Livro: Vidas Secas

Aluno (a): Laerte Matias Fernandes, Thiago Alves de Oliveira, Conrado Barbosa Silva, Denis Anderson Costa, Ícaro dos Santos Mello, Fabio de Souza Jorge, Angélica Brito Silva e Thassia Ferreira Ramos
Docente responsável: Maurício Cardoso

 

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Autor: Gracialiano Ramos

Publicado: 1938

 

Graciliano Ramos em Vidas Secas, publicado em 1938 (período inicial da migração de nordestinos para o sul), trabalha a realidade do retirante, fugitivo da seca, sofredor que tem a esperança em uma vida melhor com a chegada das chuvas, e assim, sua vida depende dos longos intervalos das estações chuvosas; vida revelada como pendular, que é o mais atroz das figuras.

“Mudança” é o capítulo inicial e conta os momentos finais de uma viagem realizada por Fabiano e sua família em que fogem da seca.

Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos” [1]

Procuravam sombra em meio à caatinga; o desespero já abatia os retirantes e numa cena angustiante Fabiano até pensa em abandonar o filho mais velho, o qual não agüentava mais a estafante viagem. Ao encontrarem sombra ao pé de um juazeiro, a realidade da família começa a mudar. Estavam no pátio de uma fazenda abandonada e o sinal de chuva começa a surgir e juntamente com ela as esperanças e o sentimento de felicidade no coração de Fabiano que “seria o vaqueiro daquela fazenda morta”[2]. Ao se estabelecerem nesta fazenda abandonada o retorno à vida “comum”, a realidade do sertanejo se desenvolve “e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera” [3]. Nesse início de um novo ciclo, o personagem Fabiano é fundamental para a reflexão acerca do homem do sertão e a sua condição perante as circunstâncias impelidas pela seca e as relações de poder. Em um pensamento interessante, Fabiano questiona sua essência: seria homem ou bicho? Após afirmar ser um homem cai num arrependimento e conclui, apesar das suas características de homem branco, ser na realidade um bicho, pois, não possui poder econômico e vive em possessões alheias, assim, Fabiano é um bicho. No entanto, isso não é motivo de menosprezo, na realidade demonstra a sua força perante as dificuldades do sertão. Fabiano, que se considera mais próximo dos bichos, é um sujeito de modos rudes, porém, um admirador das palavras proferidas pela gente da cidade, mesmo admitindo que não servem para nada - já que Seu Tomás da bolandeira, homem com costume de ler padeceu na seca. Nesse sentido, considera importante discutir com Sinha Vitória sobre a educação dos filhos, porém, é mais afeito aos meninos aprenderem a lidar com os serviços de um vaqueiro, e que aprendam a sobreviver à seca, já que, tinha a consciência de a qualquer momento poderia ser mandado embora e a seca retornaria.

Olhou a catinga amarela, que o poente avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria planta verde. Arrepiou-se. Chegaria, naturalmente. Sempre tinha sido assim, desde que ele se entendera. E antes de se entender, antes de nascer...” [4]

Nessa expectativa do retorno da seca a família leva sua vida; observamos as reflexões de Fabiano e a relação dele com sua esposa, filhos, cadela (Baleia) e com os símbolos de poder que os influenciam como o soldado amarelo e o dono da fazenda. Os meninos são espertos e precisam estudar, isso perturba Fabiano; como já abordamos, ele valoriza o estudo, porém não acredita na utilidade dele perante a seca. Baleia é um personagem interessantíssimo, tem um amor a seus donos e recebe reciprocamente esse amor tão intenso que talvez seja até maior que o existente entre o restante dos integrantes da família. Uma curiosidade é o fato de a cadela ser tratada por um nome, enquanto os filhos do casal são tratados por menino mais velho e menino mais novo. Outro aspecto importante é como a cadela está presente nos pensamentos dos outros personagens, e ela mesma possui uma consciência e sentimentos igualáveis a de um ser humano. Fabiano, ainda mais do que aos filhos, pensa constantemente em Baleia, ainda mais após de ter sacrificado o animal devido a uma doença. Sinha Vitória é uma mulher forte, inteligente e tem a admiração de seu marido, apesar de ter sonhos que Fabiano não entende. E é a partir da percepção de Sinha Vitória de que as arribações chegavam e assim o sertão iria novamente passar o período da seca que o casal começa a preocupar-se em organizar uma nova “fuga”.

O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo... O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado.” [5]

Fabiano não entedia como as aves, pequenas, poderiam matar o gado, após refletir sobre as palavras da esposa chegou compreendeu o raciocínio de Sinha Vitória e concentrou as suas angústias nas aves. Na realidade ocorre uma confusão de pensamentos onde os males impelidos a Fabiano pelo soldado amarelo, pelo patrão, juntamente com a lembrança da viagem que fizeram anteriormente e a morte de Baleia, perturbavam sua mente. No entanto, tinha certeza de que não ficariam ali por muito tempo, os sinais da seca já eram evidentes e seria necessário fazer os preparativos para a nova viagem, ou melhor, “Fuga”; as angústias o sofrimento retornara, é necessário ser forte novamente. O casal preparou tudo para a viagem e decidiu ir para a cidade, essa decisão é trabalhada no último capítulo de forma muito interessante. Primeiro Fabiano sente medo quanto á nova realidade que o esperava:

Aproximavam-se agora dos lugares habitados, haveriam de achar morada... O vaqueiro ensombrava-se com a idéia de que se dirigia a terras onde talvez não houvesse gado para tratar. Sinha Vitória tentou sossegá-lo dizendo que ele poderia entregar-se a outras ocupações, e Fabiano estremeceu, voltou-se, estirou os olhos em direção à fazenda abandonada.”[6]

Perante a realidade do sertão, Sinha Vitória vê a cidade com otimismo; Não seriam mais como bichos fugidos. “E talvez esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado”[7]. E a realidade para os meninos seria bem diferente, após Fabiano opinar sobre o futuro dos meninos e dizer que seriam vaqueiros, Sinha Vitória demonstra sua insatisfação

Vaquejar, que idéia!... Fixar-se-iam muito longe, adotariam costumes diferentes.”[8]

Levado pela esperança de melhora, Fabiano anima-se com a idéia de seguir rumo a um lugar desconhecido. Anima-se devido as palavras sábias de Sinha Vitória e também por já saber como se sofre com a seca do sertão.

Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. Fabiano estava contente e acreditava nessa terra, porque não sabia como ela era nem onde era... E andavam para o sul, metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas aprendendo coisas difíceis e necessárias.”[9]

Encerrado o ciclo da seca no sertão os retirantes seguem para a cidade com a perspectiva de um futuro melhor, mesmo não tendo conhecimento da realidade que os espera. Essa foi a realidade de muitos que vivem principalmente na região nordeste e hoje, mesmo com as evoluções tecnológica, o sertão continua a ser um lugar de pobreza e dificuldade para seus moradores ainda incentivando a migração de pessoas para os grandes centros, assim, a confirmando a previsão de Graciliano:

Chegariam a uma terra desconhecida e civilizada, ficariam presos nela. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos.”[10]

  • [1] Graciliano Ramos, Vidas Secas, p. 9
  • [2] idem, p. 15
  • [3] idem, p. 18
  • [4] idem, p. 23
  • [5] idem, p. 108
  • [6] idem, p. 120
  • [7] idem, p. 121
  • [8] idem, p. 122
  • [9] idem, p. 126
  • [10] idem, p. 126