Personagem Jeca Tatu

Aluno (a): Laerte Matias Fernandes, Thiago Alves de Oliveira, Conrado Barbosa Silva, Denis Anderson Costa, Ícaro dos Santos Mello, Fabio de Souza Jorge, Angélica Brito Silva e Thassia Ferreira Ramos
Docente responsável: Maurício Cardoso
 

 

Monteiro Lobato em sua carreira de escritor, teve uma posição crítica perante os acontecimentos de sua época. Preocupado com a questão nacionalista, defende uma estética nacional “verdadeira”. Procurando discutir as deficiências do Brasil, critica os Românticos com seus ideais indianistas, onde a valorização do Brasil, como paraíso, não transmitia a veracidade da realidade vivida pelo país.

 

 

Nesse intuito, Lobato cria o personagem Jeca Tatu, o selvagem real, rude e desagradável, que no decorrer de sua obra teve uma metamorfose, obedecendo a três fases da vida do escritor. A primeira aparição do Jeca ocorreu em 12/11/1914 em um texto de publicado no jornal O Estado de São Paulo, com o título de Velha Praga; em seguida, Lobato publica no mesmo jornal, o artigo Urupês, onde trabalha com mais detalhe as características do modo de vida do Jeca Tatu. Sendo esse modo de vida apático devido as facilidades proporcionadas por mantimentos de fácil cultivo:

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! (...) Da terra só quer a natureza, o milho e cana. A primeira por ser pó já amassado da pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha. Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente.”[1]

A origem da incapacidade do Jeca de uma participação mais admirável na sociedade vinha de certa forma, da conjuntura em que ele vivia da sua origem mestiça e adaptada ao ambiente natural. Pensamento dominante no início do século XX, em que o meio, a raça influenciavam na posição hierárquica na sociedade humana. Em oposição ao Jeca, Lobato criou a imagem do vencedor e trabalhador da terra, representado pelo imigrante italiano. Em um segundo momento, em que o Brasil é tratado como um país com problemas de saneamento e assim, surge o Instituto Oswaldo cruz em 1912 e a Liga Pró-saneamento em 1918, Lobato encaixa o Jeca nesse contexto, sendo que a preguiça ou incapacidade de fazer parte da economia seria um caso de doente.

 

Segundo ele “o nosso dilema é este: ou doença ou incapacidade racial. É preferível optarmos pela doença” [2]. Com essa nova perspectiva, o discurso do escritor muda, não mais tratando o camponês com desprezo; em certa medida, Lobato equipara o Jeca aos estrangeiros, sendo esse desfavorecido devido à falta de toda infra-estrutura ficando vulneráveis as mais diversas doenças e entregue á ignorância. Lobato chega até a pedir desculpas ao Jeca e nessa fase, o Jeca é incorporado nas propagandas do Biotônico Fontoura, com grande repercussão nacional.

 

O Almanaque do Biotônico Fontoura expressa muito bem a idéia de Lobato. No almanaque, o Jeca com todas as suas características iniciais: preguiça, incapacidade, viver com o mínimo necessário, etc; é tratado por um Doutor, que ao examinar o Jeca detecta a doença ancilostomose e em seguida receita um vidro de ANKILOSTOMINA FONTOURA, e algumas mudanças nos costumes de vida do Jeca, como por exemplo: usar botas.

 

Ao seguir as orientações do médico o Jeca fica curado e conseqüentemente prospera no trabalho e amplia os seus horizontes econômicos. A terceira fase de interpretação do Jeca constitui-se de uma visão mais politizada, em que as causas da situação do Jeca estão relacionadas ao latifúndio e a submissão do habitante do campo aos coronéis. Essa situação é trabalhada em Zé Brasil (1947), de Monteiro Lobato, folheto que foi censurado e que ao contrário do Almanaque, a solução para os problemas deste povo rural está na distribuição das terras e uma política governamental voltada para a população que estava alienada e desinformada. E com uma posição esquerdista, Lobato apóia Luís Carlos Prestes:

(...) O sonho dele é fazer que todos os que trabalham na terra sejam donos de um sítio de bom tamanho onde vivam felizes, plantando muitas árvores, melhorando as benfeitorias. E todos vivendo sossegados sem receio de um Tatuira os toque e fique com tudo. É só isso que Prestes e seus companheiros querem (...)”[3]

Observamos através dessa “evolução” do Jeca, a mudança na visão de Monteiro Lobato acerca dos problemas sociais, buscando relatar um Brasil sem idealizações. No entanto, a idéia trabalhada inicialmente por Monteiro Lobato foi a que permaneceu no imaginário popular, sobrepondo o Zé Brasil uma “versão” do Jeca que transparece os problemas sofridos pelo povo rural e o apoio a Prestes.

  • [1] Monteiro Lobato. Urupês. In: Obras completas de Monteiro Lobato. São Paulo: Brasiliense, 1957.
  • [2] Monteiro Lobato. O problema vital. Obras completas de Monteiro Lobato, São Paulo: Brasiliense, 1957, p. 297
  • [3] Monteiro Lobato. Conferências, artigos e crônicas. São Paulo: Brasiliense, 1972. pg.136-137