Músicas: Moradia, Gostinho de Saudade e A Resposta do Jeca Tatu

Aluno (a): Laerte Matias Fernandes, Thiago Alves de Oliveira, Conrado Barbosa Silva, Denis Anderson Costa, Ícaro dos Santos Mello, Fabio de Souza Jorge, Angélica Brito Silva e Thassia Ferreira Ramos
Docente responsável: Maurício Cardoso
 

 

Com a famosa toada do sertanejo, com acordes batidos, ritmo andante e acompanhamentos rápidos, Tião Carreiro e Pardinho mostram a semelhança da música caipira mineira com a paulista, na letra vemos uma forte presença da idéia de que no sertão tudo “é tudo do jeito que tem que ser” talvez com certa crítica a desorganização metropolitana, ou a própria desorganização que chega ao sertão.

Moradia, Tião Carreiro

Eu moro lá num recanto onde ninguém me amola Numa casa ao pé da serra mora eu e a viola

O Sapo mora no Brejo, o Sabiá na Gaiola Minha voz mora no peito e meus versos na cachola Tatu mora no buraco, aranha mora na teia

O Anel mora no dedo, o brinco mora na oreia Coração mora no peito, o sangue mora na veia Gente boa mora em casa, criminoso na cadeia Porco mora no chiqueiro , o boi mora na invernada Pescador mora no rancho , boiadeiro nas estradas Boêmio mora na rua, sereno na Madrugada

A Lua mora no céu e o vento não tem morada

A perdiz mora no campo, o bem te vi no sertão Baleia mora no mar, lambari no ribeirão Rato mora no Paiol, o morcego no porão

Eu moro nos braços dela e ela em meu coração

Palhaço mora no circo, a rima na poesia

O Uirapuru lá na mata, na festa mora a alegria

O rico mora no centro, pobre na periferia

Num casebre em Nazareth morou a virgem Maria

 

Gostinho de Saudade, João Pacífico

 

Me dá licença

Estou chegando lá do mato

Moro longe desse asfalto

Atrás da serra é o meu rincão

Lá onde eu moro não existe luz na rua

Moro onde nasce a lua

Que tem nome de serão

E não reparem na minha simplicidade

A grande felicidade

Foi nascer neste lugar

Eu sou herança

Deu um São Paulo ainda menino

Que tem o café mais fino

Do mais rico paladar

Ainda conservo o mesmo rancho

E a moeda

E aquela linda fazenda

Desde que ela se formou

O cafezal

Que acompanha esta riqueza

Guardo bem esta grandeza

Que meu velho pai deixou

Deixou pra mim

Aquela terra abençoada

Toda verdinha plantada

Verdadeira raridade

E um torrador

E seu antigo moinho

Eis porque meu cafezinho

Tem gostinho de saudade

 

Com uma toada mais lenta, com suaves dedilhados e uma interpretação ora melancólica, ora nostálgica o música se desenvolve sobre o pano da saudade que é um dos principais temas inspiradores da música caipira paulista, a relação do sertanejo com sua terra, com o passado e a modernidade.

 

A Resposta do Jeca Tatu, Rolando Boldrin

 

Como diz o cabôco, diz qui, há muito tempo, um tal Senadô andô falano num jornal qualquer, qui o rocêro, o caipira, é... um priguiçôso, um indolente, um que só vive incostado... um punhado de coisas, enfim.

O grande poeta Catullo da Paixão Cearense colocou, então, na boca de um desses brasileiros, lá do sertão, uma resposta... bem assim: Seu dotô, venho dos brêdo, Só pra mode arrespondê Toda aquela fardunçage Qui vancê foi inscrevê! Num teje vancê jurgano Qui eu sô argum cangussú! Num sô não, Seu Conseiêro.

Sô norte, sô violêro e vivo naquelas mata, como veve um sanhaçu!

Vassucê já mi cunhece: Eu sô o Jeca Tatu! Cum tôda essa má piáge, Vassucê, Seu Senadô, Nunca, um dia, se alembrô, Qui, lá naquelas parage, A gente morre de fome E de sêde, sin sinhô!

Vassuncê só abre o bico, Pra cantá, como um cancão, Quano qué fazê seu ninho, Nos gáio duma inleição! Vassuncê, qui sabe tudo, É capaiz de arrespondê Quando é que se ouve, Nos mato, O canto do zabelê?

