Jovens na arena política: participação dos jovens nos Movimentos Poloíticos

• Aluno (a): Rodrigo Refulia 

 

Artigo referente a atuação dos jovens nos movimentos políticos que o mundo contemplou a partir da década de 60, a partir deste ponto pretendemos trabalhar o tema mais amplo da Rebeldia e Juventude.

 

Após o maio de 68 o mundo se deparou com mudanças no mundo político, pouco estudadas, que tiveram participação direta dos jovens. São elas: Revolução dos Cravos, Revolução Iraniana e o Massacre da Praça da Paz Celestial. Em duas delas as aspirações juvenis por mudanças do status quo obtiveram êxito, em uma não. Mas o que estes movimentos têm em comum?

Ora, nos três casos temos a rebeldia dos jovens em relação a governos repressivos que não abriam canais de diálogos com a população.

 

A última flor utopia revolucionária: A Revolução dos Cravos

 

A alvorada de 25 de abril de 1974 trouxe consigo uma redescoberta. A Europa redescobriu Portugal após uma revolução sem violência deflagrada por jovens capitães do Exército que contou com apoio popular derrubou o regime salazarista, que ainda sobrevivia sob a liderança de Marcello Caetano. Assistiu-se a um golpe de Estado que alterou radicalmente as estruturas políticas e econômicas. Portugal se livrava definitivamente da carapaça fascista que se sobrepunha ao próprio Estado. O regime imposto em 1926 conseguia sobreviver se apoiando na Igreja, no Exército e nos jovens (da Mocidade Portuguesa), apesar da oposição de intelectuais do calibre de António Sérgio. O apoio da juventude Salazar viu perder gradativamente após a Segunda Guerra.

 

A Universidade de Lisboa se tornou ponto de resistência ao regime. A guerra colonial fez surgir uma forte oposição ao regime comandado por Marcello Caetano dentro do Exército. Os opositores eram jovens capitães e soldados que conseguiram o apoio de altos comandantes do Exército para derrubar o regime. Sem o apoio dos jovens, das classes urbanas e, enfim, do exército a revolução era questão de tempo.

 

Foi deflagrada em um 25 de abril. A revolução ocupou o espaço público e criou uma nova hegemonia lingüística, simbólica, iconográfica. Dos novos murais às charges, aos filmes feitos no meio da rua com a participação popular, à edição descontrolada de novos livros, boletins, jornais, todos falavam a mesma linguagem: o socialismo[1]. Uma linguagem nova, jovem, que tentava substituir se impor sobre a velha linguagem fascista e tirar Portugal da paralisia cultural que assolava o país desde 1926.[2]

 

Uma Revolução em nome de Deus: A Revolução islâmica Iraniana de 1979

 

A Revolução Iraniana foi a primeira feita e ganha sob uma bandeira de fundamentalismo religioso, que substituiu o velho regime por uma teocracia populista. Também foi a primeira revolução feita que rejeitava os ideais de 1789 (Rev. Francesa) e 1917 (Rev. Russa). A Revolução Islâmica foi uma resposta ao golpe de Estado dado pelo xá Mohammed Reza em 1953, apoiado pelos Estados Unidos, que impôs um regime autoritário e violento transformando o Irã em um país importador de tecnologia, bens agrícolas e dependente das rendas geradas pelo petróleo. A revolução também foi resposta ao programa de modernização imposta pelo soberano que visava “ocidentalizar” o país. A modernização na área estudantil criou uma massa de jovens universitários que se opunham regime do xá. Esses jovens encontraram na figura de Ruhollah Khomeini, líder religioso preso e deportado do Irã na década de 1960, o líder ideológico contra a ditadura e contra a imposição da cultura ocidental no país. A partir de 1978 se instaurou um regime de manifestações após a morte de jovens estudantes religiosos. Essas manifestações se transformaram em uma ampla insurreição popular que levaram a derrocada do antigo regime e em 16 de janeiro de 1979 o xá Mohammed Reza ia para o exílio. A Revolução tinha vencido. O aiatolá Ruholá Khomeini foi recebido triunfante em Teerã.[3]

 

O triste fim de um movimento estudantil: Massacre da Praça da Paz Celestial

 

