O samba

USP – Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de História

Prof.ª Dr ª Antonia Terra Calazans Fernandes

Sequência didática

Nome: Dafini Oliveira
Nº USP: 5936292
Período: Noturno

 

O trabalho a seguir foi pensado como uma sequência de 2 a 3 aulas com crianças do 8° e 9° ano (antigas 7ª e 8ª séries do Ensino Fundamental).

 

Objetivo:

Mostrar o samba, hoje tido como a maior expressão da música popular brasileira, em suas origens e a sua não aceitação nessa época (principalmente no começo do séc. XX) em contraste com a sua atual identificação tão próxima com a identidade do brasileiro.
Proponho fazê-lo primeiramente através da análise de três (3) sambas por meio do levantamento de questões e do debate com os alunos. Os quais serão apresentados e trabalhados separadamente para depois serem analisados juntos. Cada aluno receberá uma cópia com as letras e depois, um após o outro, os sambas serão escutados.

 

 

I. Samba do avião
(Tom Jobim, 1962)

Eparrê
Aroeira beira de mar
Canôa Salve Deus e Tiago e Humaitá
Etâ, costão de pedra dos home brabo do mar
Eh, Xangô, vê se me ajuda a chegar

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito prá mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão
Copacabana, Copacabana

Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Pousar...

 

Após a leitura e audição desse samba proponho algumas perguntas:
- quem já o conhecia?
- se o conhecia, sabia-o inteiro?
- que elementos podemos ver expressos nesse samba?
- todos esses elementos são [pelos alunos] inteligíveis?
- todos eles (aparentemente) fazem parte de uma mesma lógica?
- e é claro também as perguntas que forem surgindo da discussão com os alunos...

 

          A idéia aqui é começar introduzindo um samba que pode ser mais facilmente reconhecível por parte dos alunos devido à sua popularidade e que ao mesmo tempo possui em sua letra palavras identificáveis como elementos cristãos, africanos e até indígenas, mostrando assim, também, essa ‘confluência’ nos contatos das diferentes culturas que aqui se chocaram e se (re)elaboraram. Principalmente, nesse caso, do samba. Além disso, acho interessante a pergunta a respeito do conhecimento da totalidade ou apenas de partes da música, pois isso pode demonstrar certa seleção (ainda que inconsciente) dos elementos a serem fixados ou rejeitados.
         Após isso proponho o trabalho com um samba no qual os elementos de origem africana se mostram mais presentes.

 

II. Canto de Xangô
(Baden Powell e Vinícius de Moraes, Afro sambas – 1966) 

 

Eu vim de bem longe, eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de rei muito lutei pra ser que eu sou
Eu sou negro de cor, mas tudo é só o amor em mim
Tudo é só amor, para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô

Salve Xangô, meu Rei Senhor
Salve meu Orixá
Tem sete cores sua cor
sete dias para a gente amar
Salve Xangô, meu rei Senhor
Salve meu Orixá
Tem sete cores sua cor
sete dias para a gente amar

Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor
Xangô, meu Senhor, saravá!
Me faça sofrer
Ah me faça morrer
Mas me faça morrer de amar
Xangô, meu Senhor, saravá!
Xangô Agodô

 

Aqui volto com mais questões, algumas iguais.
- quem já o conhecia?
- o que pode-se apreender da letra dele?
- que elementos são vistos?
- do que ele trata?
- que narrativa o aluno vê nessa letra?
- além da letra que outros elementos as cultura africana podemos identificar aqui?
e, como já dito, as demais perguntas que fossem aparecendo de acordo com o encaminhamento da discussão.

 

          Aqui o aluno entra em contato com uma música tradicional de terreiro, música essa extraída dos ‘Afro sambas’ de Baden Powell e Vinicius de Moraes, que trata fortemente da devoção aos Orixás. Além desse samba traria para a discussão também esse álbum como um todo e sua significância.
 

          Também vejo como possibilidade aqui trabalhar com a questão das narrativas. Por exemplo, a que podemos ver no começo desse samba, “Eu vim de bem longe, eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim; sou filho de Rei muito lutei pra ser o que eu sou; Eu sou negro de cor...”, podemos questionar aqui o que os alunos vêem, qual o sentido disso e mais, qual o sentido disso em conjunto com o resto da música. Enfim, uma série de possibilidades que podem ser aplicadas e que com certeza emergirão na hora de sua aplicação.

 

III. Casa Grande e Senzala
(Jamelão, LP – “Samba enredo – sucessos antológicos”, 1975)

Pretos escravos e senhores
Pelo mesmo ideal irmanados
A desbravar
Os vastos rincões
Não conquistados
Procurando evoluir
Para unidos conseguir
A sua emancipação
Trabalhando nos canaviais
Mineração e cafezais

Antes do amanhecer
Já estavam de pé
Nos engenhos de açúcar
Ou peneirando café
(Bis)

Nos campos e nas fazendas
Lutaram com galhardia
Consolidando a sua soberania
E esses bravos
Com ternura e amor
Esqueciam as lutas da vida
Em festas de raro esplendor
Nos salões elegantes
Dançavam sinhás donas e senhores
E nas senzalas os escravos
Dançavam batucando os seus tambores

Louvor
A este povo varonil
Que ajudou a construir
A riqueza do nosso Brasil
(Bis)