Em qui hora é qui o macuco Se põe-se mais a piá? E quando é que a jacutinga Tá mio de se caçá? Quando o uru, entre as foiage, Sabe mais asubiá?

Qualé, de todas as arve, A mais derêita, inpinada? A qui tem o pau mais duro, E a casca mais incorada? Hem? Vancê nun sabe quá é A madêra qui é mais boa, Pra se fazê uma canôa! Vancê, no meio das tropa, Dos cavalo, Seu Dotô, Oiano pros animá, Sem vê um só se movê, Num é capáiz de iscuiê Um cavalo iquipadô! Eu quiria vê vancê, No meio de uma burrada, Somente pur um isturro, Dizê, em conta ajustada, Quantos ano, quantas manha, Quantos fio tem um burro!

Vancê só sabe de lêzes, Qui si faiz cum as duas mão! Mais, porém, nun sabe as lêzes Da Natureza, e qui Deus Fêiz pra nóis, cum o coração! Vancê nun sabe cantá, Mais mió qui um curió, Gemeno à bêra da istrada! Vancê nun sabe inscrevê, Num papé, feito de terra, Quano a tinta é o do suó, E quano a pena é uma inxada!

Se vancê nun sabe disso, Num pode me arrespondê: Óia aqui, Seu Conseiêro: Deus nun fêiz as mão do home, Somente pra ele inscrevê Vassuncê é um Senadô, É um Conseiêro, é um Dotô, É mais do qui um Imperadô, É o mais grande cirdadão, Mais, porém, eu lhi agaranto, Qui nada disso siría, Naquelas mata bravia, Das terra do meu Sertão.

A miséria, Seu Dotô, Tombém a gente consola. O orgúio é qui mata a gente! Vancê qué sê persidente? Eu sô quero ser... Rocêro e tocadô de viola! Você tem todo dereito De ganhá cem mil pru dia! Pra mió podê falá. Mais, porém, o qui nun pode É a inguinorânça insurtá, A gente, Seu Conseiêro, Tá cansado de isperá!

Vancê diz que a gente Véve cum a mão no quêxo, Assentado, sem fazê causo das coisa Qui vancê diz no Senado. E vassuncê tem razão! Si nóis tudo é anarfabeto, Cumo é que a gente vai lê Toda aquela falação? Priguiçôso? Maracêro? Não sinhô, Seu Conseiêro! É pruquê vancê nun sabe O qui seja um boiadêro Criá cum tanto cuidado, Cum amô e aligria, Umas cabeça de gado... E, dipôis, a impidimia Carregá tudo, cos diabo, In mêno de quato dia!... É pruquê vancê nun sabe O trabáio disgraçado Qui um home tem, Seu Dotô, Pra incoivará um roçado... E quano o ôro do mío Vai ficano inbunecado, Pra gente, intoce, coiê, O mío morre de sêde, Pulo só isturricado, Sequinho, como vancê!

É pruquê vancê nun sabe O quanto é duro, um pai sofrê, Veno seu fio crescendo, Dizeno sempre: Papai, vem mi insiná o ABC! Si eu subesse, meu sinhô, Inscrevê, lê e contá, Intonce, sim, eu havéra Di sabê como assuntá! Tarvêis vancê nun dexasse O sertanejo morrendo, Mais pió qui um animá! Pru módi a puliticaia, Vancê qué qui um home saia Do Sertão, pra vim... votá?...

In Juaquim, Pêdo, ou Francisco, Quano vem a sê tudo iguá?... Priguiçôso? Madracêro? Não!.. Não sinhô, Seu Conseiêro! Vancê nun sabe di nada! Vancê nun sabe a corage Qui é perciso um home tê, Pra corrê nas vaquejada! Vossa Incelênça nun sabe O valô di um sertanejo, Acerano uma queimada! Vamicê tem um casarão! Tem um jardim, tem uma cháca. Tem um criado de casaca E ganha, todos os dia, Quer chova, quer faça só, Só pra falá... cem mirré!

Eu trabáio o ano intero, Somente quando Deus qué! Eu vivo, no meu roçado, Mi isfarfando, como um burro, Pra sustentá oito fio, Minha mãe, minha muié! Eu drumo inriba de um côro, Numa casa de sapé! Vancê tem seu... ortromóvi! Eu, pra vim no povoado, Ando dez légua, de pé! O sór, têve tão ardente, Lá pras banda do sertão, Qui, in meno de quinze dia, Perdi toda a criação!