Vinte e três anos após a Revolução Cultural, os jovens chineses voltaram à cena política. O estopim dos protestos foi a morte em 15 de abril de 1989 de Hu Yaobang, ex-secretário geral do PC chinês. Considerado um liberal reformista, ele foi expulso do governo por Deng Xiaoping em 1987. Logo que foi anunciada a sua morte, estudantes da Universidade de Pequim começaram a reclamar a reabilitação da visão oficial de Hu Yaobang. No princípio, as manifestações reuniam 500 pessoas. Algumas estimativas indicam que no auge dos protestos a Praça da Paz Celestial chegou a reunir um milhão de manifestantes. Os protestos se transformaram rapidamente em protestos por mais liberdade. Os estudantes iniciaram greve na Universidade de Pequim e greve de fome.

Quando esta alcançava a terceira semana o governo chinês resolveu reagir a crise com violência; em 4 de junho a Praça foi sitiada por tanques. Foi no dia seguinte, 5 de junho, que o protesto produziu a imagem que se tornou um ícone das manifestações. Uma coluna de tanques segue pela avenida após o fim da crise. Um manifestante solitário para diante dos tanques e interrompe o avanço do comboio. O homem desafia o Exército por alguns minutos, até ser expulso do local. A Praça é ocupada e os protestos acabam. Acabava ali o último sopro de liberdade tentado na China. Após esse episodio o governo chinês endurece mais sua ditadura.

 

RELIGIÃO

 

Da Igreja Católica pós-Vaticano II à Teologia da Libertação: renovação do discurso para o alcance dos jovens.

 

O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, se colocou na perspectiva de unidade de todos os cristãos, e até de todo gênero humano. O Papa João XXIII disse na abertura solene (11/10/62) que o Vaticano II colocava-se “frente aos desvios, às exigências e às oportunidades da idade moderna”. O Concílio representou uma incrível mudança na mentalidade de Igreja Romana, que ia desde a contestação da total da guerra, cuja condenação deveria ser total[4], virada na postura católica em relação a outras religiões, reforço na atitude pastoral que não impunha à Igreja normas rígidas, comportamentos uniformes, nem previas sanções disciplinares. O concílio, como era de se esperar, recebeu uma lenta recepção por partes das Igrejas.[5]

 

As mudanças permitiram uma reaproximação da ecclesia com o mundo secular, e permitiu que a Igreja não mais fosse tão cristalizada nos problemas europeus e sim nos problemas que afligiam nações e continentes; temos daí uma ala progressista da Igreja, que na América Latina, a partir da segunda metade da década de 1970, e este é o foco de análise, se aproximou dos pobres, dos jovens e se engajou na luta contra as ditaduras militares que existiam nos continentes, em oposição à igreja mais tradicional, que continuou alinhada aos militares. Desse movimento progressista é que surgiu a chamada Teologia da Libertação. A Teologia da Libertação lutava e ainda luta por um discurso racional acerca de Deus a partir do texto sagrado revelado, mostrando que a fé pode ser vivida numa práxis libertadora.[6]

 

Dessa maneira a Teologia lutava contra os governos autoritários que administravam “o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência” e contra a dependência da Europa e EUA, que impunham ao hemisfério sul a sua cultura.[7]

Para lutar contra esta situação o teólogo da Libertação deve lutar pela libertação do oprimido, usando para tal o método (marxista) histórico-dialético: “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em si mesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres”.[8]

O sentido último da teologia não é Marx, mas Deus. A Teologia luta, portanto, contra o imperialismo e a servidão dos povos do sul. O discurso da Teologia conseguiu de maneira surpreendente atingir os jovens latino-americanos entre as décadas de 1970 e 1980, período de maior influência da doutrina, e cumpriu um papel histórico importante na dissolução dos regimes militares, fundação de partidos políticos influentes, participação em importantes sindicatos, Movimento de Trabalhadores Sem Terra e na renovação do discurso Teológico. A atividade pastoral, iniciada na comunidade de base, como primeira ação política conseguiu ligar a preposições do Vaticano II aos problemas específicos da América Latina para conseguir levar diante do púlpito um grupo que se distanciava cada vez mais da ecclesia: os jovens latino-americanos.[9]

