de janeiro, com a São Paulo Railway, vinda de Santos - desses dois portos chegavam imigrantes. Ao longo dos trilhos da estação, surgiam indústria e pequeno comércio, que aos poucos se misturavam às casas de agricultores e chácaras de recreio, onde moravam caseiros e escravos de famílias ricas. distante do centro, e com terrenos baratos, o Brás se tornou um dos principais destinos para a maioria dos trabalhadores que chegavam a cidade: parecia a região ideal. Em julho de 1887, com apenas um terço das obras concluídas, a hospedaria recebia seus primeiros imigrantes. desde então, passaram por aqui cerca de três milhões e meio de pessoas. Três milhões e meio de trajetórias tão diversas, que juntas constituem parte da história de São Paulo E esse é apenas o começo de mais uma, dentre tantas histórias deste prédio. Como eu disse, há sempre muitas histórias dentro de uma história só"

 

    Após a visita aos espaços do museu, o professor pode escolher algum ambiente (seja da exposição, seja da área externa), para reunir os alunos e complementar a discussão iniciada em sala de aula. A intenção é que agora o debate com os alunos se torne mais rico, uma vez que fica claro no museu a ausência de alusões ao migrante nacional. Não se pode esquecer que, enquanto vimos que dos 3,5 milhões de pessoas passaram pela hospedaria, 1,6 milhão eram trabalhadores nacionais, o Memorial simplesmente reproduz a história oficial e omite a informação, inclusive no discurso do vídeo. Neste, o migrante nacional não é citado nenhuma vez e a história que se conta é a do café, da aristocracia cafeeira e de como o “frutinho vermelho” foi o responsável por alavancar o progresso do país. Isso para citar apenas alguns exemplos de pontos que se destacam na fala do narrador e que podem ser discutidos com a turma. Para este ponto, sugiro a utilização das reflexões contidas no quinto tópico deste trabalho.

     Por fim, um material complementar que pode ser utilizado a qualquer momento da proposta, de acordo com o que o professor achar mais adequado, é o uso de fotografias. A fotografia é capaz de reproduzir o real, as situações instantâneas. Toda imagem gera nos observadores outras imagens mentais, fazendo-os produzir textos intermediários, sobretudo quando trazem informações visuais que se articulam com outras fontes.

     Com isso, proponho que sejam mostradas as fotos abaixo aos alunos, para ilustrar (e comprovar) as discussões sobre a presença do migrante nacional na cidade e, sobretudo, na hospedaria. São fotos disponíveis no acervo iconográfico do Memorial e que retratam o brasileiro em suas dependências. Em minha pesquisa no banco de dados encontrei 22 fotos que retratavam especificamente o nacional, em oposição a centenas delas retratando o imigrante estrangeiro. Outro fato curioso é que, nas legendas de fotos dos imigrantes, sempre há a especificação do local de origem daqueles indivíduos (italianos, alemães, espanhóis, etc.). Mas nas legendas de fotos dos migrantes, eles são apenas “nacionais”. Somente é possível ter uma noção de sua procedência se esta for buscada nas tabelas dos livros de registros (aí sim, encontram-se divididos - Bahia, Minas, Goiás, Ceará, etc.).

 

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Migrantes brasileiros no salão de matrícula da Hospedaria de Imigrantes. Acervo iconográfico do Memorial do Imigrante: Foto nº 000831/disco 001, arquivo de originais.

 

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Migrantes brasileiros em um dos corredores do Hotel Queiroz, no bairro do Brás, um dos locais contratados pelo governo quando não havia vagas na Hospedaria (possivelmente 1940) - Acervo iconográfico do Memorial do Imigrante: Foto nº 001443/disco 004, arquivo de originais.

 

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Migrantes brasileiros recebendo os farnéis (merendas) antes da viagem para o interior. Acervo iconográfico do Memorial do Imigrante: Foto nº 000838/disco 001, arquivo de originais.

 

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Migrantes no alojamento feminino da Hospedaria. Acervo iconográfico do Memorial do Imigrante: Foto nº 001381/disco 003, arquivo de originais.

 

     Ficam aqui a sugestão de trabalho no Memorial e uma bibliografia para aprofundamento do que foi exposto nas linhas acima. Busquemos, então, não só neste tema, mas em outros tantos, mostrar realmente aos nossos alunos que “há sempre muitas histórias dentro de uma história só...”

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BIBLIOGRAFIA

 

ALBUQUERQUE JR., D. M.. Paraíbas e Bahianos: órfãos do campo, filhos legítimos da cidade. In: Travessia, São Paulo: Centro de Estudos Migratórios. São Paulo, n. 8, p. 27–32, set./dez.1990.

 

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