Na semana retrasada, O vento tanto ventô, Qui a paia, qui cobre a choça, Foi pus mato... avuô! Minha muié tá morrendo, Só pru farta de mezinha! E pru farta de um dotô! Minha fia, qui é bunita, Bunita, como uma frô, Seu Dotô, nun sabe lê! E o Juquinha, qui inda tá Cherano mêmo a cuêro, E já puntêia uma viola... Si entrasse lá, pruma iscola, Sabia mais que vancê!

Priguiçôso? He... Madracêro? Não... Não sinhô, Seu Conseiêro!... Vancê diga aus cumpanhêro, Qui um cabra, o Zé das Cabôca, Anda cantano esses verso, Qui hoje, lá no Sertão, Avôa, de boca em boca: (cantado) Eu prantei a minha roça, O tatu tudo cumeu! Prante roça, quem quisé, Qui o tatu, hoje, sou eu! Vassuncê sabe onde tá o buraco Adonde véve o tatu esfomeado? Han?... Tá nos paláço da Côrte, Dessa porção de ricaço, Qui fêiz aquele palaço, Cum sangre do disgraçado!

Vancês tem rio de açude, Tem os dotô da Ingêna, Qui é pra cuidá da saúde... E nóis?... O qui tem? Arresponda! No tempo das inleição, Qui é o tempo da bandaiêra, Nós só tem uma cangaia, Qui é pra levá todas porquêra, Dos Dotô Puliticáia!... Sinhô Dotô Conseiêro, De lêzes, eu nun sei nada! Meu derêito é minha inxada, Meu palaço é de sapé! Quem dá lêzes pra famía É a minha boa muié! Vancê qué ser persidente? Apois, seja! Apois seja, Meu Patrão! A nossa terra, o Brasí, Já tem muita inteligênça, Muito home de sabença, Qui só dá pra... ó, ispertaião! Leva o Diabo, a falação! Pra sarvá o mundo intêro, Abasta tê... coração! Prus home di intiligênça, Trago comigo essa figa: Esses home tem cabeça. Mais, porém, o qui é mais grande Do que a cabeça... é a barriga!

Seu Conseiêro... um consêio: Dêxe toda a birbotéca dos livro! E, se um dia, vancê quisé Passá ums dia de fome, De fome e, tarvêiz de sêde, E drumi lá, numa rêde, Numa casa de sapê, Vá passá comigo uns tempo, Nos mato do meu sertão, Que eu hei de lhe abri a porta Da choça... e do coração! Eu vorto pros matagá... Mais, porém, oiça premêro: Vancê pode nos xingá, Chamá nóis de madraçêro. Purquê nóis, Seu Conseiêro, Nun qué sê mais bestaião! Não!.. Inquanto os home di riba Dexá nóis tudo mazombo, E só cuidá dos istombo, E só tratá di inleição... Seu Conseiêro hái de vê, Pitano seu cachimbão, O Jeca-Tatu se rindo, Si rindo... cuspindo Sempre cuspindo, Co quêxo inriba da mão!

Eu sei que sô um animá, Eu nem sei mêmo o que eu sô. Mais, porém, eu lhe agaranto Qui o qui vancê já falô, E o qui ainda tem de falá, O qui ainda tem de inscrevê, Todo, todo o seu sabê, E toda a sua saranha... Não vale uma palavrinha, Daquelas coisa bunita, Qui Jesuis, numa tardinha, Disse, inriba da montanha!...

 

Com mais tom de causo e menos de música, Rolando Boldrim representa de forma muito expressiva essa ótima obra do Catulo da Paixão Cearense. A obra representa Jeca Tatu, um famoso personagem caipira, respondendo a um “senador” que proferiu ofensas ao caipira.

Sempre com tom forte, impondo seu “discurso” o personagem revela a verdadeira face da vida do caipira e mostra as habilidades típicas do morador do sertão batendo de frente com as supostas visões do senador.

Exemplifica o trabalho braçal, a analfabetização e a árdua luta contra o ambiente sertanejo. Na segunda parte, mais próxima do final, o personagem faz uma proposta dura ao senador, dando como objetivo abrir o coração do senador.

Para finalizar o personagem minimiza o discurso do senador a um ruído e demonstra mesmo que sutilmente a religiosidade do caipira.