 

CULTURA

 

Os jovens em mudanças culturais: da modernidade à pós-modernidade

 

A modernidade, marcada pela confiança na razão e no progresso, poderia ser vista nas grandes narrativas utópicas de transformação social, a confiança do homem na máquina e nos progressos materiais. O modernismo se baseava na rejeição das convenções liberal-burguesas do XIX, e na necessidade de criar uma alternativa de arte adequada ao tecnológico e revolucionário século XIX.[10]

Exemplos dessa confiança no progresso podem ser vista nas grandes Exposições Universais, festas onde os países do norte (o Brasil Imperial era única exceção do sul) se reuniam para mostrar o progresso tecnológico e nas ciências.[11] No mundo fílmico temos Le Ballet Mécanic (1924), curta-metragem dirigido pelo pintor Fernand Léger. Mas, depois da experiência de duas guerras mundiais, depois de Aushwitz, depois de Hiroshima, vivendo num mundo ameaçado pela aniquilação atômica, pela ressurreição dos velhos fanatismos políticos e religiosos e pela degradação dos ecossistemas, o homem contemporâneo se cansa da modernidade.[12]

 

Daí surge o conceito de pós-modernidade: o prefixo pós tem muito mais o sentido de exorcizar o velho (a modernidade) do que de articular o novo (o pós-moderno). O pós-modernismo, como um discurso não articulado, sabia ao que se opor e dessa oposição surgiu seu discurso: a perda da historicidade e o fim da "grande narrativa" - o que no campo estético significou o fim de uma tradição de mudança e ruptura, o apagamento da fronteira entre alta cultura e da cultura de massa e a prática da apropriação e da citação de obras do passado.[13] O pós-modernismo partia, portanto, da idéia de que tudo já foi criado e a partir de então tudo será re-criado, re-visto, re-lido.

 

Na criação visual, a apropriação de novos materiais para a construção do novo discurso: Andy Warhol reproduzia os badulaques visuais do comercialismo norte-americano (de latas de sopa à Marilyn Monroe), que eram usados como amuletos por jovens que adquiriam um estilo de vida.[14] O brasileiro Vik Muniz, que começou a produzir em 1989, cria uma nova interpretação de arte a partir da bagagem cultural existente e, para tal, usa novos materiais, como lixo, açúcar, diamantes, geléia de morango, pasta de amendoim, quebra-cabeça ou molho marinara.

No mundo fílmico, Corra, Lola, Corra (1999), filme alemão dirigido por Tom Tykwer que mostra como um minuto muda muitas vidas, rejeita chamada a grande narrativa e se auto intitula um filme da geração pós-MTV. A teoria pós-modernista, é claro, não foi bem aceita por todos os teóricos, a maioria de esquerda. Eis um exemplo da crítica que é comummente feita ao pós-modernismo: o historiador brasileiro Ciro Flamarion Cardoso (1994), diz que o “paradigma pós-moderno” é fundado no anti-racionalismo subjetivista, “desconstrutivista”, na denuncia dos excessos da ciência. Cardoso desconfia da retórica dos pós-modernistas, por vezes, apolíticas, com afirmações apresentadas como se fossem axiomáticas e auto-evidentes. Reclama, ainda, do desleixo teórico e metodológico de seus argumentos.

 

A Cultura da Contracultura

 

A contracultura explodiu na metade dos anos de 1960. Esse movimento foi fruto do surgimento e consolidação de novos movimentos sociais, cristalizando arenas inteiramente novas de vida social: a família, a sexualidade, o trabalho doméstico, a divisão doméstica do trabalho, o cuidado com as crianças, etc[15], que, de um pronto, incluiu a valorização de outras culturas, outras éticas e religiosidades. Com isso, multiplicaram-se iniciativas comprometidas com uma nova visão de mundo, sensibilidade e comportamento. Daí surge uma luta política pela expansão do mundo da beleza, da liberdade, da não-violência, da calma.[16]

 

O auge da contracultura pode se visto com o movimento hippie no final dos anos 60 (com seu famoso lema “make love, not war”), que desembocou no festival de Woodstock de 1969, onde nomes como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Joe Cocker fizeram shows históricos que influenciaram jovens de toda uma geração; e, é claro, no movimento contra a Guerra do Vietnã. Em 1970 a contracultura recebe um duro golpe: as mortes de Jenis Joplin e Jimi Hendrix, ambos por overdose e o fim dos Beatles, que tinham aderido a uma vertente da contracultura, a psicodelia, no álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. A reação à contracultura se baseou na idéia de algo utópico e alienado do mundo concreto. Projeto de uma sociedade alternativamente inviável ao modelo civilizatório vigente, leia-se dominante.