 

          Seguindo aqui mais ou menos o mesmo que nas outras músicas faria novamente algumas perguntas. Essa música, assim como a anterior, pode nos abrir espaços para trabalhar com ‘as narrativas’. Aqui temos uma série de elementos que podem ser explorados. Os trabalhos que eram executados pelos escravos, a separação entre brancos e negros, mais especificamente escravos, enfim, há aqui uma série de elementos dos quais podemos nos valer para falar a respeito da escravidão e da questão negra.
          Agora, após o levantamento de tais questões e tendo-as em mente, além de uma maior proximidade com esses sambas, proponho o trabalho com alguns trechos (selecionados para esta etapa) de textos de cunho acadêmico que irão tocar mais ou menos nos mesmos temas e que irão gerar questionamentos que seus potenciais evocam.

 

IV. Trecho: “Inscrevem-se na categoria de delito público, desde a primeira década do século XX, a prática dos cultos afro-brasileiros, a capoeira e o ritmo africano.”

(História da Cidade de São Paulo, Vol.3 – O negro em São Paulo no período pós-abolicionista; Paz e Terra, 2005)

 

V. Trecho: “Estes terreiros abrigaram em seu interior grupos de compositores e músicos que eram perseguidos pela polícia, pois não se admitia, na época, o samba e outras formas musicais provenientes da herança musical africana no Brasil.”

(História da Cidade de São Paulo, Vol.3 – O negro em São Paulo no período pós-abolicionista; Paz e Terra, 2005)

 

VI. Trecho: “Esta situação de discriminação e repressão aos cultos afro-brasileiros colocou-os, do mesmo modo que à sua música, na situação de clandestinidade até as primeiras décadas do século XX.”

(Do afro ao brasileiro – Foi conta pra todo canto. Rita Amaral e Vagner Gonçalves da Silva; http://www.doafroaobrasileiro.org)

 

          A proposta aqui é mostrar o samba, em suas origens, como algo proibido por lei e como dito em um dos próprios excertos, inserido “na categoria de delito publico”. A partir de tais trechos e da leitura dos sambas estudados levantar questões e hipóteses com os alunos para essa proibição e não aceitação do samba por parte das autoridades e de parcela da população.
         

          Agora mais uma vez utilizarei de textos acadêmicos e a partir deles darei continuidade à discussão. Tais textos foram escolhidos para dar complemento aos suscitamentos anteriores.

 

VII. Trecho: “A incorporação dos ritmos africanos dos terreiros ao repertório musical brasileiro se expressa em estilos musicais populares [...] No caso do samba – bom exemplo por sua relevância e presença como um dos elementos constitutivos do gosto nacional e da identidade brasileira – sabe-se que sua origem esta ligada à música religiosa dos grupos bantu trazidos para o Brasil [...] constitui um dos principais elementos de identidade dessas religiões. Sendo música religiosa, o samba enredou-se, contudo, nos espaços profanos...”

(Do afro ao brasileiro – Foi conta pra todo canto. Rita Amaral e Vagner Gonçalves da Silva; http://www.doafroaobrasileiro.org)

 

VIII. Trecho: “A popularidade do candomblé também foi ampliada pela influência dos seus ritmos e danças nas grandes festas populares brasileiras. A crescente valorização da musicalidade e da dança de origem africana fez com que estas rompessem os limites dos terreiros e ganhassem as ruas. Dos xangôs do Recife saíram os maracatus [...] Dos candomblés de Salvador saíram os afoxés [...] O samba, tornado símbolo da música popular brasileira e diretamente relacionado com a festa mais conhecida e divulgada nacionalmente, o carnaval, teve sua origem no Rio de Janeiro, a partir dos centros aglutinadores das religiões afro-brasileiras.”

(Candomblé e Umbanda. Caminhos da devoção Brasileira. Selo Negro, 2005 – Vagner Gonçalves da Silva)

 

           A utilização desses textos nos trás mais explicadamente as origens do samba como sendo música sagrada de terreiro e portando torna-nos mais compreensível a sua proibição. Aqui também se abre espaço para se trabalhar o candomblé e as religiões afro em suas inúmeras dimensões. Mais uma vez após a leitura de tais trechos proponho na conversa com os alunos a fala deles como ponto de partida, seja ela através de uma questão levantada anteriormente, a idéia é fazer com que os alunos eles mesmos cheguem a suas conclusões.

          Também podemos trazer o samba para os dias de hoje e trabalharmos seu papel, antes de rejeitado e reprimido, na construção da identidade do brasileiro e a transformação que ocorreu nessa mudança. Tanto de como o samba era visto e agora como o é, e como ele antes era reprimido e agora é exaltado e incentivado, e até forjado na construção da imagem do brasileiro.

 

 

Bibliografia

- Silva, Vagner Gonçalves da. Candomblé e Umbanda. Caminhos da devoção. Selo Negro, 2005.

- Silva, Vagner Gonçalves da e Amaral, Rita. Foi conta pra todo canto. Musica popular e cultura religiosa afro-brasileira. Web site: www.doafroaobrasileiro.org
 

- Trindade, Liana Salvia. O negro em São Paulo no período pós-abolicionista. História da Cidade de São Paulo, Vol.3. Paz e Terra, 2005.

 

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