 

Um “sonho que acabou” e que foi fortemente “cooptado” pela sociedade de consumo moderna. A voracidade do capital teria transformado aqueles jovens que a fizeram em importantes reprodutores do sistema ou mesmo demonstrando que não eram tão alternativos assim.[17] Olhemos para a gênese de bandas como RBD (Rebelde): A banda RBD, surgiu de uma novela mexicana de nome Rebelde, que conta os dilemas da convivência de garotos ricos em uma escola para milionários. Para afrontar seus ricos pais os alunos fundam uma banda, que foi transportada para o mundo bem “real”. Um exemplo comercial para o uso da Rebeldia pelos jovens. Além desse máximo exemplo, temos outras boybands ou girlbands que, criadas por empresários, nada têm de autoral ou original, representam o discurso mastigado que a indústria nos oferece. A rebeldia se rearticula, e as suas lutas parecem superficiais. Mas, (in)felizmente, lutas ainda.

  • [1]Secco, Lincoln. A Revolução dos Cravos, p. 120. São Paulo: Alameda, 2004.
  • [2] Para entender a “historização” da revolução recomendo o site do Centro de Documentação 25 de abril, da Universidade de Coimbra: www.uc.pt/cd25a
  • [3]Hobsbawn, Eric. Era dos Extremos, p. 440-442. São Paulo: Cia. das Letras, 2006.
  • [4]O conceito de “Guerra Justa” (aos povos infiéis) estava presente na tradição da igreja desde tempos medievais.
  • [5]Alberigo, Giuseppe. “O Concílio Vaticano II (1962-1965)”, p. 393-442, in: Alberigo, Giuseppe (dir.), História dos Concílios Ecumênicos,. São Paulo: Paulus, 1995.
  • [6]Mondin, B. Os teólogos da libertação, p. 25. São Paulo: Paulinas, 1980.
  • [7]Mondin, B, op. cit., 1980.
  • [8]Boff, Leonardo & Boff, Clodovis. Como fazer teologia da libertação, pág. 45. Petrópolis: Vozes, 1986.
  • [9]Ainda anualmente é feita no Brasil a marcha Grito dos Excluídos, onde manifestantes saem de várias partes do Brasil para no dia 7 de setembro se reunir na Basílica Nacional de Aparecida para fazer reivindicações em favor da liberdade, vida e contra o imperialismo. Nisso já vemos a influência que Teologia da Libertação ainda exerce.
  • [10]Hobsbawn, Eric, op. cit., 2006, p. 497.
  • [11]Mais informações sobre a participação brasileira nas Exposições Universais pode ser encontrado no livro As barbas do Imperador, de Lilia Schwarcz, no capítulo “Exposições universais: festas do trabalho, festas do progresso”.
  • [12]Rouanet, Sérgio Paulo, As origens do Iluminismo, (?), 1987.
  • [13]Lima, Raymundo de, “Para entender o pós-modernismo”,in: Revista Espaço Acadêmico, 04 /04, n. 35.
  • [14]Hobsbawn, Eric, op. cit., 2006.
  • [15]Hall, Stuart, A identidade cultural na pós-modernidade, p. 45. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2002.
  • [16]Marcuse, Hebert, Ecologia: caso de vida e morte, p. 51. Lisboa: Moraes Editores, 1979.
  • [17] Aqui vale fazer um adendo: O Sex Pistols, banda punk inglesa de finais dos anos de 1970 é considerado a última “flor” da contracultura. Mas vale lembrar que ela foi criada por um empresário que vestiu os rapazes da banda e disseram a eles o que fazer. Não eram, portanto, tão “contraculturais”.